{"id":1112,"date":"2008-08-29T12:43:21","date_gmt":"2008-08-29T15:43:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=1112"},"modified":"2008-11-10T14:55:33","modified_gmt":"2008-11-10T17:55:33","slug":"contingencias-para-a-analise-comportamental-no-brasil","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/contingencias-para-a-analise-comportamental-no-brasil\/","title":{"rendered":"Conting\u00eancias para a an\u00e1lise comportamental no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autora: <\/strong><em>Maria Amelia Matos<\/em> &#8211; USP &#8211; Instituto de Psicologia<br \/>\n<strong>Origem: <\/strong>Psicol. USP vol.9 n.1 S\u00e3o Paulo 1998<br \/>\nVers\u00e3o modificada de artigo originalmente publicado em Psicologia: Teoria e Pesquisa, v.12, n.2, p.107-111, 1996.<br \/>\n<strong>Fonte: <\/strong><a href=\"http:\/\/www.cemp.com.br\/novo\/corpo.asp?id=13&amp;cod=103&amp;tipo=9\">http:\/\/www.cemp.com.br\/novo\/corpo.asp?id=13&amp;cod=103&amp;tipo=9<\/a><\/p>\n<p>O exerc\u00edcio da An\u00e1lise Comportamental no Brasil iniciou-se em 1961 com as aulas do Prof. Keller na Universidade de S\u00e3o Paulo. Em 1959, uma misteriosa Mirtes Rodrigues do Prado, freq\u00fcentando as aulas do Prof. Keller na Columbia University, e encantada com o que ouvia, levantou a possibilidade dele ministrar cursos no Brasil. Durante o ano de 1960 o Prof. Paulo Sawaya, professor titular de Fisiologia e ent\u00e3o Diretor da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da Universidade de S\u00e3o Paulo, efetivou essa possibilidade atrav\u00e9s de um convite formal ao Prof. Keller.<\/p>\n<p>Em Fevereiro de 1961 o Prof. Keller chega ao Brasil acompanhado de Mrs. Frances Keller, que se tornaria a indispens\u00e1vel Dona Frances, grande amiga de todos n\u00f3s e fortaleza do Prof. Keller. Foi recebido no aeroporto pelo pr\u00f3prio Dr. Sawaya, pelo novo Diretor, o Prof. M\u00e1rio Guimar\u00e3es Ferri, e por uma professora assistente da Cadeira de Psicologia (naquele tempo n\u00e3o existiam &#8220;departamentos&#8221;), a Dra. Carolina Martuscelli Bori. Estes fatos s\u00e3o relatados com muito mais sabor e humor pelo pr\u00f3prio Prof. Keller (1977).<\/p>\n<p>No primeiro semestre desse mesmo ano ele ministrou duas disciplinas, as aulas eram dadas em uma sala do pr\u00e9dio da Fisiologia, na ent\u00e3o semi-deserta e completamente isolada Cidade Universit\u00e1ria &#8220;Armando de Salles Oliveira&#8221;. As disciplinas eram optativas e versavam, uma, sobre t\u00f3picos em Psicologia Comparada e Animal e outra, sobre Hist\u00f3ria da Psicologia. N\u00f3s, os alunos pertenc\u00edamos \u00e0 primeira turma de formandos em Curso de Gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia no Brasil. O curso fora uma colcha de retalhos e procur\u00e1vamos, ainda ao seu final, alguma justificativa para sua exist\u00eancia: com a exce\u00e7\u00e3o de alguns poucos professores, parecia-nos que tudo que aprend\u00earamos poder\u00edamos t\u00ea-lo feito lendo alguns poucos e desatualizados livros. O impacto das aulas do Prof. Keller foi grande: ele discutia id\u00e9ias e fatos; e n\u00e3o somente propostas te\u00f3ricas derivadas de cr\u00edticas de outras tantas teorias, que por sua vez tamb\u00e9m se derivavam de outras teorias etc.,etc..<\/p>\n<p>Em suas aulas de Psicologia Comparada e Animal discutia o conceito de comportamento animal, as mudan\u00e7as ocorridas nesse conceito ao longo da evolu\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Psicologia, como essas mudan\u00e7as dependiam da intera\u00e7\u00e3o da Psicologia com outras ci\u00eancias\/com a Filosofia\/com a pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de Homem. Mais importante, nos mostrava os m\u00e9todos decorrentes destas posi\u00e7\u00f5es e os estudos realizados com esses m\u00e9todos, fazendo-nos discutir suas dificuldades e seus avan\u00e7os. A disciplina de Hist\u00f3ria da Psicologia na realidade era um estudo sobre a hist\u00f3ria do reflexo. Ap\u00f3s passar rapidamente por Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, ele se detinha longamente em Descartes, sua grande paix\u00e3o, e terminava com os estudos dos grandes fisi\u00f3logos ingleses dos s\u00e9culos XVIII e XIX. Somente na disciplina de Psicologia Experimental, j\u00e1 no segundo semestre, ele mencionaria Pavlov, Watson, Skinner e, a contragosto, Thorndike. O conte\u00fado de seu curso em Hist\u00f3ria resultou posteriormente em um artigo publicado no Brasil em 1964.<\/p>\n<p>As aulas eram expositivas, em ingl\u00eas, e extremamente dif\u00edceis de acompanhar, tanto pela l\u00edngua como pelo tema, mas principalmente pela aus\u00eancia de material bibliogr\u00e1fico. Seu primeiro assistente, o Prof. Rodolpho Azzi, ao mesmo tempo que estudava intensamente para o curso do segundo semestre, montava uma pequena biblioteca que chegava (aos poucos) com a bagagem dos Kellers; montava tamb\u00e9m um laborat\u00f3rio de pesquisa com o equipamento da Grason-Stadler (que ningu\u00e9m sabia como funcionava, pois, afinal, n\u00e3o se podia esperar que psic\u00f3logos entendessem de rel\u00eas e circuitos el\u00e9tricos); e, mais importante ainda, criava do nada um laborat\u00f3rio de ensino, a ser utilizado no segundo semestre.<\/p>\n<p>Rodolpho Azzi era um poeta (adjetivo que ele atribu\u00eda a seu amigo Fred Keller). Formado em Filosofia na Maria Ant\u00f4nia, lecionava Psicologia Educacional na Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto (interior de S\u00e3o Paulo), onde pregava a revolu\u00e7\u00e3o. Sabe-se l\u00e1 como, chegara a suas m\u00e3os um pequeno livro The Definition of Psychology: an Introduction to Psychological Systems (Keller, 1937) escrito por um psic\u00f3logo americano desconhecido, Fred Simmons Keller. Encantado com o livro e com suas id\u00e9ias, Rodolpho traduzira extensos trechos que usava em suas aulas. Sabedora do fato a Profa. Carolina, quando consultada pelo Prof. Sawaya, indicara sem hesitar o nome de Rodolpho para o cargo de primeiro assistente.<\/p>\n<p>Desde o princ\u00edpio Carolina foi a grande ben\u00e9fica presen\u00e7a intermediando contatos com a administra\u00e7\u00e3o, conseguindo as condi\u00e7\u00f5es para a libera\u00e7\u00e3o de equipamentos e livros na alf\u00e2ndega, verbas para material de custeio e\/ou compra de equipamento, levando os Kellers pelo Brasil afora para apresenta\u00e7\u00f5es em congressos, participa\u00e7\u00e3o breve em cursos, ministra\u00e7\u00e3o de confer\u00eancias, participa\u00e7\u00e3o em debates e, de modo geral, espalhando os princ\u00edpios e o m\u00e9todo da An\u00e1lise Experimental do Comportamento no Brasil.<\/p>\n<p>As instala\u00e7\u00f5es do Prof. Keller localizavam-se no segundo andar do pr\u00e9dio do Departamento de Fisiologia na Cidade Universit\u00e1ria: uma grande sala de cerca de 80 m2 onde se localizavam mesas com as primeiras caixas de condicionamento operante constru\u00eddas no Brasil (mais sobre isso logo a seguir), uma estante com ratos brancos &#8211; nossos sujeitos e amigos &#8211; e uma escrivaninha para os assistentes; ao lado, em anexo, uma pequena sala com uma escrivaninha para o Prof. Keller, duas estantes com livros e separatas que ele trouxera dos EUA, e o &#8220;equipamento americano&#8221;. Durante este primeiro semestre nossas atividades no laborat\u00f3rio consistiam em ler aceleradamente todo o material dispon\u00edvel; discutir detalhadamente, em geral com o Rodolpho, o livro Principles of Psychology (ou, como o cham\u00e1vamos o &#8220;K &amp; S&#8221;), de Keller e Schoenfeld (1950) realizar todas as experi\u00eancias de laborat\u00f3rio poss\u00edveis com o equipamento existente; montar tabelas e gr\u00e1ficos com os resultados dos exerc\u00edcios; e discutir esses resultados com o Prof. Keller. Al\u00e9m de Rodolpho, Carolina e eu, duas alunas, Maria In\u00eas Rocha e Silva e Dora Selma Ribeboim Fix participavam tamb\u00e9m dessas atividades. A old gang como \u00e9ramos chamados pelo Prof. Keller estava formada: Rodolpho, Carolina, eu, Maria In\u00eas e Dora (embora eu tenha minhas d\u00favidas se o Prof. Keller n\u00e3o incluiria tamb\u00e9m o Seu Chico da cantina como um membro honor\u00e1rio).<\/p>\n<p>Rodolpho havia improvisado um pequeno laborat\u00f3rio did\u00e1tico com quatro ou cinco unidades de &#8220;caixas de Skinner&#8221;, e que na verdade funcionava muito bem. Adaptara, a uma das paredes de gaiolas comuns de passarinho, placas de metal com uma perfura\u00e7\u00e3o redonda no meio. Por essa perfura\u00e7\u00e3o passava uma vareta de metal de cerca de 30 cm de comprimento, dobrada numa das extremidades como se fora um cabo de guarda-chuva. Cerca de 10 cm da extremidade reta da vareta entravam pela perfura\u00e7\u00e3o da placa de metal, enquanto a extremidade curva ficava do lado de fora da gaiola. Quando a parte reta da vareta (&#8220;a barra&#8221;) era deslocada para baixo, a parte curva deslocava-se para cima e batia na placa met\u00e1lica produzindo o &#8220;barulho do bebedouro&#8221;.<\/p>\n<p>Trabalh\u00e1vamos sempre em dupla: o experimentador controlava as conting\u00eancias, registrava o tempo e as respostas e dava ordens ao &#8220;bebedouro&#8221;. O &#8220;bebedouro&#8221; era o outro membro do par: com uma pequena cuba com \u00e1gua e uma pipeta de vidro &#8220;refor\u00e7ava&#8221; os deslocamentos da barra introduzindo a pipeta (devidamente molhada) na caixa, ao alcance do rato. Lembro-me at\u00e9 hoje da sensa\u00e7\u00e3o, forte e doce, de que, da\u00ed por diante, aprenderia n\u00e3o apenas lendo nos livros, mas realizando o que esses livros diziam, e eventualmente podendo at\u00e9 a vir a realizar coisas n\u00e3o escritas!<\/p>\n<p>Apesar de doutora titulada, docente em Rio Claro e na USP, Carolina assistia a todas as aulas e realizava todos os exerc\u00edcios de laborat\u00f3rio, elaborando cuidadosamente as tabelas, curvas e c\u00e1lculos solicitados. Nunca perdeu uma sess\u00e3o experimental! Eu sei, pois era seu &#8220;bebedouro&#8221;.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, at\u00e9 hoje na verdade, o problema de equipamento para uso did\u00e1tico permaneceu um entrave para o ensino da An\u00e1lise do Comportamento no Brasil. Carolina, que era Professora Titular da Cadeira de Psicologia Educacional na Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Rio Claro, e que l\u00e1 desejava introduzir o curso de Psicologia Experimental, encomendou a Andr\u00e9s Aguirre (um inventor muito criativo que se dedicava a construir aparelhos especiais para m\u00e9dicos ortopedistas) uma caixa prot\u00f3tipo, que reproduzisse as principais caracter\u00edsticas da caixa importada da Grason-Stadler. Contudo, al\u00e9m de caro, o prot\u00f3tipo constru\u00eddo apresentava alguns problemas de funcionamento de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o. Somente alguns anos depois o Prof. M\u00e1rio A. A. Guidi outro inventor criativo, factotum da Psicologia Experimental no Brasil, desenhou e construiu uma caixa experimental vi\u00e1vel, que, embora necessite de manuten\u00e7\u00e3o constante, tem sido, at\u00e9 agora, em Psicologia, no pa\u00eds, a \u00fanica pe\u00e7a de equipamento did\u00e1tico genuinamente de alcance nacional. Essa constru\u00e7\u00e3o, assim como de outros equipamentos a serem usados em outras \u00e1reas da Psicologia Experimental, s\u00f3 foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de Carolina, que montou um projeto encaminhado \u00e0 FAPESP, para financiar a pesquisa e constru\u00e7\u00e3o de tais prot\u00f3tipos. Com esses prot\u00f3tipos foi poss\u00edvel implantar o sonho de um curso de gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia que realmente envolvesse a atividade de laborat\u00f3rio com os alunos, em pr\u00e1ticas, demonstra\u00e7\u00f5es e exerc\u00edcios onde cada aluno tivesse seu equipamento para trabalhar e, principalmente, em que esse trabalho fosse em Psicologia, e n\u00e3o em \u00e1rea afins, como at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>No segundo semestre de 1961 o Professor Keller dedicou-se a aquilo para o que realmente viera, e para o que se preparara e nos preparara durante todo o primeiro semestre: a ministra\u00e7\u00e3o de um curso de Psicologia Experimental com conte\u00fado program\u00e1tico em An\u00e1lise Experimental do Comportamento e acompanhado de exerc\u00edcios pr\u00e1ticos de laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Em 1962, durante o primeiro semestre Rodolpho e eu enfrentamos sozinhos o curso de Psicologia Experimental: Rodolpho com a parte te\u00f3rica e eu com a parte pr\u00e1tica. Entre os alunos: Jo\u00e3o Cl\u00e1udio Todorov, Luiz Ot\u00e1vio Seixas de Queiroz, e Mar\u00edlia Ancona Lopez. Carolina e Rodolpho traduziam o livro rec\u00e9m publicado de Holland e Skinner, The Analysis of Behavior: A Program for Self-Instruction (1961), Carolina usava o texto em Rio Claro e eu, na Escola de Enfermagem da Faculdade de Medicina da USP. Depois, analis\u00e1vamos os &#8220;erros&#8221; dos alunos e descobr\u00edamos os erros dos autores\/tradutores (nunca aprendi tanto sobre o ensinar como naqueles dias).<\/p>\n<p>Em Julho, Maria In\u00eas, Dora e eu part\u00edamos para os EEUU e Gil Sherman chegava ao Brasil para dar continuidade ao trabalho do Prof. Keller. Os acontecimentos a partir da\u00ed est\u00e3o descritos em v\u00e1rios artigos do pr\u00f3prio Prof. Keller e seus colaboradores: o convite de Darcy Ribeiro a Carolina para implantar um curso inovador de Psicologia na Universidade de Bras\u00edlia e que serviria de modelo para os demais cursos em Ci\u00eancias Humanas naquela Universidade; as viagens de Carolina e Rodolpho aos Estados Unidos para estudarem projetos alternativos, comprarem livros e equipamentos, discutirem com educadores e pesquisadores; os in\u00fameros ser\u00f5es com o Prof. Keller em Englewood Cliffs, N.J., tomando very dry martinis (preparados por um especialista) e discutindo id\u00e9ias e projetos, sonhos e aspira\u00e7\u00f5es, caminhos e recursos; o retorno dos Kellers ao Brasil em 1964 para tentar o novo projeto de ensino em Bras\u00edlia; o golpe militar no pa\u00eds; a implanta\u00e7\u00e3o da ditadura; as cassa\u00e7\u00f5es de professores e, finalmente, a interven\u00e7\u00e3o na Universidade de Bras\u00edlia em Novembro de 1965; o fim de um sonho &#8230; (Bori, 1974; Keller, 1968, 1974; Keller, Bori &amp; Azzi, 1964).<\/p>\n<p>Mas a Hist\u00f3ria \u00e9 mais forte que o sonho e a Ci\u00eancia, que os quart\u00e9is.<\/p>\n<p>Em 1961, com os recursos de que disp\u00fanhamos, a realiza\u00e7\u00e3o de experimentos somente era poss\u00edvel com um animal por vez, e mesmo assim com o monitoramento cont\u00ednuo pelo experimentador. N\u00e3o havia formadores de pulso em quantidade suficiente, nem gerador de som, nem misturador de polaridade para choque el\u00e9trico, nem marcadores de passo, etc.. Estas conting\u00eancias determinaram que, nos primeiros estudos de laborat\u00f3rio, se estudassem vari\u00e1veis temporais bem como alguns esquemas b\u00e1sicos, esta \u00faltima op\u00e7\u00e3o perdurando por muito tempo entre nossos pesquisadores.<\/p>\n<p>Por outro lado, m\u00e1quinas de ensinar e textos programados eram a grande novidade nos EUA; o Prof. Keller deixara-nos uma vasta biblioteca sobre programa\u00e7\u00e3o de textos, t\u00ednhamos at\u00e9 encaminhado ao CRPE (Centro Regional de Pesquisas Educacionais) um projeto sobre o tema. Bras\u00edlia consolidaria estas conting\u00eancias. A proposta de Bras\u00edlia resultou, nos Estados Unidos, no PSI &#8211; The Personalised System of Instruction (Keller &amp; Sherman, 1974), e, no Brasil, na An\u00e1lise de Conting\u00eancias em Programa\u00e7\u00e3o de Ensino (Bori, 1974). Esta segunda op\u00e7\u00e3o marcou in\u00fameras gera\u00e7\u00f5es de analistas do comportamento &#8220;bedesianos&#8221; (isto \u00e9, que passaram pela p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Experimental quando esta era ministrada no famoso Bloco 10, sede do Departamento de Psicologia Experimental da USP, na Cidade Universit\u00e1ria). Esta op\u00e7\u00e3o representava uma maneira particular de Carolina considerar a programa\u00e7\u00e3o de ensino. Centrava-se na identifica\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise das diversas conting\u00eancias envolvidas nos diferentes objetivos de ensino, e na programa\u00e7\u00e3o de atividades que garantissem essas conting\u00eancias. Nesse sentido, realizava uma cuidadosa an\u00e1lise comportamental desses objetivos e realmente revolucionou n\u00e3o s\u00f3 o ensino em Psicologia Experimental, mas tamb\u00e9m em outras \u00e1reas, como a F\u00edsica, Qu\u00edmica, Engenharia, Arquitetura, etc. Eu diria mesmo que esta \u00eanfase particular que Carolina imprimiu ao M\u00e9todo Keller mudou-o radicalmente, de um m\u00e9todo para organizar um curso e ministrar aulas, em uma poderosa t\u00e9cnica de planejamento de condi\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>Essas duas primeiras e fortes condi\u00e7\u00f5es iniciais marcaram a pr\u00e1tica da An\u00e1lise do Comportamento no Brasil pelos pr\u00f3ximos quinze anos: pesquisa b\u00e1sica com animais e pesquisa aplicada, voltada para o ensino. A partir da\u00ed outros desdobramentos ocorreram e foram importantes.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70 um grupo de farmacologistas em Ribeir\u00e3o Preto come\u00e7ou a utilizar as t\u00e9cnicas operantes para o estudo do mecanismo de a\u00e7\u00e3o de drogas. V\u00e1rios profissionais come\u00e7aram a usar os princ\u00edpios de An\u00e1lise do Comportamento em suas interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e pedag\u00f3gicas. Uma firma dedicada exclusivamente \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o de textos programados foi instalada por professores de Psicologia, F\u00edsica e Qu\u00edmica em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A partir do j\u00e1 mencionado projeto, montado por Carolina e patrocinado pela FAPESP, foi iniciada a constru\u00e7\u00e3o de prot\u00f3tipos de equipamentos para o ensino da Psicologia Experimental: caixas de condicionamento operante, caixas de corrida de Mowrer, bancos \u00f3ticos, kits para teste de limiar visual e auditivo, etc. Com uma grande vis\u00e3o do futuro, com uma vontade inquebrant\u00e1vel de transformar a Psicologia em uma ci\u00eancia experimental, e com a habilidade e criatividade de M\u00e1rio Guidi, Carolina levou \u00e0 frente a id\u00e9ia de construir equipamentos nacionais para laborat\u00f3rios did\u00e1ticos em cursos de Psicologia. Em breve foi firmado um conv\u00eanio com o IBECC que assumiu a tarefa de reproduzir e construir esses prot\u00f3tipos. Manuais de laborat\u00f3rio para experimenta\u00e7\u00e3o com ratos e com pombos foram escritos.<\/p>\n<p>Gradualmente o ensino de Psicologia Experimental tornou-se quase que sin\u00f4nimo de ensino de An\u00e1lise Experimental do Comportamento e espalhou-se por todo o pa\u00eds; o Sistema Individualizado de Ensino tornou-se a maneira tradicional de ensinar nestes cursos e muitos estudos foram realizados por orientandos de Carolina para investigar aspectos espec\u00edficos dessa t\u00e9cnica. Docentes de outros cursos, a maioria treinados por ela, passaram a empregar esta mesma t\u00e9cnica no ensino de outras ci\u00eancias: F\u00edsica em S\u00e3o Paulo e Recife; Biologia em Salvador e Belo Horizonte; Matem\u00e1tica em S\u00e3o Paulo, Recife e Belo Horizonte; Engenharia e Arquitetura em S\u00e3o Paulo, Mogi das Cruzes, Recife, Salvador; e, mais recentemente, Inform\u00e1tica, em Salvador. Do mesmo modo, professores de Escolas T\u00e9cnicas de Segundo e Terceiro Grau em Curitiba, Salvador, Belo Horizonte, Bel\u00e9m, Rio Grande do Norte, e S\u00e3o Paulo adotaram esse m\u00e9todo de ensino, ap\u00f3s a passagem de Carolina pelo CENAFOR. V\u00e1rias escolas particulares de primeiro grau, bem como in\u00fameras institui\u00e7\u00f5es para treinamento de crian\u00e7as especiais tamb\u00e9m adotaram e continuam usando esse m\u00e9todo. Carolina sempre \u00e0 frente cuidando para que desvios n\u00e3o ocorressem, para que os princ\u00edpios fossem entendidos, para que novos desenvolvimentos fossem ousados.<\/p>\n<p>Em 1975 uma revista (Psicologia) foi criada por um grupo de analistas do comportamento que estudavam e trabalhavam no Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de S\u00e3o Paulo e, embora ela fosse dirigida para um p\u00fablico mais geral em Psicologia, em seus 15 anos de exist\u00eancia cerca de 70% de seus artigos foram relatos de pesquisa em An\u00e1lise do Comportamento. Em 1976 outra revista (Modifica\u00e7\u00e3o do Comportamento) foi criada pela Associa\u00e7\u00e3o de Modifica\u00e7\u00e3o do Comportamento (uma sociedade cient\u00edfica criada alguns anos antes por iniciativa de docentes da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo). Dedicada especificamente \u00e0 an\u00e1lise comportamental aplicada; essa revista circulou durante tr\u00eas anos e foi substitu\u00edda, em 1981, por outra publica\u00e7\u00e3o (Cadernos de An\u00e1lise do Comportamento), mais modesta do ponto de vista gr\u00e1fico e dirigida a um p\u00fablico mais amplo. Esta \u00faltima permaneceu ativa durante quatro anos.<\/p>\n<p>Um s\u00f3lido curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, com uma forte \u00eanfase em An\u00e1lise do Comportamento, existia na Universidade de S\u00e3o Paulo desde 1970. Outros foram criados, na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Campinas, SP, em 1972, e na Universidade de Bras\u00edlia, em 1974. Um excelente mestrado em Educa\u00e7\u00e3o Especial passou a ser oferecido na Universidade Federal de S\u00e3o Carlos, SP, a partir de 1980, e um mestrado em An\u00e1lise Comportamental passou a ser oferecido na Universidade Federal do Par\u00e1 em 1987. Cursos de especializa\u00e7\u00e3o em An\u00e1lise do Comportamento passaram a ser oferecidos regularmente na Universidade Estadual de Londrina, PR, e na Universidade de Caxias do Sul, RS. Todos estes sob a influ\u00eancia direta de Carolina que liderou e\/ou assessorou suas cria\u00e7\u00f5es (exceto os dois \u00faltimos levados a cabo por ex-orientandos seus).<\/p>\n<p>Durante a ditadura militar que tomava conta do pa\u00eds e sob as conseq\u00fcentes restri\u00e7\u00f5es pessoais, pol\u00edticas e econ\u00f4micas impostas a todos, os analistas do comportamento voltaram-se para o ensino e para a aplica\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, bem como para sua organiza\u00e7\u00e3o interna. Com a volta dos militares a seus quart\u00e9is e o cancelamento das restri\u00e7\u00f5es xen\u00f3fobas quanto a viagens para o exterior, quanto \u00e0 compra de livros estrangeiros, quanto \u00e0 vinda de professores de outros pa\u00edses, quanto \u00e0 importa\u00e7\u00e3o de equipamentos cient\u00edficos etc., as universidades ensaiaram renascer.<\/p>\n<p>Sob estas novas condi\u00e7\u00f5es mudan\u00e7as importantes ocorreram tamb\u00e9m na An\u00e1lise do Comportamento no Brasil. Estudos em esquemas e controle aversivo foram substitu\u00eddos por estudos com maior abrang\u00eancia conceitual, como iguala\u00e7\u00e3o; trabalhos com drogas deslocaram-se para estudos de toxicologia e nutri\u00e7\u00e3o; sujeitos infra-humanos cederam lugar a sujeitos humanos. Novas \u00e1reas de pesquisa b\u00e1sica emergiram: equival\u00eancia de est\u00edmulos, forma\u00e7\u00e3o de classes, comportamento governado por regras, variabilidade comportamental, comportamento verbal, mem\u00f3ria, transfer\u00eancia de fun\u00e7\u00f5es de est\u00edmulos, efeitos de hist\u00f3ria passada, linguagem, etc.. Analistas comportamentais no Brasil hoje estudam comportamentos do dia a dia com t\u00e9cnicas de laborat\u00f3rio: leitura, escrita, forma\u00e7\u00e3o de conceitos, aquisi\u00e7\u00e3o de habilidades matem\u00e1ticas e de interc\u00e2mbio social, instru\u00e7\u00f5es, etc.. O trabalho cl\u00ednico se tornou menos aplica\u00e7\u00e3o e mais pesquisa, e passou a subsidiar o trabalho de outros profissionais de sa\u00fade como psiquiatras, m\u00e9dicos, enfermeiras e administradores hospitalares. O trabalho na escola cedeu lugar ao trabalho na comunidade. A pesquisa te\u00f3rica cresceu enormemente, passando da an\u00e1lise de conceitos isolados ou revis\u00f5es de \u00e1rea, para estudos da evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e\/ou epistemol\u00f3gica de conceitos na obra de autores. A Associa\u00e7\u00e3o de Modifica\u00e7\u00e3o do Comportamento mudou seus objetivos e seu nome para Sociedade Brasileira de An\u00e1lise do Comportamento mas, por raz\u00f5es que n\u00e3o cabem aqui discutir, desapareceu. Todas essas transforma\u00e7\u00f5es foram acompanhadas de longe pelo Prof. Keller, sempre atento a nossas necessidades e abrindo seu lar para visitantes e estudantes, e de perto pela Profa. Carolina, batalhando junto a ag\u00eancias de fomento, criando cursos e revistas, abrindo espa\u00e7o em funda\u00e7\u00f5es e institui\u00e7\u00f5es de ensino, levando-nos a uma maior integra\u00e7\u00e3o com outras ci\u00eancias, nunca patrocinando organiza\u00e7\u00f5es excludentes, sempre insistindo em pesquisa, pesquisa e pesquisa.<\/p>\n<p>Atualmente os analistas do comportamento se encontram nas Reuni\u00f5es Anuais da Sociedade Brasileira de Psicologia (onde 25% de todas as comunica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas apresentadas o s\u00e3o por esses pesquisadores), bem como nos Encontros da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Psicoterapia e Medicina Comportamental (onde todos os trabalhos e comunica\u00e7\u00f5es s\u00e3o por profissionais e pesquisadores nesta \u00e1rea). N\u00e3o existem mais revistas cient\u00edficas espec\u00edficas em An\u00e1lise do Comportamento no Brasil, por\u00e9m 20% de todos os artigos publicados em Psicologia: Teoria e Pesquisa (prestigiosa revista publicada na Universidade de Bras\u00edlia) nos \u00faltimos 10 anos, foram escritos por analistas do comportamento. Na revista Temas em Psicologia, da Sociedade Brasileira de Psicologia, 26% dos artigos publicados desde sua recente cria\u00e7\u00e3o referem-se a trabalhos nessa \u00e1rea. Cada vez mais um n\u00famero maior de pesquisadores nessa \u00e1rea p\u00fablica artigos em revistas internacionais espec\u00edficas de \u00e1rea, bem como participa de eventos internacionais voltados para a An\u00e1lise do Comportamento.<\/p>\n<p>As conting\u00eancias introduzidas pelo Prof. Keller e mantidas por Dona Carolina continuam a frutificar.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><br \/>\nBORI, C.M. Developments in Brazil. In: KELLER, F.S.; SHERMAN, J.G. (Orgs.) PSI &#8211; The Keller Plan Handbook. Menlo Park, CA, W. A. Benjamin, 1974. p.65-72.<br \/>\nHOLLAND, J.G.; SKINNER, B.F. The Analysis of Behavior: a program for self-instruction. New York, McGraw-Hill, 1961. Traduzido por Rodolpho Azzi e Carolina M. Bori sob o t\u00edtulo A An\u00e1lise do Comportamento e publicado pela EPU em 1969.<br \/>\nKELLER, F.S. The definition of psychology: an introduction to psychological systems. New York, Appleton-Century-Crofts, 1937. Traduzido por Rodolpho Azzi sob o t\u00edtulo A defini\u00e7\u00e3o da Psicologia: uma introdu\u00e7\u00e3o aos sistemas psicol\u00f3gicos, e publicado pela EPU em 1974. [ Links ]<br \/>\nKELLER, F.S. Good-bye, Teacher &#8230; The Journal of Applied Behavior Analysis, v.1, n.1, p.79-89, 1968. Publicado tamb\u00e9m em Ci\u00eancia e Cultura, v.24, n.3, p.207-217, 1972.<br \/>\nKELLER, F.S. The history of PSI. In: KELLER, F.S.; SHERMAN, J.G. (Orgs.) PSI &#8211; The Keller Plan Handbook. Menlo Park, CA, W. A. Benjamin, 1974. p.6-13.<br \/>\nKELLER, F.S. An international venture in behavior modification. In: Summers and sabbaticals: selected papers on psychology and education. Champaign, Ill, Research Press, 1977. p.131-143.<br \/>\nKELLER, F.S.; BORI, C.M.; AZZI, R. Um curso moderno de Psicologia. Ci\u00eancia e Cultura, v.16, n.4, p.379-397, 1964.<br \/>\nKELLER, F.S.; SCHOENFELD, W.N. Principles of Psychology: a systematic text in the science of behavior. New York, Appleton-Century-Crofts, 1950. Traduzido por Rodolpho Azzi e Carolina M. Bori sob o t\u00edtulo Princ\u00edpios de Psicologia, publicado pela EPU em 1966.<br \/>\nKELLER, F.S.; SHERMAN, J.G. (Orgs.) PSI &#8211; The Keller Plan Handbook. Menlo Park, CA, W. A. Benjamin, 1974.<br \/>\nMATOS, M.A. Conting\u00eancias para a an\u00e1lise comportamental no Brasil: Fred S. Keller. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v.12, n.2, p.107-111, 1996.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora: Maria Amelia Matos &#8211; USP &#8211; Instituto de Psicologia Origem: Psicol. USP vol.9 n.1 S\u00e3o Paulo 1998 Vers\u00e3o modificada de artigo originalmente publicado em Psicologia: Teoria e Pesquisa, v.12, n.2, p.107-111, 1996. Fonte: http:\/\/www.cemp.com.br\/novo\/corpo.asp?id=13&amp;cod=103&amp;tipo=9 O exerc\u00edcio da An\u00e1lise Comportamental no Brasil iniciou-se em 1961 com as aulas do Prof. Keller na Universidade de S\u00e3o &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/contingencias-para-a-analise-comportamental-no-brasil\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Conting\u00eancias para a an\u00e1lise comportamental no Brasil&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1038,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"class_list":["post-1112","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1112"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1112\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2041,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1112\/revisions\/2041"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1038"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}