{"id":1983,"date":"2008-09-22T18:03:08","date_gmt":"2008-09-22T21:03:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=1983"},"modified":"2021-11-11T12:12:25","modified_gmt":"2021-11-11T15:12:25","slug":"a-representacao-do-mundo-na-crianca-piaget","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/a-representacao-do-mundo-na-crianca-piaget\/","title":{"rendered":"A representa\u00e7\u00e3o do mundo na crian\u00e7a &#8211; Piaget"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autor:<\/strong> <em>Jean Piaget<\/em><\/p>\n<p><strong>Fonte: <\/strong>PIAGET, Jean. <em>A representa\u00e7\u00e3o do mundo na crian\u00e7a<\/em>. Rio de Janeiro: Record, 1975.<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o &#8211; Os problemas e os m\u00e9todos<\/strong><\/p>\n<p>O problema que nos propomos estudar \u00e9 um dos mais importantes, como tamb\u00e9m um dos mais dif\u00edceis da psicologia da crian\u00e7a: quais as representa\u00e7\u00f5es do mundo que surgem espontaneamente nas crian\u00e7as ao longo dos diferentes est\u00e1gios de seu desenvolvimento intelectual? Este problema se apresenta sob dois aspectos essenciais.<\/p>\n<p>Trata-se, por um lado, da quest\u00e3o da modalidade do pensamento infantil. Quais s\u00e3o os planos de realidade sobre os quais se coloca este pensamento? Em outras palavras, a crian\u00e7a teria, como n\u00f3s, a cren\u00e7a em um mundo real e distinguiria esta cren\u00e7a das v\u00e1rias fic\u00e7\u00f5es do seu jogo e de sua imagina\u00e7\u00e3o? Em que medida a crian\u00e7a distingue o mundo exterior de um mundo interno ou subjetivo, e quais os cortes que realiza entre o eu e a realidade objetiva? Todas estas quest\u00f5es constituem um problema inicial, qual seja o da realidade na crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma segunda quest\u00e3o fundamental se liga a esta, e \u00e9 a da explica\u00e7\u00e3o na crian\u00e7a. Que uso faz a crian\u00e7a das no\u00e7\u00f5es de causa e de lei? Qual \u00e9 a estrutura da causalidade infantil? J\u00e1 se estudou a explica\u00e7\u00e3o nos primitivos, a explica\u00e7\u00e3o nas ci\u00eancias, os diversos tipos de explica\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas. A crian\u00e7a nos oferecer\u00e1 um tipo original de explica\u00e7\u00e3o? Todas estas perguntas se constituem em um segundo problema, o da causalidade infantil.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre a realidade e a causalidade na crian\u00e7a que pretendemos tratar neste livro, bem como em um trabalho posterior, A causalidade f\u00edsica na crian\u00e7a. Nota-se imediatamente que esses problemas s\u00e3o distintos daqueles que estudamos ao longo de um trabalho precedente. Enquanto ali nos propusemos \u00e0 an\u00e1lise da forma e do funcionamento do pensamento infantil, abordaremos agora a an\u00e1lise de seu conte\u00fado. As duas quest\u00f5es se aproximam bastante, por\u00e9m podem, sem muito arb\u00edtrio, tornarem-se distintas. A forma e o funcionamento do pensamento se mostram cada vez que a crian\u00e7a entra em contato com seus pares ou com o adulto: \u00e9 uma forma de comportamento social que se pode observar de fora. O conte\u00fado, ao contr\u00e1rio, se libera ou n\u00e3o se libera, segundo as crian\u00e7as e segundo os objetos da representa\u00e7\u00e3o. \u00c9 um sistema de cren\u00e7as \u00edntimas, sendo necess\u00e1ria uma t\u00e9cnica especial para se chegar a sua descoberta. \u00c9 sobretudo um sistema de tend\u00eancias, de orienta\u00e7\u00f5es do pensamento, do qual a pr\u00f3pria crian\u00e7a jamais tomou consci\u00eancia e de que nunca falou. Portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas \u00fatil, como indispens\u00e1vel, compreender-se antes de mais nada os m\u00e9todos que contamos para o estudo das cren\u00e7as infantis. Para avaliar a l\u00f3gica da crian\u00e7a basta, em geral, conversar com ela e tamb\u00e9m observ\u00e1- la entre outras crian\u00e7as. Para avaliar as suas cren\u00e7as \u00e9 preciso um m\u00e9todo especial, que reconhecemos de imediato ser dif\u00edcil, laborioso e que necessita de uma perspic\u00e1cia adquirida em pelo menos um ou dois bons anos de treinamento. Os especialistas em doen\u00e7as mentais acostumados \u00e0 cl\u00ednica compreender\u00e3o imediatamente por que.<\/p>\n<p>Para apreciar dentro do seu justo valor uma tal vis\u00e3o da crian\u00e7a torna-se realmente preciso tomar precau\u00e7\u00f5es minuciosas. Sobre essas precau\u00e7\u00f5es gostar\u00edamos de dizer antes de mais nada algumas palavras, pois ao ignor\u00e1-las o leitor se arriscaria a falsear completamente o sentido das p\u00e1ginas que se seguir\u00e3o, arriscando-se sobretudo a alterar impropriamente as experi\u00eancias que realizamos se decidir, como esperamos, retom\u00e1-las e verific\u00e1-las ele pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><strong>1. M\u00e9todo de testes, a observa\u00e7\u00e3o pura e o m\u00e9todo cl\u00ednico<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro m\u00e9todo que fomos tentados a empregar para solucionar o problema que nos ocupa foi o dos testes, que consistem em submeter a crian\u00e7a a provas organizadas de maneira a satisfazer \u00e0s duas condi\u00e7\u00f5es que se seguem: por um lado, a pergunta ser\u00e1 id\u00eantica para todos os sujeitos e feita sempre sob as mesmas condi\u00e7\u00f5es; por outro lado, as respostas dadas pelos sujeitos ser\u00e3o levadas a uma contabiliza\u00e7\u00e3o ou a uma escala que permita compar\u00e1-las qualitativamente ou quantitativamente. As vantagens desse m\u00e9todo s\u00e3o indiscut\u00edveis para o diagn\u00f3stico individual das crian\u00e7as. Para a psicologia geral, as estat\u00edsticas obtidas fornecem muitas vezes informa\u00e7\u00f5es \u00fateis. Mas para os problemas de que tratamos, pode-se apontar nos testes dois inconvenientes de destaque.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 de n\u00e3o permitirem uma an\u00e1lise satisfat\u00f3ria dos resultados obtidos. Ao trabalhar sempre em condi\u00e7\u00f5es id\u00eanticas se obt\u00eam resultados brutos, interessantes para a pr\u00e1tica, por\u00e9m freq\u00fcentemente inutiliz\u00e1veis pela teoria, pela falta de um contexto satisfat\u00f3rio. Mas isto ainda n\u00e3o \u00e9 nada, pois concebe-se que por for\u00e7a de engenhosidade se consiga variar os testes at\u00e9 a revela\u00e7\u00e3o de todos os componentes de uma determinada atitude psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p>O defeito essencial do teste, nas pesquisas de que nos ocupamos, \u00e9 o de falsear a orienta\u00e7\u00e3o do pensamento da crian\u00e7a que se interroga, ou pelo menos de se arriscar a false\u00e1-la. Podemos nos propor, por exemplo, saber como a crian\u00e7a concebe o movimento dos astros. Fazemos a pergunta &#8220;o que \u00e9 que faz o sol se mover?&#8221; A crian\u00e7a nos responder\u00e1, por exemplo, que &#8220;\u00e9 Deus que empurra&#8221; ou que &#8220;\u00e9 o vento que empurra&#8221; etc. Teremos resultados que n\u00e3o se devem deixar de conhecer, mesmo se devidos \u00e0 fabula\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e0quela tend\u00eancia que t\u00eam as crian\u00e7as de inventar mitos quando se embara\u00e7am com uma pergunta. Se testadas dessa forma crian\u00e7as de todas as idades, de quase nada adiantaria, pois pode acontecer que a crian\u00e7a nunca tenha colocado a quest\u00e3o da mesma maneira ou mesmo que nem tenha questionado a respeito. \u00c9 muito poss\u00edvel que a crian\u00e7a conceba o sol como um ser vivo, que tenha movimento pr\u00f3prio. Ao se perguntar &#8220;quem \u00e9 que faz o sol se mover?&#8221;, sugere-se de sa\u00edda a id\u00e9ia de uma obra exterior e se provoca o mito. Ao se perguntar &#8220;como se move o sol&#8221;, sugere-se talvez, ao contr\u00e1rio, um cuidado com o &#8220;como&#8221; que tamb\u00e9m n\u00e3o existia e provoca-se outros mitos: &#8220;o sol se move soprando&#8221;, &#8220;com o calor&#8221;, &#8220;rolando&#8221; etc. O \u00fanico meio de evitar essas dificuldades \u00e9 variar as perguntas, fazer contra-sugest\u00f5es, em resumo, renunciar a qualquer question\u00e1rio fixo.<\/p>\n<p>O caso \u00e9 o mesmo para a patologia mental. Um demente precoce pode ter uma vaga id\u00e9ia ou uma reminisc\u00eancia suficiente para dizer quem \u00e9 o pai, apesar de habitualmente se acreditar sa\u00eddo de uma linhagem mais ilustre. O verdadeiro problema \u00e9 saber como a quest\u00e3o se colocava no seu esp\u00edrito e se ela se colocava. A arte do cl\u00ednico consiste n\u00e3o em fazer responder mas em fazer falar livremente e em descobrir as tend\u00eancias espont\u00e2neas, em vez de as canalizar e as conter. Consiste em situar qualquer sintoma dentro de um contexto mental, em vez de fazer abstra\u00e7\u00e3o do contexto.<\/p>\n<p>Em resumo, o teste \u00e9 \u00fatil sob v\u00e1rios pontos de vista. Para o nosso objetivo, por\u00e9m, corre o risco de falsear as perspectivas ao desviar a orienta\u00e7\u00e3o do pensamento da crian\u00e7a. Corre o risco de passar \u00e0 margem das quest\u00f5es essenciais, dos interesses espont\u00e2neos e dos procedimentos primitivos.<\/p>\n<p>Recorremos ent\u00e3o \u00e0 observa\u00e7\u00e3o pura. Toda pesquisa sobre o pensamento da crian\u00e7a deve partir da observa\u00e7\u00e3o, e retornar a ela para controlar as experi\u00eancias que esta observa\u00e7\u00e3o pode inspirar. No que concerne aos problemas que colocaremos na nossa pesquisa, a observa\u00e7\u00e3o nos oferece uma fonte de documenta\u00e7\u00e3o da maior import\u00e2ncia. Trata-se do estudo das perguntas espont\u00e2neas das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>O exame detalhado do conte\u00fado das perguntas revela os interesses das crian\u00e7as nas diferentes idades e nos indica uma gama de problemas que se colocam para a crian\u00e7a, nos quais jamais tenhamos pensado ou colocado nos mesmos termos. O estudo da pr\u00f3pria forma das perguntas, sobretudo, mostra quais s\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es impl\u00edcitas que as crian\u00e7as d\u00e3o a si mesmas, pois quase toda a pergunta, pela maneira com que \u00e9 feita, cont\u00e9m a resposta. Dessa forma, quando uma crian\u00e7a pergunta &#8220;quem faz o sol?&#8221;, parece que concebe o sol como coisa que tivesse sido fabricada. Ou ainda quando uma crian\u00e7a pergunta por que o Saleve s\u00e3o dois, um grande e um pequeno, enquanto que n\u00e3o h\u00e1 dois Cervin, parece que ela concebe as montanhas como que dispostas segundo um plano que exclui qualquer acaso.<\/p>\n<p>Estamos ent\u00e3o prontos para formular uma, primeira regra do nosso m\u00e9todo. Quando se empreende uma investiga\u00e7\u00e3o dessa ordem sobre um grupo de explica\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as torna-se importante, a fim de orientar a pesquisa, partir-se de algumas perguntas espont\u00e2neas formuladas por crian\u00e7as da mesma idade ou mais jovens e aplicar essa mesma forma \u00e0s perguntas que se pretende fazer \u00e0s crian\u00e7as que ser\u00e3o os sujeitos da pesquisa. \u00c9 importante, sobretudo, uma vez que se busca tirar conclus\u00f5es dos resultados de uma investiga\u00e7\u00e3o, que se procure uma contraprova estudando-se as perguntas espont\u00e2neas das crian\u00e7as. Dessa forma se perceber\u00e1 se as representa\u00e7\u00f5es obtidas das crian\u00e7as correspondem ou n\u00e3o \u00e0s perguntas que fazem e \u00e0 pr\u00f3pria maneira com que formulam essas perguntas.<\/p>\n<p>Tomemos um exemplo. Estudaremos, neste trabalho, o animismo infantil. Veremos que quando se pergunta \u00e0s crian\u00e7as se o sol, etc., est\u00e1 vivo, \u00e9 dotado de saber, de sentimento, etc., as crian\u00e7as de determinada idade respondem afirmativamente. Por\u00e9m ser\u00e1 uma id\u00e9ia espont\u00e2nea ou uma resposta sugerida direta ou indiretamente pelo interrogativo? Procura-se ent\u00e3o nas cole\u00e7\u00f5es de perguntas de crian\u00e7as se existe algum fen\u00f4meno an\u00e1logo e identifica-se que uma crian\u00e7a de 6 anos e meio, Dei (ver L.P. cap. 1, \u00a7 8) perguntou espontaneamente ao ver uma esfera rolar na dire\u00e7\u00e3o da observadora: &#8220;Ela sabe que voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed?&#8221; Nota-se tamb\u00e9m que Dei fez muitas perguntas para saber quando um objeto, como uma folha, est\u00e1 morto ou vivo.<\/p>\n<p>Observa-se principalmente que, respondendo \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que as folhas mortas est\u00e3o bem mortas, Dei replicou &#8220;mas elas mexem com o vento&#8217;.&#8221; (ibid. \u00a7 8). Portanto h\u00e1 crian\u00e7as que, pela pr\u00f3pria maneira de fazer suas perguntas, parecem assimilar a vida e o movimento. Esses fatos mostram que um interrogat\u00f3rio sobre o animismo, realizado de certa forma (perguntando por exemplo, na maneira de Del, se um corpo em movimento &#8220;sabe&#8221; que se move), n\u00e3o \u00e9 artificial e que a assimila\u00e7\u00e3o da vida e do movimento correspondem a algo de espont\u00e2neo na crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Assim como se nota a necessidade da observa\u00e7\u00e3o direta, notam-se obst\u00e1culos que lhe limitam uso. N\u00e3o \u00e9 apenas um m\u00e9todo laborioso e que parece garantir a qualidade dos resultados somente em detrimento da quantidade (efetivamente \u00e9 imposs\u00edvel observar nas mesmas condi\u00e7\u00f5es um grande n\u00famero de crian\u00e7as), como ainda parece ter alguns inconvenientes sistem\u00e1ticos, de que se destacam os dois que se seguem.<\/p>\n<p>De sa\u00edda, o egocentrismo intelectual da crian\u00e7a constitui um s\u00e9rio obst\u00e1culo para quem quer conhece-la pela pura observa\u00e7\u00e3o., sem interrog\u00e1-la de forma alguma. Tentamos mostrar em outro trabalho (L.P., cap. I-III) que a crian\u00e7a n\u00e3o procura ou n\u00e3o consegue comunicar espontaneamente todo o seu pensamento. Ou ela est\u00e1 na sociedade de seus pares e a conversa se liga \u00e0s a\u00e7\u00f5es imediatas e ao jogo, sem comunicar essa fra\u00e7\u00e3o essencial do pensamento que se destaca da a\u00e7\u00e3o e se desenvolve no contato com os espet\u00e1culos da atividade adulta e da natureza. A partir da\u00ed a representa\u00e7\u00e3o do mundo e da causalidade f\u00edsica parecer\u00e3o despidos de qualquer interesse para a crian\u00e7a ou ent\u00e3o ela est\u00e1 na sociedade dos adultos, quando questiona sem parar, sem apresentar as suas explica\u00e7\u00f5es. Ela silencia sobre elas, em princ\u00edpio, porque acredita que todos as conhe\u00e7am, e em seguida pelo pudor, pelo medo de errar, pelo medo das desilus\u00f5es.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>O texto integral est\u00e1 dispon\u00edvel na fonte indicada acima.<\/p>\n<p>Veja a introdu\u00e7\u00e3o do livro na vers\u00e3o original em franc\u00eas: <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/arquivos\/piaget_repres_monde_intro.pdf\">https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/arquivos\/piaget_repres_monde_intro.pdf<\/a> Fonte: <a href=\"http:\/\/www.fondationjeanpiaget.ch\">http:\/\/www.fondationjeanpiaget.ch<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Jean Piaget Fonte: PIAGET, Jean. A representa\u00e7\u00e3o do mundo na crian\u00e7a. Rio de Janeiro: Record, 1975. 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