{"id":1975,"date":"2008-09-22T17:18:33","date_gmt":"2008-09-22T20:18:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=1975"},"modified":"2019-08-05T17:24:19","modified_gmt":"2019-08-05T20:24:19","slug":"o-trabalho-por-equipes-piaget","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/o-trabalho-por-equipes-piaget\/","title":{"rendered":"O trabalho por equipes na escola &#8211; Jean Piaget"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autor: <\/strong>Jean Piaget &#8211; Diretor do Bureau International d&#8217;\u00c9ducation<br \/>\n<strong>Fonte: <\/strong>Revista de Educa\u00e7\u00e3o &#8211; Diretoria do Ensino do Estado de S\u00e3o Paulo set\/dez 1936. Tradu\u00e7\u00e3o Luiz G. Fieury.<br \/>\n<strong>Adapta\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas moderno:<\/strong> Andrea A. Botelho &#8211; Laborat\u00f3rio de Psicopedagogia do Instituto de Psicologia da USP, 1993.<\/p>\n<p>J\u00e1 o dissemos em outra ocasi\u00e3o &#8211; a fun\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do \u201cBureau Internacional d&#8217;Education&#8221; n\u00e3o \u00e9 a de defender ou a de combater este ou aquele processo pedag\u00f3gico, mas antes a de fazer compreender, gra\u00e7as aos m\u00e9todos puramente cient\u00edficos da pedagogia comparada como as diferentes tend\u00eancias educativas se desenvolveram e a que resultados chegaram do ponto de vista de seus pr\u00f3prios iniciadores.<\/p>\n<p><strong>Fatores dos movimentos pedag\u00f3gicos e o trabalho em grupos<\/strong><\/p>\n<p>A este respeito, um movimento pedag\u00f3gico novo deve sempre considerar-se como sendo o produto combinado dos fatores sociol\u00f3gicos caracter\u00edsticos do meio adulto no qual ele se origina e dos fatores psicol\u00f3gicos que caracterizam as crian\u00e7as e adolescentes que crescem em tal meio<\/p>\n<p>Por muito tempo a escola teve como seu \u00fanico mister transmitir \u00e0 inf\u00e2ncia os conhecimentos adquiridos pelas gera\u00e7\u00f5es precedentes<\/p>\n<p>O desenvolvimento da t\u00e9cnica do trabalho por grupos n\u00e3o faz absolutamente exce\u00e7\u00e3o a esta regra. Pelo contr\u00e1rio poucas iniciativas pedag\u00f3gicas existem nas quais se descubra mais facilmente a conjun\u00e7\u00e3o dessas duas esp\u00e9cies de fatores, e, por conseguinte, cujo estudo seja mais f\u00e1cil de se conduzir imparcialmente do ponto de vista da psicossociologia e da pedagogia comparada.<\/p>\n<p><strong>Desenvolvimento do m\u00e9todo de trabalho por &#8220;equipes&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Com efeito o m\u00e9todo de trabalho por \u201cequipes\u201d que desde 1900 e sobretudo depois de 1918 desenvolveu-se nos diferentes pa\u00edses sob formas variadas nasceu de duas esp\u00e9cies de preocupa\u00e7\u00f5es. De um lado, a import\u00e2ncia crescente atribu\u00edda ao fator coletivo pelas diversas ideologias pol\u00edticas levou os educadores a desenvolver a vida social em classe, se bem que o trabalho por &#8220;equipes&#8221; encontre hoje protagonistas pertencentes aos mais variados regimes, por mais opostos que sejam estes na apar\u00eancia. De outro lado, gra\u00e7as a uma not\u00e1vel converg\u00eancia, os educadores, ciosos do respeito \u00e0 atividade espont\u00e2nea da crian\u00e7a e de moldar os m\u00e9todos da pedagogia pelos dados da psicologia infantil, foram eles pr\u00f3prios levados \u00e0 id\u00e9ia do trabalho por &#8220;equipes&#8221;, porque a crian\u00e7a, chegada a um certo grau de desenvolvimento, tende por si mesma \u00e0 vida coletiva e ao trabalho em comum. Pode-se, pois dizer que a flora\u00e7\u00e3o dos sistemas de trabalho por &#8220;equipes&#8221; &#8211; os quais &#8211; coisa digna de nota -nasceram independentemente, em boa parte, uns dos outros &#8211; \u00e9 devida \u00e0 conjun\u00e7\u00e3o dos fatores sociol\u00f3gicos relativos ao adulto e dos fatores psicol\u00f3gicos relativos \u00e0 crian\u00e7a.<\/p>\n<p>S\u00e3o estes \u00faltimos os que gostar\u00edamos de analisar brevemente aqui.<\/p>\n<p>Depois de haver deslindado as principais rela\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas em jogo no trabalho por equipes, procuraremos mostrar aquilo em que esses mecanismos explicam os resultados dos m\u00e9todos.<\/p>\n<div><strong>Rela\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas no trabalho por equipes<\/strong><\/div>\n<p><strong>Velha concep\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o da escola<\/strong><\/p>\n<p>Por muito tempo a escola teve como seu \u00fanico mister transmitir \u00e0 inf\u00e2ncia os conhecimentos adquiridos pelas gera\u00e7\u00f5es precedentes e exercit\u00e1-las nas t\u00e9cnicas especiais do adulto. Abastecer a mem\u00f3ria e exercitar o aluno na gin\u00e1stica intelectual pareciam assim as \u00fanicas coisas necess\u00e1rias porque se concebia a estrutura mental da crian\u00e7a como id\u00eantica \u00e0 do homem feito e porque parecia, portanto, in\u00fatil formar um pensamento j\u00e1 inteiramente constitu\u00eddo, que n\u00e3o exigia sen\u00e3o ser exercitado<\/p>\n<p><em>A crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um ser passivo do qual se trate de rechear o c\u00e9rebro mas um ser ativo cuja tend\u00eancia \u00e0 pesquisa espont\u00e2nea tem necessidade de alimentos.<\/em><\/p>\n<p>Dentro desta concep\u00e7\u00e3o, a escola sup\u00f5e, decerto, uma rela\u00e7\u00e3o social indispens\u00e1vel, mas somente entre o mestre e os alunos: sendo o mestre detentor dos conhecimentos exatos e afeito \u00e0s t\u00e9cnicas a adquirir, o ideal \u00e9 a submiss\u00e3o da crian\u00e7a a sua autoridade e todo contato intelectual das crian\u00e7as entre si n\u00e3o comporta sen\u00e3o perda de tempo e riscos de deforma\u00e7\u00f5es e erros.<\/p>\n<p>Mas tr\u00eas observa\u00e7\u00f5es diversas vieram complicar esta vis\u00e3o simplista do ensino e da educa\u00e7\u00e3o intelectual e impor, ao mesmo tempo, a necessidade de colabora\u00e7\u00e3o dos alunos entre si.<\/p>\n<p><strong>Primeira observa\u00e7\u00e3o: A dificuldade do mestre fazer-se compreender<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, temos a observa\u00e7\u00e3o comum, mas cuja significa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se evidenciou sen\u00e3o pouco a pouco, da dificuldade do mestre fazer-se compreender pelos alunos. Quando ao ensino individual da Idade M\u00e9dia sucedeu o ensino simult\u00e2neo ou por grandes classes de idades, certos educadores mostraram j\u00e1 a necessidade de introduzir intermedi\u00e1rios entre a palavra do mestre e a compreens\u00e3o dos escolares: donde os monitores no &#8220;ensino m\u00fatuo\u201d de Bell Lancaster. Mas n\u00e3o foi sen\u00e3o com a pedagogia experimental deste s\u00e9culo que se compreendeu verdadeiramente o alcance do problema. Percebeu-se que o verbalismo, que constitui o grande obst\u00e1culo \u00e0 compreens\u00e3o da crian\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 devido somente \u00e0s insufici\u00eancias do ensino oral, mas ao seu pr\u00f3prio princ\u00edpio, quando este ensino \u00e9 concebido como o principal instrumento educativo. A crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um ser passivo, do qual se trate de rechear o c\u00e9rebro, mas um ser ativo, cuja tend\u00eancia \u00e0 pesquisa espont\u00e2nea tem necessidade de alimentos. Essa mudan\u00e7a radical de perspectiva, operada pela &#8220;escola ativa&#8221;, n\u00e3o suprime de modo nenhum a li\u00e7\u00e3o, mas a reduz a uma fun\u00e7\u00e3o mais modesta de resposta \u00e0s quest\u00f5es que o aluno prop\u00f5e a si pr\u00f3prio e a subordina, assim, ao trabalho individual. Mas ent\u00e3o, \u00e0 medida que uma parte \u00e9 deixada ao trabalho pessoal, h\u00e1 trabalho em comum e forma\u00e7\u00e3o de grupos, porque s\u00f3 a recep\u00e7\u00e3o passiva sup\u00f5e o isolamento intelectual dos alunos, ao passo que a pesquisa acarreta a colabora\u00e7\u00e3o e o interc\u00e2mbio.<\/p>\n<p><strong>Segunda observa\u00e7\u00e3o: O pensamento racional n\u00e3o \u00e9 inato<\/strong><\/p>\n<p>Em segundo lugar, percebeu-se, tanto pela pr\u00e1tica da educa\u00e7\u00e3o como gra\u00e7as \u00e0 an\u00e1lise psicol\u00f3gica, qu\u00e3o pouco pr\u00e9-formado \u00e9 o pensamento racional da crian\u00e7a. A l\u00f3gica constitui uma moral para o pensamento, quer dizer, ela n\u00e3o consiste em mecanismos inatos que se imponham segundo um determinismo inelut\u00e1vel, mas apenas em regras que se prop\u00f5em \u00e0 consci\u00eancia intelectual, as quais esta pode submeter-se ou opor-se.<\/p>\n<p>Assim sendo, antes de saber raciocinar corretamente, a crian\u00e7a come\u00e7a por jogar com seu pensamento ou por utiliz\u00e1-lo segundo normas que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias. A tarefa principal da educa\u00e7\u00e3o intelectual parece, pois, cada vez mais, a de formar o pensamento e n\u00e3o a de enriquecer a mem\u00f3ria. A necessidade de prova e de verifica\u00e7\u00e3o, a objetividade na observa\u00e7\u00e3o e na experi\u00eancia e a coer\u00eancia formal nas afirma\u00e7\u00f5es e nos racioc\u00ednios, em uma palavra, a disciplina experimental e dedutiva, s\u00e3o ideais que a crian\u00e7a deve adquirir porque n\u00e3o os possui desde logo e num conjunto.<\/p>\n<p>Ora, basta a autoridade do mestre para imp\u00f4-los, ou antes se limita a substituir a fantasia individual por uma verdade j\u00e1 feita, isto \u00e9, um meio-erro; de substituir a anomia primitiva por uma heteronomia intelectual?<\/p>\n<p>Aqui de novo se apresenta o problema do trabalho em grupos. Com efeito, a verdade, como todo bem moral, n\u00e3o se conquista sen\u00e3o pelo esfor\u00e7o livre e o esfor\u00e7o livre na crian\u00e7a tem por condi\u00e7\u00e3o natural a colabora\u00e7\u00e3o e o m\u00fatuo aux\u00edlio.<\/p>\n<p><strong>Terceira observa\u00e7\u00e3o: A raz\u00e3o e seu elemento social de coopera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Enfim, e sobretudo, notou-se &#8211; e esta terceira observa\u00e7\u00e3o completa necessariamente as duas primeiras &#8211; que a raz\u00e3o implica um elemento social de coopera\u00e7\u00e3o. De um lado, o estudo das sociedades adultas mostrou aos soci\u00f3logos como o vigor e as formas do pensamento variam de um a outro meio coletivo. Quer essas varia\u00e7\u00f5es interessem simplesmente ao desenvolvimento da ci\u00eancia e dos outros produtos superiores do pensamento, ou quer se trate, como se tem sustentado, de verdadeiras diferen\u00e7as de estrutura e de l\u00f3gicas qualitativamente distintas, n\u00e3o \u00e9 menos certo que a evolu\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o depende estreitamente de fatores sociais e que a contribui\u00e7\u00e3o heredit\u00e1ria ou adquirida n\u00e3o basta para conduzir por si s\u00f3 as intelig\u00eancias individuais ao n\u00edvel racional. Ora, \u00e9 precisamente este dado fundamental da psicologia do pensamento que os pr\u00e1ticos da pedagogia reencontraram quando, depois de haverem estabelecido que a crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 passiva &#8211; mas ativa, e que a raz\u00e3o, longe de ser inata no indiv\u00edduo, se elabora pouco a pouco &#8211; descobriram que a vida do grupo \u00e9 o meio natural dessa atividade intelectual e a coopera\u00e7\u00e3o o instrumento necess\u00e1rio para a forma\u00e7\u00e3o do pensamento racional.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: x-small;\">O texto integral est\u00e1 dispon\u00edvel na fonte indicada acima.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Jean Piaget &#8211; Diretor do Bureau International d&#8217;\u00c9ducation Fonte: Revista de Educa\u00e7\u00e3o &#8211; Diretoria do Ensino do Estado de S\u00e3o Paulo set\/dez 1936. Tradu\u00e7\u00e3o Luiz G. Fieury. Adapta\u00e7\u00e3o para o portugu\u00eas moderno: Andrea A. Botelho &#8211; Laborat\u00f3rio de Psicopedagogia do Instituto de Psicologia da USP, 1993. 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