ANTIRRACISMO: Colocando para fora

 

Aqui lhe escrevem mulheres, mães, filhas, irmãs, preta, brancas, da periferia, do interior e do centro. Mulheres pedagogas extensionistas, membrAs do Projeto Geringonça da Faculdade de Educação/UFRGS.

Para todas, todos e todes que passaram a se posicionar nas redes sociais; Para todas, todos e todes docentes em formação; Para todas, todos e todes que presenciaram – seja como protagonista ou espectador – crianças reproduzindo atos-falas-desenhos racistas. Através de uma escrita sincera, queremos contribuir para a reflexão de consciência racial com crianças, reconhecendo que essa é uma luta que precisa romper toda cultura que fez emergir (que constrói) uma sociedade violenta, e que não é mais possível apenas manifestações emergenciais, quando tratamos de uma luta histórica.

Te convidamos a mergulhar nas memórias, de futuras (e) docentes, na luta antirracista. Te convidamos a mergulhar no que poderia ou não ser feito. Te convidamos a mergulhar em mais perguntas do que respostas. Te convidamos a viver a inquietação.

 

Você sabe me dizer quando se tornou uma pessoa racista?

MEMÓRIAS
de
Aline – mulher, preta, pedagoga extensionista.

Eu e Jaci (nome fictício) estamos no pátio da escola, conversando, como sempre. Jaci chega bem pertinho de mim, passa a mão nos fios dos meus cabelos -que estão presos com um elástico mas soltos na parte de trás, o famoso rabo de cavalo- me olha no fundo dos olhos com aquele olhar de uma criança de 5 anos- e diz :

-A minha babá é que nem tu.
-Como assim como eu? Pergunto já compreendendo a resposta.
-Assim, ela também tem essa cor!

Não existe racismo sutil, racismo não tem idade e quando repercutido é preciso se auto avaliar, mesmo que você precise de um mediador para isso, como Jaci precisava. Não adianta esperar que ela, enquanto criança, lide com as diferenças sozinhas. Mas veja bem, que diferenças são essas? Eu sou diferente de quem? Ela é diferente de mim, ou eu sou diferente dela? Salve Grada Kilomba que já dizia que eu só me torno diferente se a pessoa branca se vê como ponto de referência. A grande verdade é que eu sou diferente porque sou discriminada.
E Jaci, é muito nova para saber disso? NÃO! não nÃo n-ã-o N Ã OOOOOOOO.
Jaci convive com pessoas predominantemente brancas e apesar do padrão de vida privilegiado, ela não tem acesso a uma diversidade cultural e racial, impossibilitando que ela reflita onde estão outras pessoas negras, percebe-se isso em “Ela também tem essa cor”. Jaci não consegue conter a empolgação (?) e precisa me contar que tem mais gente como eu! e ela conhece!
Jaci mal sabe que somos muitos, somos os primeiros. Somos reis e rainhas. Jaci mal sabe que sempre estivemos e por um tempo ainda estaremos lá, sendo a babá, a porteira, cozinheira e faxineira. Jaci mal sabe que os que não ocupam esses cargos, são diariamente violentados e que a nossa permanência em outros espaços vem acompanhada de muita RESISTÊNCIA porque só queremos EXISTIR em outros ambientes, no lugar que der vontade.

 

Você sabe quando passamos a universalizar a cor da pele?

MEMÓRIAS
de
Victória – mulher, branca, estudante, extensionista.

Estávamos criando um diário com os estudantes e a primeira atividade era fazer um auto retrato e escrever o que eles achavam importante falar sobre si. Era a turma do 3º ano de uma escola pública, onde eu era bolsista do Pibid junto com outras 4 colegas da pedagogia. João adorava nossas atividades e era sempre muito participativo nas aulas, e nessa não foi diferente. Em seu desenho João estava jogando bola, o que mais gostava de fazer. Ele queria apenas desenhar, sem colorir, mas insistimos para que fizesse. Ao pintar ele utilizou o lápis rosa claro na sua pele. Veio um medo de como reagir a essa situação, mas não podíamos deixar passar. Elogiamos sua arte e perguntamos se aquela era mesmo a cor de sua pele. Ele parou um pouco, pensou e disse que usou o lápis “cor de pele”, que não tinha outro. Ao mesmo tempo deu pra perceber que ele também achava que aquela não era a cor de sua pele, mesmo tendo usado o lápis “cor de pele”. Falamos que a cor do lápis não representa a cor da pele de todes, que cada pessoa tem a pele de uma cor, com diferentes tons. Ao final da conversa, João achou que a cor mais parecida com sua pele era o marrom e resolveu pedir emprestado para a colega que estava à frente.

Essa foi uma das lembranças que me veio mais forte na memória e que acontece com certa frequência, infelizmente. Quantas crianças passam ou passaram por isso? Até quando iremos gerar inquietações e crises de identidade com o “lápis cor de pele?” Talvez tenha sido só a falta do lápis marrom mesmo. Talvez tenha sido o desejo de se enquadrar dentro de uma cor que é a do lápis “cor de pele”, afinal ela já está enraizado numa educação escolar que culturalmente é racista . Talvez seja o desejo de fugir um pouco da realidade e em um desenho da escola poder ter a cor da pele mais aceita socialmente, a cor da pele dos super heróis, dos jogadores de futebol, dos personagens de livros, filmes, desenhos, e novelas. Cada vez mais fica evidente o papel da escola em garantir representatividade em suas propostas pedagógicas. E essa representatividade requer um olhar atento e específico para as escolhas, desde a editora, autor e personagens dos livros infantis até as músicas pedagógicas, das brincadeiras até os jogos, dos funcionários da portaria até o diretor. A representatividade perpassa por tudo isso e também pela culinária, pelas escolhas dos projetos e por quais lentes eles serão propostos. Representatividade tem a ver com o lápis mas também tem a ver com as fotos, imagens e design dos lugares.

 

Você sabe me dizer quando começou a omitir o racismo?

MEMÓRIAS
de
Kátia – mulher, branca, extensionista
Foi em uma escola privada da capital Porto Alegrense, numa dessas que ainda fazem testes com crianças do ensino fundamental para avaliar quem merece ganhar uma bolsa. Isis havia conseguido uma bolsa para entrar no 1º ano. Negra, tinha 7 anos, olhinhos brilhantes, cabelos cacheados e toda a vitalidade de uma criança que quer aprender, fazer amigos e brincar. Eu, branca, estudante de pedagogia, havia conseguido uma vaga como estagiária, monitorava os recreios e ajudava na entrada e na saída dos alunos. Todo o dia, no final do expediente, eu voltava pra casa no mesmo ônibus que minhas colegas, e ali fazíamos nossa sessão de desabafo. Uma dessas minhas amigas acompanhava a turma da Ísis durante todo o dia, lembro ela falando irritada sobre a professora, sem conseguir estabelecer uma relação de confiança no trabalho, sempre com uma diferença hierárquica, quem planeja e manda, e quem organiza e executa. Ísis estava vivendo uma situação violenta: um menino branco implicava com ela, falava baixinho chamando ela de burra, feia, lenta, e a irritava até ela perder a paciência, gritar e chorar, aí então entrava em cena a professora, que gritava com ela ao invés de acolhê-la, não percebendo os sussurros da situação. Ísis, que era uma menina muito inteligente, foi ficando desmotivada em fazer as tarefas, dizia que não era capaz. É um fardo muito grande para uma menina tão pequena ser a única pessoa negra da sua turma, dentro de uma escola em que poucas crianças são de uma cor ou uma classe diferente da branca e média/alta. Ísis, desde muito nova já se encontra como vítima de uma racismo omisso, que tende não ser questionado, e utiliza-se de outras formas de violência, como o bullying, para se mascarar . Racismo é o que é. Não se justifica com outra violência, não se tenta disfarçar. Crianças negras sofrem! Crianças negras sofrem quando não tem outras crianças negras na sala de aula. Crianças negras sofrem quando não tem outras crianças negras na escola. Crianças negras sofrem quando menosprezadas e diminuídas pelas suas professoras. Crianças negras sofrem quando não existe uma preocupação e olhar mais atento para elas na escola. Crianças negras sofrem quando os jogos, as brincadeiras, a linguagem e os livros não contemplam sua história, não mostram a sua cor. Crianças negras sofrem quando são reduzidas a burras, lentas e feias. Crianças negras sofrem. Crianças. Negras.

 

VOCÊ SABE ME DIZER QUANDO SE TORNOU UMA PESSOA RACISTA?

No delírio da nossa mais alta hipocrisia também calamos estas crianças e rimos de sua ingenuidade e esperança frente a um mundo estrangeiro. Salvemo-nos, adultos, salvemo-nos e a estas crianças, da nossa teimosia e cabeças-duras. Aprendamos primeiro com elas, o sabor agridoce de começar de novo.
Educadoras Antirrascistas, envolvemo-nos neste princípio Ético para construir uma pedagogia, que viemos apontando como pedagogias da diferença. Uma posição Ética nos convoca um Modo de Existir, e por isso queremos nos chamar e nos afirmar como Pedagogas Antirracistas. Esse movimento que compõe a docência, e que se apresenta na produção didático-pedagógica, construção política que primeiramente nos convoca a estar à espreita, a olhar com atenção e rigorosidade ética cada aula inventada. Nós não publicamos anteriormente e não realizamos leituras de autoras e autores, de pedagogas negras e pedagogos negros, e ainda assim queremos tratar sobre o racismo. Racismo, que é estrutural, e que historicamente segue privilegiando brancas e brancos e excluindo negras e negros. Discriminações, preconceitos e violências que presenciamos e nos colocamos e nos colocaremos ao lado e enfrentaremos com nossas colegas, participantes e autoras do Projeto Geringonça como a Pedagoga em formação Aline Milena Mattos e a Licenciada em Educação do Campo Daniela Alves. Este é um convite a uma tomada de posição e governo, um convite a enegrecer nossos currículos cotidianos.

Vidas negras importam

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