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Blocos de concreto sustentáveis geram renda, empregos e dignidade na comunidade do Cristal

Uma parceria iniciada em 2010 que transcende os muros da Universidade e leva para a comunidade do Cristal, em Porto Alegre, conhecimento e esperança. O Projeto de Pesquisa e Extensão Bloco Eco reutiliza matéria-prima da construção civil, que teria como destino certo os aterros, e a reinsere em um processo de reciclagem que resulta em blocos de concreto sustentáveis.

A proposta envolve a UFRGS, por meio do Laboratório de Ensaios e Modelos Estruturais (Leme), que fez a pesquisa de definição de traço usado na produção dos blocos, na capacitação dos participantes e no controle de qualidade técnica e de resistência do material. Ainda, fazem parte da ação a OnG Solidariedade, gestora do projeto que visa gerar trabalho e renda, e a Cooperativa de Transformação Socioambiental (CTSA), criada em 2008 com a finalidade de produzir e comercializar artefatos de concreto reciclado.

Essa engrenagem envolve 10 catadores, quatro estudantes, dois professores, dois profissionais externos e um coordenador da cooperativa. Gabriel Chiele é um desses estudantes. Concluindo o curso de Engenharia Civil, com previsão de defesa de TCC para este ano, diz que ações como essa têm uma função fundamental de pesquisa e relevante no ponto de vista da extensão. “Envolver os estudantes e levar a Universidade para a comunidade é muito importante, pois precisamos retornar de alguma forma à sociedade o privilégio que é estudar em uma Universidade Federal. Me sinto na necessidade de doar o nosso conhecimento a quem mais precisa”.

Por meio de minicursos desenvolvidos pelo projeto, os catadores foram capacitados por professores e estudantes da UFRGS sobre a importância da reciclagem, por que reciclar, informações sobre os danos que a poluição ambiental faz ao meio ambiente e os benefícios que a reciclagem e o aproveitamento de resíduos da construção civil promovem. Todo esse aprendizado foi materializado em uma cartilha que fala, também, sobre as etapas técnicas para a produção de blocos de concreto recicláveis. “A cartilha contém informações sobre as normas técnicas de confecção do bloco, porém utiliza uma linguagem didática e acessível, uma vez que os beneficiários do projeto são catadores de materiais recicláveis”, explica Gabriel.

Essas pessoas, normalmente vivendo em situação de vulnerabilidade social, encontraram suporte em uma estrutura pensada exclusivamente em “contribuir para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político, através da organização do trabalho individual e coletivo, na busca de uma nova consciência ambiental e de ações concretas que beneficiem o meio ambiente”, segundo a missão da Cooperativa.

Diante dessa finalidade, os blocos de concreto são moldados com o propósito sustentável, de transformação social e com qualidade certificada. Sérgio Amaral, coordenador da CTSA, reforça que o projeto gera renda, respeita o meio ambiente, reinsere na cadeia produtiva os resíduos que seriam descartados no meio ambiente, além de ser uma rica fonte para pesquisas da Universidade. “Essa foi uma demanda que veio da comunidade do Cristal e, por meio da OnG Solidariedade e a UFRGS, damos suporte para que a cooperativa de catadores desenvolvesse os blocos de concreto. O objetivo é dar apoio até que a atividade seja economicamente sustentável”.

O material usado

Foto: Maira Vogt/Divulgação

A confecção do Bloco Eco utiliza como matéria-prima os resíduos da construção civil, ou seja, recicla um material que iria para aterros sem a necessidade de retirar de rios e pedreiras novos materiais para a sua confecção. Assim, os resíduos da construção de obras, e até mesmo de concreteiras, voltam para uso através de blocos de concreto.

Na sua confecção, os materiais são triturados, peneirados, separados e viram agregados que compõem o bloco. Quem produz o Bloco Eco são ex-carroceiros e ex-carrinheiros que tiveram que abandonar essa atividade em função da Lei Municipal 10.531, que proíbe a circulação de carroças na cidade. Para isso, os trabalhadores receberam toda a capacitação necessária para dominar o processo produtivo dos blocos e exercer essa nova atividade econômica, permanecendo no ramo da reciclagem.

Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020, publicado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), mostra um aumento considerável de resíduos de construção de demolição nos últimos 10 anos: esse número passou de 33 milhões de toneladas, em 2010, para 44,5 milhões, em 2019. No Brasil, a maior parte desse resíduo segue para aterros sanitários (aumento de 10 milhões de toneladas na última década), porém pouco mais de 29 milhões de toneladas por ano vão parar em unidades inadequadas (lixões e aterros controlados).

“O resíduo da construção civil é o que é produzido em maior escala nas cidades brasileiras. É um volume muito grande que a maioria das vezes é encaminhado para aterros. Normalmente, isso é levado de caminhão, que, além de poluir, gera um aumento no fluxo de trânsito nas cidades”, explica Gabriel.

Neste contexto, o Bloco Eco surge como uma alternativa ecológica e sustentável para reciclar um resíduo que existe em abundância nas cidades. “Estamos reciclando e reutilizando o concreto ao invés de somente descartar. Reutilização é uma solução para essa década. Tenho orgulho de trabalhar nesse projeto pioneiro em Porto Alegre, se trata de uma demanda enorme e necessária”, frisa o estudante.

O programa de incentivo

Melhoria e análises técnicas, certificação, geração de emprego e renda, sustentabilidade e preservação ambiental caminham juntas neste projeto, que conta com incentivo do Programa Centelha, Edital 07/2019. A iniciativa é promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) e pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e no Rio Grande do Sul com a parceria da Fundação de Amparo à Pesquisa do RS (Fapergs). O Programa Centelha visa estimular a criação de empreendimentos inovadores e disseminar a cultura empreendedora no Brasil.

“Comecei como pesquisador e, por conta do Edital, hoje sou Microempreendedor Individual (MEI). Recebemos o recurso do Programa Centelha e, por conta disso, estamos conseguindo atuar em vários segmentos e atender diversas questões da Cooperativa para além da parte técnica. Estamos vendo a gestão, a organização do negócio e a ideia é montar uma equipe administrativa para que, dentro de cinco anos, consigamos remunerar cooperados para trabalhar na produção e na parte administrativa, comercial, de análise e solução de dúvidas técnicas junto aos clientes. Hoje vendemos os blocos em menor escala, mas com esse edital e outros que virão esperamos alçar o projeto a ponto de prover renda para as pessoas e realizar uma atividade inovadora em Porto Alegre, uma vez que não há nenhuma iniciativa que recicla resíduos da construção civil para a fabricação de um novo produto”, salienta Gabriel.

Foto: Maira Vogt/Divulgação

Essa relação de trabalho mútuo envolve ainda a pesquisa, que tem como coordenador do grupo o professor Luiz Carlos Pinto da Silva Filho, ex-diretor da Escola de Engenharia. “Através do professor Luiz Carlos, que nos descobriu, se iniciou uma relação para testar os produtos e ajudar na etapa técnica e, progressivamente, a relação foi aumentando. Com o apoio do Finep, de estímulo à pesquisa, a UFRGS ajudou com a materiais e equipamentos utilizados no processo produtivo, desenvolvendo um processo de treinamento para as pessoas da comunidade”, explica Sérgio.

Desta parceria, envolvendo pesquisa e extensão, conhecimentos foram compartilhados e autonomia desenvolvida entre a comunidade do Cristal: os blocos de concreto sustentáveis representam trabalho, renda, consciência ecológica, inserção da Universidade na sociedade, conquista de espaço e dignidade.

Ao aprenderem a reutilizar esses recursos para fazer blocos de concreto, os catadores de material reciclável adquirem conhecimentos que proporcionam uma coleta de resíduo que será transformado em um novo produto, que ao ser comercializado gera uma renda fixa mais elevada. “É a construção de uma vida com perspectivas um pouco melhores. Para mim é muito gratificante trabalhar com a OnG, esse projeto pode igualar as condições de trabalho e renda que outras pessoas e organizações já possuem. É um orgulho participar dessa atividade, agrega muito à formação do profissional porque vemos outra realidade e entendemos que, com o conhecimento que adquirimos na Universidade, conseguimos transformar vidas”, finaliza Gabriel.

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