{"id":1514,"date":"2008-09-12T14:30:37","date_gmt":"2008-09-12T17:30:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=1514"},"modified":"2021-03-13T23:46:29","modified_gmt":"2021-03-14T02:46:29","slug":"o-equilibrio-da-balanca","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/o-equilibrio-da-balanca\/","title":{"rendered":"O Equil\u00edbrio da Balan\u00e7a &#8211; Piaget"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte: <\/strong>INHELDER, B\u00e4rbel e PIAGET, Jean. <em>Da l\u00f3gica da crian\u00e7a \u00e0 l\u00f3gica do adolescente<\/em>. S\u00e3o Paulo:<br \/>\nPioneira, 1976.<\/p>\n<p>Com o problema da balan\u00e7a reencontramos o esquema operat\u00f3rio do equil\u00edbrio entre a a\u00e7\u00e3o e a rea\u00e7\u00e3o, mas apresentamos os dados de maneira que necessariamente se apresente tamb\u00e9m o problema das propor\u00e7\u00f5es. Realmente, quando dois pontos desiguais P e P\u2019 se equilibram em dist\u00e2ncias desiguais do eixo, L e L\u2019, \u00e9 que, para desloc\u00e1-los as alturas H e H\u2019 que correspondem a tais dist\u00e2ncias, s\u00e3o iguais aos trabalhos PH e PH\u2019. Temos, portanto, a dupla propor\u00e7\u00e3o (inversa):<\/p>\n<p align=\"center\">P\/P\u2019 = L\u2019\/L = H\u2019\/H<\/p>\n<p>Disso resulta que a descoberta de lei sup\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o P\/P\u2019 = L\u2019\/L e que a explicita\u00e7\u00e3o da explica\u00e7\u00e3o implica a compreens\u00e3o da propor\u00e7\u00e3o P\/P\u2019 = H\u2019\/H. Achamos interessante estudar como se elabora esse esquema da proporcionalidade, na medida em que est\u00e1 ligado ao do equil\u00edbrio. Na realidade, sabemos, por nossas pesquisas anteriores, que em todos os dom\u00ednios (espa\u00e7o, velocidade, acaso, etc.), a no\u00e7\u00e3o de propor\u00e7\u00f5es n\u00e3o aparece antes do est\u00e1dio formal III A. Trata-se, agora, de verificar porque isso \u00e9 assim.<\/p>\n<p><strong>\u00a7 1. O Est\u00e1dio I: Indiferencia\u00e7\u00e3o entre A\u00e7\u00e3o Pessoal E o Processo Exterior (I A) E depois Articula\u00e7\u00e3o das Intui\u00e7\u00f5es Na Dire\u00e7\u00e3o da Compensa\u00e7\u00e3o dos Pesos (I B)<\/strong><\/p>\n<p>Aproximadamente entre 3 e 5 anos de idade, os sujeitos apresentam rea\u00e7\u00f5es esclarecedoras do ponto de vista que aqui nos interessa. A causalidade em geral constitui, como j\u00e1 o admitimos, uma assimila\u00e7\u00e3o de processos em jogo, seja \u00e0s a\u00e7\u00f5es pessoais do sujeito, seja \u00e0s suas opera\u00e7\u00f5es, mas com a delega\u00e7\u00e3o de umas ou outras \u00e0 realidade em si mesma. No caso de um aparelho como uma balan\u00e7a, desde cedo se constr\u00f3i a no\u00e7\u00e3o de um equil\u00edbrio entre o peso do corpo e outros pesos, mas uma no\u00e7\u00e3o indiferenciada que abrange, al\u00e9m dos pesos como tais, a for\u00e7a muscular de uma press\u00e3o para cima ou mesmo para baixo (pois o peso \u00e9 concebido em liga\u00e7\u00e3o com as a\u00e7\u00f5es de levantar e apertar). Portanto, inicialmente abalan\u00e7a \u00e9 assimilada a esse g\u00eanero de a\u00e7\u00f5es indiferenciadas, e n\u00e3o a um sistema de opera\u00e7\u00f5es e compensa\u00e7\u00f5es entre o peso, e nem, a fortiori, entre peso X comprimento. Na realidade, nesse n\u00edvel n\u00e3o h\u00e1 qualquer forma de opera\u00e7\u00f5es concretas, mas apenas regula\u00e7\u00f5es representativas, isto \u00e9, instrumentos de compensa\u00e7\u00e3o global, sem reversibilidade sistem\u00e1tica. Desta dupla situa\u00e7\u00e3o resulta que os sujeitos do n\u00edvel I A n\u00e3o chegam a assegurar o equil\u00edbrio por uma simples distribui\u00e7\u00e3o de pesos, mas interv\u00eam no aparelho por a\u00e7\u00f5es pessoais, indiferenciadas das a\u00e7\u00f5es dos objetos como tais:<\/p>\n<p>MIC (4;6) diante de dois bonecos de pesos iguais e a dist\u00e2ncias de 14 e 9: \u201cPor que \u00e9 que um est\u00e1 embaixo e o outro em cima?\u201d \u2013 (Sobe e desce continuamente o bra\u00e7o do aparelho acreditando que conservar\u00e3o as for\u00e7as e posi\u00e7\u00f5es assim transmitidas.) \u2013 Podemos chegar a deixar tudo direito (gesto horizontal) e que fique parado deste jeito? \u2013 (N\u00e3o responde sim e nem n\u00e3o). \u2013 Como \u00e9 que isso estava antes? \u2013 Assim (horizontal). \u2013 N\u00e3o podemos fazer isso com os bonecos? \u2013 (Balan\u00e7a a cabe\u00e7a e tenta manter a horizontalidade com dois pesos diferentes, subindo e descendo os bra\u00e7os v\u00e1rias vezes.) \u2013 Voc\u00ea pode fazer sem a m\u00e3o?\u201d &#8211; &#8230; Fazemos pesar os bonecos, e depois MIC come\u00e7a novas tentativas. Sugerimos que coloque pesos num lado ou noutro, etc. Conclus\u00e3o: \u201cA gente n\u00e3o pode (conseguir a horizontal)!\u201d<\/p>\n<p>MAR (4;8) suspende dois bonecos do mesmo lado sem nada colocar no outro, com o objetivo de conseguir o equil\u00edbrio horizontal!<\/p>\n<p>Vemos que o sujeito, embora intervenha constantemente para retificar a posi\u00e7\u00e3o dos bra\u00e7os da balan\u00e7a, espera que esta conserve os resultados de duas interven\u00e7\u00f5es. A balan\u00e7a e a a\u00e7\u00e3o pessoal n\u00e3o s\u00e3o diferenciadas, mas esta indiferencia\u00e7\u00e3o, embora exclua a no\u00e7\u00e3o de que a balan\u00e7a constitua um mecanismo independente, n\u00e3o exclui de forma alguma a predi\u00e7\u00e3o de alguns efeitos mais ou menos constantes. \u00c9 verdade que, para n\u00f3s, a caracter\u00edstica mais not\u00e1vel dessas predi\u00e7\u00f5es \u00e9, inicialmente, seu aspecto negativo. A crian\u00e7a desse n\u00edvel ainda n\u00e3o pensa, por exemplo, que o equil\u00edbrio implica a igualdade dos pesos (mesmo em dist\u00e2ncias iguais); \u00e9 assim que MAR coloca dois bonecos num lado e nenhum no outro, embora esteja querendo conseguir horizontalidade. O pesado pode ir para cima, e o leve para baixo, da mesma forma que o inverso. Os pesos n\u00e3o s\u00e3o colocados em rela\u00e7\u00e3o: o t\u00edtulo de \u201cmuito pesado\u201d pode ser aplicado a um s\u00f3 boneco suspenso num bra\u00e7o, sem que o oposto, \u201cmuito leve\u201d, seja empregado. N\u00e3o h\u00e1 conserva\u00e7\u00e3o do peso e o sujeito procura continuamente repetir, com novos bonecos, o que acabou de conseguir por acaso com outros, sem se preocupar com diferen\u00e7as de pesos. No entanto, esses sujeitos chegam, por regula\u00e7\u00f5es progressivas, a reconhecer no peso uma influ\u00eancia relativa. De modo geral, suspendem pelo menos um boneco de cada lado, por necessidade de simetria. Ocorre freq\u00fcentemente que, para melhorar o equil\u00edbrio, acrescentem novos bonecos aos anteriores, n\u00e3o do lado em que falta peso (para igualar), mas do lado em que o peso \u00e9 maior, com a id\u00e9ia de que, com v\u00e1rios pesos, as coisas dar\u00e3o certo.<\/p>\n<p>Mas esta a\u00e7\u00e3o de acrescentar, muito caracter\u00edstica desse n\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 ainda operat\u00f3ria, ainda que, sem d\u00favida, constitua o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o aditiva. N\u00e3o \u00e9 operat\u00f3ria porque n\u00e3o h\u00e1 igualiza\u00e7\u00e3o exata entre as partes (A + A\u2019) e o todo B (compensando A + A\u2019 no outro bra\u00e7o). N\u00e3o \u00e9 operat\u00f3ria, principalmente, por falta de reversibilidade: ainda n\u00e3o h\u00e1 a\u00e7\u00f5es de tirar com o objetivo de igualar, e, quando o sujeito tira qualquer elemento, isso ocorre somente para recome\u00e7ar outra coisa depois de um erro.<\/p>\n<p>Do ponto de vista das dist\u00e2ncias a partir do eixo, o sujeito geralmente n\u00e3o se importa com isso, e n\u00e3o procura nem a igualdade e nem uma coordena\u00e7\u00e3o qualquer entre as dist\u00e2ncias e os pesos. Apesar disso, vemos tamb\u00e9m que, a respeito, se delineia um in\u00edcio de opera\u00e7\u00e3o na medida em que o sujeito \u00e0s vezes estabelece um in\u00edcio de simetria. No entanto, tamb\u00e9m aqui n\u00e3o chega a constituir opera\u00e7\u00e3o propriamente dita, em primeiro lugar por falta de coordena\u00e7\u00e3o com os pesos, e depois porque essa simetria se refere principalmente as duas extremidades dos bra\u00e7os, sem igualiza\u00e7\u00e3o para as dist\u00e2ncias intermedi\u00e1rias.<\/p>\n<p>De cinco meses e meio at\u00e9 aproximadamente 7-8 anos (subest\u00e1dio I B), assistimos, ao contr\u00e1rio, a uma articula\u00e7\u00e3o progressiva dessas representa\u00e7\u00f5es intuitivas, e que se orientam na dire\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o revers\u00edvel:<\/p>\n<p>MAL (5;8) verifica que os bra\u00e7os n\u00e3o est\u00e3o na horizontal: \u201c\u00c9 preciso colocar um (outro boneco) do outro lado. Eu sei o que \u00e9 preciso fazer: colocar de novo um outro l\u00e1, porque n\u00e3o temos peso aqui (coloca peso). Estes devem ser mais leves do que aqueles: \u00e9 preciso pegar dois que tenham o mesmo peso.\u201d Depois: \u201cA gente podia tirar um (porque est\u00e1 muito pesado de um lado).\u201d<\/p>\n<p>MAL n\u00e3o descobre espontaneamente a influ\u00eancia da dist\u00e2ncia, mas, quando deslocamos um boneco \u00e0 sua frente, diz: \u201cVoc\u00ea aproximou este, isto faz mais peso: se estivesse na ponta, n\u00e3o funcionaria e l\u00e1 faz mais peso.\u201d<\/p>\n<p>GAS (5;9): \u201cA gente podia colocar um do outro lado: o mesmo (pega um boneco que realmente, pela cor da roupa \u00e9 parecido, mas que tem peso bem diferente). Isto n\u00e3o d\u00e1 certo; vai ver que tem peso demais naquele lado.\u201d<\/p>\n<p>Portanto, a partir de agora a crian\u00e7a compreende que, para o equil\u00edbrio, h\u00e1 necessidade de um peso de cada lado, e mesmo de pesos aproximadamente iguais. Mas n\u00e3o sabe proceder sistematicamente para conseguir essa igualiza\u00e7\u00e3o. Da mesma forma, a partir de agora come\u00e7a a colocar e a tirar, mas sem igualiza\u00e7\u00f5es exatas; faz corre\u00e7\u00f5es sucessivas, isto \u00e9, regula\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o ainda opera\u00e7\u00f5es estritamente revers\u00edveis.<\/p>\n<p>Esses dois tipos de regula\u00e7\u00f5es, por igualiza\u00e7\u00f5es e por adi\u00e7\u00f5es, ou supress\u00f5es, d\u00e3o assim o ponto de partida para as futuras transforma\u00e7\u00f5es por reciprocidade (simetrias) e por invers\u00e3o, relativamente aos pesos. Quanto \u00e0s dist\u00e2ncias, h\u00e1 progresso na tend\u00eancia para a simetria (os bonecos n\u00e3o s\u00e3o mais apenas colocados a dist\u00e2ncias iguais nas extremidades, mas tamb\u00e9m em regi\u00f5es pr\u00f3ximas) e \u00e0s vezes h\u00e1 descoberta do papel desempenhado pelas mudan\u00e7as de dist\u00e2ncia (cf. MAL). No entanto, ainda n\u00e3o existem correspond\u00eancias sistem\u00e1ticas do tipo: mais distante = mais pesado.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">O texto integral est\u00e1 dispon\u00edvel na fonte indicada acima.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: INHELDER, B\u00e4rbel e PIAGET, Jean. Da l\u00f3gica da crian\u00e7a \u00e0 l\u00f3gica do adolescente. S\u00e3o Paulo: Pioneira, 1976. Com o problema da balan\u00e7a reencontramos o esquema operat\u00f3rio do equil\u00edbrio entre a a\u00e7\u00e3o e a rea\u00e7\u00e3o, mas apresentamos os dados de maneira que necessariamente se apresente tamb\u00e9m o problema das propor\u00e7\u00f5es. 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