{"id":112,"date":"2008-06-11T16:53:27","date_gmt":"2008-06-11T19:53:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=112"},"modified":"2012-05-20T20:05:20","modified_gmt":"2012-05-20T23:05:20","slug":"chomsky-para-piaget","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/chomsky-para-piaget\/","title":{"rendered":"O debate entre Jean Piaget e Noam Chomsky, por Chomsky"},"content":{"rendered":"<p><strong>T\u00edtulo:<\/strong> A prop\u00f3sito das estruturas cognitivas e de seu desenvolvimento: uma resposta a Piaget<br \/>\n<strong>Autor:<\/strong> Noam Chomsky<br \/>\n<strong>Fonte:<\/strong> PIATELLI-PALMARINI, Massimo (org.). Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem: o debate entre Jean Piaget e Noan Chomsky. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1983. p\u00e1g. 50-73.<\/p>\n<p>Em seus interessantes coment\u00e1rios sobre a psicog\u00eanese do conhecimento e sua import\u00e2ncia epistemol\u00f3gica, Jean Piaget formula tr\u00eas pontos de vista gerais acerca do modo de aquisi\u00e7\u00e3o do conhecimento: empirismo, &#8216;pr\u00e9 &#8211; forma\u00e7\u00e3o&#8217; (&#8220;inatismo&#8221;) e seu pr\u00f3prio &#8220;construtivismo&#8221;. Ele qualifica muito justamente as minhas concep\u00e7\u00f5es como sendo, para usarmos os seus termos, uma forma de &#8220;inatismo&#8221;. Precisamente, o estudo da linguagem humana levou-me a considerar que uma capacidade de linguagem geneticamente determinada, a qual \u00e9 um componente do esp\u00edrito humano, especifica uma certa classe de &#8220;gram\u00e1tica humanamente acess\u00edveis&#8221;. A crian\u00e7a adquire uma dessas gram\u00e1ticas (de fato, um sistema de gram\u00e1ticas desse g\u00eanero, mas limitar-me-ei ao caso mais simples, ao caso ideal) a partir dos dados limitados que lhe s\u00e3o acess\u00edveis. No seio de uma certa comunidade ling\u00fc\u00edstica, crian\u00e7as cujas experi\u00eancias pessoais variam, adquirem gram\u00e1ticas compar\u00e1veis e largamente subdeterminadas pelos dados que lhes s\u00e3o acess\u00edveis. Pode-se considerar uma gram\u00e1tica, representada de uma maneira ou de outra no esp\u00edrito, como um sistema que especifica as propriedades fon\u00e9ticas, sint\u00e1ticas e sem\u00e2nticas de uma classe infinita de frases poss\u00edveis. A crian\u00e7a conhece a l\u00edngua assim determinada pela gram\u00e1tica que ela adquiriu. Essa gram\u00e1tica \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o de sua &#8220;compet\u00eancia intr\u00ednseca&#8221;. Em sua aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem, a crian\u00e7a desenvolve igualmente &#8220;sistemas de desempenho&#8221; para come\u00e7ar a usar esse saber (por exemplo, estrat\u00e9gicas de produ\u00e7\u00e3o e de percep\u00e7\u00e3o). O que se sabe a respeito das propriedades gerais dos sistemas de desempenho \u00e9 t\u00e3o escasso que s\u00f3 se pode especular sobre os fundamentos do seu desenvolvimento. Quanto a mim, emitirei a hip\u00f3tese de que, como para as gram\u00e1ticas, um sistema fixo e geneticamente determinado restringe severamente as formas que esses sistemas podem adotar. Por outro lado, postularei a id\u00e9ia de que an\u00e1lises an\u00e1logas poderiam ser comprovadamente fecundas a respeitos de outras estruturas cognitivas que se desenvolvem no homem.<\/p>\n<p>Contra essa concep\u00e7\u00e3o, Piaget apresenta dois argumentos fundamentais: (1) as muta\u00e7\u00f5es, pr\u00f3prias da esp\u00e9cie humana, que poderiam ter dado lugar \u00e0s estruturas inatas postuladas, s\u00e3o &#8220;biologicamente inexplic\u00e1veis&#8221;; (2) aquilo que pode ser explicado de acordo com a hip\u00f3tese das estruturas fixas inatas tamb\u00e9m pode ser perfeitamente explicado como sendo &#8220;o resultado &#8216;necess\u00e1rio&#8217; de constru\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da intelig\u00eancia sens\u00f3rio-motora&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Nenhum desses argumentos parece-me decisivo. Quanto ao primeiro, s\u00f3 o admito em parte. O desenrolar da evolu\u00e7\u00e3o est\u00e1, sem d\u00favida alguma &#8220;biologicamente inexplicado&#8221;. Mas n\u00e3o vislumbro qualquer raz\u00e3o para admitir a afirma\u00e7\u00e3o mais perempt\u00f3ria ainda, segundo a qual ele \u00e9 &#8220;biologicamente inexplic\u00e1vel&#8217;. Outro tanto pode ser dito dos \u00f3rg\u00e3os do corpo. O desenrolar de sua evolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 &#8220;biologicamente inexplicado'&#8221;. Podemos, post hoc, propor uma hip\u00f3tese sobre o modo como esse desenrolar poderia ter ocorrido, mas n\u00e3o podemos fornecer uma teoria que exponha o desenvolvimento tal como se produziu e exclua outras que poderiam estar igualmente de acordo com os princ\u00edpios postulados a respeito da evolu\u00e7\u00e3o dos argumentos. Se \u00e9 verdade que ignoramos completamente como e por que muta\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias dotaram a esp\u00e9cie humana da capacidade espec\u00edfica de aprender uma linguagem humana, \u00e9 igualmente verdadeiro que tamb\u00e9m ignoramos como e por que muta\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias conduziram ao desenvolvimento das estruturas particulares do olho dos mam\u00edferos ou do c\u00f3rtex cerebral. N\u00e3o conclu\u00edmos, portanto, que essas estruturas, em sua natureza fundamental, no indiv\u00edduo que chegou \u00e0 maturidade, s\u00e3o determinadas por intera\u00e7\u00e3o com o meio ambiente (embora tal intera\u00e7\u00e3o seja, sem d\u00favida, necess\u00e1ria ao desencadeamento de processos geneticamente determinados e, naturalmente, influa no car\u00e1ter dos \u00f3rg\u00e3os que atingiram a maturidade). Pouco se sabe, \u00e9 certo, sobre o desenrolar da evolu\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 imposs\u00edvel tirar conclus\u00f5es, sejam elas quais forem, a partir daquilo que se ignora. Em especial, \u00e9 temer\u00e1rio concluir ou (A) que as leis f\u00edsicas conhecidas n\u00e3o s\u00e3o suficientes, em princ\u00edpio, para explicar o desenvolvimento de determinada estruturas, ou (B) que as leis f\u00edsicas, conhecidas ou desconhecidas, n\u00e3o s\u00e3o suficientes, em princ\u00edpio. As conclus\u00f5es (A) ou (B) resultariam, segundo parece, da afirma\u00e7\u00e3o de que o desenrolar da evolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 em termos literais, biologicamente &#8220;inexplic\u00e1vel&#8221;. Mas, aparentemente, nada justifica, de momento, encarar (B) seriamente e, se podemos conceber (A) como verdadeira, tal conclus\u00e3o n\u00e3o passa de pura especula\u00e7\u00e3o. Em todo o caso, o ponto cr\u00edtico, na ocorr\u00eancia, est\u00e1 em que as estruturas cognitivas e os \u00f3rg\u00e3os do corpo parecem compar\u00e1veis no que se refere \u00e0 possibilidade de uma &#8220;explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica&#8221;.<\/p>\n<p>O segundo argumento parece-me ser mais importante. Mas n\u00e3o vejo em que a conclus\u00e3o de Piaget possa fundamentar-se. Que seja de meu conhecimento, nenhuma proposi\u00e7\u00e3o de fundo foi apresentada que fa\u00e7a intervir as &#8220;conclus\u00f5es da intelig\u00eancia sens\u00f3rio-motora&#8221; e que ofere\u00e7a qualquer esperan\u00e7a de explica\u00e7\u00e3o para fen\u00f4menos da linguagem que a exigem. At\u00e9 onde sei, nada transparece de plaus\u00edvel na origem dessa sugest\u00e3o. Acrescentarei que, se alguns objetaram que a hip\u00f3tese de uma capacidade de linguagem geneticamente determinada \u00e9 uma &#8220;peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio&#8221;, a\u00ed est\u00e1 uma afirma\u00e7\u00e3o que certamente n\u00e3o se justifica. A hip\u00f3tese n\u00e3o \u00e9 mais uma &#8220;peti\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio&#8221; no caso das estruturas mentais do que a hip\u00f3tese an\u00e1loga no caso do desenvolvimento dos \u00f3rg\u00e3os. As proposi\u00e7\u00f5es de fundo respeitantes ao car\u00e1ter dessa capacidade da linguagem s\u00e3o refut\u00e1veis se s\u00e3o falsas, suscet\u00edveis se forem verdadeiras. Certas hip\u00f3teses foram contestadas e modificadas, com muita freq\u00fc\u00eancia, \u00e0 luz de pesquisa ulteriores, e estou persuadido de que continuar\u00e1 sendo assim.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00edtulo: A prop\u00f3sito das estruturas cognitivas e de seu desenvolvimento: uma resposta a Piaget Autor: Noam Chomsky Fonte: PIATELLI-PALMARINI, Massimo (org.). Teorias da linguagem, teorias da aprendizagem: o debate entre Jean Piaget e Noan Chomsky. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1983. p\u00e1g. 50-73. 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