O leitor-discípulo(1)
"Tempo de Muda" reúne ensaios do psicanalista Renato Mezan
CONTARDO CALLIGARIS(2)
especial para a Folha
Renato Mezan acaba de revisar e reunir uma série de artigos e conferências dos últimos anos em um volume: "Tempo de Muda - Ensaios de Psicanálise" (Cia das Letras).
Oportunamente, os ensaios são organizados em três seções. A primeira reúne textos de psicanálise aplicada às artes e à literatura. A segunda lida com questões de ética e psicanálise (ou da psicanálise), e a última aborda -como diz seu título- "questões de teoria e de história da psicanálise".
Um dos prazeres da leitura de qualquer trabalho de Renato Mezan vem de um sentimento de transparência. Mezan consegue quase sempre desdobrar as questões que ele levanta ou que lhe são colocadas pelas contingências culturais de tal forma que sua apresentação e sua argumentação parecem fáceis. Não sei se essa façanha estilística é obtida por meio de muito esforço ou por alguma alquimia natural ao escritor. Em todo caso, o resultado é um estilo que leva o leitor pela mão e ilumina o caminho como os faróis daquele antigo Citroën que nas curvas virava junto com as rodas. Era, aliás, um carro ótimo para quem quisesse, durante a noite, dirigir segura e tranquilamente na estrada.
Por isso mesmo, aliás, o estilo de Mezan dá seus melhores frutos quando trata de acalmar espíritos que se perdem em polêmicas improdutivas, ou seja, por exemplo, nos textos sobre "Psicanálise e Neurociências" e "Psicanálise e Psicoterapias". Em ambos Mezan excele em restabelecer um diálogo onde em geral se trocam facadas.
Lacan, logo na abertura de seus "Escritos", propunha conceber um estilo como algo mais do que uma escolha retórica, mas como uma espécie de posição ética fundamental, pois, prolongando a famosa frase de Buffon, "o estilo é o homem", ele afirmava que o estilo é o homem ao qual cada um de nós se endereça quando fala ou escreve. Ou seja, nosso estilo representa bem nossa relação fundamental com os outros. Por exemplo, no que concerne ao próprio Lacan a elipse, a omissão de argumentos, a eventual obscuridade etc. compõem um estilo violento no qual, quanto menos o leitor entende, mais ele se convence de que o autor sabe muito mais do que ele. Resta saber se esse é um artifício produtivo ou um abuso -talvez os dois.
Ora, Mezan escolhe o estilo do sábio, que consiste em considerar seu leitor, senão como um par, no mínimo como um discípulo suscetível de entender e aprender. O que é, para o leitor, decididamente mais agradável.
Um dos textos da coletânea é uma conferência proferida em março de 1997 na ocasião da exposição de Robert Mapplethorpe no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Eu não vi a exposição de São Paulo, mas pelo texto de Mezan entendo que deve ter sido largamente representativa da obra do fotógrafo americano. Com toda razão (e procedimento antropológico), Mezan aborda a exposição incluindo no fato social e estético os comentários que a antecederam e necessariamente prepararam os espectadores.
Esses comentários insistiam sobre o aspecto escandaloso, transgressivo, das fotografias, sobretudo evidentemente as fotos de temática, digamos assim, sadomasoquista homossexual. Ora, Mezan, visitando a exposição, estranhou o "acoplamento da forma clássica a um conteúdo abertamente sexual", com a consequência que o "material erótico" lhe pareceu "deserotizado". O cuidado com a "perfeição da forma" nas fotografias de Mapplethorpe faz o artista, escreve Mezan, tratar "os caralhos como flores", ou melhor, tratar "flores, caralhos e rostos da mesma maneira; como objetos para serem iluminados e com-postos". Em suma, segundo Mezan, o cuidado com a forma, com a beleza e a perfeição das composições funciona em Mapplethorpe como uma forma de controle, um mecanismo de defesa contra a sexualidade.
Conhecendo a história da vida e morte de Mapplethorpe, a coisa parece um pouco estranha, mas afinal, nunca se sabe. A minha perplexidade com a leitura de Mapplethorpe por Mezan tem outra origem. Minha experiência de espectador de Mapplethorpe é totalmente oposta: acho as obras do fotógrafo americano sufocantemente eróticas. Fora as diferenças ou coincidências de fantasias sexuais, o que importa é que as imagens me parecem tão densamente eróticas para o próprio autor que se torna difícil (para mim) não participar um pouco de seu entusiasmo. O desejo sexual é, como cada um sabe, contagioso.
Também, com Mezan, observo que Mapplethorpe trata igualmente caralhos e flores, mas minha conclusão é portanto oposta: em vez de achar que os caralhos de Mapplethorpe na verdade são flores, eu acho que suas flores na verdade são caralhos.
E por que seriam caralhos? Justamente por causa da perfeição da forma. Meu sentimento é que toda forma clássica, controlada, perfeita pelo menos em sua ambição, aparece como "bela" por ser uma espécie de oração ou mesmo de reza contra faltas, crises e danos. Gostamos de contemplar coisas "perfeitas" (ou disso se aproximando) porque funcionam como exorcismos contra nossas impotências ou, ainda, como imagens justamente de um caralho perfeito, sempre pronto e poderoso.
Me fica difícil, portanto, entender como a perfeição da forma poderia ser, no caso de Mapplethorpe, uma defesa contra a sexualidade ou um empecilho contra o erotismo. Ao contrário, nunca encontrei ninguém que achasse erótica uma imagem, mesmo pornográfica, decomposta, como o "Nu Descendo a Escada", de Duchamp. Também muitos adolescentes me contaram como anjos barrocos e São Sebastiões de gesso pintado (eventualmente medíocres, mas todos aspirando a uma perfeição formal e mimética) lhes inspiraram emoções violentas incontroláveis. Mas ninguém nunca me falou de suas fantasias com Jackson Pollock.
A perfeição da forma, o estilo clássico, seu controle formal não são necessariamente defesas sublimadas ou angustiadas contra o desejo e a sexualidade. Elas podem, ao contrário, ser a forma facilitadora por excelência de qualquer fantasia erótica.
Como sempre, comentando uma coletânea, o jeito é se limitar a dialogar com um dos textos. Nesse caso, a pequena argumentação pode se valer de nossas observações sobre o estilo do autor. Pois o que avanço para Mapplethorpe vale também para Mezan. Seu estilo é de controle e ambiciona uma perfeição formal. E não acho que seja por isso um estilo de defesa.
1. Jornal Folha de São Paulo, Caderno MAIS!, domingo, 08 de fevereiro de 1999.
2. Contardo Calligaris é psicanalista e ensaísta, autor de "Hello Brasil" (Escuta) e "Crônicas do Individualismo Cotidiano" (Ática). E-mail: ccalligari@aol.com