{"id":1523,"date":"2008-09-12T14:59:58","date_gmt":"2008-09-12T17:59:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=1523"},"modified":"2021-08-11T12:51:35","modified_gmt":"2021-08-11T15:51:35","slug":"o-estruturalismo-antropologico-de-claude-levi-strauss","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/o-estruturalismo-antropologico-de-claude-levi-strauss\/","title":{"rendered":"O estruturalismo antropol\u00f3gico de Claude L\u00e9vi-Strauss, por Piaget"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autor:<\/strong> Jean Piaget<br \/>\n<strong>Fonte: <\/strong>PIAGET, Jean.<em> O estruturalismo<\/em>. Rio de Janeiro: Difel, 1979. p\u00e1g. 86-96.<\/p>\n<p>19. O estruturalismo antropol\u00f3gico de Claude L\u00e9vi-Strauss. &#8212; A antropologia social e cultural ocupou-se principalmente das sociedades elementares, no seio das quais os processos psico-sociais s\u00e3o indissoci\u00e1veis das estruturas ling\u00fc\u00edsticas, econ\u00f4micas e jur\u00eddicas, donde o acento que colocamos sobre essa disciplina sint\u00e9tica, a fim de remediar a brevidade das observa\u00e7\u00f5es que precedem. Como Cl. L\u00e9vi-Strauss \u00e9, por outro lado, a encarna\u00e7\u00e3o dessa cren\u00e7a na perenidade da natureza humana, seu estruturalismo antropol\u00f3gico apresenta um car\u00e1ter exemplar e constitui o modelo (nem funcional, nem gen\u00e9tico, nem hist\u00f3rico) dedutivo mais surpreendente que se tenha utilizado em uma ci\u00eancia humana emp\u00edrica: \u00e9 a esse t\u00edtulo que ele exige, neste trabalho, um exame particular. Parece-nos, com efeito, impens\u00e1vel que n\u00e3o exista liga\u00e7\u00e3o entre essa doutrina da estrutura como fato primeiro da vida dos homens em sociedade e o estruturalismo construtivista da intelig\u00eancia, desenvolvido nos \u00a7 12 e 13.<\/p>\n<p>\u00c9 instrutivo, para apreender a novidade do m\u00e9todo, v\u00ea-lo aplicado a essa pseudo-entidade do totemismo, que constituiu o conceito-chave de tantas sociologias etnogr\u00e1ficas [Nota de rodap\u00e9: L\u00c9VI-STRAUSS, Le tot\u00e9misme aujourd\u2019hui, 2.ed., 1965]. De um profundo texto de Durkheim sobre os mecanismos l\u00f3gicos j\u00e1 imanentes a toda religi\u00e3o primitiva, L\u00e9vi-Strauss deduz \u201cuma atividade intelectual cujas propriedades n\u00e3o podem, por conseguinte, ser o reflexo da organiza\u00e7\u00e3o concreta da sociedade\u201d (p. 138); donde a recusa do \u201cprimado do social sobre o intelecto\u201d (p. 139) e este \u00e9 o primeiro princ\u00edpio fundamental desse estruturalismo que, por detr\u00e1s das rela\u00e7\u00f5es \u201cconcretas\u201d, buscar\u00e1 a estrutura subjacente e \u201cinconsciente\u201d, que s\u00f3 pode ser obtida pela constru\u00e7\u00e3o dedutiva de modelos abstratos. Disso resulta um ponto de vista decididamente sincr\u00f4nico, por\u00e9m, um pouco diferente do da ling\u00fc\u00edstica. Por um lado, \u00e9 motivado pela nossa irremedi\u00e1vel ignor\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s fontes das cren\u00e7as e costumes (p. 101). Por outro lado, e \u00e9 a\u00ed que esse sistema sincr\u00f4nico varia menos que o das l\u00ednguas, \u201cos costumes s\u00e3o dados como normas externas, antes de engendrar sentimentos internos, e essas normas insens\u00edveis determinam os sentimentos individuais, bem como as circunst\u00e2ncias onde poder\u00e3o e dever\u00e3o se manifestar\u201d (p. 101): ora, essas normas resultam das \u201cestruturas\u201d que s\u00e3o permanentes, sendo portanto, um tal sincronismo, de certo modo, a express\u00e3o de um diacronismo invariante! O que n\u00e3o quer dizer, naturalmente, que L\u00e9vi-Strauss queira abolir a hist\u00f3ria; simplesmente, l\u00e1 onde ela introduz mudan\u00e7as, trata-se ainda de \u201cestruturas\u201d, desta vez diacr\u00f4nicas [Nota de rodap\u00e9: \u201cDe direito e de fato, existem estruturas diacr\u00f4nicas e estruturas sincr\u00f4nicas\u201d, em Sens et usages du terme structure (ed. R. BASTIDE), 1962, p. 42], e que n\u00e3o afetam em nada o intelecto humano. No que concerne a este, a hist\u00f3ria \u00e9 simplesmente \u201cindispens\u00e1vel para inventariar a integralidade dos elementos de uma estrutura qualquer, humana ou n\u00e3o humana. Longe, pois, da busca da inteligibilidade chegar \u00e0 hist\u00f3ria como a seu ponto de chegada, \u00e9 a hist\u00f3ria que serve de ponto de partida para toda procura de inteligibilidade &#8230; a hist\u00f3ria conduz a tudo, mas com a condi\u00e7\u00e3o de se sair dela\u201d (La pens\u00e9e sauvage, p. 347-348).<\/p>\n<p>Uma tal posi\u00e7\u00e3o \u00e9, evidentemente, antifuncionalista, pelo menos em rela\u00e7\u00e3o a perspectiva tais como a de Malinovski \u201cmais biol\u00f3gica e psicol\u00f3gica do que propriamente etnol\u00f3gica\u201d, ou seja, \u201cnaturalista, utilit\u00e1ria e afetiva\u201d (Tot\u00e9misme, p. 82). Na verdade, apegando-se a certos tipos difundidos de \u201cexplica\u00e7\u00e3o\u201d inspirados de freudismo, compreende-se porque L\u00e9vi-Strauss parece destinar \u00e0s vezes, uma tal limita\u00e7\u00e3o aos poderes explicativos da biologia e da psicologia. Com efeito, \u00e9 preciso aplaudir suas decisivas observa\u00e7\u00f5es acerca das explica\u00e7\u00f5es pela afetividade (\u201co lado mais obscuro do homem\u201d, p. 99) que esquecem \u201cque o que \u00e9 rebelde \u00e0 explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio, como tal, para servir de explica\u00e7\u00e3o\u201d (p. 100). Da mesma maneira, n\u00e3o se pode sen\u00e3o regozijar-se de ver L\u00e9vi-Strauss desviar-se de um associacionismo, lamentavelmente ainda vivo em certos meios: \u00e9 a \u201cl\u00f3gica das oposi\u00e7\u00f5es e das correla\u00e7\u00f5es, das exclus\u00f5es e das inclus\u00f5es, das compatibilidades e das incompatibilidades que explica as leis da associa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o contr\u00e1rio: um associacionismo renovado deveria ser fundado sobre um sistema de opera\u00e7\u00f5es que estaria em analogia com a \u00e1lgebra de Boole\u201d (p. 130). Contudo, se se pode ver assim \u201cuma s\u00e9rie de encadeamentos l\u00f3gicos unindo as conex\u00f5es mentais\u201d (p. 116) e se, em todos os dom\u00ednios, o passo decisivo \u00e9 \u201ca reintegra\u00e7\u00e3o do conte\u00fado na forma\u201d (p. 123), o problema a permanecer ser\u00e1 o de coordenar, cedo ou tarde, o estruturalismo sociol\u00f3gico ou antropol\u00f3gico e os estruturalismos biol\u00f3gico e psicol\u00f3gico que n\u00e3o podem, em nenhum n\u00edvel (das homeostases \u00e0s opera\u00e7\u00f5es), abster-se de um aspecto funcional.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s estruturas utilizadas por L\u00e9vi-Strauss, todos sabem que, al\u00e9m das estruturas fonol\u00f3gicas, e mesmo em geral saussurianas, nas quais se inspirou, partindo da ling\u00fc\u00edstica, soube reencontrar nas diversas organiza\u00e7\u00f5es do parentesco estruturas alg\u00e9bricas de redes e de grupos de transforma\u00e7\u00f5es etc., que p\u00f4de formalizar com a ajuda de matem\u00e1ticos, tais como A. Weil e G.-Th. Guilbaud. E essas estruturas n\u00e3o se aplicam somente ao parentesco: s\u00e3o reencontradas na passagem de uma classifica\u00e7\u00e3o a outra, de um mito a outro, enfim, em todas as \u201cpr\u00e1ticas\u201d e produtos cognitivos das civiliza\u00e7\u00f5es estudadas.<\/p>\n<p>Dois textos fundamentais permitem compreender o sentido que L\u00e9vi-Strauss d\u00e1 a essas estruturas em uma tal explica\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica: \u201cSe, como cremos, a atividade inconsciente do esp\u00edrito consiste em impor formas a um conte\u00fado e se essas formas s\u00e3o fundamentalmente as mesmas para todos os esp\u00edritos, antigos e modernos, primitivos e civilizados &#8211; como o estudo da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, tal qual se exprime na linguagem, o mostra de maneira t\u00e3o manifesta &#8211; \u00e9 necess\u00e1rio e suficiente atingir a estrutura inconsciente, subjacente a cada institui\u00e7\u00e3o e a cada costume, para obter um princ\u00edpio de explica\u00e7\u00e3o v\u00e1lido para outras institui\u00e7\u00f5es e outros costumes, com a condi\u00e7\u00e3o, naturalmente, de prolongar bastante a an\u00e1lise\u201d (Anthropologie structurale, p. 28). Todavia, esse esp\u00edrito humano invariante ou \u201catividade inconsciente do esp\u00edrito\u201d ocupa, no pensamento de L\u00e9vi-Strauss, uma posi\u00e7\u00e3o precisa, que n\u00e3o \u00e9 nem o inatismo de Chomsky, nem, sobretudo, o \u201cvivido\u201d (que se trata de \u201crepudiar\u201d, \u201csob a condi\u00e7\u00e3o de reintegr\u00e1-lo, a seu tempo, em uma s\u00edntese objetiva\u201d, Tristes tropiques, p. 50), mas sim um sistema de esquemas se intercalando entre as infra-estruturas e as superestruturas: \u201cO marxismo &#8211; se n\u00e3o o pr\u00f3prio Marx &#8211; muito freq\u00fcentemente raciocinou como se as pr\u00e1ticas decorressem imediatamente da praxis. Sem colocar em causa o incontest\u00e1vel primado das infra-estruturas, cremos que entre praxis e pr\u00e1ticas intercala-se sempre um mediador, que \u00e9 o esquema conceitual pela opera\u00e7\u00e3o do qual uma mat\u00e9ria e uma forma, desprovidas, uma e outra, de exist\u00eancia independente, efetuam-se como estruturas, isto \u00e9, como seres ao mesmo tempo emp\u00edricos e intelig\u00edveis. \u00c9 a essa teoria das superestruturas, apenas esbo\u00e7ada por Marx, que desejamos contribuir, reservando \u00e0 hist\u00f3ria &#8211; assistida pela demografia, pela tecnologia, pela geografia hist\u00f3rica e pela etnografia &#8211; o cuidado de desenvolver o estudo das infra-estruturas propriamente ditas que, principalmente, n\u00e3o pode ser o nosso porque a etnologia \u00e9 primeiro uma psicologia\u201d (La pens\u00e9e sauvage, p. 173-174).<\/p>\n<p>O problema central que levanta esta grande doutrina, uma vez admitida a exist\u00eancia das estruturas, que n\u00e3o se confundem, pois, a despeito de Radcliffe-Brown (o etn\u00f3grafo anglo-sax\u00e3o que dele mais se aproximou), com o sistema de intera\u00e7\u00f5es observ\u00e1veis, \u00e9 compreender em que consiste essa \u201cexist\u00eancia\u201d. N\u00e3o \u00e9, de maneira alguma, uma exist\u00eancia formal relativa s\u00f3 ao teorizador arranjando seus modelos ao gosto de sua comodidade, uma vez que elas existem \u201cfora\u201d dele e constituem a fonte das rela\u00e7\u00f5es constatadas, a tal ponto que a estrutura perderia todo valor de verdade sem esse acordo estreito com os fatos. N\u00e3o s\u00e3o, tamb\u00e9m, \u201cess\u00eancias\u201d transcendentais, porque L\u00e9vi-Strauss n\u00e3o \u00e9 fenomenologista e n\u00e3o cr\u00ea na significa\u00e7\u00e3o primeira do \u201ceu\u201d ou do \u201cvivido\u201d. As f\u00f3rmulas que reaparecem incessantemente s\u00e3o as que emanam do \u201cintelecto\u201d ou de um esp\u00edrito humano constantemente id\u00eantico a si mesmo, donde seu primado sobre o social (contrariamente ao \u201cprimado do social sobre o intelecto\u201d, que censura em Durkheim), sobre o mental (donde os \u201cencadeamentos l\u00f3gicos unindo as conex\u00f5es metais\u201d) e, a fortiori, sobre o organismo (que \u00e9, com raz\u00e3o, chamado para explicar a afetividade, mas n\u00e3o \u00e9 a fonte das \u201cestruturas\u201d). Mas o problema, ent\u00e3o, \u00e9 apenas mais agudo: qual \u00e9 o modo de \u201cexist\u00eancia\u201d do intelecto ou do esp\u00edrito se ele n\u00e3o \u00e9 nem social, nem mental, nem org\u00e2nico?<\/p>\n<p>Deixar a quest\u00e3o sem resposta redundaria, sem mais, em falar de estruturas \u201cnaturais\u201d, que lembrariam por\u00e9m, deploravelmente, o \u201cdireito natural\u201d etc. Ora, pode-se conceber uma resposta. Se \u00e9 necess\u00e1rio, como bem o diz L\u00e9vi-Strauss, reintegrar os conte\u00fados nas formas, n\u00e3o \u00e9 menos essencial lembrar-se de que n\u00e3o existem nem formas nem conte\u00fados em um sentido absoluto e que, no real como nas matem\u00e1ticas, toda forma \u00e9 um conte\u00fado para aquelas que o englobam e todo conte\u00fado \u00e9 uma forma para aqueles que cont\u00e9m. Contudo (como vimos no \u00a7 8), isto n\u00e3o significa que tudo seja \u201cestrutura\u201d e resta compreender como passar dessa universalidade das formas \u00e0 exist\u00eancia de estruturas melhor definidas porque mais limitadas.<\/p>\n<p>Antes de mais nada, \u00e9 preciso constatar que se, nessa perspectiva, tudo \u00e9 \u201cestrutur\u00e1vel\u201d, as \u201cestruturas\u201d n\u00e3o corresponder\u00e3o, entretanto, sen\u00e3o a certas \u201cformas de formas\u201d entre outras, obedecendo aos crit\u00e9rios limitativos, por\u00e9m especialmente compreensivos, de constituir totalidades possuindo suas leis enquanto sistemas, de exigir que essas leis se estribem em transforma\u00e7\u00f5es e, sobretudo, de assegurar \u00e0 estrutura sua autonomia e sua auto-regula\u00e7\u00e3o. Mas, como de \u201cformas\u201d quaisquer chegam elas a se organizar, desta maneira, em \u201cestruturas\u201d? Quando se trata das estruturas abstratas do l\u00f3gico ou do matem\u00e1tico, s\u00e3o eles que, por \u201cabstra\u00e7\u00e3o reflexiva\u201d (ver \u00a7 5), as tiram daquelas. Todavia, no real, existe um processo formador geral que conduz as formas \u00e0s estruturas e que assegura a auto-regula\u00e7\u00e3o inerente a estas: \u00e9 o processo da equilibra\u00e7\u00e3o que, j\u00e1 no terreno f\u00edsico, situa um sistema no conjunto de seus trabalhos virtuais (ver \u00a7 9); no terreno org\u00e2nico, assegura ao ser vivo suas homeostases de todos os n\u00edveis (ver \u00a7 10); d\u00e1 conta, no terreno psicol\u00f3gico, do desenvolvimento da intelig\u00eancia (ver \u00a7 12 e 13) e que, no dom\u00ednio social, poderia prestar servi\u00e7os an\u00e1logos. Com efeito, se se recorda que toda forma de equil\u00edbrio comporta um sistema de transforma\u00e7\u00f5es virtuais que constituem um \u201cgrupo\u201d e se se distingue os estados de equil\u00edbrio e a equilibra\u00e7\u00e3o como processo tendendo para esses estados, esse processo d\u00e1 conta n\u00e3o s\u00f3 das regula\u00e7\u00f5es que marcam suas etapas, mas tamb\u00e9m de sua forma final, que \u00e9 a reversibilidade operat\u00f3ria. A equilibra\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es cognitivas ou pr\u00e1ticas compreendem, portanto, tudo aquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para explicar os esquemas racionais: um sistema de transforma\u00e7\u00f5es reguladas e uma abertura sobre o poss\u00edvel, ou seja, as duas condi\u00e7\u00f5es de passagem da forma\u00e7\u00e3o temporal \u00e0s interconex\u00f5es intemporais.<\/p>\n<p>De um tal ponto de vista, o problema que se coloca n\u00e3o \u00e9 mais o de decidir entre o primado do social sobre o intelecto, ou o inverso: o intelecto coletivo \u00e9 o social equilibrado pelo jogo das opera\u00e7\u00f5es intervindo em todas coopera\u00e7\u00f5es. A intelig\u00eancia n\u00e3o mais precede a vida mental nem decorre dela como um simples efeito entre os outros: ela \u00e9 a forma de equil\u00edbrio de todas as fun\u00e7\u00f5es cognitivas. E as rela\u00e7\u00f5es entre o intelecto e a vida org\u00e2nica s\u00e3o da mesma natureza: se n\u00e3o se pode dizer que todo processo vital \u00e9 \u201cinteligente\u201d, pode-se sustentar que nas transforma\u00e7\u00f5es morfol\u00f3gicas estudadas j\u00e1 h\u00e1 bastante tempo por D\u2019Arcy Thomson (Growth and Form, trabalho que, outrora, influenciou L\u00e9vi-Strauss como, por exemplo, seus estudos de mineralogia), a vida \u00e9 geometria e, hoje em dia, pode-se ir at\u00e9 ao ponto de afirmar que, sobre numerosos aspectos, ela trabalha como uma m\u00e1quina cibern\u00e9tica ou uma \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d (isto \u00e9, geral).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, essa perspectiva torna o esp\u00edrito humano sempre id\u00eantico a si mesmo e prova disso, diz mesmo L\u00e9vi-Strauss, \u00e9 a perman\u00eancia da \u201cfun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica\u201d [Tradu\u00e7\u00e3o livre. Citamos o texto para confronto: Mais en cette perspective que devient l\u2019esprit humain toujours identique \u00e0 lui-m\u00eame, preuve em soit, dit m\u00eame L\u00e9vi-Strauss, la permanence de la \u201cfonction symbolique?\u201d (N. do T.)]. Confessamos mal compreender em que esse esp\u00edrito \u00e9 melhor reverenciado se se faz dele mais uma cole\u00e7\u00e3o de esquemas permanentes do que o produto ainda aberto de uma cont\u00ednua autoconstru\u00e7\u00e3o. Atendo-se \u00e0 fun\u00e7\u00e3o semi\u00f3tica, n\u00e3o se pode j\u00e1, aceitando a distin\u00e7\u00e3o saussuriana do signo e do s\u00edmbolo (mais profunda, nos parece, do que a classifica\u00e7\u00e3o de Peirce [Nota de rodap\u00e9: Saussure distingue o ind\u00edcio (que participa causalmente de seu significado), o s\u00edmbolo (motivado) e o signo (arbitr\u00e1rio), sendo este, ent\u00e3o, necessariamente social devido ao seu car\u00e1ter convencional, ao passo que o s\u00edmbolo pode ser individual (sonhos etc.). Peirce opunha ao ind\u00edcio, o \u00edcone (imagem) e o s\u00edmbolo (o signo, por\u00e9m, ligado aos dois precedentes). Ver \u00a7 14.]), pensar que houve a evolu\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo figurado ao signo anal\u00edtico? \u00c9 o sentido de uma passagem de Rousseau sobre o uso primitivo dos tropos que L\u00e9vi-Strauss cita com aprova\u00e7\u00e3o (Tot\u00e9misme, p. 146), falando de uma \u201cforma primeira do pensamento discursivo\u201d: logo, \u201cprimeira\u201d implica uma seq\u00fc\u00eancia ou, pelo menos, n\u00edveis; e se o \u201cpensamento selvagem\u201d est\u00e1 sempre presente entre n\u00f3s, constitui, entretanto, um n\u00edvel inferior ao pensamento cient\u00edfico: ora, n\u00edveis em hierarquia implicam est\u00e1gios na forma\u00e7\u00e3o. Em particular, pode-se perguntar se as belas classifica\u00e7\u00f5es \u201cprimitivas\u201d que L\u00e9vi-Strauss cita em La pens\u00e9e sauvage n\u00e3o s\u00e3o antes o produto de \u201caplica\u00e7\u00f5es\u201d sem nega\u00e7\u00f5es do que o de \u201cagrupamentos\u201d, no sentido operat\u00f3rio (ver \u00a7 12).<\/p>\n<p>No que se refere ao conjunto dessa l\u00f3gica \u201cnatural\u201d, compreendemos muito bem a oposi\u00e7\u00e3o geral de princ\u00edpios entre o estruturalismo de L\u00e9vi-Strauss e o positivismo de L\u00e9vy-Bruhl. Contudo, este nos parece ter ido muito longe na sua retrata\u00e7\u00e3o p\u00f3stuma, como j\u00e1 o fora nos seus trabalhos iniciais: n\u00e3o existe \u201cmentalidade primitiva\u201d, mas existe, talvez, uma pr\u00e9-l\u00f3gica no sentido de um n\u00edvel pr\u00e9-operat\u00f3rio ou de um n\u00edvel limitado aos come\u00e7os das opera\u00e7\u00f5es concretas (ver \u00a7 12). A \u201cparticipa\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o repleta de interesse se se v\u00ea nela, n\u00e3o um liame m\u00edstico desprezando a contradi\u00e7\u00e3o e a identidade, mas uma rela\u00e7\u00e3o, freq\u00fcente na crian\u00e7a, que permanece a meio caminho do gen\u00e9rico e do individual: a sombra que se faz sobre uma mesa \u00e9, desta forma, entre 4-5 anos, \u201ca sombra de debaixo das \u00e1rvores\u201d ou a da noite, n\u00e3o por inclus\u00e3o em uma classe geral, nem por transporte espacial direto (apesar do que diz, \u00e0s vezes, o sujeito em falta de melhor), mas por uma esp\u00e9cie de soldadura imediata entre objetos que ser\u00e3o dissociados mais tarde e reunidos em uma classe, uma vez compreendida a lei. Mesmo se n\u00e3o se v\u00ea na participa\u00e7\u00e3o sen\u00e3o um \u201cpensamento anal\u00f3gico\u201d [Nota de rodap\u00e9: Cf. La pens\u00e9e sauvage, p. 348], ela teria seu interesse a t\u00edtulo de pr\u00e9-l\u00f3gica, no duplo sentido de anterior \u00e0 l\u00f3gica expl\u00edcita e de prepara\u00e7\u00e3o para sua elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, os sistemas de parentesco descritos por L\u00e9vi-Strauss testemunham uma l\u00f3gica bem mais avan\u00e7ada. Todavia, \u00e9 evidente, sobretudo para o etn\u00f3grafo, que estes n\u00e3o s\u00e3o produtos de inven\u00e7\u00f5es individuais (do \u201cfil\u00f3sofo selvagem\u201d de Tylor) e que s\u00f3 uma longa elabora\u00e7\u00e3o coletiva tornou-os poss\u00edveis. Trata-se, portanto, de \u201cinstitui\u00e7\u00f5es\u201d e a quest\u00e3o \u00e9, assim, a mesma que para as estruturas ling\u00fc\u00edsticas, cuja pot\u00eancia ultrapassa a m\u00e9dia dos sujeitos que falam [Nota de rodap\u00e9: E as constru\u00e7\u00f5es de um termiteiro n\u00e3o nos esclarecem, de uma maneira un\u00edvoca, acerca da geometria das t\u00e9rmites em outras situa\u00e7\u00f5es]. Se as no\u00e7\u00f5es de auto-regula\u00e7\u00e3o ou de equilibra\u00e7\u00e3o coletivas apresentam o menor sentido, \u00e9 claro, ent\u00e3o, que para julgar a l\u00f3gica ou a pr\u00e9-l\u00f3gica dos membros de uma sociedade dada, n\u00e3o basta se referir a seus produtos culturais cristalizados: o verdadeiro problema \u00e9 o da utiliza\u00e7\u00e3o do conjunto desses instrumentos coletivos nos racioc\u00ednios correntes da vida de cada um. Ora, poderia acontecer que esses instrumentos fossem de um n\u00edvel sensivelmente superior ao dessa l\u00f3gica cotidiana. L\u00e9vi-Strauss nos lembra, \u00e9 verdade, de casos de ind\u00edgenas que \u201ccalculam\u201d com precis\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es implicadas em um sistema de parentesco [Nota de rodap\u00e9: O ind\u00edgena de Ambrym descrito por DEACON (La pens\u00e9e sauvage, p. 332)]. Mas isso n\u00e3o basta, porque esse sistema est\u00e1 aperfei\u00e7oado, j\u00e1 \u00e9 regulado e tem alcance especializado, ao passo que gostar\u00edamos de assistir a inven\u00e7\u00f5es individuais.<\/p>\n<p>Pensamos, pois, por nosso lado, que a quest\u00e3o permanece aberta, enquanto pesquisas precisas sobre o n\u00edvel operat\u00f3rio (no sentido do \u00a7 12) de adultos e crian\u00e7as de sociedades variadas n\u00e3o forem feitas de maneira sistem\u00e1tica. Ora, essas pesquisas s\u00e3o dif\u00edceis de tra\u00e7ar porque sup\u00f5em uma boa forma\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica acerca das t\u00e9cnicas de exame operat\u00f3rio (com conversa\u00e7\u00e3o livre e n\u00e3o estandardiza\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira de testes, e todos os psic\u00f3logos n\u00e3o t\u00eam essa forma\u00e7\u00e3o), bem como conhecimentos etnogr\u00e1ficos suficientes e um completo dom\u00ednio da l\u00edngua dos sujeitos. Conhecemos poucas tentativas desse g\u00eanero. Uma tem por objeto os famosos aruntas da Austr\u00e1lia e parece indicar um atraso sistem\u00e1tico na forma\u00e7\u00e3o das no\u00e7\u00f5es de conserva\u00e7\u00e3o (conserva\u00e7\u00e3o de uma quantidade de l\u00edquido transvasada em recipientes de formas diferentes), mas com aquisi\u00e7\u00e3o, apesar disso, o que mostraria, nesse caso particular, o acesso aos primeiros degraus do n\u00edvel das opera\u00e7\u00f5es concretas. Contudo, restaria examinar aqui as opera\u00e7\u00f5es proposicionais (combinat\u00f3ria etc.) e, sobretudo, estudar, de tais pontos de vista, v\u00e1rias outras sociedades.<\/p>\n<p>Quanto ao aspecto funcional das estruturas, parece dif\u00edcil poder abstra\u00ed-lo, logo que se admite uma parte de autoconstru\u00e7\u00e3o. Se os fatores de utilidade n\u00e3o explicam, por si s\u00f3s, uma forma\u00e7\u00e3o estrutural, tornam a levantar certos problemas, aos quais essa forma\u00e7\u00e3o fornece uma resposta, e, por conseguinte, a aproximar de novo forma\u00e7\u00e3o e resposta (cf. no \u00a7 10 as id\u00e9ias de Waddington). Por outro lado, \u00e9 freq\u00fcente uma estrutura mudar de fun\u00e7\u00e3o segundo as novas necessidades que surgem em uma sociedade.<\/p>\n<p>Em suma, nenhuma das observa\u00e7\u00f5es que precedem levam a colocar em d\u00favida os aspectos positivos, isto \u00e9, especificamente estruturais, das an\u00e1lises de L\u00e9vi-Strauss; visam apenas libert\u00e1-las de seu espl\u00eandido isolamento, porque, ao nos instalarmos sem dificuldade nos estados de perfei\u00e7\u00e3o, esquecemos os caracteres mais espec\u00edficos, talvez, da atividade humana, mesmo em seus aspectos cognitivos: diferentemente de muitas das esp\u00e9cies animais que n\u00e3o podem se modificar sen\u00e3o mudando sua esp\u00e9cie, o homem conseguiu se transformar transformando o mundo e se estruturar construindo suas estruturas, sem as sofrer de fora ou de dentro em virtude de uma predestina\u00e7\u00e3o intemporal. A hist\u00f3ria da intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um simples \u201cinvent\u00e1rio de elementos\u201d: \u00e9 um feixe de transforma\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se confundem com as da cultura e nem mesmo com as da fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, mas que come\u00e7aram bem antes das duas e as engendraram; se a raz\u00e3o n\u00e3o evolui sem raz\u00e3o e sim em virtude de necessidades internas que se imp\u00f5em \u00e0 propor\u00e7\u00e3o de suas intera\u00e7\u00f5es com o meio exterior, ela, apesar disso, evoluiu do animal ou do beb\u00ea humano \u00e0 etnologia estrutural de L\u00e9vi-Strauss.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: small;\">O texto integral encontra-se dispon\u00edvel na fonte indicada acima.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Jean Piaget Fonte: PIAGET, Jean. O estruturalismo. Rio de Janeiro: Difel, 1979. p\u00e1g. 86-96. 19. O estruturalismo antropol\u00f3gico de Claude L\u00e9vi-Strauss. &#8212; A antropologia social e cultural ocupou-se principalmente das sociedades elementares, no seio das quais os processos psico-sociais s\u00e3o indissoci\u00e1veis das estruturas ling\u00fc\u00edsticas, econ\u00f4micas e jur\u00eddicas, donde o acento que colocamos sobre essa &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/o-estruturalismo-antropologico-de-claude-levi-strauss\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;O estruturalismo antropol\u00f3gico de Claude L\u00e9vi-Strauss, por Piaget&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1063,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"_lmt_disableupdate":"no","_lmt_disable":"","footnotes":""},"class_list":["post-1523","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1523"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2692,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1523\/revisions\/2692"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1063"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}