Pierre Levy 18-01-97



O terceiro estágio da humanidade


Cibercultura supera ciência e religião porque envolve todos os seres humanos


PIERRE LÉVY
especial para a Folha

Longe de ser uma subcultura de fanáticos da rede, a cibercultura exprime uma mutação maior da própria essência da cultura. A chave da cultura do futuro é o conceito de universal sem totalidade. Nessa proposição, o universal significa a presença virtual da humanidade diante de si mesma. O universal abriga o aqui e agora da espécie, o seu ponto de encontro, um aqui e agora paradoxal, sem local nem tempo claramente assinaláveis.
Por exemplo, supõe-se que uma religião universal dirija-se a todos os homens e os reúna virtualmente em sua revelação, sua escatologia, seus valores. Igualmente, supõe-se que a ciência exprima (e valha para) o progresso intelectual do conjunto dos homens, sem exclusividade. Os estudiosos são delegados pela espécie, e os triunfos do conhecimento exato são os da humanidade em seu todo.
Da mesma forma, o horizonte de um ciberespaço que nós reputamos universalista deve interconectar todos os bípedes falantes e fazê-los participar da inteligência coletiva da espécie, no seio de um meio ubíquo.De modo completamente diferente, a ciência, as religiões universais abrem locais virtuais onde a humanidade encontra-se consigo mesma.
Embora cumpra uma função análoga, o ciberespaço reúne as pessoas de modo bem menos "virtual" que a ciência ou as grandes religiões. A atividade científica diz respeito a cada um e se dirige a todos pelo intermédio de um sujeito transcendental do conhecimento, do qual participa cada membro da espécie. A religião une pela transcendência; o ciberespaço, pelo contrário, graças à sua operação que põe o homem na presença de si mesmo, mobiliza uma tecnologia real, imanente, ao alcance da mão.
Mas o que é, afinal, a totalidade? Trata-se, na minha linguagem, da unidade estabilizada do sentido de uma diversidade. Que semelhante unidade ou identidade seja orgânica, dialética ou complexa, em vez de simples ou mecânica, não altera em nada a situação: trata-se sempre de uma totalidade, isto é, de um universo semântico integrado.
Ora, a cibercultura inventa uma forma de suscitar a presença virtual do ser humano diante de si mesmo diversa da imposição de uma unidade do sentido. Esta é a principal tese que defendo aqui.
Em relação às categorias que acabo de expor, podemos distinguir três grandes etapas da história:
1) a das pequenas sociedades fechadas, de cultura oral, que viviam numa totalidade sem universal;
2) a das sociedades "civilizadas", imperiais, com base na escrita, as quais fizeram surgir um universal totalizante;
3) a da cibercultura, enfim, correspondente à mundialização concreta das sociedades, que inventa um universal sem totalidade.
Sublinhemos que os estágios dois e três não fazem desaparecer aqueles que os precedem: eles os relativizam, acrescentando-lhes dimensões suplementares.
Em sua origem, a humanidade compõe-se de inúmeras totalidades culturais dinâmicas ou de "tradições", mentalmente fechadas em si mesmas, o que sem dúvida não impede as influências ou os encontros. "Os homens" por excelência são os membros da tribo. Raras são as proposições das culturas arcaicas que se dirigem a todos os seres humanos sem exceção. Nem as leis (nada de "direitos do homem"), nem os deuses (nada de religiões universais), nem os conhecimentos (nada de experimentos ou de raciocínios reproduzíveis em toda parte), nem as técnicas (nada de redes ou padrões mundiais) são universais em sua constituição.
O fechamento do sentido era garantido por uma certa transcendência, pelo exemplo e pela decisão dos ancestrais -por uma tradição. É claro que o registro era deficiente, mas a transmissão cíclica de geração em geração afiançava a perenidade no tempo. Os limites da memória humana, porém, restringiam a envergadura do tesouro às recordações e ao saber de um grupo de anciões. Totalidades vivas, embora fechadas e sem universal.
Numa segunda época, "civilizada", as condições de comunicação instauradas pela escrita conduzem à descoberta prática da universalidade. A palavra escrita, e mais tarde a impressa, traz uma possibilidade indefinida de memória social; a abertura universalista efetua-se tanto no tempo como no espaço. O universal totalizante traduz a inflação dos signos e a determinação do sentido, a conquista de territórios e a sujeição dos homens.
O primeiro universal é imperial, estatal. Ele se impõe por sobre a diversidade das culturas e tende a demarcar uma esfera do ser sempre idêntica, supostamente independente de nós (como o universo construído pela ciência) ou vinculada àquela definição abstrata (os direitos do homem). Sim, de agora em diante nossa espécie existe como tal. Ela se encontra e se comunica no seio de estranhos espaços virtuais: a revelação, o final dos tempos, a razão, a ciência, o direito... Do Estado às religiões do livro sagrado, das religiões às redes da tecnociência, a universalidade afirma-se e ganha corpo, mas quase sempre pela totalização, pela extensão e pela manutenção de um sentido único.
Ora, a cibercultura, terceiro estágio de evolução, mantém a universalidade dissolvendo a totalidade. Ela corresponde ao momento em que nossa espécie, pela planetarização econômica e pela densificação das redes de comunicação e transporte, tende a formar uma única comunidade mundial, mesmo se esta comunidade é -e quanto- desigual e conflituosa.
Única em seu gênero no reino animal, a humanidade reúne toda sua espécie numa única sociedade. Mas em razão deste próprio fato, paradoxalmente, a unidade do sentido se rompe, talvez porque ela começe a realizar-se na prática, pelo contato e pela interação efetiva. Diante do novo dilúvio de informações, Noé regressa em grande número. Flotilhas dispersas e dançantes de arcas que abrigam a precariedade de um sentido problemático, reflexos confusos de um grande todo fugaz, evanescente, conectadas ao universo, as comunidades virtuais constroem e dissolvem continuamente suas micrototalidades dinâmicas, emergentes, imersas, derivando entre as correntes turbilhonantes do novo dilúvio.
Alguns dirão, talvez, que aqui não se trata propriamente do universal, mas do planetário, do fato geográfico bruto da extensão das redes de transporte material e informático, da comprovação técnica do crescimento exponencial do ciberespaço.
Ou, pior ainda, sob o manto do universal não se ocultaria exclusivamente o puro e simples "global", o mesmo da "globalização" da economia ou dos mercados financeiros? É claro que este universal contém uma forte dose de global e de planetário, mas ele não se limita a isso. O "universal" ainda é o universal, na acepção mais profunda, porque é indissociável da idéia da humanidade. Mesmo os críticos mais incisivos do ciberespaço prestam homenagem a esta dimensão, embora lamentem -com toda razão- que a maioria esteja dele excluída ou que a África tenha uma participação tão restrita.
Mas o que revela a reivindicação de "acesso a todos"? Ela mostra que a participação nesse espaço, que une cada ser humano a um outro qualquer, que pode pôr em comunicação as comunidades entre si e com elas mesmas, que suprime os monopólios de difusão e autoriza cada qual a emitir o que lhe interessa ou lhe diz respeito -essa reivindicação revela, como dizia, que a participação nesse espaço acentua um direito, e que sua construção se assemelha a um tipo de imperativo moral.
Em suma, a cibercultura dá forma a uma nova espécie de universal: o universal sem totalidade. E, repito, trata-se sempre do universal, acompanhado de todas as ressonâncias que se queira da filosofia das luzes, pois ele entretém uma profunda relação com a idéia de humanidade. Com efeito, o ciberespaço não engendra uma cultura do universal porque se encontra, de fato, em toda parte, mas porque sua forma ou sua idéia implica, de direito, o conjunto dos seres humanos.


Pierre Lévy é sociólogo e historiador da ciência, professor do departamento de hipermídia da Universidade de Paris 8, autor de "As Tecnologias da Inteligência" e "O Que É Virtual" (Ed. 34). Ele escreve mensalmente na Folha.
Tradução de
José Marcos Macedo.