{"id":1283,"date":"2008-08-29T16:10:00","date_gmt":"2008-08-29T19:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=1283"},"modified":"2008-11-18T15:27:11","modified_gmt":"2008-11-18T18:27:11","slug":"programa-roda-viva-debates-deficientes","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/variados\/programa-roda-viva-debates-deficientes\/","title":{"rendered":"Programa Roda Viva &#8211; Debates Deficientes (parte 1)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.rodaviva.fapesp.br\/materia_busca\/107\/psicologia\/entrevistados\/debate_deficientes_2006.htm\">http:\/\/www.rodaviva.fapesp.br\/materia_busca\/107\/psicologia\/entrevistados\/debate_deficientes_2006.htm<\/a><\/p>\n<p>Artistas, pol\u00edticos, atletas e m\u00e9dicos discutem sobre a inclus\u00e3o das pessoas portadoras de defici\u00eancia<\/p>\n<p>Paulo Markun: Boa noite. No Brasil, segundo um levantamento do IBGE, 10% dos 185 milh\u00f5es de habitantes s\u00e3o pessoas com algum tipo de defici\u00eancia f\u00edsica, mental, visual ou auditiva. J\u00e1 a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas estima um n\u00famero ainda superior, 24 milh\u00f5es de brasileiros deficientes, mais do que a popula\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses da Europa. O Roda Viva, que abre hoje espa\u00e7o para debater o universo dos deficientes, volta em instantes.<\/p>\n<p>[intervalo]<\/p>\n<p>Paulo Markun: Recentemente uma deficiente visual ganhou na Justi\u00e7a o direito de entrar nos trens do metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo com um cachorro-guia. Uma situa\u00e7\u00e3o extrema em casos onde, mais do que o bom senso, o direito n\u00e3o resolve e obriga deficientes a procurar respaldo na Justi\u00e7a. Um caso que demonstra o despreparo das empresas para receber deficientes. Acessibilidade \u00e9 a palavra. Mas \u00e9 mais do que isso, \u00e9 o direito \u00e0 cidadania.<\/p>\n<p>[V\u00eddeo comentado]: As pessoas com defici\u00eancia enfrentam barreiras para a locomo\u00e7\u00e3o nas cidades, n\u00e3o faltam dificuldades tamb\u00e9m para encontrar trabalho, apesar de leis que asseguram oportunidades de emprego. O mercado faz equipamentos especiais e cria projetos para melhorar a qualidade de vida dos deficientes, inclusive com a adapta\u00e7\u00e3o de equipamentos. As pessoas com defici\u00eancia recebem isen\u00e7\u00e3o de impostos na compra de v\u00e1rios produtos, como carros adaptados. Diferentes m\u00e9todos de reabilita\u00e7\u00e3o s\u00e3o utilizados, como uso de animais e a integra\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as deficientes com outras crian\u00e7as na sala de aula. O esporte \u00e9 uma importante ferramenta como tratamento e as pessoas com defici\u00eancia encontram nele a supera\u00e7\u00e3o das limita\u00e7\u00f5es. No campo cient\u00edfico, especialistas defendem novas pesquisas com c\u00e9lulas-tronco que prometem resultados no combate \u00e0 paralisia.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Para debater este assunto n\u00f3s convidamos: Dudu Braga, apresentador; Leonardo Mattos, deputado federal pelo PV [Partido Verde] de Minas Gerais e Presidente da Comiss\u00e3o Especial para o projeto de lei do estatuto das pessoas com defici\u00eancia; Lars Grael, velejador; doutor Donaldo Jorge Filho, m\u00e9dico fisiatra, coordenador da equipe de reabilita\u00e7\u00e3o de amputados da Divis\u00e3o de Medicina de Reabilita\u00e7\u00e3o do Hospital das Cl\u00ednicas de S\u00e3o Paulo; C\u00e9lia Le\u00e3o, deputada estadual pelo PSDB de S\u00e3o Paulo e militante do Movimento pelo Direito das Pessoas com Defici\u00eancia; Ronaldo Correia J\u00fanior, autor do site Dedos dos p\u00e9s; Marcos Frota, ator, criador e diretor da Unicirco, Universidade Livre do Circo, com programa de inclus\u00e3o de deficientes; e Clodoaldo Silva, atleta paraol\u00edmpico da nata\u00e7\u00e3o, 6 vezes medalha de ouro, 1 de prata e 4 recordes mundiais, embaixador do Pan e do Parapan 2007. Eu queria come\u00e7ar o debate, antes disso lembrando que o Ronaldo, que tem paralisia cerebral, se comunica com a gente pela internet. Ali\u00e1s, foi isso que permitiu a ele, de alguma forma, ampliar o seu horizonte e \u00e9 isso que ele vai contar para a gente aqui no programa. Eu queria, antes de mais nada, colocar uma quest\u00e3o preliminar, que \u00e9 a seguinte: o que o pa\u00eds precisa fazer para que a nossa bandeira aqui, digamos, estilizada, se torne uma realidade, ou seja, para que os deficientes estejam definitivamente inclu\u00eddos? E eu queria pedir isso, reclamando, digamos, solicitando, a experi\u00eancia de cada um de voc\u00eas, porque se a gente for discutir a quest\u00e3o pura e simplesmente no plano geral, existem in\u00fameras quest\u00f5es a serem resolvidas. E eu acho que at\u00e9 o grande p\u00fablico, alguma parte delas identifica: educa\u00e7\u00e3o, emprego, acessibilidade, condi\u00e7\u00f5es da sociedade. Mas eu queria que cada um puxasse pela sua viv\u00eancia e dissesse assim: \u201cPela experi\u00eancia que eu tenho, o mais importante, ou mais urgente, ou mais essencial, \u00e9 isso\u201d. Come\u00e7ando pela C\u00e9lia Le\u00e3o.<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Dizendo a alegria de estar aqui, Paulo Markun, com todos os convidados, neste programa especial\u00edssimo do Roda Viva, que \u00e9 \u201cRoda Viva e Bandeira Viva\u201d. Est\u00e1 aqui bem o s\u00edmbolo da pessoa deficiente no Brasil, que \u00e9 uma causa de todos n\u00f3s. Eu diria uma frase em que a gente vai vivendo 31 anos numa cadeira de rodas e vai aprendendo: \u201cTer uma defici\u00eancia, com certeza absoluta n\u00e3o \u00e9 a melhor coisa do mundo\u201d. L\u00f3gico que tem outras situa\u00e7\u00f5es mais f\u00e1ceis e mais agrad\u00e1veis, mas tamb\u00e9m posso dizer, afirmar que n\u00e3o \u00e9 a pior coisa do mundo. Muito pelo contr\u00e1rio, as dificuldades n\u00f3s vamos tirando do dia-a-dia. Mas \u00e9 preciso pelo menos tr\u00eas vertentes: a primeira delas a fam\u00edlia, que \u00e9 fundamental na integra\u00e7\u00e3o da pessoa com defici\u00eancia, primeiro na sua casa. Depois a sociedade como um todo entendendo o respeito e a responsabilidade com esse segmento que, como voc\u00ea mesmo disse, perpassa a\u00ed quase 20 milh\u00f5es de pessoas, brasileiros, homens e mulheres, jovens, crian\u00e7as, adultos e idosos, que t\u00eam algum tipo de defici\u00eancia. E terceiro, obviamente, pol\u00edticas p\u00fablicas que venham a atender diretamente a quest\u00e3o do deficiente. E essas pol\u00edticas p\u00fablicas, n\u00f3s temos a quest\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o, seja ela federal, na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, nas Constitui\u00e7\u00f5es Estaduais e principalmente nas Leis Org\u00e2nicas do Munic\u00edpio, que quase 5.560 munic\u00edpios do Brasil, hoje t\u00eam, pelo menos um artigo, um cap\u00edtulo, vendo a quest\u00e3o da pessoa deficiente. Agora precisa colocar em pr\u00e1tica e a\u00ed \u00e9 o nosso debate de hoje \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Dudu Braga, para voc\u00ea, o que \u00e9 mais importante?<\/p>\n<p>Dudu Braga: Eu acho que a gente teve umas mudan\u00e7as nestes \u00faltimos anos que foram muito importantes. Eu estava falando com o Clodoaldo, j\u00e1 conhe\u00e7o o Clodoaldo h\u00e1 muito tempo, nosso atleta paraol\u00edmpico. E a quest\u00e3o do deficiente na m\u00eddia, eu acho que isso a gente vem conseguindo quebrar realmente esse preconceito. O padr\u00e3o est\u00e9tico, \u00e0s vezes, nos impede muito de entrar nesse mundo. E eu acho que a televis\u00e3o tem um papel super importante e o Marcos deve concordar comigo, que o ano passado a gente fez junto a novela Am\u00e9rica [exibida pela Rede Globo em 2005, escrita por Gl\u00f3ria Perez e dirigida por Jayme Monjardim], e o fato de se ter colocado um deficiente totalmente resolvido em rela\u00e7\u00e3o ao seu problema de defici\u00eancia, eu acho que isso teve um papel fundamental. \u00c9 um processo que j\u00e1 vem, como eu j\u00e1 falei, junto com o Clodoaldo, porque as Olimp\u00edadas, Paraol\u00edmpicas v\u00eam junto com isso, trazendo esse padr\u00e3o do deficiente como atleta, conseguindo realmente superar, porque a supera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma coisa important\u00edssima para o deficiente, para quem se torna deficiente, para quem nasce deficiente tamb\u00e9m. Ent\u00e3o eu acho que \u00e9 um processo que vem crescendo com o tempo, j\u00e1 de 50 anos para c\u00e1, seria imposs\u00edvel de repente a gente ver um deficiente usando o meu pr\u00f3prio exemplo apresentando um programa. Um deficiente visual, como eu, apresentando um programa. Mas eu acho que isso se tornou poss\u00edvel, o Clodoaldo vem dando exemplo, eu acho que a quebra desses conceitos, e agora o mais importante talvez seja a gente tamb\u00e9m poder mostrar o deficiente n\u00e3o s\u00f3 como atleta, n\u00e3o s\u00f3 como apresentador, que s\u00e3o atividades que realmente t\u00eam uma exposi\u00e7\u00e3o maior. Mas tamb\u00e9m mostrar o deficiente como trabalhando num banco, tendo atividades de uma forma, digamos assim, mais cotidianas, que foi isso que a novela fez. A novela cumpriu esse papel de poder mostrar o deficiente no seu dia-a-dia, resolvido com ele mesmo e n\u00e3o s\u00f3 como drama. Eu sou deficiente h\u00e1 quinze anos, deficiente visual h\u00e1 15 anos, e sinceramente me sinto muito bem, me sinto muito eficiente como deficiente. Acho que isso \u00e9 muito importante, acho que a gente est\u00e1 conseguindo mostrar isso para todo mundo. Claro que existem v\u00e1rias quest\u00f5es que a gente vai ter que discutir aqui hoje, como acessibilidade, a quebra do preconceito e outras quest\u00f5es mais.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Marcos Frota, j\u00e1 que o Dudu mencionou a sua experi\u00eancia na novela, eu queria saber o que isso, eu sei que voc\u00ea j\u00e1 era um militante dessa causa antes de fazer a novela, mas eu queria saber o que mudou aquela experi\u00eancia indireta de enfrentar a situa\u00e7\u00e3o que obviamente n\u00e3o \u00e9 igual a da vida real, mas imagino que pela pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o do ator voc\u00ea teve que, de alguma forma, buscar se aproximar dessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Eu acho que o Jatob\u00e1 [nome do personagem deficiente visual representado por Marcos Frota na novela Am\u00e9rica] fez um grande convite para que o deficiente saia \u00e0s ruas, sabe, encare o desafio da conviv\u00eancia, ocupe os seus espa\u00e7os, crie os problemas para que a sociedade resolva. Eu tenho a impress\u00e3o que a coisa mais essencial, neste 2006, \u00e9 que esse contingente de quase 25 milh\u00f5es de brasileiros se conscientize da sua import\u00e2ncia, da contribui\u00e7\u00e3o que eles possam dar para a constru\u00e7\u00e3o dessa cidadania que pode iluminar todas as outras quest\u00f5es do pa\u00eds hoje. Eu tenho andado a\u00ed com meu circo, com o projeto da Universidade do Circo, eu tenho andado com palestras, o Jatob\u00e1 tem me levado a lugares que eu nunca imaginei ir, para falar e para estar com as pessoas com defici\u00eancia. E o que eu tenho feito \u00e9: \u201cSaiam \u00e0s ruas! Ocupem os seus espa\u00e7os\u201d! Eu me lembro de um rapaz entrando numa boate e a\u00ed o seguran\u00e7a da boate falou: \u201cEpa, eu acho que aqui voc\u00ea vai ter um problema para entrar na boate\u201d. A\u00ed o cadeirante falou: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o! O problema \u00e9 de voc\u00eas! Eu t\u00f4 aqui, quero entrar e quero que me carreguem, quero que me locomovam. Eu n\u00e3o t\u00f4 preocupado em denunciar se a casa tem ou n\u00e3o tem a condi\u00e7\u00e3o para que eu possa freq\u00fcentar. Eu quero freq\u00fcentar\u201d. Aquela atitude serena, tranq\u00fcila, bem humorada criou um problema para o seguran\u00e7a resolver naquele instante e ainda criou a situa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de que o dono do estabelecimento pensasse seriamente em preparar a boate dele para que fosse freq\u00fcentada por pessoas com dificuldades de locomo\u00e7\u00e3o. Eu acho que este ano, ano de 2006, eu queria colocar isso aqui na mesa, eu acho a quest\u00e3o do deficiente \u00e9 t\u00e3o ou mais importante do que a Copa do Mundo que se aproxima, do que as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Lars Grael, na sua vis\u00e3o, o que \u00e9 o passo n\u00famero um para que o pa\u00eds trate melhor esse contingente que \u00e9 t\u00e3o diversificado?<\/p>\n<p>Lars Grael: Bom, boa noite, Markun. Boa noite, colegas do Roda Viva. Eu acho que n\u00f3s temos uma quest\u00e3o de fundo de estrutura legal sobre isso, que \u00e9 uma revis\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o das leis dos direitos das pessoas portadoras de defici\u00eancia. Isso est\u00e1 em debate hoje no Congresso Nacional, eu acho que o deputado Leonardo Mattos pode apresentar isso at\u00e9 melhor. Mas me parece que, muitas vezes, n\u00e3o apenas formular novas leis, mas fazer cumprir as leis atuais. Ou seja, h\u00e1 um problema de conscientiza\u00e7\u00e3o, de mobiliza\u00e7\u00e3o nacional sobre essa causa. A quest\u00e3o, por exemplo, da novela Am\u00e9rica, foi um meio de comunica\u00e7\u00e3o, de convencimento, de mobiliza\u00e7\u00e3o nacional muito bem desenvolvido. Eu acho que mudou todo um paradigma, est\u00e1 ajudando demais. Como tamb\u00e9m \u00e9 importante o movimento paraol\u00edmpico, que mostra que um atleta como o Clodoaldo n\u00e3o \u00e9 apenas rotulado como um deficiente, ele ao comprovar nas piscinas ser o melhor paraatleta do mundo e a efici\u00eancia f\u00edsica dele, ele pode mostrar que a letrinha dele pode ser um preconceito da sociedade. E ao comprovar a efici\u00eancia f\u00edsica, ele tamb\u00e9m comprova que ele pode ser uma pessoa \u00fatil ao trabalho, produtiva, uma pessoa que esteja atuando no setor produtivo nacional. Um exemplo que pode ser seguido por milh\u00f5es. Ent\u00e3o eu acho que essa conscientiza\u00e7\u00e3o que est\u00e1 acontecendo hoje no Brasil \u00e9 uma luta, e n\u00f3s temos que permear cargos p\u00fablicos ou empresas privadas. Deputada estadual C\u00e9lia Le\u00e3o, deputado federal. Outros ocupando cargos em empresas, programas em televis\u00e3o como o Dudu. O Marcos Frota com um brilhante desempenho como Jatob\u00e1. Essa mudan\u00e7a est\u00e1 acontecendo, mas falta muito.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Muito bem. Clodoaldo, j\u00e1 que voc\u00ea tamb\u00e9m foi mencionado, o seu depoimento, por favor.<\/p>\n<p>Clodoaldo Silva: Muito boa noite a todos. \u00c9 uma satisfa\u00e7\u00e3o poder estar aqui num programa de tanta visibilidade. E como j\u00e1 foi dito aqui, existem 24 milh\u00f5es e meio de pessoas com defici\u00eancia e se formos incluir fam\u00edlia, amigos, isso passa a representar quase 100 milh\u00f5es, ent\u00e3o que tem algum tipo, que tem alguma rela\u00e7\u00e3o com a pessoa com defici\u00eancia. \u00c9 um n\u00famero muito alto, eu acredito que possa ter mais coisas p\u00fablicas que possam ser feitas, porque a pessoa com defici\u00eancia ela n\u00e3o tem a pregui\u00e7a, n\u00e3o tem o medo de sair nas ruas. O que falta muito \u00e9 a acessibilidade, s\u00e3o rampas que n\u00e3o t\u00eam. Ent\u00e3o eu acredito que essa \u00e9 o maior problema de n\u00f3s, pessoas com defici\u00eancia, porque quando uma pessoa nasce e tem alguma necessidade especial, logo as pessoas pensam: \u201cPoxa, a minha vida acabou. P\u00f4, eu n\u00e3o vou ter \u00eaxito na vida\u201d. Mas n\u00e3o. N\u00f3s temos algum tipo de necessidade especial e vamos tra\u00e7ar outro caminho para chegar no mesmo objetivo daquela pessoa dita normal, entre aspas. Porque o mundo n\u00e3o acaba, apenas vai ser um caminho com mais dificuldades para que se possa chegar no objetivo. Eu acredito que eu estou tendo a felicidade de estar representando a parte do esporte, estar representando pessoas que h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s achava que era imposs\u00edvel, achava que n\u00e3o podia sair nas ruas. E hoje eu vejo uma coisa diferente. Vejo que as pessoas com defici\u00eancia a auto-estima elevou, est\u00e3o mais acreditando nas coisas, nos seus objetivos. E tudo isso pelo esporte, pela Paraolimp\u00edada tamb\u00e9m que foi um grande marco, porque em 2004, pela primeira vez, foi transmitido ao vivo. E antes a sociedade brasileira ouvia falar que n\u00f3s \u00edamos e ganh\u00e1vamos medalhas, consegu\u00edamos bons resultados, mas em 2004 passou a ver. E \u00e9 muito diferente voc\u00ea ver e ouvir. E a\u00ed sim, hoje eu me sinto feliz que tenham pessoas com defici\u00eancia e chegam: \u201cPoxa, quando eu crescer eu quero ser igual a voc\u00ea\u201d. N\u00e3o s\u00f3 pessoas com defici\u00eancia. Pessoas que n\u00e3o t\u00eam nenhum tipo de defici\u00eancia chegam e falam a mesma coisa. Ent\u00e3o isso chega a me emocionar e isso chega a mostrar que as pessoas que n\u00e3o t\u00eam defici\u00eancia n\u00e3o v\u00eaem voc\u00ea com defici\u00eancia. E sim uma pessoa capaz, uma pessoa que busca seus objetivos. E eu fico muito feliz de estar representando isso na sociedade brasileira e tenho certeza que eu tenho uma carreira muito grande a\u00ed, porque eu acredito que a minha maior medalha vai ser tirar essas pessoas de casa e elevar a auto-estima. E eu espero contribuir de alguma forma.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Doutor Donaldo, do outro lado dessa hist\u00f3ria, o senhor acompanha a experi\u00eancia de quem era normal, se essa palavra se encaixa, tinha suas condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas comuns e, de repente, perde um membro. Como \u00e9 que o senhor encara essa situa\u00e7\u00e3o e o que o senhor poderia dizer sobre isso?<\/p>\n<p>Donaldo Jorge Filho: O que a gente verifica \u00e9 que existem dois tipos de deficientes, vamos dizer assim, n\u00e3o querendo ser muito did\u00e1tico. Aquele que nasce com a defici\u00eancia e aquele que recebe uma defici\u00eancia de presente, como um acidente, como um aspecto de viol\u00eancia urbana, ou mesmo uma doen\u00e7a. Ent\u00e3o, aquele que nasce com a defici\u00eancia se prepara para ela, como disse o Clodoaldo, a fam\u00edlia dele est\u00e1 mais ou menos preparada para colaborar e contribuir para o desenvolvimento desse deficiente. J\u00e1 quando o indiv\u00edduo \u00e9 pego de surpresa no meio da sua vida, o que acontece \u00e9 que a fam\u00edlia dele, os amigos em torno dele est\u00e3o despreparados. E o que eu acho \u00e9 que a grande miss\u00e3o hoje, em termos, como disse a deputada C\u00e9lia Le\u00e3o, pol\u00edticas p\u00fablicas e tudo mais, a grande miss\u00e3o eu acho que \u00e9 preparar a sociedade para a conviv\u00eancia com o deficiente. Tanto no aspecto m\u00e9dico, n\u00f3s da reabilita\u00e7\u00e3o sentimos, estava comentando com o Dudu agora h\u00e1 pouco, muitos colegas ainda muito despreparados, cirurgi\u00f5es completamente ignorantes do que fazer com um indiv\u00edduo que sofreu um trauma e vai necessitar de uma amputa\u00e7\u00e3o. E a\u00ed aparecem aqueles problemas que o deficiente vem reclamar da pr\u00f3tese, por exemplo. A pr\u00f3tese est\u00e1 certinha, o que est\u00e1 errado \u00e9 o membro residual dele, o coto de amputa\u00e7\u00e3o dele \u00e0s vezes. Ent\u00e3o, infelizmente a gente tem que estar sempre &#8220;toureando&#8221;, vamos usar um termo bem chulo, &#8220;toureando&#8221; essas situa\u00e7\u00f5es. \u201cSer\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o aceitaria cortar 2 cm do seu osso e revestir melhor esse coto, a\u00ed n\u00e3o vai doer\u201d. \u00c9 assim que o m\u00e9dico, infelizmente, tem que estar procedendo. Agora, o que se faz em reabilita\u00e7\u00e3o, tem que ser feito em equipe. Ent\u00e3o o que a gente v\u00ea \u00e9 que o Brasil inda est\u00e1 muito deficiente no aspecto da reabilita\u00e7\u00e3o em equipe. Numa equipe de reabilita\u00e7\u00e3o, at\u00e9 por lei, se pressup\u00f5e a\u00ed 8 pessoas al\u00e9m do m\u00e9dico, oito profissionais al\u00e9m do m\u00e9dico. E a gente v\u00ea que muitos desses profissionais querem trabalhar sozinhos. A gente precisa desenvolver dentro da reabilita\u00e7\u00e3o o conceito de equipe.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Leonardo Mattos.<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: O mundo hoje discute a quest\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia atrav\u00e9s da forma\u00e7\u00e3o de uma conven\u00e7\u00e3o dirigida, encaminhada e conduzida pela ONU e com uma forte participa\u00e7\u00e3o do Brasil. Portanto, isso quer dizer que n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio da na\u00e7\u00e3o brasileira o problema da inclus\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia. Mas ao longo dos meus quase 30 anos de cadeira, eu pude perceber alguns pontos que s\u00e3o de estrangulamento. O primeiro: um desest\u00edmulo intenso por parte da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica na perspectiva de fazer investimento na inclus\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia. Vamos ter um exemplo aqui do transporte coletivo. At\u00e9 hoje o Brasil n\u00e3o permite acesso do usu\u00e1rio de cadeira de rodas no transporte coletivo de nosso pa\u00eds, que \u00e9 a quest\u00e3o nuclear de um problema de cidadania, de uma quest\u00e3o de cidadania. Essas quest\u00f5es precisam ser equacionadas com investimento. Ent\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel que o governo brasileiro defina or\u00e7amento para a inclus\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia. \u00c9 indispens\u00e1vel que os governos estaduais fa\u00e7am o mesmo, que os governos municipais fa\u00e7am o mesmo, que as escolas p\u00fablicas estejam perfeitamente aparelhadas e qualificadas para receber esse contingente de pessoas. Hoje mais de 30% dos analfabetos do Brasil portam algum tipo de defici\u00eancia. Isso \u00e9 sinal de que os investimentos ao segmento est\u00e3o sendo deixados de lado. No meu modo de ver, n\u00f3s precisamos realmente fazer um grande debate no nosso pa\u00eds e esse debate come\u00e7ou recentemente com a Confer\u00eancia Nacional [A I Confer\u00eancia Nacional dos Direitos da Pessoa com Defici\u00eancia ocorreu de 12 a 15 de maio de 2006 em Bras\u00edlia, com o tema: \u201cAcessibilidade voc\u00ea tamb\u00e9m tem compromisso\u201d] que terminou ainda nesta semana, onde os pontos principais, os pontos de estrangulamento foram debatidos. Mas precisa se elaborar um plano diretor no Brasil, um plano diretor da inclus\u00e3o dos deficientes em nosso pa\u00eds, passando pelo esporte, pela cultura, pela educa\u00e7\u00e3o, pela acessibilidade ao transporte coletivo. Enfim, o Brasil precisa sofrer uma transforma\u00e7\u00e3o, uma grande revolu\u00e7\u00e3o na perspectiva de incluirmos essa pessoa com defici\u00eancia. Caso contr\u00e1rio, fatos que n\u00f3s vimos de deficientes amarrados nas camas, deficientes abandonados, deficientes minguando, morrendo de fome, morrendo nas portas de hospitais, v\u00e3o continuar, \u00e0 nossa revelia.<\/p>\n<p>Paulo Markun: O Ronaldo, como eu j\u00e1 disse aqui, tem paralisia cerebral e se comunica de duas maneiras: por uma t\u00e1bua de sinais e pelo teclado do computador, digitando com o dedo dos p\u00e9s. Tem um depoimento aqui que eu diria prosaico e absolutamente no ponto. Quem, ali\u00e1s, tiver interesse em conhecer mais da hist\u00f3ria dele, basta acessar o site que \u00e9: www.trunet.com.br\/ronaldo. O site se chama Dedos dos p\u00e9s e tem um relato que fez a gente convid\u00e1-lo para participar do programa, absolutamente surpreendente pela disposi\u00e7\u00e3o de enfrentar essa dificuldade e pela demonstra\u00e7\u00e3o de que as apar\u00eancias sempre enganam. Ent\u00e3o, o Ronaldo diz o seguinte: \u201cMuita gente com defici\u00eancia n\u00e3o pode ter cart\u00f5es de cr\u00e9dito, s\u00f3 porque n\u00e3o pode assinar o nome\u201d. E ele ainda lembra que esse \u00e9 o caso dele. Ent\u00e3o \u00e9 o paradoxo, ele tem de andar com dinheiro no bolso e tem a dificuldade de colocar a m\u00e3o no bolso. Esse \u00e9 o tipo de realidade que o Ronaldo enfrenta. N\u00f3s vamos fazer um r\u00e1pido intervalo, lembrando que a entrevista desta noite poder\u00e1 ser encomendada em DVD a partir de amanh\u00e3 pelo site www.culturamarcas.com.br, como todas as entrevistas do Roda Viva. Ou pelo telefone 3081-3000. E n\u00f3s voltamos num instante com o programa que tem na plat\u00e9ia hoje Carlos Odilon da Silva, gerente de p\u00f3s-venda da Marxel; Marisa Furlan Silva, presidente da ABRA, Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Autismo e fundadora da AMA, Associa\u00e7\u00e3o dos Amigos do Autista; Dirceu Pereira Junior, diretor editorial da revista Sentidos. A gente volta j\u00e1, j\u00e1.<\/p>\n<p>[intervalo]<\/p>\n<p>Paulo Markun: Voltamos com o Roda Viva especial, que debate as dificuldades e oportunidades das pessoas com defici\u00eancia. Como o programa est\u00e1 sendo gravado, ele n\u00e3o permite a participa\u00e7\u00e3o dos telespectadores. N\u00f3s vamos ver o depoimento de Pedro de Alc\u00e2ntara, no Rio, que \u00e9 advogado.<\/p>\n<p>VT de Pedro de Alc\u00e2ntara: A reserva de mercado de trabalho est\u00e1 condicionada \u00e0 habilita\u00e7\u00e3o profissional. A lei \u00e9 clara quando diz: \u201cO deficiente habilitado deve ser contratado, se n\u00e3o houver habilita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como se contratar deficiente n\u00e3o habilitado\u201d. Pergunta-se: o que fazer para que essas institui\u00e7\u00f5es realizem aquilo que a lei determina? Isto \u00e9, a habilita\u00e7\u00e3o profissional do deficiente.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Dudu Braga, na sua opini\u00e3o, o que pode ser feito para melhorar as condi\u00e7\u00f5es desse contingente de brasileiros de chegar ao universo do trabalho, se n\u00e3o em p\u00e9 de igualdade, pelo menos com alguma chance?<\/p>\n<p>Dudu Braga: Eu estava vendo tamb\u00e9m o Leonardo falar no bloco passado sobre o problema de gerenciamento cr\u00f4nico do Brasil, n\u00e3o s\u00f3 na quest\u00e3o dos deficientes, em modo geral, das pol\u00edticas p\u00fablicas. A gente tem um problema realmente de gerenciamento de tudo que est\u00e1 acontecendo. Eu particularmente acho as pol\u00edticas de cota necess\u00e1rias, mas eu sou contra elas. Eu acho que faz parte de um processo da inclus\u00e3o, hoje a pol\u00edtica de cotas para os deficientes e n\u00e3o s\u00f3 para os deficientes de um modo geral, mas eu acho que isso, de certa forma, s\u00e3o preconceituosas as pol\u00edticas de cotas. Mas faz parte. \u00c9 como se fosse um rem\u00e9dio, n\u00e9 doutor, \u00e0s vezes voc\u00ea \u00e9 contra o uso de um rem\u00e9dio, mas \u00e0s vezes voc\u00ea precisa usar para acabar com essa doen\u00e7a que \u00e9 justamente o preconceito que os deficientes sofrem no mercado de trabalho. Mas o problema geral do trabalho para os deficientes e para todo brasileiro de um modo geral \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o. A educa\u00e7\u00e3o eu acho que \u00e9 o grande alicerce de toda sociedade. A educa\u00e7\u00e3o e a fam\u00edlia. Eu acho que melhorando a educa\u00e7\u00e3o, eu estava vendo uma pesquisa outro dia, a forma realmente de voc\u00ea conseguir um aumento de renda, aumentar o sal\u00e1rio \u00e9 justamente aumentando o n\u00edvel dos trabalhadores, o n\u00edvel intelectual dos seus trabalhadores. Ent\u00e3o eu acho que isso a gente vai conseguir melhorar realmente essa quest\u00e3o do trabalho no Brasil, e conseq\u00fcentemente, dos deficientes.<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Paulo Markun, eu quero s\u00f3 acrescentar, eu acho que o debate est\u00e1 extremamente interessante para o Brasil todo. Ali\u00e1s, o Roda Viva tem cumprido esse papel ao longo da sua exist\u00eancia com pessoas e temas extremamente importantes. E esse do deficiente \u00e9 algo que tem que interessar toda a sociedade. Como disse o Clodoaldo com compet\u00eancia e sabedoria, em quase toda fam\u00edlia tem um deficiente, e multiplicado pelos amigos e etc. d\u00e1 quase 100 milh\u00f5es de pessoas, num contingente de 185 milh\u00f5es. Ent\u00e3o, todos n\u00f3s temos que estar interessados nessa causa. A quest\u00e3o da empregabilidade, a quest\u00e3o do trabalho, eu diria que o limite \u00e9 o c\u00e9u, quer dizer, n\u00e3o tem limite para a capacidade e compet\u00eancia com as defici\u00eancias que cada um possa ter. \u00c9 cada um que vai desenvolver aquilo que ele pode. Voc\u00ea pega, por exemplo, o Lars Grael, ele n\u00e3o perdeu nem o prumo, nem o rumo e nem a vela, ele perdeu uma perna, at\u00e9 a\u00ed \u00e9 acess\u00f3rio, quer dizer, perdeu uma, tinha duas, podia ter perdido as duas tamb\u00e9m. D\u00e1 para velejar, senta com o \u201cbumbum\u201d, sei l\u00e1 como que \u00e9. Quer dizer, cada um tem uma condi\u00e7\u00e3o de fazer com aquilo que lhe sobrou, aquilo que \u00e9 dele. Voc\u00ea pega o Leonardo, o L\u00e9o de Minas, ele s\u00f3 \u00e9 cadeirante, ele \u00e9 parapl\u00e9gico. Mas isso n\u00e3o impediu o seu trabalho profissional, \u00e9 parlamentar federal, trabalha e nunca teve problema por causa disso, foi vereador em Belo Horizonte, enfim, tem o seu trabalho. O Dudu j\u00e1 provou que para viver n\u00e3o precisa enxergar, pode ser cego.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Desculpe s\u00f3 interromper, mas n\u00e3o s\u00e3o as exce\u00e7\u00f5es isso?<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Mas, Paulo, deixa eu lhe falar uma coisa. Se voc\u00ea andar nas periferias das cidades como eu ando ou eu \u201crodo\u201d, voc\u00ea vai encontrar milhares de pessoas deficientes, eu digo periferias, porque acaba sempre separando mais. Voc\u00ea vai encontrar pessoas com maior comprometimento f\u00edsico, visual, auditivo, que seja, se voc\u00ea der \u00e0quela pessoa oportunidade de desenvolvimento das coisas que ela sabe ou pode aprender, ela vai fazer. Quer dizer, \u00e9 uma minoria, claro, se voc\u00ea pegar um contingente de 25 milh\u00f5es, voc\u00ea pode chamar de minoria, mas se voc\u00ea der a possibilidade dessas pessoas tamb\u00e9m ao desenvolvimento, elas v\u00e3o ser um Leonardo, elas v\u00e3o ser um Lars Grael, elas v\u00e3o ser um Dudu, elas v\u00e3o ser um Clodoaldo, quem ganha do Clodoaldo? S\u00f3 se for um tubar\u00e3o e a baleia na \u00e1gua [risos], porque o resto ele corre, voa na \u00e1gua e ganha a medalha. Eu penso assim, o Marcos Frota, ele se meteu, no bom sentido, com uma causa, que, entre aspas, n\u00e3o era dele, mas sempre foi com certeza, e isso lhe deu al\u00e9m de mais visibilidade, mais carinho, ficou mais amado e fez mais sucesso, ou seja, \u00e9 uma causa interessante para todo mundo.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Vou dar um testemunho aqui que eu acho bacana. Sem querer fazer divulga\u00e7\u00e3o de uma empresa privada.<\/p>\n<p>Paulo Markun: N\u00e3o tem nenhum problema. Desde que a empresa privada cumpra a sua fun\u00e7\u00e3o e fa\u00e7a um trabalho bacana, por favor, divulgue.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Eu tenho andado a\u00ed pelo pa\u00eds muito nos aeroportos. E eu comecei a perceber a atitude que a Gol [empresa a\u00e9rea brasileira] tomou. A Gol come\u00e7ou com um trabalho muito lento, muito t\u00edmido, ocupando as suas vagas com pessoas com defici\u00eancia, pois aquilo iluminou a empresa toda, aquilo despertou na equipe um clima de companheirismo, de ternura, de respeito, aquilo inspirou as pessoas que s\u00e3o freq\u00fcentadores dos aeroportos e em outras \u00e1reas. Eu tive um testemunho agora no aeroporto do Cear\u00e1, eu sensibilizado e atento com essa quest\u00e3o, eu fui at\u00e9 a administra\u00e7\u00e3o da Gol no aeroporto de Fortaleza e perguntei para eles o porqu\u00ea que eles estavam fazendo isso. E eles ent\u00e3o admitiram que come\u00e7aram aquilo com muita dificuldade, mas que hoje essa pol\u00edtica de aten\u00e7\u00e3o e disponibilidade para que as vagas da Gol fossem preenchidas com pessoas com defici\u00eancia, se tornou prioridade na empresa. Eu queria deixar registrado esse exemplo da Gol, porque \u00e9 uma bolinha de neve que cresceu, cresceu, cresceu e hoje, se voc\u00eas observarem, grande parte dos funcion\u00e1rios de atendimento da Gol nos aeroportos s\u00e3o pessoas com defici\u00eancia.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Eu queria aqui mencionar as afirma\u00e7\u00f5es do Ronaldo, que diz o seguinte: ele trabalha com web design h\u00e1 dez anos e admite que raramente pega trabalho. E no site dele, a gente tem as seguintes informa\u00e7\u00f5es que eu acho que \u00e9 importante a gente saber. Ele diz o seguinte: \u201cUso o computador de uma maneira diferente, com os dedos dos p\u00e9s, a raz\u00e3o disso \u00e9 que devido a um acidente de parto, em que me faltou oxig\u00eanio, fiquei com paralisia cerebral. Apesar disso, minhas fun\u00e7\u00f5es mentais n\u00e3o foram prejudicadas e sou mental e psicologicamente normal. De fato como n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar, como n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel andar, comer, vestir sem ajuda, a comunica\u00e7\u00e3o comigo \u00e9 bastante complicada e por isso era bem problem\u00e1tico expressar o que me passava pela cabe\u00e7a. A internet, ali\u00e1s por ela que n\u00f3s estamos aqui nos comunicando \u2013 Ronaldo e eu, e com todos os telespectadores \u2013 \u00e9 o \u00fanico espa\u00e7o em que esse fato \u00e9 evidente. Em geral as pessoas t\u00eam imensa dificuldade em acreditar que n\u00e3o tenho um retardo mental, problemas de percep\u00e7\u00e3o ou pelo menos uma ingenuidade elefantina. Para fugir do t\u00e9dio, virei um leitor voraz e acabei me tornando autodidata em economia, tamb\u00e9m gosto de hist\u00f3ria, filosofia, ci\u00eancia particularmente f\u00edsica, astronomia e matem\u00e1tica, tecnologia e fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Prefiro que me encarem como um lutador, um ser humano que se v\u00ea na conting\u00eancia de ter de enfrentar problemas maiores do que os \u201cnormais\u201d para ter sonhos, dos quais o maior, e ter um relacionamento intenso com uma mulher e a alegria de viver\u201d. Agora, deu para contrabalan\u00e7ar isso e apimentar a nossa discuss\u00e3o? Sinceramente eu acho que est\u00e1 ficando um pouco cor-de-rosa, com o perd\u00e3o da palavra. Eu cito aqui o e-mail que n\u00f3s recebemos de Michel In\u00e1cio Schilinder, se \u00e9 que eu pronunciei corretamente, que diz o seguinte: ele nasceu em 74, prematuro de 7 meses, teve falta de oxigena\u00e7\u00e3o no c\u00e9rebro, tem paralisia cerebral como o Ronaldo, fez um tratamento, passou boa parte da vida em centros de reabilita\u00e7\u00e3o \u2013 eu estou resumindo o que ele disse \u2013 at\u00e9 93, quando ficou em casa sem fazer nada. Tornou-se autodidata em inform\u00e1tica, volunt\u00e1rio em 96 para a Faculdade de Inform\u00e1tica da UFRGS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ingressou num supletivo, foi alvo de mat\u00e9rias da m\u00eddia, como exemplo de inclus\u00e3o, fez o curso de t\u00e9cnico de manuten\u00e7\u00e3o e montagem de micros, e hoje, luta por uma vaga no mercado de trabalho. E diz o seguinte: \u201cN\u00e3o consigo por um simples fato: as empresas, na figura dos seus recrutadores de recursos humanos, t\u00eam apenas uma imagem de um parapl\u00e9gico, hoje, carinhosamente chamados de cadeirantes. E com muito despreparo descartam as outras defici\u00eancias pura e simplesmente por falta de conhecimento. Cria-se a\u00ed um regime segregat\u00f3rio muito cruel e injusto\u201d. Doutor Leonardo, n\u00e3o tem isso um pouco? N\u00e3o h\u00e1 dois pesos e duas medidas nesse universo?<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: Existe sim, mas eu diria que de forma invertida. Acho que os deficientes com maior grau de severidade t\u00eam uma dificuldade maior, apesar de muitas vezes terem qualifica\u00e7\u00f5es superiores aos demais. Ent\u00e3o as empresas est\u00e3o, sim, recorrendo das a\u00e7\u00f5es que o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho tem realizado em favor da aplica\u00e7\u00e3o da lei, mas elas t\u00eam contratado pessoas com defici\u00eancia bastante amena, s\u00e3o deficientes muito leves, deixando de lado aquelas pessoas com defici\u00eancia mais profundas e mais severas. E a\u00ed entram os deficientes mentais, entram os deficientes de locomo\u00e7\u00e3o, que t\u00eam uma dificuldade muito grande, que eu citei anteriormente por conta do pr\u00f3prio transporte coletivo. \u00c9 inadmiss\u00edvel, por exemplo, hoje eu vivo boa parte dos meus dias da semana em Bras\u00edlia, \u00e9 a capital de todos os brasileiros. Talvez o Brasil inteiro trabalhe para colocar dinheiro naquela cidade, e infelizmente as pessoas com defici\u00eancia n\u00e3o t\u00eam acesso sequer a um passeio p\u00fablico naquela cidade. E \u00e9 uma cidade planejada, plana, sem dificuldades do ponto de vista da sua geografia, enfim, da sua topografia. N\u00f3s precisamos verdadeiramente de investimentos na qualifica\u00e7\u00e3o das pessoas com defici\u00eancia. Eu fico pensando nos pais dos deficientes, nas m\u00e3es dos deficientes quando se deparam com essa situa\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia. Quando elas t\u00eam uma crian\u00e7a n\u00e3o deficiente todo o caminho est\u00e1 pronto e perfeito para ela seguir. Quando se depara com uma crian\u00e7a deficiente na fam\u00edlia, s\u00e3o s\u00f3 obst\u00e1culos que elas t\u00eam que enfrentar e essas m\u00e3es e esses pais viram verdadeiros her\u00f3is, porque a sociedade brasileira n\u00e3o apresentou as portas de entradas para a inclus\u00e3o desses meninos. E a\u00ed eles v\u00e3o ficando cada vez mais despreparados, ou cada vez menos preparados num mercado que cada vez mais exige qualifica\u00e7\u00e3o, exige absoluta intera\u00e7\u00e3o com esse processo de desenvolvimento tecnol\u00f3gico por qual vive o nosso planeta.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Clodoaldo, voc\u00ea tem patroc\u00ednio, n\u00e9? Mas eu imagino que voc\u00ea tem muitos colegas que n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>Clodoaldo Silva: Pois \u00e9. Eu tenho dois patrocinadores, inclusive h\u00e1 tr\u00eas semanas atr\u00e1s, assinei com a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Rio de Janeiro para ser o Embaixador do Pan e do Parapan Americano, que acontece em 2007 no Rio de Janeiro. Vou ter que deixar a cidade de Natal, Rio Grande do Norte para ir morar&#8230; Em agosto estou me mudando para o Rio, mas em Natal n\u00e3o vou deixar as origens. Meu patrocinador, a Nutriday, tamb\u00e9m \u00e9 da cidade, n\u00e3o vou deixar meu clube e, conseq\u00fcentemente, continuo defendendo o Rio Grande do Norte. Estou com o pensamento de instalar um instituto com o meu nome na cidade, realizar projetos. Ent\u00e3o tem todo esse lado social que eu vou ficar realizando em Natal e estar treinando no Rio. E acompanhando um pouco do relato do Ronaldo, falando que tem paralisia cerebral, que tem essa dificuldade at\u00e9 na inser\u00e7\u00e3o ao mercado de trabalho. Tamb\u00e9m tenho paralisia cerebral, falta de oxigena\u00e7\u00e3o durante o parto e sofri muitos preconceitos, tanto que, em programas de televis\u00e3o, as pessoas chegaram a dizer: \u201cPoxa, tem dic\u00e7\u00e3o perfeita, se expressa corretamente\u201d. Ent\u00e3o muitas pessoas ainda associam muito a paralisia cerebral com defici\u00eancia mental. Ent\u00e3o s\u00e3o diagn\u00f3sticos que n\u00e3o t\u00eam nada a ver. Muitas vezes n\u00e3o temos uma dic\u00e7\u00e3o perfeita, n\u00e3o temos uma express\u00e3o muito boa, mas intelectualmente pode ser um Ronaldo, pode ser esse rapaz a\u00ed que mandou o e-mail, que tem todas as condi\u00e7\u00f5es de estar trabalhando, de estar no mercado de trabalho, s\u00f3 precisa de oportunidades. E, falando sobre qualifica\u00e7\u00e3o, eu acho que tr\u00eas fatores a\u00ed t\u00eam uma grande import\u00e2ncia. O primeiro \u00e9 a fam\u00edlia. A fam\u00edlia, quando nasce uma pessoa com defici\u00eancia, ela tem que incentivar, tem que apoiar e, gra\u00e7as a Deus, eu tive todo esse apoio. E com esse apoio vem o segundo fator que \u00e9 auto-estima. Tendo uma auto-estima boa voc\u00ea consegue qualquer coisa. Acho como a C\u00e9lia falou, o c\u00e9u \u00e9 o limite. E, em terceiro lugar, \u00e9 o governo. Eu acho que tem que sempre estar fazendo pol\u00edticas p\u00fablicas para estar sempre incentivando. Eu fui uma pessoa que, gra\u00e7as a Deus, tive e tenho uma fam\u00edlia que sempre me apoiou, uma auto-estima muito grande, mas infelizmente n\u00e3o tive nenhuma ajuda de governo. Ent\u00e3o, para onde eu tinha que ir at\u00e9 os 7 anos de idade, para a escola e para a creche, para as coisas mais f\u00e1ceis para uma pessoa dita normal para fazer, eu precisava do meu irm\u00e3o que me carregasse. Ent\u00e3o, se eu precisava estudar, meu irm\u00e3o que me carregava nas costas para eu poder assistir a aula. E, infelizmente, hoje o Brasil tem um grande n\u00famero de analfabetos e imagina pessoas com defici\u00eancia, que t\u00eam uma maior dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o, a maior dificuldade de ter acesso. Ent\u00e3o, eu acredito que o principal motivo do deficiente n\u00e3o ter uma prepara\u00e7\u00e3o, uma qualifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 o acesso que n\u00e3o tem de sua casa para a escola.<\/p>\n<p>Lars Grael: Muito bem, eu acho que com rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o de cotas, para voc\u00ea ter acesso ao mercado de emprego, n\u00f3s temos um problema de origem. Como que um deficiente vai conseguir trabalho se muitas vezes ele n\u00e3o consegue sair de casa? A\u00ed voc\u00ea volta a um fundamento: acessibilidade. Um segundo: para voc\u00ea ser competitivo no mercado de emprego, tem que ter educa\u00e7\u00e3o. Vendo o material que a pr\u00f3pria TV Cultura disponibilizou para esse debate, eu constatei aqui que o Brasil, n\u00f3s t\u00ednhamos em 98 s\u00f3 13% dos jovens deficientes, com acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, escolas p\u00fablicas e particulares, em 98. Saltou para 34% em 2004. Um avan\u00e7o not\u00e1vel, mas ainda um ter\u00e7o do contingente apenas. A Espanha tem 86%. Mostra o abismo que n\u00f3s temos para chegar a um patamar aceit\u00e1vel. Portanto, as empresas aqui no Brasil, voc\u00ea tem tr\u00eas tipos: das empresas que n\u00e3o cumprem a lei, e muitas vezes isso passa impune. O poder p\u00fablico faculta \u00e0 sociedade cumprir ou n\u00e3o a nossa vasta legisla\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 uma grande anomalia. Tem as empresas que cumprem a lei, apenas por cumpri-las. Ent\u00e3o coloca l\u00e1 o deficiente, n\u00e3o capacita, n\u00e3o forma, deixa ele ali no cantinho. Se ele vier ao trabalho, bom, se ele no vier, tamb\u00e9m n\u00e3o tem problema. O que est\u00e1 errado. O deficiente ela n\u00e3o quer apenas cumprir o seu direito. Ele quer ser competitivo. Ele quer ter acesso, ele quer respeito, ele quer trabalhar, ele quer ter um plano de cargos e sal\u00e1rios. Ent\u00e3o, veja essa quest\u00e3o. O Marcos Frota citou um bom exemplo, que eu tamb\u00e9m pude presenciar da Gol. Dando um outro exemplo de uma empresa que eu fiz uma palestra recente, que eu vi que trabalha muito bem com a quest\u00e3o do acesso do deficiente, formando, capacitando, valorizando, que foi a quest\u00e3o do Banco Ita\u00fa. Ou seja, tem caminho para evoluir, n\u00e3o resta a menor d\u00favida. Mas eu acho que o que falta muito \u00e9 capacita\u00e7\u00e3o. O deficiente tem que ter acesso e a capacidade de ser competitivo.<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: Se voc\u00ea me permite, tudo isso tem que ser discutido dentro de um contexto. E qual \u00e9 o contexto hoje vivido na sociedade brasileira? Boa parte dessa viol\u00eancia que estamos vivendo aqui \u00e9 ocasionada pelo desemprego. E o desemprego n\u00e3o assola apenas as pessoas com defici\u00eancia, ent\u00e3o n\u00f3s temos concorrentes fort\u00edssimos no mercado que tamb\u00e9m aguardam e esperam ansiosamente pol\u00edticas p\u00fablicas de desenvolvimento, a fim de atingir a esse sem n\u00famero de pessoas tamb\u00e9m em busca de um espa\u00e7o no mercado de trabalho. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o da pessoa com defici\u00eancia, esse n\u00e3o \u00e9 um problema isolado que n\u00f3s vivemos enquanto deficientes. N\u00f3s vivemos enquanto deficientes, mas principalmente enquanto pessoas que moramos num pa\u00eds em que a quest\u00e3o do desemprego tem realmente merecido um tratamento especial que ainda n\u00e3o veio e que precisamos de encontrar esse tratamento e de colocarmos em pr\u00e1tica o mais rapidamente poss\u00edvel. A\u00ed sim n\u00f3s vamos poder realmente identificar o que tem afastado as pessoas com defici\u00eancia do mercado de trabalho, que n\u00e3o s\u00e3o apenas n\u00f3s.<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Leonardo, se voc\u00ea me permite um minuto, Paulo Markun, porque \u00e9 importante pelo momento. Eu acho que esse tratamento, entre aspas, diferenciado, ele j\u00e1 veio sim, ele est\u00e1 chegando. Quando o Dudu fala das cotas, eu entendo o esp\u00edrito do Dudu, est\u00e1 clar\u00edssima a quest\u00e3o de cotas, obrigar a contratar deficientes, mas hoje \u00e9 absolutamente imprescind\u00edvel ter cotas, porque se deixasse pelo bel-prazer da sociedade, pelos empres\u00e1rios, seja quem for, nunca, eu arrisco dizer nunca, teria porta aberta no mercado de trabalho para o deficiente. Por qu\u00ea? O deficiente ele s\u00f3 assusta porque ele n\u00e3o \u00e9 conhecido. Ele transmite um medo, n\u00e3o ele, a sociedade tem medo do deficiente porque n\u00e3o conhece. Quer dizer, o homem s\u00f3 chegou onde chegou pela capacidade da comunica\u00e7\u00e3o. Porque se n\u00e3o, o homem, ser humano n\u00e3o estaria hoje aqui nem no Roda Viva, nem no planeta hoje de super emancipa\u00e7\u00e3o, com tecnologia, etc. O Ronaldo n\u00e3o fala com a boca, ele n\u00e3o anda com as pernas, mas \u00e9 um homem que est\u00e1 absolutamente ativo, com compet\u00eancia, capacidade, conquistas, da forma que ele faz com o dedo dos p\u00e9s. Quando a gente fala, por exemplo, pegando um gancho, que \u00e9 fant\u00e1stico, o trabalho que a Gol fez, eu acho que deixa a gente igual \u00e0quela propaganda da Caloi [marca de bicicleta], que a gente ficava pequenininho antigamente perto do Natal, a Gol deu um banho de cidadania para o Brasil todo. Mas uma coisa \u00e9 verdade, Dudu, n\u00f3s s\u00f3 temos hoje a possibilidade de empregar pessoas com defici\u00eancia, seja f\u00edsica, mental, auditiva ou visual, m\u00faltipla, severa ou simples, porque existe uma cota que obriga. A Gol ou qualquer outra dessas milhares do Brasil que est\u00e3o empregando, n\u00e3o empregaram porque o deficiente tem pernas grossas ou lindos olhos, empregaram porque t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de empregar.<\/p>\n<p>Marcos Frota: Cabe \u00e0 sociedade cobrar isso. Ter uma firmeza para que as coisas aconte\u00e7am e os exemplos sejam divulgados. O que importa \u00e9 a gente construir essa cidadania com veem\u00eancia.<\/p>\n<p>Dudu Braga: O que eu acho importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cotas, eu n\u00e3o sou contra as cotas, eu acho que as cotas fazem parte de um movimento nesse processo todo. Hoje elas s\u00e3o necess\u00e1rias. No futuro, quando a inclus\u00e3o estiver feita, ela n\u00e3o vai ser mais necess\u00e1ria. Porque o deficiente n\u00e3o vai ser colocado dentro de uma empresa porque ele \u00e9 deficiente, mas simplesmente pelo m\u00e9rito dele. Hoje eu sou a favor das cotas, eu acho que faz parte desse movimento, desse movimento que j\u00e1 vem h\u00e1 alguns anos de quebra desse preconceito realmente em rela\u00e7\u00e3o ao deficiente. Mas como o Lars estava falando, inclusive em rela\u00e7\u00e3o aos n\u00fameros que ele colocou para a gente, que hoje 34% dos deficientes t\u00eam acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a gente realmente tem que melhorar esse n\u00famero n\u00e9, C\u00e9lia?<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Claro.<\/p>\n<p>Dudu Braga: Para que esses deficientes cheguem ao mercado de trabalho com qualifica\u00e7\u00e3o e possam cumprir as suas tarefas, o seu trabalho com m\u00e9rito, mas n\u00e3o s\u00f3 por eles serem deficientes. Agora, que as cotas hoje, no dia de hoje s\u00e3o necess\u00e1rias, com certeza.<\/p>\n<p>C\u00e9lia Le\u00e3o: Dudu, s\u00f3 um n\u00famero. N\u00f3s temos um milh\u00e3o e pouco mais de vagas no estado de S\u00e3o Paulo para pessoa com defici\u00eancia. Ou seja, o mercado que est\u00e1 fechado, entre aspas, est\u00e1 aberto, Clodoaldo. Porque precisamos conseguir pelas cotas e pela normatiza\u00e7\u00e3o e pela lei um milh\u00e3o de vagas para pessoa com defici\u00eancia. Ent\u00e3o, eu acho que o Dudu est\u00e1 falando e eu concordo, somos favor\u00e1veis, entre aspas, \u00e0s cotas, porque ela abre o mercado de trabalho, coisa que antigamente n\u00e3o acontecia.<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: No entanto, essas vagas n\u00e3o s\u00e3o criadas por decreto, precisam ser criadas as vagas para que haja um aproveitamento.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Precisa ser cumprida a lei.<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: A vaga precisa ser criada. Como \u00e9 que se criam um milh\u00e3o de vagas da noite para o dia para se cumprir a lei? Esse \u00e9 o grande problema, n\u00f3s vamos demitir as pessoas n\u00e3o deficientes para incluir as pessoas com defici\u00eancia?<\/p>\n<p>Dudu Braga: Isso \u00e9 uma pol\u00edtica de inclus\u00e3o, n\u00e9?<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: \u00c9, mas a\u00ed n\u00f3s vamos viver uma situa\u00e7\u00e3o de constrangimento, porque o cobertor \u00e9 curto. N\u00f3s precisamos aumentar esse cobertor para garantirmos essa verdadeira inclus\u00e3o. Mas um outro ponto que precisa ser tratado e \u00e9 um ponto que permeia todas as pol\u00edticas sociais, n\u00f3s estamos tendo a porta de entrada delas, mas n\u00f3s n\u00e3o estamos encontrando a porta de sa\u00edda dessas pol\u00edticas sociais. N\u00f3s sabemos que a cota \u00e9 importante nesse momento, mas n\u00f3s n\u00e3o sabemos como vamos deixar de fazer com que essas cotas sejam indispens\u00e1veis. Tanto isso para negro, \u00edndio, pardo, portador de defici\u00eancia e para uma s\u00e9rie de outros segmentos, estamos procurando as pessoas com problemas renais grav\u00edssimos, as pessoas com defici\u00eancia por conta da sua ra\u00e7a, como, por exemplo, a anemia falciforme que atinge de forma brutal a popula\u00e7\u00e3o de origem africana em nosso pa\u00eds e que ainda n\u00e3o recebeu um tratamento por parte tanto da ci\u00eancia quanto da nossa pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>Clodoaldo Silva: Eu acho que tem que haver esse incentivo e motivar essas pessoas com defici\u00eancia no mercado de trabalho. Por que eu tiro pelo meu exemplo. Antes de Atenas, da Paraolimp\u00edada, que l\u00e1 eu consegui 6 medalhas de ouro, comecei a ser conhecido, as crian\u00e7as corriam de medo. Viam uma pessoa com defici\u00eancia, ent\u00e3o, corriam de medo. E hoje \u00e9 o contr\u00e1rio. Pessoas com defici\u00eancia ou sem defici\u00eancia v\u00eam at\u00e9 mim para pegar aut\u00f3grafos, para, como eu falei anteriormente: \u201cPoxa, quando eu crescer que quero ser igual a voc\u00ea\u201d. Ent\u00e3o realmente tem que haver esse incentivo e essa motiva\u00e7\u00e3o para que, em anos futuros, possa estar consolidado e n\u00e3o possa mais haver esse incentivo e motiva\u00e7\u00e3o, e possa ser uma coisa natural, para que possa acontecer.<\/p>\n<p>Donaldo Jorge Filho: Se voc\u00eas me permitem, parece que a palavra aqui \u00e9 compet\u00eancia, ent\u00e3o o deficiente passa a ser eficiente na medida em que ele \u00e9 mais ou menos competente. Ent\u00e3o, vamos pensar em educa\u00e7\u00e3o. Vamos ter que educar o deficiente, melhorar a compet\u00eancia dele para ele disputar uma vaga no mercado de trabalho. Isso passa muito facilmente pela flexibiliza\u00e7\u00e3o de curr\u00edculos. Eu estava avaliando o que o Ronaldo colocou, as mat\u00e9rias que ele se interessou e as mat\u00e9rias em que ele se desenvolveu, ci\u00eancias humanas basicamente. Ent\u00e3o, n\u00e3o adianta pegar o Ronaldo e dizer: \u201cN\u00e3o, se voc\u00ea quiser fazer o col\u00e9gio, voc\u00ea tem que fazer educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica\u201d. Bom, e a\u00ed? Joga xadrez com o p\u00e9. Xadrez \u00e9 esporte. Ent\u00e3o, veja bem, flexibiliza\u00e7\u00e3o de curr\u00edculo eu acho que \u00e9 fundamental n\u00e3o para o deficiente, mas principalmente para o deficiente. Acho que deveria existir para todo mundo. Mas o deficiente eu acho que deveria ter a op\u00e7\u00e3o de escolher aquilo que melhor ele se adapta. E a partir da\u00ed sim.<\/p>\n<p>Leonardo Mattos: Eu fui procurado na Confer\u00eancia dos Deficientes desta semana passada, por um inclusive xar\u00e1 meu, Leonardo, dizendo que ele foi demitido da escola em que ele trabalhava, porque o Minist\u00e9rio P\u00fablico exigiu que houvesse um concurso. E ele \u00e9 um deficiente mental. S\u00f3 que o concurso tinha nas provas de portugu\u00eas, matem\u00e1tica, ingl\u00eas, f\u00edsica, qu\u00edmica, biologia e ele foi reprovado e, conseq\u00fcentemente, demitido. E a fun\u00e7\u00e3o dele era levar meninos deficientes at\u00e9 o banheiro, resolver esses problemas de asseamento desses meninos e fazia com perfei\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que a prova n\u00e3o atingia essa fun\u00e7\u00e3o desse cidad\u00e3o. E ele me reclamando qual \u00e9 a atitude que ele vai tomar e qual a atitude que a sociedade brasileira vai tomar para resolver o problema.<\/p>\n<p>Paulo Markun: Perfeito. N\u00f3s vamos fazer um intervalo. Eu queria antes ler aqui a mensagem do Ronaldo que diz: \u201cA imagem que se tem do deficiente \u00e9 limitada tamb\u00e9m\u201d. E ele menciona o seguinte: \u201cA imagem mais comum que a sociedade faz de um portador de defici\u00eancia f\u00edsica \u00e9 a de um parapl\u00e9gico sentado numa cadeira de rodas. Como a mente est\u00e1 no c\u00e9rebro, mesmo alguns profissionais neurologistas, psic\u00f3logos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e etc., acostumados a lidar com pessoas com defici\u00eancia, pensam que uma les\u00e3o cerebral implica necessariamente em retardo mental\u201d. E ele relata, a experi\u00eancia dele come\u00e7ou em 1998, de trabalho, como coordenador de uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental, a Associa\u00e7\u00e3o do Jovem Aprendiz, que oferece cursos profissionalizantes gratuitos a pessoas com defici\u00eancias, sediada em Bras\u00edlia, \u201cleu o meu site, enviou uma mensagem dizendo que talvez pudesse me arranjar algum trabalho, respondi que isso era o que eu mais e ele me pediu para fazer uma proposta para fazer a p\u00e1gina da associa\u00e7\u00e3o. Esse foi o primeiro trabalho grande que fiz sem minha irm\u00e3. Desde ent\u00e3o, tenho feito alguns sites, tradu\u00e7\u00f5es para o ingl\u00eas, trabalhos para estudantes universit\u00e1rios e outros bicos, entre aspas, de forma espor\u00e1dica\u201d. Ele diz que at\u00e9 95 se sentia sem for\u00e7as para tentar trabalhar. \u201cO que s\u00f3 mudou com uma psicoterapia, que comecei, a contra-gosto, num momento dif\u00edcil. Ap\u00f3s diversas tentativas de obter um computador, uma congrega\u00e7\u00e3o religiosa doou o dinheiro que me possibilitou atingir tal objetivo. A partir de ent\u00e3o, iniciei trabalhando, fazendo cart\u00f5es de visitas impressos e folhas de pagamento em sociedade com minha irm\u00e3 e depois sozinho, web design e algumas tradu\u00e7\u00f5es.\u201d N\u00f3s vamos para mais um intervalo, e lembramos que voc\u00ea pode ter o programa de hoje gravado em DVD. Voc\u00ea tamb\u00e9m pode conseguir pelo site www.culturamarcas.com.br os tr\u00eas livros: O melhor do Roda Viva, que s\u00e3o 60 entrevistas, 20 por exemplar, 20 por livro, Cultura Internacional e Poder, que resumem um pouco do que foi discutido aqui nos 20 anos de programa. O Roda Viva faz 20 anos agora em outubro. N\u00f3s voltamos dentro de instantes com o programa que \u00e9 acompanhado hoje na plat\u00e9ia por Joel Silva, assessor de imprensa; Joyce Campos, estudante de psicologia e Gisleine Bressing, empres\u00e1ria. A gente volta j\u00e1, j\u00e1.<\/p>\n<p>[intervalo]<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/variados\/programa-roda-viva-debates-deficientes-parte2\/\">Continua\u00e7\u00e3o: veja a parte 2<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: http:\/\/www.rodaviva.fapesp.br\/materia_busca\/107\/psicologia\/entrevistados\/debate_deficientes_2006.htm Artistas, pol\u00edticos, atletas e m\u00e9dicos discutem sobre a inclus\u00e3o das pessoas portadoras de defici\u00eancia Paulo Markun: Boa noite. No Brasil, segundo um levantamento do IBGE, 10% dos 185 milh\u00f5es de habitantes s\u00e3o pessoas com algum tipo de defici\u00eancia f\u00edsica, mental, visual ou auditiva. J\u00e1 a Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas estima um n\u00famero ainda superior, &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/variados\/programa-roda-viva-debates-deficientes\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Programa Roda Viva &#8211; Debates Deficientes (parte 1)&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1055,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"class_list":["post-1283","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1283","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1283"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1283\/revisions"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1055"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1283"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}