O terceiro estágio da humanidade
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Cibercultura supera ciência e religião porque envolve todos os seres humanos |
PIERRE LÉVY
especial
para a Folha
Longe
de ser uma subcultura de fanáticos da rede, a cibercultura exprime
uma mutação maior da própria essência da cultura. A chave da
cultura do futuro é o conceito de universal sem totalidade. Nessa
proposição, o universal significa a presença virtual da humanidade
diante de si mesma. O universal abriga o aqui e agora da espécie, o
seu ponto de encontro, um aqui e agora paradoxal, sem local nem tempo
claramente assinaláveis.
Por exemplo, supõe-se que uma
religião universal dirija-se a todos os homens e os reúna
virtualmente em sua revelação, sua escatologia, seus valores.
Igualmente, supõe-se que a ciência exprima (e valha para) o
progresso intelectual do conjunto dos homens, sem exclusividade. Os
estudiosos são delegados pela espécie, e os triunfos do
conhecimento exato são os da humanidade em seu todo.
Da mesma
forma, o horizonte de um ciberespaço que nós reputamos
universalista deve interconectar todos os bípedes falantes e
fazê-los participar da inteligência coletiva da espécie, no seio
de um meio ubíquo.De modo completamente diferente, a ciência, as
religiões universais abrem locais virtuais onde a humanidade
encontra-se consigo mesma.
Embora cumpra uma função análoga,
o ciberespaço reúne as pessoas de modo bem menos "virtual"
que a ciência ou as grandes religiões. A atividade científica diz
respeito a cada um e se dirige a todos pelo intermédio de um sujeito
transcendental do conhecimento, do qual participa cada membro da
espécie. A religião une pela transcendência; o ciberespaço, pelo
contrário, graças à sua operação que põe o homem na presença
de si mesmo, mobiliza uma tecnologia real, imanente, ao alcance da
mão.
Mas o que é, afinal, a totalidade? Trata-se, na minha
linguagem, da unidade estabilizada do sentido de uma diversidade. Que
semelhante unidade ou identidade seja orgânica, dialética ou
complexa, em vez de simples ou mecânica, não altera em nada a
situação: trata-se sempre de uma totalidade, isto é, de um
universo semântico integrado.
Ora, a cibercultura inventa uma
forma de suscitar a presença virtual do ser humano diante de si
mesmo diversa da imposição de uma unidade do sentido. Esta é a
principal tese que defendo aqui.
Em relação às categorias que
acabo de expor, podemos distinguir três grandes etapas da
história:
1) a das pequenas sociedades fechadas, de cultura
oral, que viviam numa totalidade sem universal;
2) a das
sociedades "civilizadas", imperiais, com base na escrita,
as quais fizeram surgir um universal totalizante;
3) a da
cibercultura, enfim, correspondente à mundialização concreta das
sociedades, que inventa um universal sem totalidade.
Sublinhemos
que os estágios dois e três não fazem desaparecer aqueles que os
precedem: eles os relativizam, acrescentando-lhes dimensões
suplementares.
Em sua origem, a humanidade compõe-se de
inúmeras totalidades culturais dinâmicas ou de "tradições",
mentalmente fechadas em si mesmas, o que sem dúvida não impede as
influências ou os encontros. "Os homens" por excelência
são os membros da tribo. Raras são as proposições das culturas
arcaicas que se dirigem a todos os seres humanos sem exceção. Nem
as leis (nada de "direitos do homem"), nem os deuses (nada
de religiões universais), nem os conhecimentos (nada de experimentos
ou de raciocínios reproduzíveis em toda parte), nem as técnicas
(nada de redes ou padrões mundiais) são universais em sua
constituição.
O fechamento do sentido era garantido por uma
certa transcendência, pelo exemplo e pela decisão dos ancestrais
-por uma tradição. É claro que o registro era deficiente, mas a
transmissão cíclica de geração em geração afiançava a
perenidade no tempo. Os limites da memória humana, porém,
restringiam a envergadura do tesouro às recordações e ao saber de
um grupo de anciões. Totalidades vivas, embora fechadas e sem
universal.
Numa segunda época, "civilizada", as
condições de comunicação instauradas pela escrita conduzem à
descoberta prática da universalidade. A palavra escrita, e mais
tarde a impressa, traz uma possibilidade indefinida de memória
social; a abertura universalista efetua-se tanto no tempo como no
espaço. O universal totalizante traduz a inflação dos signos e a
determinação do sentido, a conquista de territórios e a sujeição
dos homens.
O primeiro universal é imperial, estatal. Ele se
impõe por sobre a diversidade das culturas e tende a demarcar uma
esfera do ser sempre idêntica, supostamente independente de nós
(como o universo construído pela ciência) ou vinculada àquela
definição abstrata (os direitos do homem). Sim, de agora em diante
nossa espécie existe como tal. Ela se encontra e se comunica no seio
de estranhos espaços virtuais: a revelação, o final dos tempos, a
razão, a ciência, o direito... Do Estado às religiões do livro
sagrado, das religiões às redes da tecnociência, a universalidade
afirma-se e ganha corpo, mas quase sempre pela totalização, pela
extensão e pela manutenção de um sentido único.
Ora, a
cibercultura, terceiro estágio de evolução, mantém a
universalidade dissolvendo a totalidade. Ela corresponde ao momento
em que nossa espécie, pela planetarização econômica e pela
densificação das redes de comunicação e transporte, tende a
formar uma única comunidade mundial, mesmo se esta comunidade é -e
quanto- desigual e conflituosa.
Única em seu gênero no reino
animal, a humanidade reúne toda sua espécie numa única sociedade.
Mas em razão deste próprio fato, paradoxalmente, a unidade do
sentido se rompe, talvez porque ela começe a realizar-se na prática,
pelo contato e pela interação efetiva. Diante do novo dilúvio de
informações, Noé regressa em grande número. Flotilhas dispersas e
dançantes de arcas que abrigam a precariedade de um sentido
problemático, reflexos confusos de um grande todo fugaz,
evanescente, conectadas ao universo, as comunidades virtuais
constroem e dissolvem continuamente suas micrototalidades dinâmicas,
emergentes, imersas, derivando entre as correntes turbilhonantes do
novo dilúvio.
Alguns dirão, talvez, que aqui não se trata
propriamente do universal, mas do planetário, do fato geográfico
bruto da extensão das redes de transporte material e informático,
da comprovação técnica do crescimento exponencial do ciberespaço.
Ou, pior ainda, sob o manto do universal não se ocultaria
exclusivamente o puro e simples "global", o mesmo da
"globalização" da economia ou dos mercados financeiros? É
claro que este universal contém uma forte dose de global e de
planetário, mas ele não se limita a isso. O "universal"
ainda é o universal, na acepção mais profunda, porque é
indissociável da idéia da humanidade. Mesmo os críticos mais
incisivos do ciberespaço prestam homenagem a esta dimensão, embora
lamentem -com toda razão- que a maioria esteja dele excluída ou que
a África tenha uma participação tão restrita.
Mas o que
revela a reivindicação de "acesso a todos"? Ela mostra
que a participação nesse espaço, que une cada ser humano a um
outro qualquer, que pode pôr em comunicação as comunidades entre
si e com elas mesmas, que suprime os monopólios de difusão e
autoriza cada qual a emitir o que lhe interessa ou lhe diz respeito
-essa reivindicação revela, como dizia, que a participação nesse
espaço acentua um direito, e que sua construção se assemelha a um
tipo de imperativo moral.
Em suma, a cibercultura dá forma a
uma nova espécie de universal: o universal sem totalidade. E,
repito, trata-se sempre do universal, acompanhado de todas as
ressonâncias que se queira da filosofia das luzes, pois ele entretém
uma profunda relação com a idéia de humanidade. Com efeito, o
ciberespaço não engendra uma cultura do universal porque se
encontra, de fato, em toda parte, mas porque sua forma ou sua idéia
implica, de direito, o conjunto dos seres humanos.
Pierre Lévy
é sociólogo e historiador da ciência, professor do departamento de
hipermídia da Universidade de Paris 8, autor de "As Tecnologias
da Inteligência" e "O Que É Virtual" (Ed. 34). Ele
escreve mensalmente na Folha.
Tradução
de José Marcos
Macedo.