Emilia Ferreiro – Internet na escola não resolve problemas, fabrica novos

Entrevista de Simone Iwasso com Emilia Ferreiro, psicolingüista argentina.
Fonte: http://txt.estado.com.br/editorias/2006/10/23/ger-1.93.7.20061023.13.1.xml


Discípula de Piaget diz que escola ainda não ensina os alunos a se orientarem no meio das possibilidades quase infinitas da web

Discípula do psicólogo suíço Jean Piaget, a psicolingüista argentina Emilia Ferreiro revolucionou nos anos 80 a alfabetização, ao sugerir uma nova maneira de entender como as crianças aprendem a ler e a escrever. Foi ela quem cunhou o termo “construtivismo”, nome da teoria que hoje, passados mais de 20 anos, é tida como a principal corrente do sistema educacional brasileiro. Aos 69 anos, empolgada com as possibilidades que as novas tecnologias oferecem, ela diz que faltou, no Brasil, pesquisa didática para aplicação da teoria. Apesar dos desvios, segundo ela, a educação está melhor do que antes, só por reconhecer que as crianças são ativas na alfabetização, e não apenas devem copiar e reproduzir o que os professores escrevem.

Atualmente é professora do Centro de Investigação e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional, na Cidade do México, onde mora. De passagem por São Paulo, para participar do Seminário Victor Civita de Educação, no início do mês, Emilia falou ao Estado sobre sua teoria, a dificuldade que a escola tem, ainda hoje, de lidar com a diversidade e as possibilidades da tecnologia na alfabetização.

Professores, pais e até alunos conhecem o termo construtivismo, adotado no Brasil pela maior parte das escolas. No entanto, cada um define a linha de uma maneira. Há uma dificuldade de compreensão?

A questão é que existe um passo intermediário entre a pesquisa de base, de natureza psicolingüística, e a aplicação pedagógica, que é a pesquisa didática. O que aconteceu aqui e em várias partes do mundo é que se fez uma aplicação antes da pesquisa de base. Foi por um bom motivo, porque a situação educacional no Brasil era insuportável. Nos anos 80, metade dos meninos repetiam a 1ª série. Parecia que eram todos incapazes de aprender. Sentiu-se que o construtivismo trazia novas idéias para mudar isso. Acredito que teve resultados positivos, apesar dos desvios. Foi bom pensar que as crianças podiam aprender, que antes de escrever corretamente, tinham modos de ler e escrever evolutivamente ordenados. Agora, é necessária a pesquisa didática para saber como usar na escola um saber teórico.

Apesar do esforço pela inclusão e respeito à diversidade, pesquisas apontam para um excesso de alunos agitados medicados sem necessidade, por exemplo. A escola não sabe lidar com a diferença?

O tema da medicalização está sendo uma catástrofe em todo o mundo. Não é um problema só brasileiro. Na Argentina, um grupo de pediatras e psicólogos estão preocupadíssimos com a quantidade de crianças medicadas. E é um problema sobretudo da escola particular. Essa é uma dificuldade que existe.

Por que a escola ainda não superou essa dificuldade?

Quando a escola foi criada, também havia muita diversidade. Mas foi uma diversidade negada. Todas as crianças deviam ter os mesmos direitos, aprender as mesmas coisas, da mesma maneira e falar a mesma língua. Quando se estabelece isso, a missão da escola é formar esse cidadão ideal, que deve saber certas coisas e falar de certa maneira. Hoje, a comunicação entre as diversidades, as possibilidades de encontro se multiplicaram exponencialmente. Não havia tanto encontro de diversidades antes, exceto em alguns lugares. Então, historicamente, a escola não foi criada para respeitar a diferença.

Com o computador, que chega também à rede pública, as crianças têm acesso a universos muito distintos, mas também a hipertextos, links, que fogem do padrão linear da leitura do livro. Isso influencia na alfabetização?

O computador quando é processador de texto é uma coisa, quando é internet é outra, chat é outra, e-mail é outra. Como processador de texto já é de uma utilidade pedagógica sensacional. Na escola tradicional, a revisão de texto é feita pela professora. Com os processadores de texto se pode socializar a revisão. Um dos objetivos da alfabetização é formar um produtor autônomo e para isso o computador é fantástico. É apaixonante como se pode instaurar desde o começo uma atitude de responsabilidade frente ao próprio texto, deixá-lo mais eficaz como mensagem para transmitir a outro. Se escrevo para uma diversidade de destinatários – outra vez a diversidade -, isso muda o texto, tenho de pensar o que digo em função de um interlocutor, e não de uma professora que só está interessada na ortografia. Isso tem repercussão cognitiva e no processo de socialização da criança.

E o contato com a internet?

Com a internet, o problema não é tanto ser linear ou não. O problema é o seguinte. Eu busco, acho um site, que tem um link para outro lugar, e dele vou para outro, e em pouco tempo já nem sei o que buscava. Sou um barco perdido no meio do mar sem porto de chegada. Uma das dificuldades é que cada opção abre outras opções. É muito fácil se perder e o desafio é manter o objetivo da busca diante de uma multiplicidade de opções. É uma coisa que a escola nunca ensinou. Outra coisa é que busco e aparecem cem opções, como escolho? Com que critérios seleciono? O problema da reação aos buscadores é que pensamos que existe alguém por trás que saiba tudo e me mostre tudo e me leve a tudo. E não é assim. Um dos problemas sérios é aprender a duvidar da internet, que nem sempre me traz o que busco. Para navegar eficientemente na internet é preciso ter uma série de atitudes novas, tomar decisões rápidas e extrair informação.

Mas a maneira de ler muda?

Não tem de ler como se ensinava antes na escola, começava do início e seguia até o fim da página. Isso é interessante, porque na internet, numa busca, é diferente, tem de ter critérios e selecionar, ler de todos os pontos. Uma coisa que se está discutindo seriamente são esses critérios de confiabilidade da internet. Nos objetos livro, revista e jornal, eu tenho critérios antes de começar a ler. A aparência do livro já me diz se é bem editado ou não. A quantidade de fotos e a distribuição de propaganda em uma revista ou jornal me dizem algo. E são objetos que há séculos circulam na sociedade, então temos tanta prática com eles que podemos dizer rapidamente de que tipo se trata. Agora, um site, se é de uma editora, eu transfiro para o site a confiabilidade que eu tinha à editora. Mas esses são a menor parte. Esse é um produto educativo muito sério. Desde que haja um tema polêmico, você vai encontrar uma multiplicidade de vozes na internet.

Qual a melhor maneira de lidar com essa falta de critérios?

Creio que ainda não sabemos como lidar com isso, porque tudo isso é muito novo para a escola. Ter internet na escola não resolve os problemas, fabrica novos, mas que são desafios interessantes. Para adolescentes, discutir junto com eles, colocá-los em busca dessas respostas, é uma situação que pode ser apaixonante, inclusive usando a experiência que eles já têm com a internet. É preciso saber enfrentar os problemas educativos novos que nos são colocados. A internet traz um novo tipo de diversidade à escola.

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