Um sistema autoregulador
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A Internet tem sido capaz de criar mecanismos próprios de controle das informações |
PIERRE LÉVY
especial
para a Folha
Já que todos podem alimentar a rede
sem nenhum intermediário ou censura, já que nenhum governo, nenhuma
instituição e nenhuma autoridade moral garante o valor dos dados
disponíveis, que confiança se pode depositar nas informações
encontradas no ciberespaço? Como nenhuma seleção e hierarquia
oficial serve de guia no dilúvio de informações do ciberespaço,
não seríamos testemunhas de uma simples dissolução cultural, e
não de um progresso, dissolução esta que só seria útil àqueles
que já possuem pontos de referência, isto é, às pessoas
privilegiadas por sua educação, seu meio, seus círculos
intelectuais privados?
À primeira vista, essas interrogações
parecem legítimas. Elas repousam, no entanto, sobre premissas
falsas.
É certo que nenhuma autoridade central garante o valor
das informações disponíveis no conjunto da rede. Porém, os sites
Web são produzidos e frequentados por pessoas ou instituições que
assinam as suas contribuições e defendem sua validade perante a
comunidade dos internautas. Para dar um exemplo evidente: o conteúdo
de um site universitário é garantido pela universidade que o
acolhe. Como ocorre na informação impressa, as revistas e jornais
on line encontram-se sob a responsabilidade de seu conselho
editorial. As informações provenientes de uma empresa são
garantidas pela respectiva organização, que põe em jogo a sua
reputação no Web do mesmo modo (se não mais) que em outras formas
de comunicação. As informações governamentais, é evidente, são
controladas pelos governos etc.
As comunidades virtuais, fóruns
eletrônicos ou "newsgroups" são muitas vezes moderados
por responsáveis que filtram as contribuições em função de sua
qualidade ou de sua pertinência.
Não é raro que os sistemas
operadores que administram os servidores informáticos sejam
empregados por organismos públicos (universidades, museus,
ministérios etc.) ou por instituições cujo interesse é manter sua
reputação. Tais sistemas operadores, que dispõem de um grande
poder "regional" no ciberespaço, podem eliminar os
servidores sob a sua responsabilidade ou os grupos de discussão
contrários à ética da rede - a famosa "netiqueta":
calúnias, racismo, incitação direta à violência, proxenetismo,
uso sistemático de informações não-pertinentes etc. Isso explica,
aliás, que haja tão poucas informações ou práticas desse gênero
na rede.
De resto, uma espécie de opinião pública funciona na
Internet. Os melhores sites, muitas vezes, são citados ou exibidos
como exemplo em revistas, catálogos ou índices (impressos ou on
line). Vários links de hipertextos conduzem a esses "bons"
serviços. Em contrapartida, são raros os links que drenam os
internautas para os sites cujo valor informativo é fraco ou
empobrecedor.
O funcionamento da rede, portanto, faz apelo à
responsabilidade dos fornecedores e dos usuários da informação num
espaço público. Ele recusa um controle hierárquico -portanto
opaco-, global e a priori, o que seria uma definição possível do
sistema da censura ou de uma gestão totalitária da informação ou
da comunicação.
Não podemos ter, ao mesmo tempo, a liberdade
de expressão e também a seleção a priori das informações por
uma instância que, supostamente, sabe o que é verdadeiro e bom para
todos, seja ela uma instância jornalística, científica, política
ou religiosa.
Mas o que dizer do caos, da confusão, do caráter
diluviano da informação, da comunicação, no ciberespaço? Eles
não prejudicariam os que não possuem rígidos pontos de referência
pessoal ou social? Esse temor só é parcialmente justificado. De
fato, a profusão do fluxo de informações e a ausência de uma
ordem global a priori não impedem que a coletividade ou as pessoas
orientem-se por sua própria conta e construam hierarquias, seleções,
estruturas. Desapareceram definitivamente as seleções, hierarquias
e estruturas de conhecimento pretensamente válidas para todos e a
qualquer tempo, ou seja, o universal totalizante.
Para construir
uma ordem local e provisória no interior da desordem global, os
"temas de pesquisa", os índices on line, os instrumentos
de navegação cada vez mais aperfeiçoados se oferecem ao uso do
internauta. Além disso, não é preciso imaginar o ciberespaço
povoado de indivíduos isolados e perdidos entre uma enormidade de
informações. A rede é, antes de tudo, um instrumento de
comunicação entre pessoas, um laço virtual em que as comunidades
auxiliam seus membros a aprender o que querem saber. Os dados não
representam senão a matéria-prima de um processo intelectual e
social vivo, altamente elaborado. Enfim, toda inteligência coletiva
do mundo jamais dispensará a inteligência pessoal, o esforço
individual e o tempo necessário para aprender, pesquisar, avaliar e
integrar-se a diversas comunidades, sejam elas virtuais ou não. A
rede jamais pensará em seu lugar, fique tranquilo.
Pierre Lévy
é sociólogo e historiador da ciência, professor do departamento de
hipermídia da Universidade de Paris 8, autor de "As Tecnologias
da Inteligência" e "O Que É o Virtual" (Ed. 34). Ele
escreve mensalmente.
Tradução de José
Marcos Macedo.