AUTORES
A
globalização dos significados
|
No ciberespaço, o texto perde os vínculos com a cultura em que surgiu |
PIERRE LÉVY
especial
para a Folha
Para
se compreender a mutação da civilização contemporânea é
necessário refletir sobre a primeira grande transformação na
ecologia das mídias: a passagem das culturas orais para as culturas
da escrita. A emergência do ciberespaço terá provavelmente -e hoje
já tem, aliás- sobre a pragmática das comunicações um efeito tão
radical quanto, na sua época, a invenção da escrita.
Nas
sociedades orais, as mensagens linguísticas eram sempre recebidas no
tempo e lugar em que eram emitidas. Emissores e receptores
partilhavam uma situação idêntica e, em geral, um universo análogo
de significado. Os atores da comunicação estavam embebidos no mesmo
banho semântico, no mesmo contexto, no mesmo fluxo vivo de
interação.
A escrita abriu um espaço de comunicação
desconhecido às sociedades orais, no qual se tornava possível tomar
conhecimento de mensagens produzidas por pessoas situadas a milhares
de quilômetros, ou mortas havia séculos, ou então separadas por
enormes distâncias culturais ou sociais. A partir deste instante, os
atores da comunicação não partilhavam mais a mesma situação, não
estavam mais em interação direta.
Subsistindo fora de suas
condições de emissão e de recepção, as mensagens permanecem
"fora de contexto". Este "fora de contexto" -que,
de início, salienta apenas a ecologia das mídias e a pragmática da
comunicação- foi legitimado, sublimado e interiorizado pela
cultura. Ele será, no futuro, o núcleo de uma certa racionalidade e
levará, finalmente, à noção de universalidade.
É difícil
compreender uma mensagem quando ela se acha separada de seu contexto
vivo de produção. Por isso se inventaram, da parte da recepção,
as artes da interpretação, da tradução e toda uma tecnologia
linguística (gramáticas, dicionários...). Da parte da emissão, o
esforço recaiu na composição de mensagens que fossem capazes de
circular por toda parte, independentemente de suas condições de
produção, que contivessem em si mesmas, na medida do possível, sua
chave de interpretação ou sua "razão".
A semelhante
esforço prático corresponde a idéia do universal. Em princípio,
não é preciso recorrer a um testemunho vivo, a uma autoridade
exterior, a costumes ou a elementos de um ambiente cultural
particular para compreender e admitir as proposições enunciadas nos
"Elementos" de Euclides. Este texto encerra em si mesmo as
definições e os axiomas dos quais decorrem necessariamente os
teoremas. Os "Elementos" são um dos melhores exemplos de
mensagem auto-suficiente, auto-explicativa, englobando as suas
próprias razões, que não teria pertinência numa sociedade oral.
A
filosofia e a ciência clássicas, cada uma a seu modo, visam à
universalidade. Segundo a minha hipótese, isso ocorre porque elas
não podem ser separadas do dispositivo de comunicação instaurado
pela escrita. As religiões "universais" (e não falo
somente dos monoteísmos: pensemos no budismo) são todas fundadas
sobre textos. Se quiser converter-me ao islamismo, posso fazê-lo em
Paris, em Nova York ou em Meca.
Mas, se quiser praticar a
religião dos bororos (supondo que tal projeto tenha um sentido), não
me resta senão viver com os bororos. Os ritos, mitos, crenças e
modos de vida dos bororos não são "universais", mas
contextuais e locais. Eles não repousam, de maneira alguma, numa
relação com textos escritos. Essa constatação não implica,
evidentemente, nenhum juízo etnocêntrico de valor: o mito bororo
pertence ao patrimônio da humanidade e pode emocionar, virtualmente,
qualquer ser pensante. Além disso, as religiões particularistas
também possuem seus textos: a escrita não determina automaticamente
o universal, ela o condiciona ("não há universal sem
escrita").
Como os textos científicos ou filosóficos que
se dizem depositários de sua própria razão, portadores de seus
próprios fundamentos e abrigo de suas condições de interpretação,
os grandes textos das religiões universalistas abarcam, pela
composição, a fonte de sua autoridade. De fato, a origem da verdade
religiosa é a revelação. Ora, o Torá, os Evangelhos e o Alcorão
são a própria revelação ou o relato genuíno da revelação. O
discurso não se situa mais na linha de uma tradição que retira sua
autoridade do passado, dos ancestrais ou da evidência partilhada por
uma cultura. O texto (a revelação) funda por si só a verdade, e
foge, assim, a todo contexto condicionante. Graças ao regime de
verdade que se apóia sobre um texto-revelação, as religiões do
livro libertam-se da dependência de um meio particular e tornam-se
universais.
No universal fundado pela escrita, o que deve ser
mantido intocado pelas interpretações, traduções, difusões e
conservações é o sentido. O significado da mensagem deve ser o
mesmo lá e cá, hoje e sempre. Esse universal é indissociável de
uma pretensão de fechamento semântico. Seu esforço de totalização
luta contra a pluralidade aberta de contextos atravessados pelas
mensagens, contra a diversidade das comunidades que os fazem
circular. Da invenção da escrita seguem-se as exigências muito
especiais da descontextualização dos discursos. Tal fato, o domínio
globalizante do significado, o anseio pelo "todo", a
tentativa de instaurar em cada lugar o mesmo sentido (ou, no âmbito
da ciência, a mesma exatidão), está, para nós, associado ao
universal.
De fato, o maior acontecimento cultural anunciado
pela emergência do ciberespaço é a dissociação entre estes dois
operadores sociais ou máquinas abstratas (muito mais que conceitos!)
que são a universalidade e a totalização. A causa é simples: o
ciberespaço dissolve a pragmática da comunicação que, desde a
invenção da escrita, havia conjugado o universal e a totalidade.
Ele nos reconduz, de fato, à situação anterior à escrita -mas
numa outra escala e numa outra órbita-, na medida em que a
interconexão e o dinamismo em tempo real das memórias em rede faz
com que o mesmo contexto, o imenso hipertexto vivo seja compartilhado
pelos integrantes da comunicação. Seja qual for a mensagem
abordada, ela se conecta a outras mensagens, a comentários, a glosas
em constante evolução, a pessoas que por ela se interessam, a
fóruns nos quais ela é debatida aqui e agora. Um texto qualquer é
talvez o fragmento ignorado do hipertexto em constante movimento, que
o envolve e o conecta a outros textos, servindo de mediador ou de
meio a uma comunicação recíproca, interativa, ininterrupta. Sob o
regime clássico da escrita, o leitor se acha condenado a
reatualizar, a duras penas, o contexto, ou, então, a confiar no
trabalho das igrejas, das instituições ou das escolas, obstinado em
ressuscitar e captar o sentido. Ora, hoje, tecnicamente, pelo fato da
iminente ligação em rede de todas as máquinas do planeta, quase
não há mais mensagens "fora de contexto", separadas de
uma comunidade ativa. Virtualmente, todas as mensagens estão imersas
num banho comunicativo fervilhante de vida, incluindo as próprias
pessoas, de que o ciberespaço aparece progressivamente como meio de
contato.
O correio, o telefone, a imprensa, o mercado editorial,
o rádio e as inúmeras cadeias de televisão formam agora a franja
imperfeita, os apêndices parciais de um espaço de interconexão
aberto, animado de comunicações transversais, caótico, fervoroso,
fractal, movido por processos magmáticos de inteligência coletiva.
Sem dúvida, nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio de
informações, mas a densidade dos laços e a rapidez da circulação
é tamanha que os atores da comunicação não têm dificuldade de
partilhar o mesmo contexto, ainda que esta situação seja um pouco
escorregadia e muitas vezes complicada.
A interconexão
generalizada, utopia mínima e motor primeiro do crescimento da
Internet, emerge como uma nova forma do Universal. Mas cuidado! O
processo em curso de interconexão mundial realiza uma forma do
Universal -diversa, porém, da forma estática da escritura. Aqui, o
Universal não se articula mais sobre o fechamento semântico
requerido pela descontextualização, antes pelo contrário. Esse
Universal não totaliza mais pelo sentido, mas reúne pelo contato,
pela interação geral.
Pierre Lévy
é sociólogo e historiador da ciência, professor do departamento de
hipermídia da Universidade de Paris 8, autor de "As Tecnologias
da Inteligência" e "O Que É Virtual" (Ed. 34). Ele
escreve mensalmente na Folha.
Tradução
de José Marcos
Macedo.