AUTORES
Todos
dizem 'eu estou aqui'
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Pierry Levy escreve sobre sua experiência em um 'grupo de discussão' na Internet |
PIERRE LEVY
especial
para a Folha
Trata-se de uma história verdadeira.
Como
todas as noites, eu consulto o meu correio eletrônico. Abro uma
mensagem que vem dos organizadores de um importante colóquio
internacional sobre as artes virtuais, do qual devo
participar.
Dizem-me, em inglês, que uma "mailing list"
será constituída para permitir o início da discussão, antes do
encontro físico. Para se inscrever, basta enviar a mensagem "I
subscribe" a um certo endereço eletrônico. Interessado, eu me
conformo ao procedimento indicado. Na noite seguinte, além do
correio expedido por meus correspondentes habituais, descubro as
primeiras mensagens da "mailing list" sobre as artes
numéricas.
Um professor de uma escola de arte de Minneapolis
explica a incompreensão de que dão prova os seus colegas diante de
seus ensinamentos sobre a "multimídia".
Uma artista
holandesa fala dos aparelhos de captação do som do mar que ela
instala nas praias... E das enormes conchas artificiais que
repercutem este som em lugares escolhidos, no interior do continente.
Um estudante de Detroit teme que a indústria da multimídia, por
razões comerciais, padronize as interfaces visuais, sonoras ou
táteis que os artistas, ao contrário, gostariam de deixar abertas,
para explorar livremente as possibilidades alternativas.
No dia
seguinte, minha caixa de entrada já contém respostas às mensagens
precedentes. Alguns vão além dos primeiros, outros os contradizem.
Muitos artistas lamentam não ter sido convidados a expor as suas
obras no colóquio, embora tenham apresentado um projeto.
Eles
aproveitam a "mailing list" para indicar à comunidade o
endereço na web em que se pode obter uma descrição ou uma amostra
de seu trabalho. Um dos responsáveis pelo colóquio responde, no dia
seguinte, que ele lamenta, mas que o orçamento era limitado, que 80
artistas do mundo inteiro poderão mostrar as suas instalações e
que isso, afinal, já é muito!
No correr dos dias, alguns temas
parecem estabilizar-se: questões institucionais e pedagógicas,
problemas estéticos, informações sobre os programas etc. A maioria
das mensagens são etiquetadas como respostas a uma mensagem
precedente, que é, muitas vezes, também uma resposta, e assim por
diante.
Podemos, com isso, reconstituir as linhas de conversa
relativamente independentes. Com o tempo, algumas trocas sobre o
mesmo tema alcançam 20, 30 ou mais "cartas". Outras
mensagens não ensejam mais do que 5 ou 6 respostas, e a conversa
esgota-se por si mesma.
Os cibernautas costumam retomar, em suas
próprias mensagens, a mensagem a que eles dão resposta, de tal
forma que uma correspondência assemelha-se, muitas vezes, a uma
espécie de comentário à carta precedente.
Podemos, assim, ter
várias (talvez quatro ou cinco) "camadas" de texto no
interior de uma mensagem, cada "carta" tornando-se, de
alguma forma, o "envelope" da precedente. Os programas de
correio eletrônico favorecem essa prática, ao reproduzir na
réplica, automaticamente (com uma marca especial no início de cada
linha), a mensagem que se responde.
Alguns dos assinantes da
"mailing list" protestam contra os excessos dessa prática,
que incha artificialmente as mensagens como bolas de neve descendo
uma colina, o que lhes atravanca as caixas de entrada.
As
missivas vêm de todos os cantos do mundo, com uma nítida
predominância da América do Norte e da Europa. Como costuma ocorrer
nas conferências eletrônicas, mesmo se 250 pessoas estão inscritas
(e, portanto, recebem as mensagens), somente umas 30 participam
ativamente da conversa, alimentando regularmente a conferência.
Pouco
a pouco, os destinatários da "mailing list" descobrem o
estilo de seus naturais animadores, que reflete provavelmente o seu
caráter. Uns ostentam uma maneira espontânea, emotiva, e redigem
num inglês desleixado, quase fonético. Outros respondem ponto por
ponto, de maneira quase maníaca, às declarações de seus
correspondentes, ou então compõem, numa linguagem clássica,
verdadeiros tratados em diversos capítulos e subcapítulos. Quando a
discussão sobe de tom, os moderadores (os imagino "mais
velhos") revelam-se e tentam acalmar o jogo.
Por vezes,
quando o rumor de uma Paris poluída vem bater as vidraças de meu
apartamento e quando os meus olhos cansados custam a ler os
caracteres na tela, um correspondente se afasta do tema da
conferência para falar do tempo que faz em Oslo ou do retiro sem
computador nem acesso à net que ele acaba de desfrutar nas montanhas
do Colorado. Deitado nos aclives floridos, ele saboreou o frescor do
vento dos cumes, que aportava os eflúvios dos abetos, e abismou-se
na pura profundeza azul do céu.
A rotina da conferência é
quebrada pelo correio de um músico australiano, um certo Wesson (não
reproduzo, aqui, o seu verdadeiro nome), que protesta violentamente
contra os testes atômicos franceses no Pacífico. Essa mensagem
desencadeia numerosas repostas nos dias que se seguem. Alguns
simpatizam com a causa de Wesson.
Outros lhe recordam que esse
não é o tema associado a "mailing list" e que existem
vários fóruns na net nos quais ele poderá falar sobre o assunto
com as pessoas interessadas. Outros respondem a estes últimos que os
artistas não podem excluir a priori um tema de discussão: os
artistas sempre se envolveram nos assuntos da cidade, que se estende,
hoje, às dimensões do planeta. A discussão se acirra. Alguns
participantes ameaçam retirar-se da conferência se o fluxo de
mensagens sobre o tema dos testes atômicos não diminuir.
Wesson,
cada vez mais excitado, arrisca uma mensagem em que confessa ter
começado aprender francês, mas arrepende-se, agora, do interesse
por esta língua. Dessa vez, ninguém mais está do seu lado. Ele tem
de enfrentar o que os cibernautas chamam uma "flame", isto
é, uma salva de mensagens vindas de todos os cantos do mundo.
Franceses, belgas, suíços e canadenses de Quebec respondem a Wesson
na língua de Molière. Uma alemã, um inglês e um dinamarquês
respondem igualmente em francês, solidários a uma língua
minoritária insultada.
Professores americanos tentam chamar
Wesson à razão, censurando-lhe por ter faltado à ética da net.
Como muitos outros, que antes se contentavam em ler as mensagens,
saio de minha reserva para dirigir-me a Wesson (em inglês).
Explico-lhe que ele comete pelo menos duas confusões: a entre uma
língua e um povo, e a entre um povo e um governo.
Ele, que se
pretende pacifista, devia se dar conta de que esse tipo de confusão
grosseira e de identificação de seres humanos com categorias
nacionais, étnicas, linguísticas ou religiosas é o que torna as
guerras possíveis.
Wesson entrega-se, então, a uma espécie de
confissão pública. Ele arrepende-se de sua mensagem sobre a língua
francesa e pede a cada um que o desculpe. Ao redigir essa malfadada
mensagem, ele estava só diante de sua tela. Quase pensava em voz
alta, sem perceber que havia pessoas do outro lado da rede.
Indivíduos vivos, animados por sentimentos, que poderiam sentir-se
feridos pelas palavras, assim como ele.
E, entre esses
indivíduos, alguns, justamente, que a televisão e os jornais
designavam somente em conjunto, em bloco e em geral à execração
pública dos australianos. Ele fora incendiado pelo bombardeio
antifrancês da mídia que o rodeava. Mas a rede lhe propiciara uma
consciência planetária muito mais concreta do que ele pensava ter
-a do contato direto com pessoas que exprimem suas emoções e seus
pensamentos.
Além dessa mensagem enviada a todos os
destinatários, surpreendo-me ao encontrar, em minha caixa de correio
eletrônica, uma mensagem privada de Wesson, que não pode ser lida
por outros membros da "mailing list". Ele me declara que
ficou comovido pela sinceridade e a clareza de minha resposta e que
deseja conhecer-me. Trocamos, então, algumas mensagens pessoais, que
terminam com uma promessa recíproca de nos encontrarmos no
colóquio.
O verão passa. Numa manhã de setembro, na sala de
imprensa do simpósio internacional, um jovem barbudo e sorridente me
aborda.
"Senhor Lévy?"
"Sim"
"Eu
sou Paul Wesson..."
Pierre Levy
é sociólogo e historiador da ciência, professor do departamento de
hipermídia da Universidade de Paris 8, autor de "As Tecnologias
da Inteligência" e "O Que É o Virtual" (Ed. 34). Ele
escreve mensalmente na série "Autores".
Tradução de
José Marcos
Macedo.