A VIAGEM DE RIOBALDO TATARANA

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Originalmente publicado na Revista Lusorama. Frankfurt, no 20, março de 1996, p. 48-53.

 

Tania Serra

UNB

 

A viagem iniciática é a interpretação metafísica da viagem geográfica de um herói épico. Tomando o exemplo de Ulisses, sua "viagem" é o desenvolver-se como ser humano, o encontrar e aceitar o sofrimento, o perseverar em alcançar seus nobres objetivos, mesmo que para isso leve vinte anos. Ao término da jornada, como no exemplo mais concreto de Parsifal, de Von Eschenbach, o encontro com o objetivo inicial, neste caso o Graal, simboliza o homem que atingiu a sabedoria, ou seja, aquele que conseguiu encontrar a plenitude psíquica. Para isso foram necessários uma longa viagem, muitas aventuras vividas com a ajuda dos deuses e a perseverança em fazer o bem público, tema que não varia muito nos diversos momentos do ephos através da história literária.

A viagem iniciática é, portanto, um tema subjacente a quase toda a literatura épica. Segundo Hélder Macedo,

 

um poema épico tende a significar, como discurso de segundas intenções, um percurso espiritual, uma viagem iniciática personalizada num herói. E há um esquema básico subjacente a toda viagem iniciática o qual por sua vez corresponde a uma magnificação da fórmula cristalizada dos ritos de passagem. Esse esquema define três momentos fundamentais: a chamada, a viagem propriamente dita, e o regresso (...). Para a sua aventura se tornar uma verdadeira iniciação, terá de conseguir expandir a sua identidade pessoal ao ultrapassar sucessivos obstáculos, até que, no encontro com a Magna Mater - momento indispensável e objetivo implícito da sua demanda -, tenha assumido o poder paterno de que depende a renovada continuidade da própria comunidade nele personalizada (Camões e a Viagem Iniciática, p. 33).

O grande épico de João Guimarães Rosa, Grande Sertão-Veredas, é exemplo dessa linhagem de obras-primas da literatura ocidental, que começa com Homero, continua com Virgílio, Dante, Ariosto, Camões, Torquato Tasso, e que passa pelos romanços medievais de cavalaria, sobretudo os do ciclo da busca do Santo Graal.

A epicidade no Grande Sertão já foi suficientemente analisada na literatura acadêmica, e, se o épico veicula uma visão total do mundo, num sistema em que, modernamente, o narrador/indivíduo trata da compreensão ordenada do Universo - também atribuição do mito - Guimarães Rosa criou, então, um verdadeiro herói épico, já que Riobaldo é o indivíduo que narra sua viagem/travessia pelo Sertão, isto é, pela vida, que se vai ordenando através do narrar literário.

No trabalho Riobaldo Rosa. A Vereda Junguiana do Grande Sertão, que publiquei pela editora Thesaurus, em 1990, identifico a viagem iniciática de Riobaldo com as etapas do processo de individuação de que fala o psicanalista suíço Carl Gustav Jung. As diferentes etapas desse processo, que têm de ser assimiladas e interiorizadas psicologicamente pelo herói - a saber, a eliminação da persona e a identificação e aceitação das imagens dos arquétipos do inconsciente coletivo da "sombra", anima, "velho sábio" e "si-mesmo" - serão abordadas resumidamente neste trabalho, tendo a "estória" sido reestruturada a partir de uma seqüência cronológica dos fatos relatados no romance, a fim de evidenciar como aquelas etapas se vão sucedendo.

Antes de passarmos à análise do romance aqui proposta, quero lembrar a impossibilidade de restringir uma grande obra de arte a um único esquema analítico. Este é apenas o que aí está dito: UM esquema para abordar e compreender o texto de Guimarães Rosa. Assim, seria possível enumerar no romance quatorze momentos de transição no percurso/travessia do herói, ou pequenas "viagens" que levarão à grande Viagem final, o encontro do homem com a Ordem ou Cosmos, a que Jung chama de Selbst, o "Si-Mesmo". Esses quatorze momentos englobam as cinco fases requeridas para se chegar ao "Si-Mesmo", a saber: eliminação da persona, seguida pela vivência e assimilação dos quatro grandes arquétipos: "sombra", anima (ou animus no caso da mulher), "velho sábio" e "si-mesmo".

A primeira etapa da vida de Riobaldo precede as ações narradas. É o momento em que vive só com sua mãe, numa simbologia do andrógino dos tempos primordiais, androginia que voltará a se realizar no fim das aventuras - a volta ao começo, de que fala Hélder Macedo -, quando se casa com Otacília. Naquele primeiro momento, o herói e sua mãe, a Bigri, moram do lado esquerdo do Rio São Francisco, perto da Serra das Maravilhas, e da vila que se chamava Alegres. Trata-se do tempo da lenda e do mito, em que tudo é perfeito. Sua persona, ou seja, sua personalidade exterior, desenvolve-se num clima de tranqüilidade, embora Riobaldo nutra profundo ódio pelo "protetor" da família, um certo Gramacedo Judião Borges.

A segunda etapa ocorre quando ele encontra o Menino, num dia 3 de maio de primavera, encontro que vai modificar inteiramente sua vida, pois esse Menino é um ser numinoso que representa a coragem que passará a acompanhá-lo. Os dois cruzam o Rio, marcando a primeira travessia do herói, ou seja, o começo da ação, do agir. O Menino/Reinaldo/Diadorim será uma espécie de.guia de Riobaldo por todo o romance.

A terceira etapa começa logo após a morte da mãe, quando é enviado para a fazenda São Gregório, de posse do seu "padrinho", o coronel Selorico Mendes. Este ensina-o a manejar as armas, no que Riobaldo demonstra grande habilidade, e permite-lhe viver na "lordeza", além de abrir-lhe acesso à cultura, já que estuda Letras, História e Geografia. Esse terceiro momento da viagem iniciática configura a interiorização da persona adequada ao status de grande fazendeiro dos Gerais.

O quarto momento da viagem começa quando Riobaldo foge da São Gregório, após ter sabido que o "padrinho" é, na verdade, seu pai. Após a fuga, Riobaldo encontra Zé Bebelo, para quem servirá de professor. Nessa etapa, ele vai eliminar a persona adquirida anteriormente, requisito necessário à passagem aos outros estágios de maturação psicológica que formam o conjunto do processo de individuação.

Essa vida sem trabalho concreto, com exceção de ser "cabo eleitoral" de Zé Bebelo, começa a desgostá-lo; foge. Riobaldo não está ainda preparado para experimentar a estabilidade, simplemente porque ainda não completou sua aprendizagem vivencial, isto é, não des-estruturou o mundo da infância e da adolescência, a fim de dar-lhe rumo próprio; sente-se, portanto, compelido a prosseguir a viagem.

Assim, começa a quinta etapa de sua jornada: aquela em que o herói vai encontrar e interiorizar a "sombra", o lado do Mal na vida de cada um. Reencontra o Menino, agora um jovem rapaz, que é chamado Reinaldo pelo bando do famoso chefe Joca Ramiro. Riobaldo torna-se, ele mesmo, um jagunço. Mata pela primeira vez um homem. A partir daqui, até quase o final do romance, a interiorização da "sombra" ocorrerá concomitantemente à da anima, representado pela figura da donzela guerreira Diadorim, aliás, Reinaldo.

O sexto momento da viagem é feito sob outro nome; Riobaldo ganha o epíteto de "Tatarana", devido à sua pontaria quase infalível, e torna-se líder de bando. Começa a gostar do poder que possui sobre os chefiados e resiste ao convite de Diadorim para que abandonem o jaguncismo. Não está "pronto"; portanto deve continuar sua viagem.

A sétima etapa é regida pela descoberta do amor. Riobaldo sente-se enamorado por Reinaldo, a quem já chama de Diadorim, mas resiste a esse amor que lhe parece pecaminoso. Outra mulher aparece nesse momento da trajetória do herói, a Nhorinhá, mulher-fêmea que se opõe à jovem guerreira e, de certa forma, tranqüiliza-o sobre sua masculinidade. É ainda nesse tempo que lê seu primeiro romance, Sinclair das Ilhas, que o deixa fascinado. Frui todas as belezas do mundo.

A oitava parte da viagem iniciática começa quando o bando sabe da notícia do assassinato à traição de Joca Ramiro, e Riobaldo assume a liderança de uma espécie de guerra santa contra os "judas" Ricardão e Hermógenes. Torna a mudar de nome; agora é o Urutu-Branco, grande chefe e futuro "Rei" dos Gerais.

O nono momento vê o herói liderando o bando na travessia do Liso do Sussuarão, espécie de deserto intransponível que ficava na retaguarda da fazenda dos judas. Após uma experiência mística na Encruzilhada das Veredas Mortas, onde foi-se encontrar, à meia-noite, com o demo, Riobaldo passa a sonhar muito e a jamais errar numa decisão tomada. Descobriu que o Diabo não existe, mas conseguiu chegar ao fundo de sua alma: consegue cruzar o Liso. Passa, agora, a usar a força da "sombra", mas ainda inconscientemente.

A décima parte da viagem iniciática ocorre quando da última batalha da guerra santa, em que ao morrerem o Ricardão e o Hermógenes, Riobaldo interioriza conscientemente a "sombra". É também após essa batalha, na qual Diadorim é morta, que ele fica sabendo ser o Reinaldo, na verdade, a moça Maria Deodorina, filha de Joca Ramiro. Ocorre aí a assimilação da anima. Ela passa a fazer parte de sua psiquê, que só pode estar em equilíbrio se contiver os pares opostos Bem e Mal, Masculino e Feminino, etc.

 

A décima primeira etapa passa-se sob a ameaça da morte. Riobaldo, que havia tombado como que atingido por um raio, após ver o corpo nu de Diadorim, passa meses entre a vida e a morte, inteiramente despojado da vontade de viver, diante do que lhe parece ser uma grande injustiça do destino: primeiro a ignorância em que foi mantido a respeito do amigo, e segundo, a tomada de consciência do que poderia ter sido, caso ele soubesse a verdade. Mas ainda não era a sua hora e a sua vez. Ainda não está maduro, e o processo de individuação está incompleto. É necessário prosseguir a viagem.

Assim é que a décima segunda etapa começa com o reconhecimento do "velho sábio", arquétipo preenchido nesse romance pelo personagem do compadre Quelemém, espírita kardecista, que vai ampará-lo e aconselhá-lo nessa hora de transição. Após a assimilação do "velho sábio", Riobaldo está pronto para empreender a última fase de sua viagem iniciática, o encontro com o "Si-Mesmo".

A décima terceira e penúltima etapa do processo é a da volta do herói ao começo de sua jornada, conforme o esquema sugerido por Hélder Macedo transcrito no começo deste trabalho: abandona a vida de chefe jagunço, como o último Rei dos Gerais, torna-se um próspero fazendeiro e casa-se com Otacília. Com esta coniunctius oppositorum, termo usado por Jung para designar a união dos opostos, o herói volta ao estado de androginia que tinha quando morava só com a mãe. É agora um homem completo.

Mas a viagem de Riobaldo continua, agora já como homem maduro e estabelecido na vida, no que vai-se configurar como a décima quarta e última fase do processo de individuação. Ela continua no tempo da narração, como uma verdadeira catábase ao reino da memória, tema recorrente em grande parte dos sistemas mitológicos. A narração é, assim, a quintessência do mito, realizando o reordenamento do mundo para que este volte a ter sentido.

Se nós encararmos o diálogo-monólogo como uma "confissão" de Riobaldo a um suposto analista ou confessor, seria possível falar do herói como o lado inconsciente do interlocutor/Rosa, o mundo interior - o "sertão" - sendo observado pelo homem racional de cultura européia. Uma série de pares opostos poderia ser inferida a partir dessa antítese, como: Natureza e Cultura, Caos e Cosmos, Mythos e Logos. De qualquer maneira, Grande Sertão-Veredas consegue causar catarse a seu leitor, e, portanto, cumprir a função iluminadora do mito, exatamente porque propõe a síntese desses pares antagônicos, tornando-se, ele mesmo, mediador num processo que tenta explicar o mundo, dando-lhe equilíbrio e sentido. Assim, é possível falar de um personagem Riobaldo Rosa, representante do último arquétipo do inconsciente coletivo que faltava aparecer para configurar o processo total de individuação: o Selbst.

A viagem iniciática, empreendida por Riobaldo Rosa no grande épico analisado, evidencia, então, em seu nível mítico-simbólico, uma síntese operada neste personagem entre opostos geralmente não sintetizáveis na cultura ocidental do século XX. É sobretudo como ordenação do mundo, tanto a nível individual quanto coletivo, que o Grande Sertão identifica-se com o mito e a epopéia. E é na construção de um significado ontológico para este sentido, que é simbólico.

Riobaldo Rosa, a quem também poderíamos nos referir como o paradigma do homem moderno que encontrou sua alma, numa referência à hipótese de Jung no ensaio "Modern Man in Search of a Soul", encontra-a construíndo uma ponte que o liga à tradição, a volta ao começo de que fala Helder Macedo. É o próprio texto quem fornece ao mesmo tempo tradição e renovação, história e interpretação. Nesse sentido, ele é ideológico, pois o que propõe não deixa de ser uma antítese ao pensamento racionalista ocidental contemporâneo.

Mas, o que mais importa no âmbito deste trabalho que se conclui, é que a interpretação do mundo, que nos propõe o romance analisado, é a de que é possível efetuar-se uma síntese dos opostos, uma coniunctius oppositorum, e que isso só é possível através do Verbo. A realização dessa síntese, que atravessa diversos estágios durante o processo de individuação de Riobaldo Rosa, ou seja, de sua viagem iniciática, é veiculada pela linguagem, "porta para o infinito", conforme disse o próprio autor em carta a seu tradutor Günter Lorenz.

 

Bibliografia

 

Eschenbach, Wolfram von. Parsifal. Brasília: Thot Editora, 1989.

Jung, Carl Gustav. Modern Man in Search of a Soul. New York: Harvest, 1969.

--- Psychologie et Alchimie. Paris: Éditions Buchet-Castel, 1970.

--- Psyche and Symbol. New York: Doubleday Anchor Books, 1958.

Macedo, Hélder. Camões e a Viagem Iniciática. Lisboa: Moraes Ed., 1980.

Rosa, João Guimarães. Grande Sertão-Veredas. Rio: José Olympio, 1970.

Serra, Tania Rebelo Costa. "The Mythological Structure in ‘Augusto Matraga’s Hour and Turn’, by G. Rosa". Anais do XIX Congresso Internacional da FILLM. Brasília: UnB, vol. III, 1996, p. 1246-1250.

--- Riobaldo Rosa: a Vereda Junguiana do Grande Sertão. Brasília: Thesaurus, 1990.

--- "O Sertanejo Moderno à Procura de uma Alma". Revista Universa. Brasília: Faculdades Católicas de Brasília, ano II, no 2, 1994, p. 215-224.

 


 
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