- IMPRENSA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA PUBLICADA NO BRASIL - 1828-1950 (imprensa em línguas francesa e japonesa)

GUIMARÃES, VALÉRIA (UNESP). A era de ouro da imprensa periódica francesa no Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo, 1854-1924).

A incipiente imprensa francesa cedo encontra espaço no Brasil, surgindo apenas vinte anos depois da liberação dos prelos. Os dois primeiros periódicos em francês aqui publicados vieram à luz no Rio de Janeiro, em 1827, sendo o pioneiro L'Indépendant: feuille de commerce, politique et littéraire logo sucedido pelo L’Écho de l’Amérique du Sud. Porém, a atividade periodística nesse idioma ganha força apenas após os anos de 1850, quando se inaugura o que chamamos de uma "era de ouro" com a publicação do Courrier du Brésil – politique-littérature-revue des théätres, sciences et arts-industrie-commerce (1854-1862), fase que se encerra com o empastelamento do jornal franco-paulistano Le Messager de St. Paul durante a Revolução de 1924. Tal período corresponde à ascensão da imprensa comercial nacional e a possíveis trocas de savoir-faire entre franceses e brasileiros que atuavam no ramo editorial. O Brasil foi o segundo país em presença francesa na América Latina, ficando, contudo, muito atrás da Argentina. As experiências malogradas já no início do século XIX em decorrência do não cumprimento das promessas de boas condições de trabalho fizeram com que o governo francês lançasse recomendações contra a saída de seus cidadãos, o que contribuiu para a retração do número de colonos, com uma imigração tímida, em geral espontânea, predominantemente urbana, muitas vezes obedecendo à lógica das diásporas políticas e das subsequentes crises econômicas em solo europeu. Nas cidades predominava um grupo qualificado que se engajou sobretudo no comércio e em atividades como a tipografia, edição, educação, arte e também engenharia. É principalmente para esses grupos que se voltavam os jornais e revistas franceses de publicação local, todavia haja registros de leitores brasileiros e de outras nacionalidades. Nosso objetivo é continuar o trabalho já iniciado de fornecer um panorama dessa imprensa surgida em Saão Paulo e Rio de Janeiro, levantando questões acerca de seus marcos cronológicos e de suas características tipológicas, com destaque para o papel exercido por alguns mediadores culturais que animavam as redes transnacionais formadas entre Brasil e França.


LUCA, Tania Regina de (UNESP). Ver a França a partir do Rio de Janeiro a partir do semanário Gil-Blas (1877-1878).

No Brasil, o primeiro impresso intitulado Gil Blas foi fundado no Rio de Janeiro e circulou entre 14/10/1877 e 01/10/1888, com 47 números publicados, que vinham a público todos os domingos e tinha por subtítulo "journal politique, artistique et satirique". No Brasil, em Portugal e na França pode-se encontrar exemplos de periódicos que se valeram do personagem Gil Blas de Lesage, cuja obra homonima foi publicada entre 1715 e 1735, para nomear publicações periódicas até os primeiros decênios do século XX. Esta insistencia é digna de atenção pois ele é um elemento importante para compreender a ciculação da obra, a duração da sua influência e a representatividade da personagem. É preciso levar em conta as diferentes apreensões e que a obra e seu herói desfrutaram ao longo do tempo, aspecto que permite compreender a capacidade que tiveram de inspirar e fazer sonhar os responsáveis por jornais mesmo quase 200 anos após a publicação do romance. Além desses aspectos, mais gerais, a comunicação objetiva:
a) tomar em consideração o nome do jornal e apresentar a fortuna crítica de sua utlização no Brasil, Portugal e França,
b) inserir o jornal no quadro das publicações em francês já existentes no Rio de Janeiro quando do seu lançamento,
c) apresentar a descrição de suas características materiais: númeor de páginas e colunas, informações provenientes da administração, tipografia, preço (em comparação com outros periódicos contemporâneos)
d) analisar o seu conteúdo e estabelecer a linha política da publicação, bem como as batalhas políticas em que se envolveu,
e) discutir a maneira como o Brasil, país onde era publicado, figurou em suas páginas.

GIMENEZ, Priscila Renata (UNESP)Da circulação das matrizes da imprensa periódica no Rio de Janeiro: os jornais franceses editados e publicados nos anos de 1830 e 1840.

Este trabalho é parte da pesquisa em fontes primárias sobre periódicos publicados em francês no Rio de Janeiro nos anos de 1830 e início dos anos de 1850. O objetivo maior é o de contribuir com a escrita de uma história negligenciada da imprensa: a dos jornais em francês escritos fora da França, particularmente no Brasil. Especificamente, a pesquisa visa o levantamento e a análise detalhada da recepção, circulação e representação dos mais importantes jornais franceses, sobretudo aqueles catalogados na Fundação Biblioteca Nacional, bem como privilegia o estudo dos mediadores e da difusão cultural relacionados a esses periódicos. Tendo como base as perspectivas da História Cultural e das Transferências Culturais e entre a Europa e a América, com a descrição e a análise desses periódicos esperamos contribuir para a construção de uma história cultural transnacional, a qual considere o multiculturalismo e as trocas como constituintes de noções e conceitos, que se afirmaram durante o longo século XIX, tais como os de nacionalidade, cultura nacional, identidade nacional, literatura nacional, entre outros. Dentre os títulos encontrados, selecionamos aqueles cujo repertório era suficiente para a análise dos aspectos e do período a que nos propusemos observar. Assim, nosso corpus constitui-se dos seguintes periódicos : L’Indépendant: feuille de Commerce, Politique et Littéraire (1824-1827), L’E´cho de l’Amérique du Sud : journal politique, commercial et littéraire (1827-1828), Le Courrier du Brésil (1828-1830), Le Messager: journal politique et littéraire (1831-1832), L’Écho français: builletin politique, littéraire, des sciences et des arts (1838-1839), Revue Brésilienne (1830) e a Revue Française (1839-1840).

LUSTOSA, Isabel ()FCRB). Henri Plasson, entre o Courrier du Brésil e o Moderador.

Henri Plasson, francês radicado no Brasil desde 1816 e que publicou no Rio de Janeiro o jornal Courrier de Brésil, entre 1828 e 1830, ano em que o jornal passa a ser publicado em português, ligou-se estreitamente ao imperador D. Pedro I, a quem acompanhou no exílio em 1831. Nesta fase da pesquisa, trabalho as interlocuções entre o Courrier e a imprensa francesa da qual reproduzia muitos artigos e noticias. Com base nos dados a serem levantados, analisarei as contradições desse liberal francês diante da realidade e do contexto políticos brasileiros. Entender a mudança do formato do jornal de íngua francesa para a língua portuguesa – em 1830 o jornal passou a se chamar Moderador, ou Novo Correio do Brasil - implica, a meu ver, em compreender o maior enraizamento do imigrante e a intensificação de seu envolvimento no debate político brasileiro que culminaria com a Abdicação do Imperador em 7 de abril de 1831, mas também com seu involuntário afastamento do Brasil.

VELLOSO, Monica P. (FCRB). Circularidades do humor franco brasileiro nas revistas.

Em meados do século XIX a imprensa brasileira começava a articular as culturas literárias às visuais abrindo novas possibilidades de representações e leituras do cotidiano. As revistas ilustradas cumpriram bem esta função. Fazendo dialogar entre si imagens das mais distintas tradições e imaginários sociais estas publicações ajudaram a renovar a circulação das ideias e vínculos com o contexto internacional. A revista Ba ta clan (1867-71 ) é o foco das discussões; Gazette du Brésil (1867) e Arlequim (1867 ) servirão de contraponto ao debate. Serão discutidas as ideias que fundamentaram a modernidade destas publicações do Rio de Janeiro no Segundo Reinado, com foco na linguagem humorística. Se é predominante a matriz francesa é importante analisar as diferentes visões que sustentaram tais publicações. Serão investigadas construções, reelaborações e releituras do ideário iluminista quando contextualizado no cotidiano brasileiro. Uma outra questão é a de ver a recepção que tais publicações tiveram no conjunto da imprensa pelo fato de serem escritas em francês. Serão desenvolvidos os seguintes tópicos de discussão: - a natureza interna do diálogo entre as publicações escritas em francês, considerando a intervenção da revista Arlequim. Outro ponto se refere ás representações do feminino, tema que polariza o debate entre BA TA Cla e La Gazette bresilien. O entrecruzamento de olhares criando imaginários e visões recíprocas das nacionalidades se baseia na reflexão sobre os estereótipos culturais , tomados na sua dimensão hermenêutica.

OKAMOTO, Monica (UFPR). O tema da educação dos filhos dos imigrantes japoneses nos impressos Burajiru Jihô e Nippak Shimbun. A atuação desses jornais nipo-brasileiros na era Vargas (1930-1945).

Por ser um tópico recorrente nos editoriais dos jornais em língua japonesa Burajiru Jihô e Nippak Shimbun, resolvemos esmiuçar o tema da educação dos filhos de imigrantes japoneses no Brasil na intenção de compreender a visão educacional desses dois impressos e suas implicações políticas dentro da sociedade brasileira, sobretudo na década de 1930 e começo da década de 1940. Durante esse período, esses dois impressos enfatizaram suas preocupações na área educacional da comunidade japonesa e atuaram, de certa forma, como mediadores e orientadores nessas questões. A escolarização dos filhos dos imigrantes japoneses no Brasil antes da Segunda Guerra Mundial passou por duas fases. A primeira foi caracterizada pela criação, em grande número, de escolas japonesas particulares; já a segunda, durante a década de 1930 e 1940, foi marcada pela adequação e, posteriormente, o fechamento dessas escolas por conta das medidas do plano nacionalista do governo Vargas. Este trabalho tem o objetivo de discutir o papel desses dois impressos nos debates educacionais dos filhos dos imigrantes japoneses dentro de um contexto histórico bastante específico: o da campanha de nacionalização na era Vargas, na qual os meios de comunicação, sobretudo da mídia em língua estrangeira, sofreram fortes intervenções para se adequarem aos interesses do Estado Novo.

 

- IMPRENSA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA PUBLICADA NO BRASIL - 1828-1950 (imprensa em línguas italiana, polonesa e alemã)
MALATIAN, Teresa (UNESP). De Jornal do povo a porta-voz do fascismo: o Fanfulla (1921-1942).

Pretende-se nesta comunicação analisar a atuação do jornal Fanfulla no campo da cultura política, com ênfase para as trocas culturais estabelecidas com jornais italianos durante os anos de 1921-1942. O recorte temporal inicia-se com a eleição de Mussolini para o parlamento italiano e termina com a proibição, pelo governo brasileiro, de circulação de jornais em língua estrangeira, no contexto da declaração de guerra ao Eixo. Na perspectiva adotada pelo projeto Transfopress, pretende-se abordar o(s) significado(s) do fascismo difundido entre os imigrantes italianos e seus descendentes residentes no Estado de São Paulo. Outros questionamentos se fazem presentes na pesquisa, tais como a participação do governo italiano durante a era Mussolini na divulgação desse ideário, os temas abordados nessa propaganda, as reações despertadas no Brasil, seja da comunidade italiana, seja do governo brasileiro ou de movimentos políticos e sociais. A escolha do periódico Fanfulla para estudo justifica-se por se tratar da mais expressiva das manifestações da comunidade italiana no Brasil no período, em razão de longevidade, tiragem, relações com o regime fascista e difusão no Estado de São Paulo.

TRENTO, Angelo (UNIOR). A imprensa antifascista italiana no Brasil.

Apesar das divisões existentes no movimento e que determinou ataques furibundos e contínuos de um jornal contra o outro, no Brasil saíram nada menos que 18 títulos antifascistas, mas de vida normalmente breve ou brevíssima, inclusive por suas perenes dificuldades econômicas. A únicas exceções em termos de continuidade foram Il Popolo d’Italia no Rio (do qual porém não se encontra mais nenhum exemplar e que talvez expressasse um antifascismo mais brando) e, em São Paulo, Il Risorgimento, que circulou em 1928 e 1929, e principalmente o semanário La Difesa, a mais importante dessas folhas e verdadeira voz do antifascismo, que durou de 1923 a 1934 e por três meses saiu como diário. Inicialmente monopolizado por socialistas moderados e republicanos, abriu-se a colaborações mais de esquerda entre 1927 e 1929, mas voltou à primitiva orientação a partir de 1930.
O propósito de todos esses periódicos foi o de fazer obra de contrainformação sobre o regime de Mussolini, dirigida aos imigrados mas também à opinião pública brasileira com alguns artigos em português. O objetivo final levava a privilegiar as temáticas italianas e a denunciar as violências, as prevaricações e a eliminação de todas as liberdades, mas também as tentativas de fascistização, inclusive por parte das autoridades diplomáticas, da vida da colônia no Brasil. Um bom espaço era reservado ao antifascismo, enquanto reduzido era o que sobrava para as notícias internacionais e brasileiras, com a parcial excepção de Il Risorgimento. A timidez em tratar de assuntos políticos do país de residência era justificado pela condição de estrangeiros dos redatores e pela determinação em não se intrometer em questões internas, remarcando, porém, a atitude oposta dos fascistas e de seus jornais. Mas depois de 1930, quando Il Risorgimento já terminara de circular, La Difesa manifestou seu apoio à revolução e bem maior interesse pelos fatos brasileiros, defendendo a naturalização dos imigrados, informando sobre partidos, administração pública e movimento operário, principalmente nos meses em que saiu diariamente. A partir de 1932, assumiu, enfim, uma atitude mais transnacional, estabelecendo firmes relações com centros progressistas e com a Frente Única Antifascista em São Paulo.

CHALMERS, Vera (UNICAMP). A escrita dialógica da imprensa libertária em italiano publicada em São Paulo.

Os periódicos escritos em italiano publicados em São Paulo apresentam uma estreita relação entre a redação e os leitores. Os jornalistas responsáveis pela edição e redação dos jornais imprimem os traços de sua personalidade e autoria ao conjunto das folhas, ainda que muitas vezes, não assinem os artigos de fundo, ou que tal conceito não exista na composição das matérias dos jornais. O jornalista libertário é um gestor das trocas intertextuais e transnacionais, ainda que seus modelos sejam dispersos ou quase inexistentes, tal é como é o caso do periodismo anarquista na Itália, o qual nos interessa de perto. Um jornalista com sua bagagem doutrinária e prática social no país de origem, como Gigi Damiani pode buscar seus modelos na imprensa libertária internacional, a qual circulava dentro e fora dos limites da nacionalidade, como atesta a circulação dos títulos dos jornais que transitam mundo a fora, mantendo suas peculiaridades locais. Tal é o caso o jornal “La Guerra Sociale”, o qual circula em Paris sob a direcção de Gustave Herve, como “La Guerre Sociale”. Embora a afinidade com a tendência do sindicalismo revolucionário permaneça no periódico paulista, o jornal francês é autoral e exprime um trabalho com a linguagem na expressão escrita do “argot”, que o coloquialismo da crônica do jornal homônimo feito no Brasil por Gigi Damiani em italiano não apresenta, embora interesse como escritura de autor anarquista. A circulação dos títulos e das matérias é assunto complexo e as generalizações devem ser vistas com cuidado. Este estudo pretende examinar a relação entre a escrita da redação e a dos leitores na produção de uma linguagem jornalística, peculiar à literatura militante dos libertários de origem italiana e de seus descendentes em São Paulo. A análise desta escritura deverá levar em conta as diferentes correntes anarquistas, as quais presidem a publicação inicialmente de dois perio´dicos, “La Guerra Sociale” e “La Battaglia”. A orientação da tendência em pauta do periódico explica a organização das secções da folha, embora o jornalismo anarquista apresente afinidades e repetições. Apesar de sua orientação do anarco-sindicalismo, “La Guerra Sociale” não faz proselitismo sindicalista, mas segue de perto os movimentos sociais, os quais culminam com as greves de 1907 e de 1917. O jornal, “La Battaglia” acolhe de início variadas tendências, mas sua redação volta-se preferencialmente para as questões da comunidade de imigrantes e de seus descendentes e enfoca as relações sociais no campo, privilegiando a perspectiva do anarco-comunismo. A relação com os leitores evidentemente apresenta soluções diversas nos diferentes periódicos, a qual pretendemos examinar. O “La Guerra Sociale” e´ mais fortemente pragmatista, ao incitar seus leitores à ação notadamente durante as greves. O “La Battaglia” estabelece uma relação de proximidade e acolhimento dos seus correspondentes nos relatos do cotidiano da militância na província. Ao verificar o dialogo presente na escrita da folha anarquista, o presente estudo analisa as relações de trocas simbólicas entre o país de origem e o de acolhida, de um ponto de vista que supera as fronteiras nacionais, demarcações movediças e temporais, como atesta a imprensa libertária de caráter internacional.

LUCHESE, Terciane Angela (UCS). Páginas que educam: catolicidade e italianidade no jornal Corriere d´Itália (RS Brasil, 1913 – 1927).

O presente texto analisa a produção e a circulação do jornal Corriere d ´Italia, periódico com quatro páginas, que circulou às sextas-feiras, entre os anos de 1913 e 1927, em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul, Brasil. A leitura do mais importante impresso em língua italiana que circulou na região, nesse período, com tiragem de 3.000 exemplares, que buscou promover modos de ser e pensar numa perspectiva reconhecida como legítima pela Igreja Católica. O referido periódico tinha como editores-proprietários os padres Carlistas e como linha editorial a defesa da catolicidade e da italianidade. Os Carlistas foram uma congregação criada por João Baptista Scalabrini com intuito de acompanhar os imigrantes saídos da Itália. Scalabrini afirmara que “onde não chegam vocês, chega o bom jornal, que pregará em nome de vocês” e a circulação do Corriere d´Itália concretizou essa afirmação. Em suas páginas o Corriere estampava, com regularidade, notícias sobre educação, prescrevendo modos de pensar, fazer e educar as crianças ítalo-brasileiras – na família e na escola. Ancorada nos referenciais da História Cultural, os exemplares do referido jornal, entrecruzados com fotografias, correspondências, registros no Livro de Tombo, entre outros documentos, perscrutados pela metodologia da análise documental. Investigo como a escola foi retratada nas páginas desse impresso católico, publicado em italiano, pensando as categorias etnicidade e processos identitários, vinculados à escolarização. O Corriere teve, inicialmente, como redator chefe o Padre Estevão Minetti, cargo logo após assumido pelos Padres Henrique Domingos Poggi e João Costanzo. Com discurso marcadamente moralizante, educava e direcionava os leitores para que compreendessem a importância do trabalho e da família, mantendo as virtudes da fé e da italianidade em seu cotidiano. O jornal foi regulamente mantido ao longo dos anos e suas páginas estampavam o desejo educativo que a Igreja Católica almejava para seus fiéis.

STEPHANOU, Maria (UFRGS). Presença e percursos de uma imprensa quase invisível: inventário de impressos em língua polonesa no Brasil desde finais do século XIX.

Este trabalho apresenta resultados de uma investigação em curso sobre a produção e circulação de impressos em língua polonesa editados no Brasil, especialmente na região sul do país, onde se concentrou o mais expressivo contingente de imigrantes poloneses no território brasileiro. A história da imprensa em língua estrangeira no Brasil está indelevelmente marcada pela imigração de diversos grupos étnicos que, desde meados do século XIX e até a primeira metade do século XX, transformaram a demografia, os espaços e as referências culturais do país, notadamente as regiões Sul e Sudeste. No sul do país foram muito expressivas a imigração alemã, acrescida da italiana, mas também numericamente foram importantes outras etnias, destacando-se neste estudo aqueles que, hoje, designamos como “imigrantes poloneses”. A presença dos grupos italianos e alemães tem sido objeto de um maior número de levantamentos e pesquisas, em detrimento de outras etnias de imigrantes. Isso repercute nas políticas de conservação documental dos acervos e instituições. A imprensa em língua polonesa resta quase invisível, também, em decorrência da complexidade em definir e circunscrever as produções editoriais que podemos classificar como sendo imprensa polonesa, uma vez que a definição desse grupo étnico no sul do Brasil é tarefa que se depara, sobretudo em se tratando dos séculos XIX e XX, com informações disponíveis acometidas por muitas imprecisões, em especial no que tange à designação como poloneses de grupos de lituanos, pomeranos, ucranianos, rutenos e outros eslavos registrados imprecisamente quando de sua entrada no Brasil. Além disso, não podemos estabelecer uma língua única para caracterizar a língua materna dos imigrantes poloneses nesse período. Até o momento, foi realizado um inventário inicial e a correspondente caracterização da imprensa em língua polonesa publicada no Brasil desde a última década do século XIX. Diversas publicações em polonês circularam nos estados do Paraná, onde os poloneses e a imprensa em língua polonesa foram mais expressivos em números absolutos, mas também no Rio Grande do Sul, e, embora com números bastante reduzidos, em Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. A imprensa em idioma polonês no Brasil comparece pelo menos desde 1892, demonstrando um crescimento até 1938. Após a guerra, mesmo tendo sido possível reiniciar a publicação de impressos em língua estrangeira, não houve mais o mesmo vigor e diversidade da imprensa em língua polonesa do período anterior, o que acometeu também a imprensa em outros idiomas. Contudo, isso não significa afirmar que a mesma tenha sido extinta, pois ainda hoje são publicados no Brasil boletins, revistas e pequenos folhetos inteiramente em polonês ou bilíngues. A relativa invisibilidade dessa produção cultural e editorial está atestada pela escassa conservação de exemplares nos acervos documentais públicos, o que significa que há necessidade de investir na localização, digitalização e preservação daqueles que resistiram ao tempo, sobretudo em acervos particulares, ou em números muitos esparsos sob a guarda de algumas poucas instituições. Foram identificados, até o momento, e confirmados pela localização de alguns exemplares originais, ou referidos em diversas publicações e estudos, 72 periódicos (jornais e revistas), 20 almanaques e 30 boletins em polonês, publicados no Brasil, em especial nos estados do sul e sudeste do país, abrangendo o período 1892 a 2014, alguns com uma existência efêmera, tendo circulado apenas uma ou duas edições, ou um a dois anos de circulação, e outros que persistiram por mais tempo, quatro ou cinco décadas, com muitas edições ao longo de todo o período.

ARENDT, Isabel Cristina (UNISINOS); HARRES, Marluza Marques (UNISINOS). Jornais e periódicos em língua alemã publicados no Rio Grande do Sul entre 1890 e 1940.

Os periódicos em língua alemã, publicados no Rio Grande do Sul, têm sido objeto de estudo de pesquisadores de diferentes áreas (história, antropologia, educação e teoria literária), dentro de objetivos específicos de seus estudos, que abrangem especialmente as ideias e concepções germanistas. Apesar deste interesse focado, falta uma sistematização e levantamento dos diferentes periódicos em língua alemã editados no Brasil e que circularam em meio às comunidades de imigrantes alemães e descendentes. Iniciamos um levantamento, já apresentado no II Encontro Transfopress em São Paulo, porém não publicado. O objetivo da presente comunicação (texto a ser publicado no livro) é ampliar aquele corpus, apresentando um mapeamento dos jornais e periódicos em língua alemã, publicados no Rio Grande do Sul, e que se encontram sob a guarda de três instituições específicas: o Memorial Jesuíta/Biblioteca da Unisinos e o Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, ambos sediados em São Leopoldo; e o Centro de Documentação – CEDOC da Universidade de Santa Cruz do Sul – UNISC. Reunimos, dessa forma, alguns dos títulos mais expressivos no que se refere aos jornais e periódicos em língua alemã aqui editados. O foco será a sua identificação, mediante análise de seus editoriais, condições de conservação e disponibilização, bem como uma definição de tipologia dos jornais e outros periódicos.

ALMEIDA, Lehmann Escher (UFRGS). Marcas editoriais e práticas de leitura do almanaque Der Familienfreund.

O estudo examina o almanaque Der Familienfreund – katholischer hauskalender und wegweiser (O amigo da família – almanaque católico e guia), um impresso produzido e em circulação no Rio Grande do Sul entre 1912 e 1956, redigido majoritariamente em língua alemã em todas as suas edições. Editado pela Tipografia do Centro, foi idealizado por Hugo Metzler, cuja intenção esteve marcada pelo vínculo com a igreja católica, mais especificamente com os Jesuítas. O estudo adota os pressupostos teóricos da História Cultural e da história da cultura escrita, sob inspiração dos estudos de Roger Chartier. São analisadas as trinta e oito edições do almanaque e estabelecidas relações com outros impressos. Nesta comunicação são apresentadas diferentes aproximações exercitadas com vistas a compreender a história da leitura do objeto de análise, o almanaque Der Familienfreund. O foco da discussão são as práticas de leitura, a circulação e a produção do impresso analisado. Com este objetivo, a análise concentra-se em eixos centrais característicos do impresso e relevantes para a história da leitura, como a literatura, informações e características das páginas do DFF e a fala dos leitores do almanaque entrevistados. O estudo vem constatando que as marcas editorias do gênero almanaque caracterizam fortemente este impresso. A temática religiosa apresenta-se recorrente, como também temáticas diversas. A importância do impresso a sua comunidade de leitores pôde ser percebida nas entrevistas realizadas, assim como a sua circulação nas cidades do interior, especificamente na região de Arroio do Meio, RS. A influência religiosa, assim como a semelhança com almanaques editados na Alemanha, foram igualmente constatadas. Para além do caráter religioso, o almanaque Der Familienfreund disseminou informações diversas e cumpriu a função de oferecer leituras instrutivas, formativas e servir de instrumento de coesão étnico-cultural junto às comunidades dos teuto-católicos.