Uma melancolização do laço social?

Autor: Olivier Douville
Título: Uma melancolização do laço social?
Fonte: http://www.scielo.br/pdf/agora/v7n2/v7n2a01.pdf

RESUMO: Interrogando-se sobre as vizinhanças epistêmicas entre antropologia e psicanálise, o autor expõe em os procedimentos de instituição do Terceiro e do interdito estão em crise nas modernidades, com as conseqüências clínicas desta crise. O trabalho sobre o laço social, sua melancolização, permitiria reatar os fios do diálogo e dos encontros entre antropólogos e psicanalistas.

PALAVRAS-CHAVE: Psicanálise, antropologia, laço social.

A hipótese de que o laço social contemporâneo podia se melancolizar no concreto da vida dos sujeitos foi vislumbrada por mim desde o verão de 1988, a partir de uma temporada de estudos sobre a “psiquiatria comunitária” na ilha da Reunião. Foi na ocasião do colóquio “A esperança transcultural”, quando fui convidado por seus dois principais organizadores a refletir sobre a figura do estrangeiro em Freud e sobre as incidências subjetivas das situações de bilingüismo.

Na metrópole ou na ilha, estas duas temáticas estão articuladas, mas na ilha esta articulação é ainda mais forte. Os laços insulares da Reunião não têm nada de muito exótico. A sua tendência a serem bastante permeáveis à questão fundamental da exclusão e da inclusão, os usos discriminantes das superfícies de projeção das legitimidades e dos poderes que desenham e definem os bilingüismos são também análogos às transformações culturais que se produzem hoje nas sociedades multiétnicas mais amplas. Esta ilha do oceano Índico foi para mim um “campo” rico em problemáticas devido à sua relação violenta e possessiva — às vezes vergonhosa — com a língua crioula, língua “materna” da maioria, dado também a sua influência nas afasias devastadoras de um discurso colonial, e em razão, ainda, de seus laços apaixonados e intrincados com o passado e com os estratos de migrações que compõem a sua população.

O quadro pós-colonial de neutralização se funda em mecanismos pelos quais os sujeitos são privados de memória e de língua. O ponto de partida que este artigo propõe faz valer um paralelo que parecerá rude entre estas situações póscoloniais e as incidências subjetivas das atuais globalizações em escala planetária. O discurso que autoriza tal provocação é sustentado pela minha posição de analista clínico. Com efeito, vários pacientes que não têm muito a ver com esta quimera do paciente padrão, que deseja conduzir de modo satisfatório um tratamento até o fim, vêm ao encontro de analistas para dizer, enredar e desenredar as relações entre melancolização da história e melancolização do sujeito, entre trauma histórico e acidente singular. A situação psicanalítica não é mais, então, o dispositivo que permite a emergência do elemento recalcado, mas também a ocasião na qual se dizem enfim as palavras banidas e os significantes da filiação que foram atacados pelas violências da história. Um trabalho prévio com certos sujeitos consiste em vencer este desespero singular com relação à palavra. A neutralidade aqui seria a neutralização, se o psicanalista se reduzisse a encarnar de modo obstinado a figura do Outro que nada poderia emocionar ou impressionar. Sujeitos em melancolização de laço foram, em sua história, vivida ou herdada, confrontados com esta figura da onipotência, figura que nenhum grito, nenhuma formulação de excesso poderia fazer reagir.

É justamente um programa de pesquisa e de trabalho submetido à sua urgência e ao mais preciso da sua articulação que poderia ser proposto: pensar o laço entre o estatuto da palavra em nossas modernidades e os modos segundo os quais alguns de nossos analisandos, freqüentemente de passagem, em errância ou em exclusão, utilizam a situação psicanalítica para reviver, ou mesmo inventar uma prova: a de retomar o gosto pelos poderes da palavra.

Há alguns anos, sou cada vez mais conduzido a dialogar com antropólogos e sociólogos. Devo isto, em primeiro lugar, àqueles, dentre meus pacientes, que vinham de horizontes culturais distintos da nossa ocidental modernidade — embora, provavelmente, não viessem de outros horizontes políticos. Tentei então formalizar as condições que permitissem que a oferta da escuta e do cuidado psicanalíticos, oferta que, em vários aspectos, parece absolutamente localizada do ponto de vista cultural, possa entretanto abrigar migrantes, refugiados (e seus filhos). Estes pacientes desejavam, como vários de seus compatriotas, demandar e encontrar escuta e cuidado, para além dos dispositivos propostos pelos “tradiclínicos” (ou por seus imitadores etnopsiquiatras). Não foi então uma constatação de impotência da situação psicanalítica em escutar e ajudar pacientes vindos de outros horizontes culturais que não o de seu terapeuta que me conduziu a trabalhar com a antropologia.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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