{"id":1227,"date":"2008-08-29T15:49:34","date_gmt":"2008-08-29T18:49:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=1227"},"modified":"2008-11-18T15:27:45","modified_gmt":"2008-11-18T18:27:45","slug":"programa-roda-viva-debates-deficientes-parte2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/variados\/programa-roda-viva-debates-deficientes-parte2\/","title":{"rendered":"Programa Roda Viva &#8211; Debates Deficientes (parte 2)"},"content":{"rendered":"<p>Continua\u00e7\u00e3o da <a title=\"Parte 1\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/variados\/programa-roda-viva-debates-deficientes\/\">primeira parte<\/a> do programa Roda Viva sobre a inclus\u00e3o de pessoas portadoras de defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Paulo Markun: O Roda Viva desta noite \u00e9 um programa especial com o debate de um assunto que deixa muitas pessoas desconfort\u00e1veis para falar e lidar com o assunto: a defici\u00eancia. E n\u00f3s come\u00e7amos com o depoimento de Marta Pinheiro dos Santos, ela \u00e9 m\u00e3e de Natasha Pinheiro, de 7 anos.<\/p>\n<p>VT de Marta Pinheiro: A Natasha estava na escola, estava indo bem, era a pr\u00e9-escola, quando ela passou para a primeira s\u00e9rie, a\u00ed j\u00e1 come\u00e7aram os problemas na escola, porque ela estava dando trabalho, a professora j\u00e1 estava deixando ela meio de lado e ela n\u00e3o queria aceitar mais ir para a escola. Tentei p\u00f4r numa escola p\u00fablica e n\u00e3o cabia a Natasha ficar, porque eram crian\u00e7as deficientes mentais. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o caso da Natasha. Procurei outras escolas, mas as outras escolas s\u00f3 para o ano que vem, escola particular, v\u00e1rias escolas particulares fecharam a portas para a gente.<\/p>\n<p>Paulo Markun: O depoimento da Marta demonstra um pouco o que a gente j\u00e1 comentou aqui indiretamente, que \u00e9 o seguinte: Ok, a lei \u00e9 bacana, ajuda, mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. Nessa quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, e mesmo o deputado Leonardo havia citado uma outra quest\u00e3o, na distribui\u00e7\u00e3o de verbas, o que \u00e9 preciso fazer para que o pa\u00eds seja mais eficiente nessa quest\u00e3o?<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: Em primeiro lugar, que as escolas realmente estejam habilitadas a receberem as pessoas com defici\u00eancia. Tanto a defici\u00eancia f\u00edsica, quanto visual, mental, auditiva. E elas, infelizmente, n\u00e3o est\u00e3o. O que est\u00e1 acontecendo no Brasil \u00e9 um processo de inclus\u00e3o dessas pessoas, mas a inclus\u00e3o exclusivamente na matr\u00edcula das crian\u00e7as deficientes na escola regular. Mas a escola regular n\u00e3o est\u00e1 absolutamente preparada para receber essas crian\u00e7as. E o que vem ocorrendo \u00e9 que a matr\u00edcula acontece, mas a freq\u00fc\u00eancia dessas crian\u00e7as n\u00e3o ocorre, como ocorre com as crian\u00e7as n\u00e3o deficientes. Portanto, o Brasil precisa debru\u00e7ar sobre o assunto, sobre esse grande problema, que \u00e9 o de perman\u00eancia da crian\u00e7a deficiente na escola regular com atendimentos especializados, espor\u00e1dicos quando necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Paulo Markun: S\u00f3 para entender, para o p\u00fablico entender. Por que isso \u00e9 melhor, a inclus\u00e3o, digamos, das pessoas com defici\u00eancia na escola regular do que escolas especiais, como durante muitos anos foi a pr\u00e1tica aqui no Brasil?<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: S\u00e3o teses, n\u00e9? A vida \u00e9 muito din\u00e2mica, e a partir de 92, em Salamanca, na Espanha, convencionou-se de que a educa\u00e7\u00e3o inclusiva favorece mais tanto a parte cognitiva, quanto a parte de sociabiliza\u00e7\u00e3o da pessoa com defici\u00eancia e a rec\u00edproca tamb\u00e9m \u00e9 verdadeira. As crian\u00e7as n\u00e3o deficientes convivendo com as crian\u00e7as deficientes tendem a se tornar mais humanas, mais solid\u00e1rias e principalmente mais conhecedoras e habilitadas a tratarem com as crian\u00e7as deficientes. Mas \u00e9 indispens\u00e1vel, como disse, que haja todo um preparo para a ocorr\u00eancia desse fato. O que aconteceu foi que n\u00f3s aproveitamos o discurso de Salamanca, desmantelamos as escolas especiais para as pessoas com defici\u00eancia e n\u00e3o colocamos muita coisa no lugar delas, e as crian\u00e7as ficaram \u00f3rf\u00e3s de escolas qualificadas, gabaritadas para prestarem o seu atendimento. Portanto, esse seja talvez o grande problema que n\u00f3s precisamos enfrentar, talvez seja o grande desafio e, seguramente, o pa\u00eds vai precisar investir, mas investir recursos verdadeiros nesse processo de adapta\u00e7\u00e3o das escolas, de forma\u00e7\u00e3o dos professores, de aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos como o do Ronaldo, para permitir que as crian\u00e7as com aquela defici\u00eancia tenha acesso.<\/p>\n<p>Marcos Frota: O que eu acho \u00e9 que a gente n\u00e3o pode ficar esperando que a escola esteja absolutamente preparada e capacitada para receber essas crian\u00e7as. Feliz da escola que recebe uma crian\u00e7a com defici\u00eancia, mesmo n\u00e3o estando totalmente preparada. Uma crian\u00e7a com defici\u00eancia ilumina uma sala de aula, a competi\u00e7\u00e3o se torna saud\u00e1vel e a escola como um todo come\u00e7a a se preparar para receber outras crian\u00e7as. Essa \u00e9 a minha experi\u00eancia com a Universidade do Circo.<\/p>\n<p>Dudu Braga: Eu acho que justamente essa quest\u00e3o que o deputado falou das crian\u00e7as deficientes estudarem com as crian\u00e7as n\u00e3o deficientes, eu acho isso important\u00edssimo, porque eu sinto isso na pele. Eu estou com 37 anos e muitas vezes quando uma pessoa quer vir falar comigo, geralmente eu sempre estou com uma pessoa, que \u00e9 o meu guia, o Kiko, que trabalha comigo. Muitas vezes a pessoa chega no Kiko e n\u00e3o fala comigo. Por que ela faz isso? Talvez se uma crian\u00e7a com defici\u00eancia tivesse estudado com essa pessoa que me abordou, isso seria um ato normal, vir falar comigo e n\u00e3o precisaria estar falando com a pessoa que \u00e9 meu guia. Ent\u00e3o, eu acho essa uma quest\u00e3o muito importante e muito interessante. \u00c9 quando a gente tem que realmente tomar um cuidado muito grande para n\u00e3o \u201cguetificar\u201d: Deficientes visuais s\u00f3 vivem com deficientes visuais, ou cadeirantes s\u00f3 com cadeirantes. Acho essa uma quest\u00e3o important\u00edssima. E o que o Leonardo falou em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas estarem capacitadas, realmente eu acho que elas n\u00e3o est\u00e3o, mas isso vai ser um processo longo tamb\u00e9m de adapta\u00e7\u00e3o desses professores, do magist\u00e9rio, para conseguir chegar. Como eu j\u00e1 disse e repito, \u00e9 um movimento que est\u00e1 acontecendo, vai demorar algum tempo at\u00e9 que um dia n\u00e3o seja mais preciso, inclusive a pol\u00edtica de cotas para os deficientes. Isso no futuro, n\u00e9?<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: Eu s\u00f3 acho que a gente precisa ser um pouco mais ativo nisso, definirmos um prazo, vamos dar 10 anos&#8230; Porque incluir uma crian\u00e7a na escola sem preparar a escola \u00e9 condenar essa crian\u00e7a a um processo de desaprendizado.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Mas essa prepara\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode acontecer tamb\u00e9m na pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: Na pr\u00e1tica. Mas precisa haver o investimento concomitante, porque n\u00e3o pode simplesmente colocar crian\u00e7a na escola e esperar que apenas a conviv\u00eancia seja respons\u00e1vel pela sua transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 a conviv\u00eancia sim, mas \u00e9 tamb\u00e9m os investimentos, s\u00e3o os professores preparados, dispostos&#8230;<\/p>\n<p>Marcos Frota: Mas o professor n\u00e3o se sente desafiado quando ele recebe uma crian\u00e7a para ser&#8230;<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: S\u00f3 que ele tem outros 40 meninos para tratar l\u00e1, para trabalhar, e que tem demandas espec\u00edficas e o professor est\u00e1 sozinho na sala de aula para atender os problemas espec\u00edficos da defici\u00eancia e mais o problema do aprendizado dos outros 39.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Porque a quest\u00e3o \u00e9 t\u00e3o urgente. Todos n\u00f3s sabemos que a quest\u00e3o primordial no Brasil \u00e9 a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. E ela \u00e9 t\u00e3o urgente, mas t\u00e3o urgente que eu me pergunto: se a gente for ficar esperando que o sistema educacional brasileiro se prepare para receber essas crian\u00e7as e possibilitar uma conviv\u00eancia e uma inclus\u00e3o efetiva, o processo vai demorar um pouco mais, n\u00e9?<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: N\u00e3o \u00e9 esperar. \u00c9 cobrar um pouco mais.<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Deixa eu s\u00f3 acrescentar uma coisa, Leonardo. Eu entendo que pol\u00edtica p\u00fablica s\u00f3 pode dar certo em qualquer \u00e1rea, de transporte, sa\u00fade, meio-ambiente, o que for, se tiver verba para isso. Ou seja, n\u00e3o se implementa uma pol\u00edtica p\u00fablica somente na ora\u00e7\u00e3o. Tem todo um projeto, tem todo um programa, est\u00e1 tudo no papel, o Congresso aprova, as Assembl\u00e9ias Legislativas ou C\u00e2maras de Vereadores, n\u00e3o importa, voc\u00ea precisa ter recurso para isso. A hora que voc\u00ea implementa ou deveria implementar, entre aspas, deixa de ser problema daquele que precisa do atendimento p\u00fablico. Ou seja, uma crian\u00e7a como aqui a Marta e a Natasha. A Natasha tem que ir, porque a Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 88 diz que toda crian\u00e7a vai para a escola. Ent\u00e3o a Natasha tamb\u00e9m \u00e9 crian\u00e7a e a Natasha tem defici\u00eancia, n\u00e3o importa, n\u00e3o faz diferen\u00e7a, tamb\u00e9m vai para a escola. \u00c9 preciso ter duas verdades no mesmo caminho. Uma \u00e9 que tem crian\u00e7as especiais que necessitam de escolas especiais. N\u00e3o adianta querer normalizar aquela crian\u00e7a numa escola normal, comum, que ela vai aprender patavina. Se colocarmos, pelo menos a minha, n\u00e3o sei voc\u00eas, numa escola alem\u00e3, para eu fazer um discurso eu n\u00e3o vou ter condi\u00e7\u00f5es, porque eu n\u00e3o falo alem\u00e3o. Ent\u00e3o, se voc\u00ea colocar uma crian\u00e7a que n\u00e3o tem nenhuma condi\u00e7\u00e3o, se for mais severa a defici\u00eancia dela, numa escola comum, ela vai aproveitar zero. Agora, por outro lado, uma Natasha da vida ou outras Natashas que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de ir para uma escola regular e se integrar, como disse o Marcos, como disse o Dudu, que se tivesse algu\u00e9m que conviveu com um cego, que sabia como \u00e9 uma crian\u00e7a cega, n\u00e3o iria falar com o guia do lado, nem com o amigo do lado. E a\u00ed voc\u00ea leva aquela crian\u00e7a para uma escola, entre aspas, escola comum. Agora, isso deixa de ser problema da m\u00e3e, da filha e do estudante. Voc\u00ea chega na escola, \u00e9 por livre e espont\u00e2nea press\u00e3o. \u201c\u00d3, t\u00f4 aqui, tenho uma crian\u00e7a deficiente, \u00e9 minha filha, minha neta &#8211; seja o que for &#8211; vai para a escola\u201d. \u201cA escola n\u00e3o est\u00e1 adaptada\u201d. \u201cLamento profundamente, isso n\u00e3o \u00e9 problema meu. O meu problema foi parir, est\u00e1 com defici\u00eancia, a escola tem que colocar\u201d. A\u00ed voc\u00ea procura um Minist\u00e9rio P\u00fablico, voc\u00ea chama a pol\u00edcia, voc\u00ea faz panela\u00e7o, sei l\u00e1 o que se faz. Porque tem que dar um pouco de trope\u00e7\u00e3o. As pessoas deficientes hoje no Brasil j\u00e1 chegaram aonde chegaram e algumas delas est\u00e3o num dos programas mais bem assistidos e mais respeitados do Brasil, que \u00e9 o Roda Viva, ao longo desses \u00faltimos 20 anos de Roda Viva, mas ao longo da hist\u00f3ria do Brasil nos \u00faltimos 50, porque houve uma luta, porque houve uma briga, porque houve uma obriga\u00e7\u00e3o constitucional. Ent\u00e3o, eu acredito que vai um pouco por &#8220;livre e espont\u00e2nea press\u00e3o&#8221;. Porque tamb\u00e9m se for deixar o tempo todo ao bel-prazer, a gente n\u00e3o chega onde tem que chegar. Agora, precisa de investimento, acho que Paulo Markun foi muito claro nisso. Hoje n\u00f3s j\u00e1 temos \u2013 Paulo Markun, e a sociedade que est\u00e1 nos assistindo agora sabe disso \u2013 \u00e9 obrigat\u00f3rio 25% do or\u00e7amento de qualquer inst\u00e2ncia \u2013 federal, estadual, municipal \u2013 a gastar e usar os 25% na educa\u00e7\u00e3o. E eu, particularmente, acho que o Brasil, no desenvolvimento como est\u00e1, n\u00e3o acho que \u00e9 pa\u00eds de terceiro mundo, muito pelo contr\u00e1rio, precisa investir n\u00e3o \u00e9 25 n\u00e3o, eu arriscaria 35 ou 40%, porque quanto mais voc\u00ea investir na educa\u00e7\u00e3o, maior facilidade voc\u00ea vai ter de qualidade de vida para a sociedade como um todo, pessoas normais e pessoas com defici\u00eancias.<\/p>\n<p>Dudu Braga: E tem outra quest\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o que eu acho que \u00e9 o que a gente estava conversando inclusive antes do programa, C\u00e9lia, existem v\u00e1rios tipos de defici\u00eancia. Para cada um deles \u00e9 necess\u00e1rio um tratamento. Eu, como deficiente visual, preciso de um. O Ronaldo precisa de outro. Voc\u00ea, como cadeirante, precisa de outro. Isso \u00e9 uma coisa que inclusive complica um pouco mais essa quest\u00e3o de voc\u00ea conseguir que os professores estejam adaptados a essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p>Clodoaldo Silva: E h\u00e1 casos e casos, como a C\u00e9lia falou e voc\u00ea tamb\u00e9m, e tem que haver bom senso. \u00c9 claro que se algu\u00e9m com defici\u00eancia muito severa, talvez n\u00e3o seja nem bom para ela estar numa sala com pessoas ditas normais para seu aprendizado. Ent\u00e3o, tem que haver bom senso, eu j\u00e1 tive a experi\u00eancia de, por dois anos, estudar em classe especial e depois passei para uma classe que n\u00e3o tinha deficientes, ent\u00e3o foi um crescimento gigantesco para mim. E hoje, levando um pouco para a \u00e1rea esportiva, l\u00e1 em Natal eu participo de campeonatos estaduais para ditos normais, ent\u00e3o eu acho que n\u00e3o tem que haver essa diferencia\u00e7\u00e3o. Tem que haver, sim, bom senso e caso com caso. E at\u00e9 mesmo hoje, levando um pouco tamb\u00e9m para as empresas, tenho patrocinadores e isso serve para a conscientiza\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios e das pessoas que v\u00ea voc\u00ea patrocinado, como atender uma pessoa com defici\u00eancia, porque antigamente eu chegava a levar um trope\u00e7\u00e3o e todo mundo queria ajudar e muitas vezes n\u00e3o sabiam como ajudar, pegavam e acabavam dificultando. E hoje n\u00e3o, hoje com a conviv\u00eancia, tanto no lado pessoal quanto profissional, as pessoas sabem como te pegar, sabem como estar te ajudando. Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 essa a import\u00e2ncia e tem que ser levado caso com caso.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Eu queria convocar os educadores, os artistas, os arte-educadores, a ter um pouco mais de iniciativa, sabe, Paulo, para ir um pouco mais atr\u00e1s. Eu tive o prazer e a honra de participar junto com alguns companheiros aqui dessa Confer\u00eancia Nacional do Direito das Pessoas com Defici\u00eancia, em Bras\u00edlia, com a coordena\u00e7\u00e3o do Conade [Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Defici\u00eancia], e eu senti l\u00e1 um Brasil j\u00e1 preparado, sabe. Com seus conselhos, com seus representantes, em cada cidadezinha a\u00ed, eu acho que o professor tem que ter a iniciativa de ir atr\u00e1s tamb\u00e9m, ir buscar informa\u00e7\u00e3o, de se colocar dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: S\u00f3 para complementar, um cruzamento de pol\u00edticas. Por exemplo, n\u00f3s matriculamos uma crian\u00e7a deficiente auditiva numa escola para ela iniciar o seu aprendizado, mas ela entra na fila do Sistema \u00danico de Sa\u00fade para receber uma pr\u00f3tese auditiva que vai dar a m\u00ednima condi\u00e7\u00e3o de ela se incluir verdadeiramente. Leva 5 anos para receber, 5 anos para receber.<\/p>\n<p>Donaldo Jorge Filho: Isso que eu ia colocar e s\u00f3 para refor\u00e7ar. Realmente existe uma necessidade primeira de reabilitar, pelo menos parcialmente o paciente, para que ele possa se habilitar e depois possa ser inclu\u00eddo. Eu vou dar um exemplo bem simples do Hospital das Cl\u00ednicas. N\u00f3s temos alguns centros de reabilita\u00e7\u00e3o sob nossa dire\u00e7\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o do Hospital das Cl\u00ednicas, e l\u00e1 n\u00f3s fazemos reabilita\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, de todo mundo, mas vamos pegar o aspecto espec\u00edfico da crian\u00e7a. Fazer uma reabilita\u00e7\u00e3o dessa crian\u00e7a e esta crian\u00e7a depois vai procurar a escola regular, mas ela j\u00e1 tem condi\u00e7\u00f5es ou n\u00e3o, como ela tem um diagn\u00f3stico de que ela pode continuar o processo educativo numa escola regular ou que n\u00e3o. E a\u00ed a gente poderia ter uma outra vertente que seria, por exemplo, a Esta\u00e7\u00e3o Especial da Lapa, que \u00e9 um lugar para onde a gente manda e que essa crian\u00e7a vai aprender uma infinidade de atividades produtivas, onde ela pode se beneficiar at\u00e9 profissionalmente dessas atividades que ela vai aprender ali, e aqueles que t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de seguir uma carreira escolar s\u00e3o, ent\u00e3o, enviados para escola e a\u00ed sim ele pode ser inclu\u00eddo. Porque n\u00f3s temos aqui o exemplo cl\u00e1ssico do Ronaldo, n\u00e3o adiantaria nada a gente mandar o Ronaldo para uma escola regular. Ele n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o de escrever, ele n\u00e3o tem condi\u00e7\u00e3o&#8230; Quer dizer, a n\u00e3o ser que ele tivesse, como j\u00e1 foi dito, esses recursos todos que ele mesmo desenvolveu para si e correu atr\u00e1s para obter, ele n\u00e3o teria condi\u00e7\u00e3o de desenvolver t\u00e3o f\u00e1cil. J\u00e1 o Clodoaldo \u00e9 diferente, ele tem outros recursos do ponto de vista f\u00edsico, do ponto de vista de habilidades que ele pode desenvolver na escola. Ent\u00e3o, h\u00e1 deficientes e deficientes.<\/p>\n<p>Lars Grael: Paulo, eu defendo a manuten\u00e7\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o das escolas especiais, n\u00e3o podem ser desmanteladas, pelo contr\u00e1rio. Mas tamb\u00e9m defendo o direito para que o deficiente, a crian\u00e7a, o adolescente ou seus pais possam coloc\u00e1-lo, matricul\u00e1-lo na rede p\u00fablica e particular do ensino b\u00e1sico, fazendo essa inclus\u00e3o. Mas a\u00ed vem a primeira pergunta: o transporte escolar hoje est\u00e1 acess\u00edvel? As escolas p\u00fablicas e particulares s\u00e3o acess\u00edveis? As quadras poliesportivas, os gin\u00e1sios esportivos das escolas est\u00e3o acess\u00edveis? Os professores est\u00e3o capacitados? Talvez esteja a\u00ed a resposta da estat\u00edstica que n\u00f3s vimos agora h\u00e1 pouco, onde dois ter\u00e7os desses deficientes est\u00e3o exclu\u00eddos do processo educacional no ensino b\u00e1sico. Eu vi aqui nessa mesma consulta que eu pude ter acesso, que uma mat\u00e9ria da Renata Cafardo sobre educa\u00e7\u00e3o especial dizendo que o MEC repassou para a inclus\u00e3o do deficiente no ensino b\u00e1sico 51 milh\u00f5es de reais. Menos do que o governo de S\u00e3o Paulo repassou 54 milh\u00f5es de reais. Ou seja, \u00e9 muito pouco. N\u00f3s temos que transformar a ret\u00f3rica na pr\u00e1tica, transformar um pensamento em atitudes. Por exemplo, no caso do esporte, do Clodoaldo. Aqui em S\u00e3o Paulo n\u00f3s fizemos uma experi\u00eancia quando eu fui Secret\u00e1rio Estadual do Esporte, de trazer o paradesporto para dentro dos Jogos Abertos do Interior, maior competi\u00e7\u00e3o multiesportiva nacional e com tradi\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo. No in\u00edcio houve uma rea\u00e7\u00e3o muito grande: \u201cmas n\u00e3o pode misturar o paraatleta com o atleta\u201d. Trouxe uma repulsa. Passado o tempo da repulsa, veio a toler\u00e2ncia. Da toler\u00e2ncia veio o respeito. E hoje n\u00f3s chegamos na fase da admira\u00e7\u00e3o. No ano passado, na competi\u00e7\u00e3o em Botucatu, de nata\u00e7\u00e3o, estava l\u00e1 a arquibancada lotada. Por qu\u00ea? Os jovens queriam torcer pelo Fernando Scherer, o Xuxa, nadando. Na prova seguinte ao Xuxa, nadaria ent\u00e3o uma prova com deficientes, estava l\u00e1 um outro campe\u00e3o, que \u00e9 o Danilo Glasser, que n\u00e3o teria oportunidade de ter aquele p\u00fablico, mas como tinha aquela inclus\u00e3o, ele nadou. E nadou com maestria, com brilhantismo, foi aplaudido de p\u00e9. A\u00ed est\u00e1 a inclus\u00e3o que precisa acontecer.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Muito bem. Eu vou antes de encerrar o bloco aqui, registrar o depoimento do Ronaldo, que diz o seguinte: \u201cNo final da d\u00e9cada de 60 me transferi para uma cl\u00ednica criada por um grupo de profissionais que trouxeram novas t\u00e9cnicas de tratamento para o Recife, e uma pedagoga dessa cl\u00ednica conseguiu me alfabetizar em 3 meses, inclusive, gra\u00e7as ao grande esfor\u00e7o que a minha m\u00e3e fez nesse sentido. Essa pedagoga teve a id\u00e9ia de pedir para que meu pai fizesse letras de madeira, de forma a permitir que eu constru\u00edsse frases numa superf\u00edcie plana, geralmente o ch\u00e3o, que foi o primeiro meio de comunica\u00e7\u00e3o mais elaborado que ganhei\u201d. Ele at\u00e9 hoje usa uma adapta\u00e7\u00e3o dessa t\u00e1bua de comunica\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 a que ele est\u00e1 usando aqui e agora, e sim o teclado do computador. Ronaldo diz: \u201cEstudei nessa cl\u00ednica mais ou menos at\u00e9 a quarta s\u00e9rie. Em meados dos anos 70, a cl\u00ednica mudou de dono, deteriorou-se, sa\u00ed de l\u00e1 e essa pedagoga tentou me colocar em muitos col\u00e9gios da cidade, mas nenhum me aceitou. Meu pai pagou uma professora particular para mim durante dois anos at\u00e9 que meu pai ficou sem recursos para isso\u201d. E ele encerra, digamos, o coment\u00e1rio dele desse bloco, dizendo o seguinte: \u201cA defici\u00eancia n\u00e3o torna uma pessoa pior nem melhor do que os outros. Queremos s\u00f3 ser vistos como humanos\u201d. Mais um intervalo. Eu lembro que o Roda Viva desta noite, como todos os outros da s\u00e9rie podem ser encomendados em DVD. O endere\u00e7o do site \u00e9 <a href=\"www.culturamarcas.com.br\">www.culturamarcas.com.br<\/a>. O telefone 3081-3000. A entrevista desta noite \u00e9 acompanhada na plat\u00e9ia por Paula Dias, arquiteta especializada em acessibilidade e Zamarra Barravieri, orientadora da \u00e1rea de capacita\u00e7\u00e3o de trabalho para a Apae [Associa\u00e7\u00e3o dos Pais e Amigos dos Excepcionais] de S\u00e3o Paulo. A gente volta j\u00e1, j\u00e1.<\/p>\n<p>[Intervalo]<\/p>\n<p>Paulo Markun: Bem, n\u00f3s estamos de volta para o \u00faltimo bloco do Roda Viva especial dessa segunda-feira que trata do universo das pessoas com defici\u00eancia no Brasil. \u00c9 uma rodada final. Quarenta segundos para cada participante dizer o que seria a moral dessa hist\u00f3ria. Leonardo Mattos.<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: N\u00f3s iniciamos esse movimento de pessoas com defici\u00eancia na d\u00e9cada de 80 e ele sofreu uma s\u00e9rie de defec\u00e7\u00f5es ao longo dessa mobiliza\u00e7\u00e3o e estou vendo este momento raro, oportuno da confec\u00e7\u00e3o do Estatuto dos Deficientes, no Senado e na C\u00e2mara, da Conven\u00e7\u00e3o Internacional das Pessoas com Defici\u00eancia, mais uma oportunidade de recuperarmos esse movimento e, finalmente, pautarmos o Brasil sobre a necessidade de pol\u00edticas verdadeiramente p\u00fablicas e de pautarmos o Brasil sobre um plano diretor voltado exclusivamente ao processo de inclus\u00e3o de deficientes. Portanto, essa \u00e9 a nossa conclus\u00e3o, elogiando toda a proposta desta programa\u00e7\u00e3o de voc\u00eas, Paulo.<\/p>\n<p>Dudu Braga: Bom, eu queria primeiro agradecer, Paulo, porque eu acho que a TV Cultura e a televis\u00e3o realmente, a quest\u00e3o da acessibilidade, a televis\u00e3o chega em todos os lares do Brasil. Eu acho que a televis\u00e3o tem uma import\u00e2ncia fundamental nesse processo da inclus\u00e3o social dos deficientes na sociedade. Eu acho que a efici\u00eancia dos deficientes talvez seja a maior prova que realmente n\u00f3s somos animais racionais e isso \u00e9 que nos torna seres humanos.<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Olha, rapidinho porque o programa est\u00e1 encerrando. Mais uma vez dar os parab\u00e9ns ao Roda Viva. \u00c9 um tema que a CNBB [Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil], com a Campanha da Fraternidade, mais a sociedade falando sobre o assunto vai trazer boas coisas para a pessoa deficiente no Brasil. Eu queria s\u00f3 dizer que as pessoas t\u00eam medo do deficiente porque n\u00e3o conhecem. Precisa saber o que \u00e9, porque \u00e9 e quem \u00e9 deficiente. Quando isso acontece facilita muito. Eu vou pegar no finalzinho aqui a fala do doutor Donaldo, que foi muito interessante, quando ele disse que profissionais t\u00eam que se inteirar mais dos problemas dos deficientes. Eu para ser m\u00e3e de tr\u00eas filhos de partos normais, depois de parapl\u00e9gica, tive que passar por cinco m\u00e9dicos que diziam que eu n\u00e3o podia, e eram m\u00e9dicos, ou seja, \u00e9 preciso atualizar essas quest\u00f5es. Eu termino dizendo a frase do Clodoaldo. Quer dizer, quando as pessoas n\u00e3o sabiam quem era ele e tinham medo da defici\u00eancia dele, corriam dele. Quando o conheceram, al\u00e9m das medalhas de ouro, viram a capacidade e compet\u00eancia e que \u00e9 ser humano, correram atr\u00e1s dele, em volta dele, para ficar com ele. Essa \u00e9 a quest\u00e3o, conhecer o deficiente e ver que \u00e9 gente como todo mundo, n\u00e3o tem diferen\u00e7a nenhuma, s\u00f3 a defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Donaldo Jorge Filho: J\u00e1 que o aspecto principal parece que foi a inclus\u00e3o, eu vou retornar ao gancho da deputada C\u00e9lia Le\u00e3o, no sentido de que tamb\u00e9m precisamos fazer a inclus\u00e3o dos m\u00e9dicos. Eu acho que hoje no Brasil se existirem cinco faculdades de medicina com a disciplina de medicina f\u00edsica e reabilita\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito. N\u00f3s precisamos ter isso no curso de gradua\u00e7\u00e3o e em todas as faculdades brasileiras. A partir da\u00ed, o m\u00e9dico que teoricamente seria o l\u00edder da equipe de reabilita\u00e7\u00e3o, est\u00e1 come\u00e7ando a se preparar. E n\u00e3o s\u00f3 o fisiatra, como tamb\u00e9m, como ela falou, o\u00a0 ginecologista. \u00c9 um absurdo o camarada dizer: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode ter um filho\u201d. Ent\u00e3o, eu acho que n\u00f3s temos que preparar a classe m\u00e9dica como um todo atrav\u00e9s da inclus\u00e3o da disciplina de medicina de reabilita\u00e7\u00e3o no curr\u00edculo de gradua\u00e7\u00e3o da escola m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Lars Grael: Eu queria agradecer \u00e0 TV Cultura por essa oportunidade hist\u00f3rica, talvez por debater um tema de tamanha import\u00e2ncia, e dizer que n\u00f3s somos uma massa de brasileiros \u00e1vidos para que possamos exercer os nossos direitos. Eu acho que esse debate contribuiu muito nesse sentido, e analisar que a legisla\u00e7\u00e3o vigente ou a legisla\u00e7\u00e3o por vir possa ser cumprida. N\u00e3o podemos aceitar que neste pa\u00eds faculte-se \u00e0 sociedade cumprir ou n\u00e3o as leis. Leis que pegam, leis que n\u00e3o pegam. Essas leis precisam pegar. Eu acho que essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, houve um avan\u00e7o, \u00e9 not\u00e1vel, e o programa contribui nisso. Parab\u00e9ns.<\/p>\n<p>Clodoaldo Silva: Eu acho que tem que haver essa conscientiza\u00e7\u00e3o da sociedade e principalmente do governo. Os projetos est\u00e3o sendo elaborados e que n\u00e3o possa ficar s\u00f3 na teoria e sim na pr\u00e1tica. E falar que n\u00f3s, deficientes, n\u00e3o precisamos de piedade, e, sim, de oportunidades. Ent\u00e3o, uma frase que eu sempre falo: \u201cA defici\u00eancia estabelece limites, mas n\u00e3o a incapacidade\u201d. Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 isso. Queria agradecer a participa\u00e7\u00e3o, o convite e dizer que de 27 a 28 de maio, eu estou participando de um campeonato aqui em S\u00e3o Paulo; de 1\u00ba a 4 de junho, vou estar participando de outro campeonato na Alemanha. E quem quiser saber um pouco mais sobre o Clodoaldo, pode entrar no meu site: www.clodoaldosilva.com.br, que ter\u00e1 todas as informa\u00e7\u00f5es. E mais uma vez agradecer ao convite do programa.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Para mim foi uma honra estar aqui. O Jatob\u00e1 iluminou a minha vida, definiu a minha carreira, me despertou para um exerc\u00edcio de cidadania. Estou preparando o Somos todos brasileiros [espet\u00e1culo em homenagem aos atletas paraol\u00edmpicos que participariam dos Jogos Parapan-americanos Rio 2007], da Universidade Livre do Circo, para participar do Parapan. Quero contribuir a\u00ed com a express\u00e3o art\u00edstica, eu acho que a arte \u00e9 um instrumento de liberta\u00e7\u00e3o para pessoas com defici\u00eancia. E para concluir, eu quero dizer que o Brasil n\u00e3o pode se dar ao luxo de desperdi\u00e7ar a contribui\u00e7\u00e3o que 25 milh\u00f5es de brasileiros querem, porque querem, dar neste novo momento do qual o Brasil se aproxima. Somos a reserva cultural, criativa, humana e, principalmente, espiritual do planeta Terra e as pessoas com defici\u00eancia, com esse processo de refinamento espiritual, t\u00eam muito a contribuir.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Frase do Ronaldo: \u201cAinda n\u00e3o tenho todos os recursos que preciso e n\u00e3o quero ser visto como her\u00f3i\u201d. Tenho impress\u00e3o que \u00e9 uma frase que cabe bem como encerramento do programa na medida em que eu acho que registra o que a maioria desse grande contingente certamente pensa. Nenhum deles tem todos os recursos que precisa e ningu\u00e9m est\u00e1 se postando aqui como her\u00f3i. Assim como eu acho que a TV Cultura n\u00e3o faz nada al\u00e9m de cumprir com a sua obriga\u00e7\u00e3o ao fazer esse debate importante e decisivo, e \u00e9 um orgulho estar aqui com voc\u00eas. Uma boa noite a todos e at\u00e9 segunda-feira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continua\u00e7\u00e3o da primeira parte do programa Roda Viva sobre a inclus\u00e3o de pessoas portadoras de defici\u00eancia. Paulo Markun: O Roda Viva desta noite \u00e9 um programa especial com o debate de um assunto que deixa muitas pessoas desconfort\u00e1veis para falar e lidar com o assunto: a defici\u00eancia. 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