{"id":102,"date":"2008-06-11T16:46:33","date_gmt":"2008-06-11T19:46:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=102"},"modified":"2008-11-10T15:09:10","modified_gmt":"2008-11-10T18:09:10","slug":"educacao-artistica","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/educacao-artistica\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica e a psicologia da crian\u00e7a &#8211; Piaget"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autor:<\/strong> <em>Jean Piaget<\/em><\/p>\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: <\/strong>A tradu\u00e7\u00e3o do texto a seguir, realizada pela aluna Gisele de C\u00e1ssia Fleck     (matr\u00edcula 0853\/81-6), \u00e9 fruto de uma atividade volunt\u00e1ria proposta na     disciplina Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o II e destina-se aos estudos desenvolvidos     nessa disciplina. Supervis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o: Paulo Francisco Slomp.<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong> PIAGET, Jean. L&#8217;Education Artistique et la Psychologie de     L&#8217;Enfant. in <span style=\"text-decoration: underline\">Art et Education<\/span>: recueil d&#8217;essais. Paris: Unesco,     1954. P\u00e1g. 22-23.<\/p>\n<p>Dois fatos paradoxais s\u00e3o capazes de espantar as pessoas habituadas a     observar o desenvolvimento das fun\u00e7\u00f5es mentais e das aptid\u00f5es na     crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O primeiro dos fatos consiste em que, freq\u00fcentemente, a crian\u00e7a pequena     parece melhor dotada do que a crian\u00e7a de mais idade, nos dom\u00ednios do     desenho, da express\u00e3o simb\u00f3lica (representa\u00e7\u00f5es pl\u00e1sticas, pap\u00e9is     representados nas cenas coletivas organizados espontaneamente, etc.) e por     vezes na m\u00fasica. Quando se estuda as fun\u00e7\u00f5es intelectuais ou os sentimentos     sociais contata-se um progresso mais ou menos continuado, enquanto que no     dom\u00ednio da express\u00e3o art\u00edstica, ao contr\u00e1rio, a impress\u00e3o freq\u00fcente \u00e9 de um     recuo.<\/p>\n<p>O segundo fato (e que se reduz em parte ao primeiro) consiste em que \u00e9     muito mais dif\u00edcil estabelecer est\u00e1gios regulares de desenvolvimento no     caso das tend\u00eancias art\u00edsticas do que no caso das outras fun\u00e7\u00f5es     mentais.<\/p>\n<p>Qualquer destas observa\u00e7\u00f5es conduzem a uma conclus\u00e3o evidente: a crian\u00e7a     pequena come\u00e7a espontaneamente a exteriorizar sua personalidade e suas     experi\u00eancias inter-individuais gra\u00e7as aos diferentes meios de express\u00e3o que     est\u00e3o a sua disposi\u00e7\u00e3o: desenho e a modelagem, o simbolismo do jogo, a     representa\u00e7\u00e3o teatral (que procede imperceptivelmente do jogo simb\u00f3lico     coletivo), do canto, etc.; mas que, sem uma educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica apropriada     que consiga cultivar estes meios de express\u00e3o e encorajar as primeiras     manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, a a\u00e7\u00e3o do adulto e os constrangimentos do meio     familiar ou escolar tendem em geral a freiar ou contrapor-se \u00e0s tend\u00eancias     art\u00edsticas ao inv\u00e9s de enriquec\u00ea-las.<br \/>\nO problema psicol\u00f3gico, ou melhor, os dois principais problemas     psicol\u00f3gicos da educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica s\u00e3o portanto compreender, em primeiro     lugar, a quais necessidades fundamentais correspondem as manifesta\u00e7\u00f5es     iniciais da express\u00e3o est\u00e9tica infantil e, em segundo lugar, qual a     natureza dos obst\u00e1culos que surgem ordinariamente no curso da evolu\u00e7\u00e3o     ulterior.<\/p>\n<p>Sobre o primeiro desses pontos estamos relativamente bem esclarecidos. O     estudo do jogo infantil e especialmente no jogo simb\u00f3lico (habitualmente     chamado jogo de faz-de-conta) mostra, com efeito, que o pensamento e a vida     afetiva da crian\u00e7a s\u00e3o orientadas por dois p\u00f3los opostos.<\/p>\n<p>Existe, de uma lado, a realidade material ou social \u00e0 qual a crian\u00e7a     deve adaptar-se e que lhe imp\u00f5e suas leis, regras e meios de express\u00e3o: \u00e9 a     essa realidade que se submetem os sentimentos sociais e morais, o     pensamento conceitual ou socializado, com os meios coletivos de express\u00e3o     constitu\u00eddos pela linguagem, etc. Mas existe, de um outro lado, aquilo que     \u00e9 vivido pelo eu: os conflitos, os desejos conscientes ou inconscientes, as     preocupa\u00e7\u00f5es, alegrias e inquietude e s\u00e3o as realidades individuais,     freq\u00fcentemente inadaptadas e sempre inexprim\u00edveis somente pelos     instrumentos coletivos de comunica\u00e7\u00e3o, que requerem uma forma particular de     express\u00e3o. Ora, o jogo simb\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 outra coisa que n\u00e3o o procedimento     de express\u00e3o, criado quase que totalmente por cada sujeito individual,     gra\u00e7as ao emprego de objetos representativos e de imagens mentais que,     ambos, complementam a linguagem. Suas fun\u00e7\u00f5es essenciais s\u00e3o permitir a     realiza\u00e7\u00e3o dos desejos, a compensa\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao real, a livre     satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades subjetivas e, enfim, uma expans\u00e3o t\u00e3o completa     quanto poss\u00edvel do pr\u00f3prio &#8220;eu&#8221;, enquanto que distinto da realidade     material ou social.<\/p>\n<p>As primeiras manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas do que se pode chamar de arte     infantil devem tamb\u00e9m ser vistas como tentativas sucessivas de concilia\u00e7\u00e3o     entre as tend\u00eancias pr\u00f3prias do jogo simb\u00f3lico (ainda que n\u00e3o se constitua     em arte em sentido restrito) e aquelas tend\u00eancias que caracterizam as     formas adaptadas de atividade, ou se preferirmos, como a s\u00edntese entre a     express\u00e3o do eu e a submiss\u00e3o ao real. Quer no jogo de constru\u00e7\u00f5es, quer     nas representa\u00e7\u00f5es teatrais, etc., a crian\u00e7a procura simultaneamente     satisfazer seus desejos e adaptar-se aos objetos e a outros sujeitos. Em     certo sentido ela continua a se expressar, mas tamb\u00e9m ensaia inserir o que     pensa e o que sente no mundo de realidades objetivas e comunic\u00e1veis que     constituem o universo material e social.<\/p>\n<p>De onde vem ent\u00e3o o obst\u00e1culo que freq\u00fcentemente esteriliza as primeiras     tentativas e \u00e0s vezes as interrompe completamente &#8212; ao menos at\u00e9 o novo     impulso de express\u00e3o est\u00e9tica que marca a adolesc\u00eancia &#8211; quando eles     deveriam desenvolver-se de modo cont\u00ednuo? \u00c9 um caso particular desse     fen\u00f4meno geral que caracteriza infelizmente o sistema tradicional de     educa\u00e7\u00e3o e ensino. Do ponto de vista intelectual a escola imp\u00f5e muito     freq\u00fcentemente o conhecimento pronto no lugar de encorajar a pesquisa: mas     isso se percebe pouco porque os alunos repetem o que aprenderam apenas para     obter um rendimento positivo, sem que se suspeite quantas atividades     espont\u00e2neas ou de fecunda curiosidade foram sufocadas. Pelo contr\u00e1rio, no     dom\u00ednio art\u00edstico normalmente nada substitui o que a press\u00e3o adulta amea\u00e7a     destruir irremediavelmente, colocando em grande evid\u00eancia a exist\u00eancia de     um problema que engloba todo nosso sistema usual de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eis porque \u00e9 conveniente saudar como uma a\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo necess\u00e1ria     e libertadora todas as tentativas que visam reintroduzir nas disciplinas     escolares a vida est\u00e9tica, que a l\u00f3gica de uma educa\u00e7\u00e3o baseada na     autoridade intelectual e moral leva a eliminar totalmente ou ao menos     reduzir.<\/p>\n<p>Mas, aqui novamente &#8212; mais que em outros campos &#8212; \u00e9 necess\u00e1rio evitar     a tenta\u00e7\u00e3o que amea\u00e7a cada vez que uma nova mat\u00e9ria \u00e9 introduzida na     escola: a educa\u00e7\u00e3o art\u00edstica deve ser, antes de tudo, a educa\u00e7\u00e3o da     espontaneidade est\u00e9tica e da capacidade de cria\u00e7\u00e3o cuja presen\u00e7a \u00e9     manifesta na crian\u00e7a pequena; e ela n\u00e3o pode, menos ainda que outras formas     de educa\u00e7\u00e3o, se contentar com a transmiss\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o passiva de uma     verdade ou de um ideal totalmente elaborado: a beleza, como a verdade,     somente tem valor quando recriada pelo sujeito que a conquista.<\/p>\n<hr \/>\n<p><font size=\"1\">Compare pre\u00e7os de livros de <a href=\"http:\/\/compare.buscape.com.br\/categorias?id=3482&amp;c=0&amp;raiz=3482ens=0&amp;kw=piaget&amp;lkout=1&amp;site_origem=1165663\" target=\"_blank\">Jean Piaget<\/a><\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Jean Piaget Tradu\u00e7\u00e3o: A tradu\u00e7\u00e3o do texto a seguir, realizada pela aluna Gisele de C\u00e1ssia Fleck (matr\u00edcula 0853\/81-6), \u00e9 fruto de uma atividade volunt\u00e1ria proposta na disciplina Psicologia da Educa\u00e7\u00e3o II e destina-se aos estudos desenvolvidos nessa disciplina. Supervis\u00e3o da tradu\u00e7\u00e3o: Paulo Francisco Slomp. Fonte: PIAGET, Jean. 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