Eu me inscrevo, me descrevo: escrevendo em mim

Autores: Diana Corso e Mario Corso, Psicanalistas.
Título: Eu me inscrevo, me descrevo: escrevendo em mim
Fonte: Publicado na Revista Pátio Ensino Médio, Editora Artmed, abril/2009. E também em http://www.marioedianacorso.com/Juntos/comp/Eumein.htm

O hábito de enfeitar o próprio corpo com cicatrizes e pigmentos é trans-cultural e milenar, e agora é moda juvenil no mundo globalizado. As tatuagens, que costumavam ser de uso eventual na população em geral, e de uso massivo apenas em grupos marginais e de instituições fechadas, ganharam um novo e amplo público nessas últimas duas décadas. Os piercings acompanharam a tendência, e em menor escala, mas nessa mesma direção, as escarificações para fins decorativos e os implantes subcutâneos.

É difícil fazer interpretações generalizadoras quanto à disseminação dessas formas de uso da superfície corporal, no entanto, acreditamos que certas linhas de força podem ajudar a entender o fenômeno. Analisaremos aqui três tendências que nos aproximam da compreensão do crescimento da importância das marcas corporais: consideramos a tatuagem como uma forma de inscrição na pele de conteúdos que resistem a penetrar no interior do sujeito; acreditamos também que a pele demarcada pelo seu dono constitui uma forma de fazer resistência ao olhar invasivo dos outros, da sociedade, que hoje nos impõe transitar com os corpos perfeitos e seminus; além disso, as dificuldades de crescimento dos jovens, amarrados por décadas à casa paterna, criam a necessidade de colocar no próprio corpo algum limite a esse amor que não se descola deles; enfim, trata-se de diferentes tentativas de demarcação de uma identidade, no limiar da pele.

Para não esquecer

A experiência clínica nos mostra que inúmeras tatuagens portam uma significação, porém, seu significado e sua relação com o sujeito são múltiplos. Pode ser uma significação consciente, mas que pede um apoio real, por exemplo, um luto em que a pessoa tatua um nome ou um signo que remete ao falecido, ou mais enigmática, como símbolos evocativos de virilidade, de feminilidade ou ainda de filiação, algo que necessita ser visível e óbvio, ou pode até representar um conteúdo traumático.

Aqui a dificuldade de assimilar algo, que chega a beirar o impossível em alguns casos, é ajudada por uma marca corporal. O medo de esquecer faz com que se use um signo indelével, e fica-se sem chance de perder essa memória. Se algo não consegue entrar, se não temos um lugar para tal fato, é melhor que fique na borda do que em lugar nenhum. O que é comum entre esses casos é que se trata duma significação difícil, e a marca corporal é tanto uma tentativa de simbolização como uma resistência a isso. Ficando no limite da pele, as tatuagens corporais penetram, alteram a superfície, mas pouco se aprofundam. Embora passem a fazer parte da imagem, portanto do sujeito, os conteúdos representados pelas marcas corporais, quer sejam lembranças, sentimentos, inseguranças ou questões pendentes, não habitam o interior do seu portador, como um pensamento o faria, ocupando sua mente. Eles estão sempre lá, mas não passam da porta, sendo assim resistentes à significação, tanto quanto insistentes em sua presença.

Como exemplo de algo que não se quer nem pode esquecer, podemos citar a história de uma menina órfã precoce de pai que tatuou um ideograma que ela dizia significar “amor”. Não foi necessário ir muito longe em sua análise para que ela evocasse o nome de seu pai “Omar”, do qual a palavra é um anagrama, e de quem não queria esquecer. Da mesma forma, podemos refletir sobre um rapaz que tatuou um enorme dragão que envolve o símbolo do seu time, tomando emprestado da sua filiação futebolística uma garra e virilidade que não vê no próprio pai.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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