Autobiografia – Jean Piaget (parte 1)

Autor: Jean Piaget (1896-1980), autobiografia redigida em 1951 em francês e traduzida para o inglês por Donald MacQueen da Clark University.
Fonte: PIAGET, Jean. Autobiografia. in EVANS, Richard. Jean Piaget: o homem e suas idéias. Rio de Janeiro: Forense, 1980. Pág. 125-153

Uma autobiografia só tem interesse científico se logra os fornecer elementos para uma explicação do trabalho do autor.
Com o fito de alcançar esse objetivo, limitar-me-ei, essencialmente, ao aspectos científicos de minha vida.
Várias pessoas, sem dúvida, estão convencidas de que essa interpretação retrospectiva não apresenta valor objetivo e que é passível de suspeição de parcialidade, mais ainda que um relatório introspectivo. Originalmente eu mesmo tinha este ponto de vista. Mas, relendo alguns velhos documentos que datam dos tempos da minha adolescência, fique surpreso com dois fatos aparentemente contraditórios que, quando colocados juntos, oferecem certa garantia de objetividade. O primeiro é que eu me havia esquecido completamente do conteúdo dessas bastante toscas produções juvenis. O segundo é que, apesar de sua imaturidade, elas antecipam de maneira notável o que tento fazer a uns trinta anos.

Existe, portanto, provavelmente, alguma verdade na afirmação de Bergson de que a mente de um filósofo é geralmente dominada por uma simples idéia pessoal que ele tenta expressar de várias maneiras através de sua vida, sem conseguir sucesso total. Mesmo que esta autobiografia não transmita aos leitores uma noção perfeitamente clara dessa idéia, ao menos terá ajudado o autor a se compreender melhor.

I. 1896-1914

Nasci aos 9 de agosto de 1896 em Neuchâtel, na Suíça. Meu pai, que ainda é um homem ativo, dedicou a maior parte de seus escritos à literatura medieval e, em menor grau, à história de Neuchâtel. É um homem de mente meticulosa e crítica, que detesta generalizações improvisadas apressadamente, e não tem medo de começar uma briga quando encontra a verdade histórica distorcida para obedecer a respeitáveis tradições.

Entre muitas outras coisas, ele me ensinou o valor do trabalho sistemático, mesmo em pequenas coisas.

Minha mãe era muito inteligente, enérgica, fundamentalmente, uma pessoa muito boa. Dotada de um temperamento neurótico, porém, tornou a vida de nossa família um tanto confusa. Uma das conseqüências diretas dessa situação é que abandonei os folguedos muito cedo em troca do trabalho sério. Fiz isso, é claro, tanto para imitar meu pai quanto para me refugiar num mundo privado e ao mesmo tempo não fictício.

Na verdade, sempre fui avesso a qualquer fuga da realidade, atitude que relaciono ao segundo fator mais importante de influência na minha juventude, isto é, a precária saúde mental de minha mãe. Foi esse inquietante fator que, no começo dos meus estudos de Psicologia, fez com que eu me interessasse intensamente por questões de psicanálise e psicologia patológica.

Embora esse interesse me ajudasse a alcançar independência e a expandir meu lastro cultural, desde então não senti nenhum desejo de me aprofundar naquela direção específica, sempre preferindo estudar a normalidade, os trabalhos do intelecto, em vez de estudar os labirintos do inconsciente.

Dos sete aos dez anos, tornei-me intensamente interessado por mecânica, pássaros, fósseis da Era Secundária e Terciária e por conchas do mar. Como ainda não me era permitido escrever a tinta, compus a lápis um pequeno panfleto para dividir com o mundo uma grande descoberta: o “autovap”, um automóvel à base de motor a vapor. Mas esqueci depressa essa combinação invulgar de vagão e locomotiva para escrever (desta vez a tinta) um livro sobre “nossos pássaros”, o qual, após algumas piadas irônicas de meu pai, tive de reconhecer, pesaroso, que era uma simples compilação.

Aos dez anos, assim que entrei para a Latin School, decidi ser mais sério. Tendo visto um pardal albino num parque público, escrevi um artigo de uma página para um jornal de História Natural de Neuchâtel. O jornal publicou minhas linhas, e eu estava “lançado”! Escrevi, então, ao diretor do museu de História Natural e pedi sua permissão para estudar suas coleções de pássaros, fósseis e conchas, depois do expediente. Acontece que esse diretor, Paul Godet, homem muito agradável, era um grande especialista em moluscos. Convidou-me logo a assisti-lo duas vezes por semana – como ele dizia, igual ao “fâmulo” de Fausto – ajudando-o a colocar rótulos em sua coleção de conchas da terra e da água.

Durante quatro anos, trabalhei para esse consciencioso e culto naturalista. Em troca do meu trabalho, ele me daria, ao final de cada colaboração minha, certo número de espécies raras para minha própria coleção e, o que é mais importante, fornecer-me-ia uma classificação exata de amostras que eu havia colhido.

Esses encontros semanais com o diretor no seu gabinete particular de trabalho me estimularam tanto que passava todo tempo de que dispunha colhendo moluscos (existem umas cento e trinta espécies e centenas de variedades nos arredores de Neuchâtel). Todo sábado à tarde, costumava esperar pelo meu mestre uma hora antes do marcado.

Essa iniciação na malacologia me influenciou muito. Quando em 1911 o Sr. Godet morreu, eu conhecia o assunto o suficiente para começar a publicar, sozinho, (são raros os especialistas nesse ramo) uma série de artigos sobre os moluscos da Suíça, da Savóia, da Bretanha e mesmo da Colômbia.

Isso me proporcionou algumas experiências divertidas. Alguns “colegas” estrangeiros desejavam conhecer-me, mas como eu era apenas um estudante, não ousava aparecer, e tive de declinar esse convites lisonjeiros.

O diretor do museu de História Natural de Genebra, Sr. Bedot, que publicava vários dos meus artigos na Revue Suisse de Zoologie me ofereceu o cargo de zelador dessa coleção de moluscos (A coleção Lamarck, entre outras, está em Genebra). Tive de responder que eu ainda teria de estudar mais dois anos para tirar meu diploma do bacharelato, uma vez que ainda não era estudante de curso superior.

Depois que outro editor de revista recusou um artigo meu, por descobrir a embaraçosa verdade acerca de minha idade, eu mandei o artigo ao Sr. Bedot que, com delicadeza e bom humor, respondeu: “É a primeira vez que ouço falar de um diretor de revista que julga o valor dos artigos pela idade dos seus autores. Será que ele não tem outro critério para usar?”

Naturalmente esses vários artigos que publiquei numa idade tão juvenil estavam longe de ser completos. Só muito mais tarde, em 1929, é que me foi possível conquistar algo mais significativo no campo.

Esses estudos mesmos prematuros, foram, de qualquer modo, de grande valor para meu desenvolvimento científico. Além disso, agiram, por assim dizer, como instrumentos de proteção contra o demônio da Filosofia.

Graças a eles eu tive o raro privilégio de assimilar uma idéia breve sobre Ciência e o que ela defende, antes de entrar na crise filosófica da adolescência.

O fato de ter tido, tão cedo, uma experiência com esses dois tipos de abordagens problemáticas constituiu, tenho certeza, a força oculta da minha última atividade psicológica. No entanto, em vez de seguir sossegadamente a carreira de naturalista, que parecia tão normal e tão fácil para mim após essas circunstâncias felizes, entre as idades de dez e vinte anos sofri uma série de crises, devidas tanto às condições familiares quanto à curiosidade intelectual característica dessa idade produtiva. Mas, repito, fui capaz de contornar todas elas graças aos hábitos mentais que adquiri no contato anterior com a ciência zoológica.

Havia o problema da religião. Quando eu tinha cerca de quinze anos, minha mãe, sendo uma devota protestante, insistiu para que eu recebesse o que se chama em Neuchâtel “instrução religiosa”, isto é, um curso de seis semanas sobre os fundamentos da doutrina cristã. Meu pai, por outro lado, não freqüentava a igreja, e logo senti que para ele a fé convencional e uma honesta atitude crítica diante da história são incompatíveis.

Obediente, segui minha “instrução religiosa”, com vívido interesse, mas, ao mesmo tempo, dentro do espírito de livre pensamento. Duas coisas me chamaram atenção na ocasião: de um lado, dificuldades de reconciliar um número de dogmas com a Biologia, e, do outro, a fragilidade das “cinco” provas da existência de Deus. Cinco nos foram ensinadas e até passei no meu exame sobre elas!

Embora nunca nem sequer tenha sonhado em negar a existência de Deus, o fato de que todos deveriam raciocinar por meio de tão fracos argumentos (recordo-me somente da prova pela finalidade da natureza e a prova ontológica) me pareceu fato extraordinário, visto que meu pastor era um homem inteligente, que se dedicava, ele também, às Ciências Naturais.

Nesse tempo, tive a boa sorte de encontrar na biblioteca do meu pai La philosophie de la religion fondée sur la psychologie et l’historie [A Filosofia da religião baseada na Psicologia e História], de Auguste Sabatier. Devorei o livro com imenso prazer. Dogmas reduzidos a funções de “símbolos” necessariamente inadequados, e, acima de tudo, a noção de uma “evolução de dogmas” – era uma linguagem muito mais clara e satisfatória para minha mente. E, então, uma nova paixão se apossou de mim: a Filosofia.

Disso resultou uma segunda crise. Meu padrinho, Samuel Cornut, um homem de letras romenas, convidou-me, mais ou menos no mesmo período, para passar umas férias com ele no lago Annecy. Ainda guardo deliciosas recordações dessa visita. Passeamos, pescamos, procurei moluscos e escrevi uma “malacologia do lago Annecy”, que publiquei pouco depois na Revue savoisienne.

Meu padrinho, porém, tinha um propósito. Ele me achou especializado demais e queria me ensinar Filosofia. Durante a cata de moluscos, ele me explicaria a “evolução criativa” de Bergson. (Algum tempo depois, ele me mandou esse trabalho de lembrança). Foi a primeira vez que ouvi Filosofia discutida por qualquer um que não fosse teólogo. O choque foi terrível, devo admitir. Antes de mais nada, foi um choque emocional. Recordo-me de uma tarde de profunda revelação. A identificação de Deus com a própria vida foi uma idéia que me estimulou quase ao êxtase, porque me possibilitou ver a explicação da origem de todas as coisas e de mim mesmo na Biologia.

Em segundo lugar, foi um choque intelectual. O problema do saber (chamado adequadamente de problema epistemológico) repentinamente me apareceu em uma perspectiva inteiramente nova e como um tópico absorvente de estudo. Fez com que eu decidisse consagrar minha vida à explicação biológica do conhecimento.

A leitura de Bergson em si, que só fiz meses depois (sempre prefiro refletir sobre um problema antes de lê-lo), deu-me força na decisão, mas também me desapontou um pouco. Em vez de encontrar nela a última palavra da Ciência, como meu padrinho me levara a esperar, tive a impressão de uma construção engenhosa sem bases experimentais. Entre a Biologia e a análise do conhecimento, eu precisava de algo mais que a Filosofia. Penso que foi naquele momento que descobri uma necessidade que só podia ser satisfeita através da Psicologia.

II. 1914-1918

Foi durante esse período que se deu o fenômeno curioso que mencionei em minha introdução. Não satisfeito com toda a leitura (em adição aos estudos dos moluscos e a preparação para o bacharelato, que recebi em 1915, com a idade de dezoito anos), comecei a escrever minhas idéias em vários cadernos de anotações. Esse esforço cedo me afetou a saúde. Tive de passar mais de um ano nas montanhas, enchendo o tempo de lazer forçado escrevendo uma espécie de romance filosófico, que cometi a imprudência de publicar em 1917.

Lendo agora esses vários escritos que marcam a crise e o fim da minha adolescência – documentos dos quais me esquecera completamente até que os consultei de novo para esta autobiografia – surpreendentemente encontrei neles uma ou duas idéias que ainda me são requeridas e que nunca deixaram de me guiar nos meus variados empreendimentos. É por isso que, embora a tentativa possa não parecer realmente necessária, de início procurei retraçar essa primeiras noções.

Comecei lendo tudo que vinha às minhas mãos depois do meu infeliz contato com a filosofia de Bergson: Kant, Spencer, Augusto Comte, Fouillé e Guyau, Lachelier, Boutroux, Lalande, Durkheim, Tarde, Le Dantec; e, em Psicologia, W. James, Th. Ribot, e Janet.

Durante os dois anos que precederam o bacharelato, tivemos lições de Psicologia, Lógica e Metodologia Científica, dadas por um lógico, A. Reymond. Mas, por falta de um laboratório e guia (não havia psicólogo experimental em Neuchâtel, mesmo na Universidade), a única coisa que eu podia fazer era teorizar e escrever.

Escrevia mesmo que fosse para mim mesmo, pois eu não podia pensar sem escrever – mas tinha de ser uma forma mais sistemática como se fosse um artigo para publicação.

Comecei com um ensaio de concepção bastante rudimentar, intitulado “Esboço de um Neopragmatismo”. Nele apresentei uma idéia que sempre foi fundamental para mim, isto é, que a ação por si mesma admite a lógica (ao contrário do anti-intelectualismo de James e Bergson) e então, a lógica surge de uma espécie de organização espontânea dos fatos. Mas, o elo com a Biologia estava faltando.

Uma lição de A. Reymond sobre realismo e nominalismo na área do problema de “universais”(com algumas referências ao papel de conceitos na ciência de hoje) de súbito acordou-me interiormente. Eu refletira profundamente sobre o problema das “espécies” em Zoologia, e adotara um ponto de vista inteiramente nominalista a esse respeito. As espécies não têm realidade em si mesmas e são distintas das simples “variedades” somente por uma estabilidade maior.

Mas esse ponto de vista teórico, inspirado pelo lamarckismo, me preocupava no meu trabalho empírico (isto é, classificação de moluscos). A disputa de Durkheim e Tarde sobre a realidade e a não-realidade da sociedade como um todo organizado me trouxe certo estado de incerteza, sem me fazer ver, primeiro, sua ligação com o problema das espécies. À parte isso, o problema geral do realismo e do nominalismo me ofereceram um ponto de vista global. Comecei, subitamente, a compreender que, em todos os estágios (isto é, da célula viva, organismo, espécie, sociedades etc., mas, também com referência aos estados de consciência, conceitos, princípios lógicos etc.), encontra-se o mesmo problema de relacionamento entre as partes e o todo.

Assim me convenci de que havia encontrado a solução. Ali, enfim, estava a união íntima com que sonhara entre a Biologia e a Filosofia, um acesso à Epistemologia que me pareceu, então, realmente científico.

Aí, comecei a anotar meu sistema (as pessoas se perguntarão como arranjei tempo, mas eu o arranjava quando podia, principalmente durante as aulas “chatas”!). Minha solução foi muito simples: em todos os campos da vida (organização mental e social) existem “totalidades” qualitativamente distintas de suas partes e impostas a elas por organização. Portanto, não existem “elementos” isolados; a realidade elementar é necessariamente dependente de um todo que a interpenetra. Mas os relacionamentos entre o todo e a parte variam de uma estrutura para outra, porque é necessário distinguir quatro ações que estão sempre presentes: a ação do todo em si mesmo (preservação); a ação das partes (alteração ou preservação); as ações das partes em si mesmas (preservação) e a ação das partes no todo (alteração ou preservação).

Essas quatro ações equilibram uma a outra numa estrutura total. Mas existem também três formas possíveis de equilíbrio: (1) predominância do todo com alteração das partes; (2) predominância das partes com alteração do todo; e (3) preservação recíproca das partes e do todo. Para isso uma lei final fundamental é adicionada: só a última forma de equilíbrio (3) é “estável”, ou “boa”, enquanto que as outras (1) e (2) são menos estáveis. Embora tendam à estabilidade, o quanto (1) e (2) podem se aproximar de um estado de estabilidade vai depender dos obstáculos a serem transpostos.

Se eu conhecesse naquela época (1913-1915) o trabalho de Wertheimer e Köhler, eu me teria tornado um gestaltista; mas estando a par somente dos escritos franceses e ainda não sendo capaz de organizar experimentos para a verificação dessas hipóteses, fui levado a me limitar à construção de um sistema.

Achei a releitura desses velhos papéis extremamente interessante, visto que representam um delineio antecipador do meu trabalho posterior. Já era claro para mim que o equilíbrio estável do todo e das partes (terceira forma) correspondia a estados de consciências de natureza normativa: necessidade lógica ou obrigação moral em oposição a formas inferiores de equilíbrio que caracterizam os estados não normativos de consciência, tais como a percepção etc., ou acontecimentos orgânicos.

Depois do meu bacharelato, fui para as montanhas descansar. Durante esse tempo, matriculei-me oficialmente na Divisão de Ciência da Universidade de Neuchâtel, e assim, logo depois de minha volta, pude me graduar em Ciências Naturais e receber meu doutorado com a tese sobre moluscos de Valais (1918).

Embora estivesse, durante todo esse tempo, muito interessado nos cursos de Zoologia (Fuhrman), Embriologia (Béraneck), Geologia (Argand), Química física (Berthoud) e Matemática (a teoria de grupo foi particularmente importante para mim com relação ao problema do todo e das partes), ansiava por freqüentar uma universidade maior, que tivesse um laboratório de Psicologia onde eu pudesse pôr em prática experiências para verificar meu “sistema”.

Foi nessa área de pesquisa que os hábitos adquiridos no contato com a Zoologia me foram úteis. Nunca acreditei num sistema sem um controle experimental preciso. O que escrevi para mim mesmo durante meus anos de liceu, julguei que não valia a pena ser publicado, porque permaneceu mera teoria. Sei valor real me pareceu ser um incentivo para experiências futuras, cuja natureza, naquele tempo, contudo, eu não podia calcular.

Mesmo assim, durante o ano que passei nas montanhas, fui perseguido pelo desejo de criar, e cedi à tentação. Para não me comprometer com bases científicas, porém, evitei a dificuldade escrevendo – para (público em geral, e não para especialistas – um tipo de romance filosófico, a última parte do qual continha minhas idéias (1917). Minha estratégia, ficou comprovado, era correta. Ninguém falou dele, com exceção de um ou dois filósofos indignados.

(Nota de rodapé: Vão aqui algumas citações do trabalho intitulado Recherche (1917). Foi uma questão de elaborar uma “teoria positiva de qualidade, levando em conta somente relacionamentos de equilíbrio e desequilíbrio entre nossas qualidades” (p.150). Não pode haver consciência dessas qualidades, uma vez que elas não podem existir, se não há relacionamentos entre elas, se não são, conseqüentemente, amalgadas numa total qualidade que as contenha e, ao mesmo tempo, as mantenha distintas. Por exemplo, eu não teria consciência seja da brancura deste papel, seja da cor desta tinta, se as duas qualidades não estivessem combinadas na minha consciência numa certa unidade e se, a despeito dessa unidade não se mantivessem, respectivamente, uma branca e a outra escura… Nisso tem origem o equilíbrio entre as qualidades: existe equilíbrio não somente entre as partes separadas, desse modo ( e isso só ocorre em equilíbrio material), mas entre as partes de um todo, e o todo do outro, como distinto do todo resultante dessas qualidades parciais… “(É, portanto, necessário proceder do todo para as partes, e não da parte para o todo, como faz a mente de um físico)”. “Alguém pode distinguir, então, um primeiro tipo de equilíbrio onde o todo e a parte se sustentam mutuamente”, e outros tipos que haja intenção coordenada entre o todo e as partes. “Todos os equilíbrios tendem a um equilíbrio do primeiro tipo”, mas sem serem capazes de alcança-lo no nível orgânico: “Sendo assim, chamamos de equilíbrio ideal o equilíbrio do primeiro tipo, e equilíbrio real o de outros tipos, embora todo equilíbrio real, qualquer que ele seja, pressuponha um equilíbrio ideal”. Em contraste, o primeiro tipo é concebido no nível do pensamento: É “a origem do princípio de identidade, do qual o princípio de contradição é deduzido” etc.)

III. 1918-1921

Depois de me haver doutorado em Ciências, fui para Zurich (1918), com o objetivo de trabalhar num laboratório de Psicologia. Trabalhei em dois laboratórios, o de G. E. Lipps e o de Wreschner, e também na clínica psiquiátrica de Bleuler. Senti imediatamente que ali estava o meu caminho e que, utilizando em experimentação psicológica os hábitos mentais que adquirira na Zoologia, talvez eu pudesse ter êxito em resolver problemas de estruturas-do-todo aos quais fui levado pelo meu pensamento filosófico. Mas, para dizer a verdade, senti-me meio perdido no início. As experiências de Lipps e Wreschner me pareciam ter pouca conexão com problemas fundamentais. Por outro lado, a descoberta da Psicanálise (eu lia Freud e o jornal Imago, e ouvia ocasionalmente as palestras de Jung e Pfister) e os ensinamentos de Bleuler me fizeram sentir o perigo da meditação solitária. Decidi então esquecer meu sistema para não me tornar vítima do “autismo”.

Na primavera de 1918, tornei-me inquieto e fui para Valais. Apliquei o método estatístico de Lipps num estudo biométrico da variabilidade dos moluscos da terra em função da altitude. Precisava voltar atrás, para os problemas concretos, a fim de evitar grandes erros.

No outono de 1919, tomei o trem para Paris, onde passei dois anos na Sorbonne. Fiz o curso Dumas em Psicologia Patológica (aí aprendi a entrevistar pacientes mentais em Saint-Anne), e os cursos de Piéron e Delacroix. Estudei também Lógica e Filosofia da Ciência com Lalande e Brunschwieg. Este último exerceu uma grande influência em mim devido ao seu método histórico-crítico e suas referências à Psicologia.

Mas ainda não sabia qual a área de problema na experimentação que escolheria. Então, tive uma extraordinária sorte. Fui recomendado ao Dr. Simon, que então morava em Rouen, mas que também tinha à sua disposição o gabinete de Binet na Escola Superior da rua da Grangeaux-Belles, em Paris. Esse laboratório não estava sendo usado porque Simon não dava aulas em Paris nessa ocasião. O Dr. Simon me recebeu de maneira muito amigável e sugeriu que eu estandardizasse os testes de raciocínio de Burt nas crianças parisienses.

Comecei o trabalho sem muito entusiasmo, somente para tentar algo. Mas logo minha vontade mudou. Ali estava eu, como meu próprio mestre, com uma escola inteira à minha disposição – inesperadas condições de trabalho!

Desde as primeiras entrevistas, compreendi que, conquanto os testes de Burt tivessem seus méritos de diagnósticos, baseados nos números de sucessos e fracassos, era muito mais interessante tentar descobrir o porquê das falhas. Então ocupei meus pacientes em conversações padronizadas por interrogatórios psiquiátricos, com o objetivo de descobrir algo sobre o processo de raciocínio, subentendido em suas respostas certas e, especialmente, nas erradas.

Notei com surpresa que a simples tarefa de raciocinar, envolvendo a inclusão de uma parte no todo ou a coordenação de relações ou a “multiplicação” de classes (encontrar a parte comum a dois todos) apresentava, para crianças normais até a idade de 11 ou 12 anos, dificuldades insuspeitas pelos adultos.

Sem que o Dr. Simon soubesse exatamente o que eu estava fazendo, continuei por mais dois anos a analisar o raciocínio verbal de crianças normais, apresentando a elas várias questões e dando-lhes tarefas que envolviam relações concretas simples causa e efeito. Além disso, obtive permissão para trabalhar com as crianças anormais de Salpétrière. Empreendi, então, a pesquisa com números, usando os métodos de manipulação direta, assim como o da conversação. Recomecei, desde então, esse trabalho, em cooperação com A. Szeminska (Piaget, Szeminska e Inhelder. La géométrie spontanée chez l’enfant. Paris, P.U.F., 1948).

Finalmente, encontrara meu campo de pesquisa. Antes de mais nada, tornou-se claro para mim que a teoria das relações entre o todo e a parte pode ser estudada experimentalmente pela análise dos processos psicológicos que envolvem operações lógicas.

Isso marcou o fim do meu período “teórico” e o começo de uma era indutiva e experimental no terreno psicológico no qual sempre quisera entrar, mas para o qual até então eu não tinha encontrado problemas adequados. Assim, minha observação de que a lógica não é inata, mas é desenvolvida pouco a pouco, parecia ser consistente com minhas idéias sobre a formação do equilíbrio em cuja a direção tende a evolução das estruturas mentais. Além, do mais, a possibilidade de estudar diretamente o problema da lógica vinha de encontro a todos os meus antigos interesses filosóficos. Finalmente, meu objetivo de descobrir uma espécie de embriologia da inteligência se adaptava ao meu treino biológico.

Desde o começo do meu pensamento teórico, eu estava certo de que o problema da relação entre organismo e o meio-ambiente se estendia também ao âmbito do conhecimento, aparecendo aqui como o problema da relação entre o sujeito agindo e pensando e os objetos de suas experiências. Agora eu tinha chance de estudar esse problema em termos de desenvolvimento psicogenético.

Uma vez que meus primeiros resultados haviam sido alcançados, escrevi três artigos, tomando bastante cuidado para não me tornar predisposto à teoria. Analisei os dados, psicologicamente e também logicamente, aplicando o princípio do paralelismo lógico-psicológico ao meu método de análise: a Psicologia explica os fatos em termos de causalidade, enquanto que a Lógica, quando interessada no verdadeiro raciocinar, descreve as formas correspondentes em termos de um equilíbrio ideal [Conforme “Une forme verbale da 1ª comparaison chez l’enfant”, Arch. de Psychol.(1921), 18, 143-172]. Page 5 Desde então tenho expressado essas relações dizendo que a lógica é o axioma que, correspondendo à Ciência Experimental, é a psicologia do pensar [Psychologie de l’intelligence (1974), Chap. 1].

Mandei meu primeiro artigo [“Essai sur quelques aspects du développment de la notion de partie chez l’enfant”, J. de Psychol.(1921), 38, 449-480] para o Jornal de Psicologia e tive prazer não somente de vê-lo aceito, mas de notar que I. Meyerson, que se tornou meu amigo nesse tempo, tinha interesses muito similares aos meus. Ele me fez ler Lévy-Bruhl e me deu ânimo, encorajando-me e me aconselhando. Também aceitou meu segundo artigo [“Essai sur la multiplication logique et les débuts de la pensées formelles chez l’enfant”, J. de Psychol.(1922), 38, 222-261].

O terceiro mandei para E. Claparède, que só vi uma vez e que o publicou no Archives de Psychologie [“La pensée symbolique et la pensée chez l’enfant”, Arch.de Psychol.(1923), 38, 273-304]. Além de aceitar meu artigo, ele fez uma proposta que mudou minha vida. Ofereceu-me o cargo de Diretor de Estudos no Instituto J. J. Rousseau, de Genebra. Como ele mal me conhecia, pediu-me que fosse a Genebra passar um mês treinando. A perspectiva me encantou, não só pela fama de Claparède como pelos maravilhosos recursos materiais para pesquisa que esse cargo me oferecia. Por outro lado, eu ainda nem sabia como começar qualquer pesquisa!

Aceitei, e troquei Paris por Genebra. Notei, imediatamente, que Claparède e Bovet eram patrons ideais que me deixariam trabalhar de acordo com meus desejos. Meu trabalho consistia simplesmente em orientar os estudantes e associá-los à pesquisa que fui solicitado dirigir a meu modo, contanto que dentro do campo da Psicologia Infantil. Isso foi em 1921.

IV. 1921 – 1925

Partindo de sistemática transformação mental (com todos os riscos que isso implicava, fiz planos que então considerei finais. Dedicaria dois ou três anos mais a estudar o pensamento da criança, e depois voltaria às origens da vida mental, isto é, estudaria a emergência de inteligência durante os primeiros dois anos. Após ter ganho, assim, objetiva e indutivamente conhecimento sobre as estruturas elementares da inteligência, eu estaria em posição de atacar o problema do pensamento em geral e construir uma Epistemologia Psicológica e Biológica. Acima de tudo eu deveria ficar afastado de qualquer preocupação não psicológica e estudar empiricamente o desenvolvimento do pensamento por si mesmo, aonde quer que isso me levasse.

De acordo com esse plano, organizei minha pesquisa na Maison des Petits do Instituto J. J. Rousseau, começando com os fatores mais periféricos (ambiente social, linguagem), mas conservando em mente meu objetivo de abranger o mecanismo psicológico das operações lógicas do raciocínio causal. Com relação a isso, também prossegui o trabalho com crianças do curso primário de Genebra, no mesmo tipo de investigação que fiz em Paris.

Os resultados da pesquisa estão contidos nos meus primeiros cinco livros sobre Psicologia Infantil [A linguagem e o pensamento na criança (1923), O Raciocínio na criança (1924), A representação do mundo na criança (1926), A causalidade física na criança (1927). O juízo moral na criança (1931)]. Publiquei-os sem tomar as suficientes precauções com relação à apresentação das minhas conclusões, pensando que seriam pouco lidas e que me serviriam mais como documentação para a síntese posterior a ser endereçada a uma audiência maior. (Os estudos foram produto de um contínuo esforço colaborador do qual participaram todos os estudantes do Instituto, entre eles, Valentine Châtenay, que se tornou minha esposa e constante colaboradora.) Ao contrário da minha expectativa, os livros foram lidos e discutidos como se fossem minha última palavra no assunto, alguns adotando meu ponto de vista sobre uma gênese da lógica, outros se opondo fortemente (sobretudo em círculos influenciados pela Epistemologia Empírica ou Tomismo). Fui convidado por vários países (França, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Escócia, Estados Unidos, Espanha, Polônia, etc.) para apresentar minhas idéias e discuti-las em universidades e perante outros professores. Contudo, na época, eu não tinha interesse por Pedagogia, visto que não tinha filhos.

Essa inesperada aclamação me deixou pouco à vontade, porque sabia claramente que até então não tinha as idéias organizadas e mal havia alcançado os primórdios. Mas ninguém pode dizer aos críticos: “Esperem, vocês não sabem o que vem por aí”, especialmente quando a própria pessoa ainda não sabe. Depois, quando se é jovem não se suspeita que, por longo tempo, se será julgado pelos primeiros trabalhos que se faz e que somente pessoas muito conscientes lerão os últimos.

Existiam dois pontos essenciais falhos nesses primeiros estudos: um deles, eu não conhecia antes de estudar o comportamento infantil; o outro, no entanto, eu conhecia e perfeitamente bem.

O primeiro desses pontos consistia em limitar minha pesquisa à linguagem e ao pensamento expresso. Eu bem sabia que o pensamento procede da ação, mas acreditava, na ocasião, que a linguagem reflete diretamente atos e que, para compreender a lógica da criança, tem-se de procurá-la no terreno das conversações ou interações verbais.

Só mais tarde, estudando os padrões do comportamento da inteligência nos dois primeiros anos, é que aprendi que, para uma completa compreensão da gênese das operações intelectuais, a manipulação e a experiência com objetos deveriam ser levadas em consideração primeiro. Portanto, antes do estudo baseado em conversação verbal, um exame dos padrões de conduta tinha de ser feito.

De fato, desde que se encontram nas ações das crianças mais novas todas as características que se observam no comportamento verbal das crianças mais velhas, meus primeiros estudos sobre pensamento verbal não foram em vão.

Mas o meu ponto de vista teria sido muito mais fácil de compreender se eu tivesse então descoberto o que só mais tarde descobri: que entre o estágio pré-operatório, dos dois aos sete anos, e o estabelecimento de uma lógica formal, que ocorre nas idades de 11 e 12 anos, funciona (entre sete e 11 anos) um nível organizacional de “operações concretas”, o qual é essencialmente lógico, embora ainda não lógico-formal (por exemplo, a criança de oito anos será capaz de concluir que AA, e B

O segundo ponto de vista se origina do primeiro, mas eu não compreendi os motivos então: tentei em vão encontrar estruturas-do-todo características das próprias operações lógicas (novamente minha teoria da parte e do todo!). Não tive êxito porque não procurei a fonte delas nas operações concretas. Satisfiz, então, minha necessidade de uma explanação em termos de estruturas-do-todo, estudando o aspecto social do pensamento (que é um aspecto necessário, ainda acredito, na formação das operações lógicas como tal).

O equilíbrio ideal (a preservação recíproca e das partes) se refere aqui à cooperação entre indivíduos que se tornam autônomos através da mesma cooperação.

O equilíbrio imperfeito, caracterizado pela alteração das partes em relação ao todo, aparece aqui como repressão social (ou repressão do mais novo pelo mais velho).

O equilíbrio imperfeito caracterizado pela mudança do todo como função das partes (e a ausência de coordenação das partes) aparece como uma egocentricidade inconsciente do indivíduo, isto é, como atitude mental da criança pequena que ainda não sabe como colaborar ou coordenar seus pontos de vista (Infelizmente, por causa da vaga definição do termo “egocentricidade”- sem dúvida um termo mal escolhido! – e devido às incompreensões em relação ao conceito de atitude mental, esse termo ainda não adquiriu, de uma maneira geral, significado próprio, simples e claro).

Embora eu não tenha sido bem sucedido em encontrar de início as estruturas características das operações lógicas que deveriam corresponder às estruturas do relacionamento social (pelo menos senti imediatamente a importância da reversibilidade do pensamento)[O Raciocínio na Criança (1924), pág. 169], notei certo grau de irreversibilidade de operações correspondia às dificuldades da criança pequena em assimilar a reciprocidade social e intelectual. Mas, para colocar essa hipótese em campo sólido, tive de primeiro estudar operações concretas.

Durante esses anos, descobri a existência da Psicologia Gestalt, muito aproximada das minhas noções de estruturas-do-todo. O contato com o trabalho de Kölher e Wertheimer me causou uma impressão dupla. Primeiro, tive o prazer de perceber que minha pesquisa prévia não era inteiramente tola já que se pode delinear, por tal hipótese central da subordinação das partes para o todo organizador, não somente uma teoria consistente, mas também uma esplêndida série de experimentos.

Em segundo lugar, senti que, embora a noção Gestalt servisse perfeitamente às formas inferiores de equilíbrio (aquelas nas quais a parte é alterada pelo todo, ou aquelas nas quais, de acordo com os próprios termos da teoria, não existe “composição adicional”), ela não explicava o tipo de estrutura peculiar às operações racionais ou lógicas. Por exemplo, a seqüência dos números do todo 1, 2, 3… é uma notável estrutura-do-todo operativa, visto que os números não existem sós, mas são engendrados pela própria lei da formação em si (1 + 1 = 2, 2 + 1 = 3 etc.) E, no entanto, essa lei de formação constitui essencialmente uma “composição aditiva”. O que eu considero uma forma superior de equilíbrio (a preservação mútua das partes pelo todo e a do todo pelas partes) faltava, portanto, na explanação gestaltista.

Disso eu concluí que era necessário diferenciar passos sucessivos de equilíbrios e integrar a procura pelos tipos de estruturas com uma aproximação mais genética.

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