O mito da origem sensorial dos conhecimentos científicos – Piaget

Fragmento de: O mito da origem sensorial dos conhecimentos científicos
Autor: Jean Piaget
Fonte: PIAGET, Jean. Psicologia e epistemologia: Por uma teoria do conhecimento. Rio de Janeiro: Forense, 1973. pág. 69-93, capítulo 4. Publicação original em: Le mythe de l’origine sensorielle des connaissances scientifiques. Actes de la Société Helvéttique des Siences Naturalis, Neuchâtel, 1957. Versão brasileira traduzida de: Psychologie et épistémologie: pour une théorie de la connaissance. Paris: Gonthier/Denoël, 1970.

O cuidado que se consagra em verificar certas opiniões é por vezes inversamente proporcional a sua força de propagação, porque, considerando-as globalmente, parecem evidentes e pricipalmente, porque, transmitindo-se, beneficiam-se da autoridade de número crescente de autores. Em seguida a Aristóteles e aos empiristas de múltiplas variedades, tornou-se lugar-comum na maioria dos círculos científicos sustentar que todo o conhecimento provém dos sentidos e resulta de uma abstração a partir dos dados sensoriais. Um dos raros físicos que fez questão em apoiar esta tese em fatos, E. Mach, em seu Analyse des Sensations, chegou mesmo a considerar o conhecimento físico como um puro fenomenismo perceptivo (cuja recordação pesou em toda a história do Círculo de Viena e do empirismo lógico).

Este mito (se assim podemos chamar as opiniões às quais uma adesão colectiva muito coercitiva retirou o benefício das verificações precisas) influenciou mesmo certos matemáticos, num domínio onde a sensação nada tem, entretanto, nada a fazer. Por exemplo, o grande D’Alembert atribuía aos sentidos a gênese das noções aritméticas e algébricas e começou por considerar os números negativos menos inteligíveis que os positivos, uma vez que não correspondem a nada de sensível. Depois do que concedeu-lhes uma inteligibilidade igual, enquanto traduzem um “ausência” [Nota de rodapé: Sobre as opiniões de d’Alembert, ver M. Muller, La Philosophie de J. d’Alembert. Payot Paris.], mas sem perceber o fato de que a dupla presença-ausência se refere à ação inteira e não mais à simples sensação. Em nossos dias, F. Enriques ainda pretendia explicar a formação dos diversos tipos de geometria (métrica, projetiva, topológica) pela predominância destas ou daquelas formas de sensações (cinestésicas, visuais, etc.).

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O texto integral encontra-se disponível na fonte indicada acima.


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