{"id":2167,"date":"2009-01-09T11:05:02","date_gmt":"2009-01-09T14:05:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=2167"},"modified":"2009-01-09T11:24:02","modified_gmt":"2009-01-09T14:24:02","slug":"conversa-com-skinner","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/conversa-com-skinner\/","title":{"rendered":"Uma conversa com Skinner"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p>Uma Conversa com B. F. Skinner<\/p>\n<p>Entrevistadora: Alfie Kohn<\/p>\n<p>Fonte:, KOHN, Alfie. Punidos pelas recompensas. S\u00e3o Paulo: Atlas, 1998. 392p.<\/p>\n<p>Muito antes de ser o psic\u00f3logo mais influente dos Estados Unidos, Burrhus Frederic Skinner<br \/>\n(1904-1990) decidiu ser escritor. Formou-se no Hamilton College em Ingl\u00eas, e passou um ano infeliz<br \/>\ncom os seus pais, tentando imaginar o que fazer de sua vida, enfrentando o que se chamava de crise<br \/>\nde identidade.<\/p>\n<p>Descobriu, ent\u00e3o, o behaviorismo. \u201cN\u00e3o considerei, de fato, o suic\u00eddio\u201d, escreveu mais tarde em<br \/>\nsua autobiografia. \u201cO behaviorismo ofereceu-me outra sa\u00edda: N\u00e3o era eu, mas minha hist\u00f3ria que<br \/>\nfalhara&#8230; Aprendi a aceitar meus erros remetendo-os a uma hist\u00f3ria pessoal n\u00e3o criada por mim e que<br \/>\nn\u00e3o poderia ser mudada.\u201d<\/p>\n<p>Encontrou-se a si mesmo renunciando ao seu eu. Realizou seu doutorado em Harvard, preencheu<br \/>\nsua agenda de compromissos acad\u00eamicos em Minnesota e Indiana e retornou triunfante em Cambridge<br \/>\nem 1948. Eu o encontrei, em 1983, residindo num elegante bairro da cidade, comparecendo de vez em<br \/>\nquando a eventos sociais, despedindo-se de sua mulher todas as manh\u00e3s para ir a seu escrit\u00f3rio no<br \/>\ns\u00e9timo andar do Hall William James, de Harvard. Ao longo do corredor, viam-se pain\u00e9is de fia\u00e7\u00e3o<br \/>\nel\u00e9trica, dos quais saiam estalidos e piscavam luzes vermelhas, ligados por telas de arame a caixas<br \/>\nfechadas, numeradas, com min\u00fasculos orif\u00edcios que permitiam espreitar para dentro delas. Em cada<br \/>\numa estava um pombo dando bicadas at\u00e9 conseguir ser alimentado.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 vivi o bastante para cavar alguma reputa\u00e7\u00e3o\u201d. disse-me ele modestamente. \u201cOitenta anos<br \/>\nconseguem isso.\u201d Falava com um ar de divertido desprendimento ao se referir \u00e0s multid\u00f5es que<br \/>\narrebanhava onde quer que fosse, \u00e0s pessoas cercando-o nas ruas, em busca de um aut\u00f3grafo. \u201cN\u00e3o<br \/>\ndeixo de me surpreender quando as pessoas me reconhecem ou comparecem \u00e0s minhas palestras\u201d,<br \/>\ndisse. \u201cPor que eu? Tive audi\u00eancias extraordin\u00e1rias por quase 30 anos Mas nada disso me trazia uma<br \/>\nsensa\u00e7\u00e3o esfuziante. Muito mais prazer me davam duas boas horas, de manh\u00e3, \u00e0 minha escrivaninha.\u201d<br \/>\nContou-me que, certa vez, um homem lhe apareceu na rua perguntando-lhe se ele era um<br \/>\npregador. Diante disso, deu uma boa risada, pois n\u00e3o acreditava em Deus. Mas o homem na rua n\u00e3o<br \/>\nestava totalmente errado. Em certo sentido, Skinner era um pregador, um indiv\u00edduo que fazia<br \/>\nproselitismo por temperamento, seus escritos um cont\u00ednuo serm\u00e3o sobre a insensatez do \u201cmentalismo\u201d<br \/>\n&#8211; ou seja , a suposi\u00e7\u00e3o de que aquilo que se faz pode ser explicado simplesmente observando-se os<br \/>\ncomportamentos e as conting\u00eancias comportamentais que as refor\u00e7am.<br \/>\nEm sua autobiografia, qualquer um de seus cr\u00edticos \u00e9 censurado por n\u00e3o ter conseguido apreender<br \/>\nsuas id\u00e9ias. \u201cO behaviorismo \u00e9 terrivelmente mal compreendido em toda a parte\u201d, queixou-se a mim.<br \/>\n\u201cEu sou terrivelmente mal compreendido.\u201d Para ele, comecei a entender, uma cr\u00edtica implica na<br \/>\nincompreens\u00e3o da leitura, pois que seria imposs\u00edvel compreender sua teoria e rejeit\u00e1-la.<br \/>\nN\u00e3o obstante sua convic\u00e7\u00e3o e sua fama, eu, bem como outros que o encontraram atrav\u00e9s dos<br \/>\nanos, achamos Skinner desarmadamente af\u00e1vel. No meu caso, concordou em falar para a minha<br \/>\nclasse, embora n\u00e3o me conhecesse, e no ano seguinte ag\u00fcentar v\u00e1rias horas de arg\u00fci\u00e7\u00e3o, que foram<br \/>\nmuito mais do que eu precisava para escrever um perfil dele para uma revista. Respondeu \u00e0s quest\u00f5es<br \/>\ncortesmente, e mesmo assim como se mantivesse uma grande dist\u00e2ncia. Percebi que n\u00e3o era menos<br \/>\nreservado com aqueles que conhecia melhor.<br \/>\nA \u00fanica impress\u00e3o verdadeira sobre Skinner que aconteceu depois de conversar com ele por<br \/>\nalgum tempo foi a de que ele era menos um te\u00f3rico do que um t\u00e9cnico. O homem estava fascinado \u2013<br \/>\nde fato, mais obcecado \u2013 com problemas pr\u00e1ticos de planejamento. Falou sobre o desafio de planejar<br \/>\nalgo mais eficiente para a escuta. Uns anos antes, ele teve enorme satisfa\u00e7\u00e3o inventando um ber\u00e7o de<br \/>\nvime mais confort\u00e1vel, fechado, para suas filhas nen\u00eas (o que deu lugar a um rumor cruel de que ele<br \/>\nas estava confinando em \u201ccaixas de Skinner\u201d, do tipo usado para laborat\u00f3rio de animais). Aplicou-se,<br \/>\npessoalmente, a projetar \u201cm\u00e1quinas de ensinar\u201d para crian\u00e7as e que prenunciaram os programas<br \/>\neducacionais dos computadores atuais. (Seu orgulho nisso \u2013 \u201cEu estava trinta anos \u00e0 frente de meu<br \/>\ntempo\u201d- emparelhava-se com a amargura de saber que a maioria dos educadores n\u00e3o estava<br \/>\ninteressada nessa id\u00e9ia.) Recebia as sugest\u00f5es pr\u00e1ticas para tornar mais f\u00e1cil seus \u00faltimos anos,<br \/>\neventualmente sendo co-autor de um livro de auto- ajuda para cidad\u00e3os mais velhos. Mesmo o<br \/>\nproblema da hora de se levantar, de manh\u00e3, era planejado minuciosamente: levantando-se \u00e0s quatro<br \/>\nhoras poderia n\u00e3o apenas trabalhar algumas horas antes do telefone come\u00e7ar a tocar, mas poderia<br \/>\nviajar \u00e0 Inglaterra (onde vive uma de suas filhas) e ajustar o hor\u00e1rio para um v\u00f4o comercial, sem ter<br \/>\nque se atrasar.<br \/>\nTudo, pela \u00f3tica de Skinner, era um problema a ser resolvido, e seus mais famosos e not\u00f3rios<br \/>\npronunciamentos podem ser entendidos nesse contexto. \u201cPlanejar uma cultura \u00e9 como planejar um<br \/>\nexperimento\u201d, escreveu certa vez. Ao recordar-se de como, durante a Segunda Guerra Mundial, ele<br \/>\ntreinou pombos para orientar m\u00edsseis (trazendo-lhe de novo um amargo desapontamento quando sua<br \/>\nproposta n\u00e3o despertou suficiente interesse), ele se tornou ingenuamente entusiasmado: \u201cQue coisa<br \/>\nfascinante! Total controle de um organismo vivo!\u201d<br \/>\nIsso pode, por conseguinte, ser algo diferente da mod\u00e9stia que o levou a refletir: \u201cN\u00e3o me<br \/>\nconsidero ser um retrato cl\u00e1ssico de um grande pensador, ou qualquer coisa desse tipo. N\u00e3o acredito<br \/>\nque o meu Q.I. seja muito alto, acho que me sa\u00ed muito bem com o que atingi. H\u00e1 habilidades que<br \/>\nverdadeiramente n\u00e3o possuo. Por sorte, entrei num campo onde poderia utilizar as que tenho \u2013<br \/>\ngrandemente habilidades pr\u00e1ticas.\u201d<br \/>\nMais tarde perguntei-lhe sobre a morte e ele sacudiu os ombros, alegando que n\u00e3o havia-se<br \/>\nestendido no assunto. \u201cNunca penso muito sobre morrer. N\u00e3o tenho medo da morte. Minha fam\u00edlia \u00e9<br \/>\napropriada para cuidar disso. A \u00fanica coisa que temo \u00e9 n\u00e3o terminar o meu trabalho. H\u00e1 coisas que<br \/>\nainda quero dizer.\u201d De fato, continuou despertando um entusiasmo pelo t\u00f3pico. \u201cN\u00e3o entendo por que<br \/>\nas pessoas temem a morte. Naturalmente, as pessoas religiosas a temem porque n\u00e3o t\u00eam muita<br \/>\ncerteza se ir\u00e3o para o inferno ou n\u00e3o, mas h\u00e1 aqueles que n\u00e3o acreditam nisso e que ainda n\u00e3o<br \/>\nconseguem encarar a aniquila\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nA cren\u00e7a de que n\u00e3o existe self, a qual o serviu t\u00e3o bem quando era jovem, tamb\u00e9m o ajudou<br \/>\nnesses \u00faltimos anos a lidar com a perspectiva de deixar de existir. \u201cAgora posso pegar todas as minhas<br \/>\nfaltas e todas as minhas realiza\u00e7\u00f5es e transferi-las para a minha hist\u00f3ria, e fa\u00e7o quest\u00e3o de que, ao<br \/>\nmorrer, isso n\u00e3o far\u00e1 nenhuma diferen\u00e7a. Porque n\u00e3o h\u00e1 nada aqui ,veja, que importe. [Com tal vis\u00e3o]<br \/>\nn\u00e3o se teme a morte de maneira nenhuma.\u201d<br \/>\nTrechos de nossas conversas<br \/>\n[ Sobre a rejei\u00e7\u00e3o do behaviorismo da terapia comportamental]: Penso que est\u00e1 muito<br \/>\nerrado, mas \u00e9 inevit\u00e1vel. Indiv\u00edduos que est\u00e3o face a face com o pacientes, clientes, no outro lado da<br \/>\nmesa, n\u00e3o t\u00eam inten\u00e7\u00e3o de trabalhar com vari\u00e1veis control\u00e1veis, externas. V\u00e3o perguntar \u00e0s pessoas \u201c<br \/>\nComo se sente voc\u00ea?\u201d e deduzir da resposta ind\u00edcios do que provavelmente aconteceu, mas n\u00e3o v\u00e3o<br \/>\ndescobri-lo e v\u00e3o dizer. \u201cO que pretende fazer?\u201d \u2013 eles n\u00e3o v\u00e3o tomar medidas meticulosas das<br \/>\npotencialidades do comportamento.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o: Bem, por qu\u00ea? O que isso quer dizer sobre a teoria?<\/p>\n<p>Resposta : Confus\u00e3o demais! Eles s\u00e3o pagos pelo n\u00famero de pessoas que atendem, e pode-se<br \/>\nesperar que algu\u00e9m, face a algum cliente, consiga mais do que utilizar-se dos princ\u00edpios behavioristas<br \/>\npara interpretar o que est\u00e1 acontecendo. \u00c9 muito simples apenas rejeitar o que se constituiu no<br \/>\nespirito da l\u00edngua por milhares de anos \u2013 a completa no\u00e7\u00e3o de que as pessoas fazem as coisas levadas<br \/>\npor suas atitudes e sentimentos , por seus pensamentos. Gostaria de descobrir de onde vem tudo isso,<br \/>\nmas n\u00e3o precisam preocupar-se se est\u00e3o apenas aconselhando-se com algu\u00e9m&#8230; A meu ver, o<br \/>\npsic\u00f3logo cognitivo \u00e9 algu\u00e9m que chegou atrasado. Os cognitivistas nunca foram pr\u00e1ticos. E a<br \/>\npsican\u00e1lise, embora seja um exerc\u00edcio profissional, n\u00e3o \u00e9 pr\u00e1tica. N\u00e3o consigo imaginar a psican\u00e1lise<br \/>\nrealmente conduzindo-se diante de doen\u00e7as graves no mundo de hoje.<br \/>\nQuest\u00e3o: Todavia, voc\u00ea est\u00e1 cercado de pombos em seu escrit\u00f3rio, enquanto que os cognitivistas<br \/>\ne os psicanalistas acompanham pessoas reais. Eles est\u00e3o nas linhas de frente, por assim dizer. Se eles<br \/>\nacham que \u00e9 impratic\u00e1vel, ou n\u00e3o manuse\u00e1vel ou sem proveito para utilizar a sua linguagem e seu<br \/>\nmodelo, n\u00e3o poderia ser uma indica\u00e7\u00e3o de algo sobre a defici\u00eancia do modelo?<br \/>\nResposta: N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o absolutamente. Se eu estivesse falando a um grupo de crian\u00e7as sobre<br \/>\nastronomia e sobre o c\u00e9u \u00e0 noite, e assim por diante, eu realmente n\u00e3o iria discorrer sobre o Big Bang<br \/>\ne dos milh\u00f5es de anos-luz e n\u00e3o sei mais o qu\u00ea. Falaria sobre a Ursa Maior ou outra constela\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuest\u00e3o: Quer dizer que falar com as crian\u00e7as \u00e9 an\u00e1logo \u00e0 terapia dos clientes?<br \/>\nResposta: \u00c9. Bem, voc\u00ea n\u00e3o pode empregar termos t\u00e9cnicos com o cliente comum. Voc\u00ea n\u00e3o<br \/>\npode ensinar-lhe behaviorismo a fim de falar com ele dessa forma. O que se pode fazer, e que eu acho<br \/>\nque um bom terapeuta comportamental faz, \u00e9 reconhecer a natureza do problema e trabalhar com o<br \/>\nmesmo indiretamente. Um bom exemplo disso \u00e9 o Dr. Vaughan e eu fizemos em nosso livro Enjoy old<br \/>\nage, onde as palavra behavior n\u00e3o aparece no texto. Nem tamb\u00e9m est\u00edmulo refor\u00e7ador ou<br \/>\ndiscriminativo. N\u00e3o usamos termos t\u00e9cnicos de maneira alguma, porque n\u00e3o escrevemos para leitores<br \/>\ninformados sobre a ci\u00eancia do comportamento. No final s\u00f3 para tranq\u00fcilizar nossos colegas, h\u00e1 um<br \/>\npequeno gloss\u00e1rio explicando o significado de \u201co que voc\u00ea gosta de fazer e se diverte fazendo\u201d. Podese<br \/>\nfazer o mesmo com um livro de astronomia. Pode-se dizer \u201cO sol se levanta\u201d- e ent\u00e3o numa nota de<br \/>\nroda p\u00e9: \u201cBem, na realidade n\u00e3o \u00e9 assim; o mundo gira.\u201d<br \/>\nQuest\u00e3o: Imagino, entretanto, que, se o fato de utilizarmos aqueles conceitos ao conversar sobre<br \/>\nseres humanos, n\u00e3o poderia ser sugerida uma equival\u00eancia de sentido, como se significassem a<br \/>\nmesma coisa.<br \/>\nResposta: Parece que eu n\u00e3o sugeri serem equivalentes. Parece que isso sugere serem coisas<br \/>\naproximadas . [Do livro A matter of consequences, p. 191-192, onde ele traduziu as M\u00e1ximas de La<br \/>\nRochefoucald na linguagem do behaviorismo]<br \/>\nQuest\u00e3o: E voc\u00ea esta satisfeito com sua tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter perdido nada do original \u2013 ela apenas a<br \/>\ntornou mais precisa.<br \/>\nResposta: Sim, n\u00e3o se trata de reduzi-la a nada, ou seja, (&#8230;) Se voc\u00ea fosse um organismo<br \/>\ntotalmente n\u00e3o verbal e se as pessoas ligadas a voc\u00ea se comunicassem com voc\u00ea apenas de maneira<br \/>\nn\u00e3o verbal \u2013 isto \u00e9, lutando ou fazendo amor com voc\u00ea &#8211; , elas n\u00e3o lhe perguntariam: \u201cO que voc\u00ea est\u00e1<br \/>\nfazendo?\u201d Voc\u00ea jamais teria algum desses conceitos. Nunca se olharia se perguntando-se, \u201cEu sou<br \/>\nfeliz?\u201d Nunca olharia para voc\u00ea e diria; \u201cO que pretendo fazer?\u201d(&#8230;) Voc\u00ea seria exatamente como<br \/>\nqualquer organismo n\u00e3o verbal, que \u00e9 ingrediente jamais tocado pelos cognitivistas. Eles ficam falando<br \/>\nsobre quando surge um ambiente verbal, induzindo as pessoas a falar sobre si mesmas. [Numa<br \/>\ncomunidade] algu\u00e9m quer saber [se] voc\u00ea viu isso \u2013 voc\u00ea se esfor\u00e7aria por isso se o quisesse, e assim<br \/>\npor diante. Mas, agora, alguma coisa mais acontece. Voc\u00ea v\u00ea que est\u00e1 vendo isso. Mas voc\u00ea n\u00e3o veria<br \/>\nisso sem essa pergunta&#8230;<br \/>\nQuest\u00e3o: Voc\u00ea ainda sustenta sua explica\u00e7\u00e3o original de amor?<br \/>\nResposta: Temos uma predisposi\u00e7\u00e3o a agradar certas pessoas e a prejudicar outras. Amor e \u00d3dio<br \/>\ns\u00e3o casos extremos de que&#8230; Na m\u00fatua intera\u00e7\u00e3o, duas pessoas que se encontram, uma delas \u00e9 gentil<br \/>\ncom a outra e isso predisp\u00f5e a outra a ser gentil tamb\u00e9m, o que d\u00e1 \u00e0 primeira ainda maior<br \/>\npossibilidade de ser gentil. Isso vai e volta, e pode chegar ao ponto de ambas ficarem altamente<br \/>\ninclinadas a serem mutuamente agrad\u00e1veis e a n\u00e3o se magoarem. Acho que isso \u00e9 o que se chamaria<br \/>\nde \u201cestar apaixonado\u201d.<br \/>\nQuest\u00e3o: Se eu, por meio de uma introspec\u00e7\u00e3o sobre minha vida, achasse que o amor e a<br \/>\nliberdade s\u00e3o conceitos t\u00e3o profundos que n\u00e3o s\u00e3o atingidos por uma an\u00e1lise behaviorista, voc\u00ea me<br \/>\npediria que aceitasse como verdade a adequa\u00e7\u00e3o ou a superioridade de seu modelo? N\u00e3o se trata de<br \/>\nm\u00e1-f\u00e9 ainda maior do que aquela que me pedem que acredite que existe um Deus?<br \/>\nResposta: Oh, n\u00e3o penso que exista qualquer f\u00e9 envolvida aqui. \u00c9 algo \u00fatil ou in\u00fatil. N\u00e3o penso<br \/>\nque a f\u00edsica lhe pe\u00e7a para crer na [sua] interpreta\u00e7\u00e3o da alta- energia f\u00edsica, e assim por diante&#8230; \u00c9 o<br \/>\nmelhor que se pode fazer nesse momento.<br \/>\nQuest\u00e3o: Sim, mas isso tem a ver comigo, hoje; n\u00e3o tem a ver com part\u00edculas subat\u00f4micas ou<br \/>\ncom nebulosas distantes dali. Voc\u00ea est\u00e1 dizendo: \u201cSua percep\u00e7\u00e3o de si mesmo \u00e9 imprecisa, se n\u00e3o<br \/>\ncompletamente incorreta. Em vez disso, acredite em meu modelo.\u201d Por que n\u00e3o \u00e9 isso precisamente<br \/>\nan\u00e1logo a: \u201cVoc\u00ea pensa que est\u00e1 decidindo o que fazer, mas, de fato, Deus predeterminou suas<br \/>\na\u00e7\u00f5es\u201d? Ambas as coloca\u00e7\u00f5es violam minha experi\u00eancia.<br \/>\nResposta: Acho que n\u00e3o disse exatamente isso. Diria que acredito termos descoberto rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nentre o que uma pessoa faz e a sele\u00e7\u00e3o natural das esp\u00e9cies e a hist\u00f3ria do indiv\u00edduo e o efeito<br \/>\nresultante do ambiente comum. Compreendendo isso, \u00e9 poss\u00edvel, freq\u00fcentemente, resolver problemas<br \/>\npessoais de voc\u00ea mesmo, delineando condi\u00e7\u00f5es que resolver\u00e3o problemas de outros indiv\u00edduos,<br \/>\ninstru\u00e7\u00e3o ou terapia ou sistemas de incentivo ou direito penal, e assim por diante. E isto \u00e9 baseado, em<br \/>\nvez disso, em pesquisa rigorosa, da qual n\u00e3o h\u00e1 nada compar\u00e1vel com, digamos, Freud ou William<br \/>\nJames. Eles t\u00eam muitas explica\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis, \u00e9 claro. \u00c9 muito divertido usar o sistema freudiano para<br \/>\ninterpretar todo o mundo&#8230; \u00c9 muito mais f\u00e1cil usar Freud ou James porque isso se tornou p\u00fablico na<br \/>\nvida di\u00e1ria, e pode-se recuar com bastante facilidade, enquanto o outro sistema surgiu de pesquisa de<br \/>\nlaborat\u00f3rios e n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil v\u00ea-lo num exemplo da vida di\u00e1ria. Mas ele est\u00e1 ali, se voc\u00ea o procurar. E isto<br \/>\n\u00e9 exatamente a maneira pela qual um artes\u00e3o habilidoso age \u2013 digamos um funileiro -, a maneira pela<br \/>\nqual ele verga o metal, solda, modela coisas, e assim por diante. Ele conhece muito bem a ci\u00eancia de<br \/>\ntrabalhar com metal, o que n\u00e3o tem nada a ver, praticamente, com a metalurgia atual, e com aquilo<br \/>\nque um engenheiro real faria. \u00c9 mais f\u00e1cil para aquele, e seria um grande erro tentar leva-lo a olhar a<br \/>\nestrutura at\u00f4mica dos metais e a raz\u00e3o de algum deles se fundirem melhor que outros, e assim por<br \/>\ndiante.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas a pessoa que analisa a qu\u00edmica de um metal, por exemplo, n\u00e3o nega, como voc\u00ea a<br \/>\noutra realidade. Ela n\u00e3o tenta dizer que isso \u00e9 baseado em uma interpreta\u00e7\u00e3o incorreta.<br \/>\nResposta: N\u00e3o \u00e9 a realidade que ele nega. Ele n\u00e3o nega a outra maneira de falar sobre a mesma<br \/>\nrealidade. N\u00e3o fa\u00e7o obje\u00e7\u00e3o a publica\u00e7\u00f5es escritas no \u00e2mbito da psicologia leiga comum. Naturalmente!<br \/>\nTentei escrever a m\u00e3o a tradu\u00e7\u00e3o de algumas passagens de George Eliot. Voc\u00ea n\u00e3o consegue faz\u00ea-lo.<br \/>\nPor exemplo, \u201csentimentos\u201d \u2013 \u00e9 uma forma taquigr\u00e1fica de falar sobre hist\u00f3rias. Com amigos meus,<br \/>\nfalaria sobre minhas \u201cid\u00e9ias\u201d, meus \u201csentimentos\u201d, meus \u201cplanos\u201d, e \u201cinten\u00e7\u00f5es\u201d e sei n\u00e3o mais o que.<br \/>\nOs behavioristas jovens freq\u00fcentemente ficam embara\u00e7ados ao usar tais termos. Houve tempo em que<br \/>\neu tamb\u00e9m ficava, mas agora n\u00e3o mais. Nem levanto obje\u00e7\u00f5es, atualmente, a um assistente social ou<br \/>\na um terapeuta que os utiliza&#8230;<br \/>\nQuest\u00e3o: E se algu\u00e9m questionasse que a ci\u00eancia s\u00f3 tem condi\u00e7\u00e3o de prover uma explica\u00e7\u00e3o<br \/>\nplaus\u00edvel da realidade que eu enfrento como ser humano?<br \/>\nResposta: Oh, eu aceito isso.<br \/>\nQuest\u00e3o: Os limites da ci\u00eancia?<br \/>\nResposta: Sim. [Pausa] Os limites usuais \u2013 com o tempo mudam.<br \/>\nQuest\u00e3o: N\u00e3o, quero dizer que a ci\u00eancia, alguns j\u00e1 demonstram, tem um tipo de orgulho sobre<br \/>\nisso. O que n\u00e3o pode ser explicado agora o s\u00ea-lo-a ao final.<br \/>\nResposta: A hist\u00f3ria da ci\u00eancia simplesmente indica isso, n\u00e3o \u00e9? N\u00e3o que n\u00e3o me passe pela<br \/>\ncabe\u00e7a que a astronomia jamais conseguir\u00e1 uma completa descri\u00e7\u00e3o do universo. Mas, por certo, faz<br \/>\nprogressos.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas certas realidades humanas, como se discute, n\u00e3o s\u00e3o an\u00e1logas a metais ou at\u00e9 a<br \/>\npombos. E, nesse sentido, os seres humanos s\u00e3o qualitativamente diferentes de outras coisas, como as<br \/>\nci\u00eancias f\u00edsicas.<br \/>\nResposta: Repito, as pessoas s\u00e3o diferentes porque pertencem a comunidades verbais, que lhes<br \/>\nd\u00e3o raz\u00f5es para olhar para si mesmas. E elas olham para os seus corpos de uma forma que os pombos<br \/>\nnunca fazem. E isto prova ser muito \u00fatil para os outros e para si mesmas. N\u00e3o nego isso. Isso tamb\u00e9m<br \/>\nleva a ci\u00eancia, \u00e0 matem\u00e1tica, e assim por diante.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas os seres humanos, exceto por essa habilidade verbal e pelo que da\u00ed deriva, e<br \/>\nexceto pela maior complexidade, s\u00e3o quantitativamente diferentes , em vez de qualitativamente<br \/>\ndiferentes de organismos inferiores?<br \/>\nResposta: Acho que o ser humano \u00e9 nada mais que um membro de uma esp\u00e9cie desenvolvida.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas n\u00e3o estou lhe perguntando sobre a evolu\u00e7\u00e3o, o passado. Quer dizer, h\u00e1 os que<br \/>\nafirmam que o homem \u00e9 produto da evolu\u00e7\u00e3o , e n\u00e3o criado do nada, acreditando ainda que o estado<br \/>\ncomum dos seres humanos \u00e9 diferente em esp\u00e9cie do estado comum de organismos inferiores.<br \/>\nResposta: Se se trata de tipo ou quantidade, n\u00e3o sei, mas diria que as pessoas fazem coisas que<br \/>\nos animais n\u00e3o fazem. E isso acontece devido \u00e0 emerg\u00eancia do controle operante dos m\u00fasculos vocais,<br \/>\nque tornam poss\u00edvel o comportamento vocal ou o tornam muito mais prov\u00e1vel&#8230;<br \/>\nQuest\u00e3o: Uma das coisas que voc\u00ea considera errada nas perspectivas convencionais dos seres<br \/>\nhumanos \u00e9 que eles, realmente, escolhem seu comportamento&#8230; [Mas] quando voc\u00ea escreve um livro<br \/>\ne tenta questionar uma posi\u00e7\u00e3o, parece uma manifesta\u00e7\u00e3o sem sentido , porque voc\u00ea estava<br \/>\nsimplesmente determinado a escrever isso, eu estava determinado a l\u00ea-lo; se eu acho isso plaus\u00edvel ou<br \/>\nn\u00e3o, tamb\u00e9m \u00e9 determinado. Agora, isso n\u00e3o colide com a id\u00e9ia de escrever ou ler um livro, ou de<br \/>\ntentar persuadir-me de algo? Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1, implicitamente, apelando a mim para que eu acredite em<br \/>\nvoc\u00ea, para que eu opte por acreditar em voc\u00ea?<br \/>\nResposta: N\u00e3o, n\u00e3o. J\u00e1 repeti muitas vezes que meus ratos e pombos ensinaram-me mais do<br \/>\nque eu a eles. O comportamento do cientista \u00e9 modelado pelo assunto que lhe interessa ,e isso \u00e9<br \/>\nprocesso cont\u00ednuo de evolu\u00e7\u00e3o. Agora, o que tudo isso \u00e9 completamente, divagar sobre o que estamos<br \/>\ndesenvolvendo, n\u00e3o sei.) De onde viemos, tampouco. Essas s\u00e3o quest\u00f5es \u2013 se s\u00e3o ou n\u00e3o<br \/>\nsignificantes, \u00e9, em si, uma quest\u00e3o. Mas fazemos o que \u00e9 poss\u00edvel e a\u00ed paramos.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas voc\u00ea est\u00e1 sugerindo que h\u00e1 algo de errado no enfoque de Chomsky, ou sobre uma<br \/>\nconcep\u00e7\u00e3o religiosa da vida, ou sobre a psican\u00e1lise. Voc\u00ea afirma que seu enfoque, em certo sentido, \u00e9<br \/>\nmais cient\u00edfico , mais \u00fatil e, em \u00faltima an\u00e1lise &#8211; quando voc\u00ea come\u00e7a a conseguir um dom\u00ednio sobre os<br \/>\nseres humanos em Beyond freedom and dignity -, voc\u00ea come\u00e7a a falar num tom quase apocal\u00edptico,<br \/>\nque, se n\u00e3o aceitarmos essa coloca\u00e7\u00e3o e as conseq\u00fc\u00eancias da an\u00e1lise behaviorista, ca\u00edmos em<br \/>\ndesgra\u00e7a. Ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 apelando para um homem livre acreditar e da\u00ed p\u00f4r em pr\u00e1tica suas<br \/>\nrecomenda\u00e7\u00f5es?<br \/>\nResposta: N\u00e3o. Estou criando um novo contexto que, espero, levaria os indiv\u00edduos a agir de<br \/>\ndiferentes formas quanto aos problemas. O terapeuta n\u00e3o muda a pessoa; ele acrescenta \u00e0 hist\u00f3ria da<br \/>\npessoa.<br \/>\nQuest\u00e3o: Assim, seu livro torna-se parte desse ambiente da mesma forma que uma repentina<br \/>\ntempestade afetaria meu comportamento levando-me a procurar abrigo.<br \/>\nResposta: \u00c9 verdade.<br \/>\nQuest\u00e3o: Quando falamos em instalar um contexto inteiramente novo, ao modelo de Walden<br \/>\nTwo, como se revelaria um indiv\u00edduo que quisesse sair do ambiente como se revelaria um indiv\u00edduo<br \/>\nque quisesse sair de um ambiente controlador, se ele pr\u00f3prio \u00e9 controlado, a fim de que controle os<br \/>\noutros ou que instale ambiente que controle os outros?<br \/>\nResposta: Voc\u00ea v\u00ea , ele n\u00e3o controla os outros. Ele planeja um mundo que controle os outros.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas como ele consegue faz\u00ea-lo, se ele mesmo \u00e9 controlado? N\u00e3o parece que ele se<br \/>\nsente desobrigado disso temporariamente?<br \/>\nResposta: Oh, n\u00e3o, todo o tempo ele \u00e9 um especialista em controlar-se a si mesmo, e a pessoa<br \/>\ncontrola-se a si pr\u00f3pria como controla os outros. Controla seu pr\u00f3prio meio como a ela pr\u00f3pria, e<br \/>\nmodifica o meio dos outros para control\u00e1-los. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m no controle em Walden Two; ningu\u00e9m<br \/>\nengana as pastilhas de chocolate. H\u00e1 certos arranjos contratuais sobre o n\u00famero de horas, o que \u00e9<br \/>\nlegalmente estabelecido. Esse \u00e9 o mundo que refor\u00e7a o comportamento necess\u00e1rio a manter o mundo<br \/>\nandando.<br \/>\nQuest\u00e3o: Pode n\u00e3o haver mais ningu\u00e9m para continuar controlando, mas algu\u00e9m manteve um<br \/>\nsistema e o fez funcionar; uma esp\u00e9cie de modelo de\u00edsta do universo.<br \/>\nResposta: Certo. E o homem que inventou o manejo da m\u00e1quina a vapor morreu; ele n\u00e3o<br \/>\ncontrola todas as m\u00e1quinas a vapor.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas h\u00e1 um sistema de causa e efeito em seu lugar que governa o comportamento do<br \/>\nindiv\u00edduo. Voc\u00ea ouviu in\u00fameras vezes a pergunta de como Walden Two difere das hist\u00f3rias antiut\u00f3picas<br \/>\nde Orwell e Huxley. Mas ainda n\u00e3o estou certo de que as compreendi. Ainda nada sei quanto \u00e0<br \/>\npossibilidade para o totalitarismo.<br \/>\nResposta: Oh, isso poderia ter sido planejado assim, mas n\u00e3o foi. Os planejadores mudaram-se e<br \/>\nn\u00e3o podem ser reconduzidos, e as gerentes s\u00e3o apenas intermedi\u00e1rias ,e assim&#8230; A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se<br \/>\nalgu\u00e9m pode assumir o encargo, mas se \u00e9 poss\u00edvel existir situa\u00e7\u00e3o, e, se poss\u00edvel, ent\u00e3o ser t\u00e3o boa de<br \/>\nmaneira que as pessoas defenderiam&#8230;<br \/>\nQuest\u00e3o: Permita-me perguntar-lhe sobre os julgamentos de valor por um instante. Quero lerlhe<br \/>\nda uma cita\u00e7\u00e3o de Bertrand Russell e ver sua rea\u00e7\u00e3o.<br \/>\nResposta: Por acaso&#8230;[Encontrei Russel certa vez, num jantar e lhe disse:] \u201cVoc\u00ea deve estar<br \/>\ninteressado em saber que voc\u00ea foi respons\u00e1vel por me ter tornado behaviorista quando li seu livro<br \/>\nPhilosophy\u201d. E ele exclamou: \u201cC\u00e9us! Pensei que este livro tivesse demolido o behaviorismo.\u201d Bem,<br \/>\naconteceu, mas n\u00e3o li esta parte&#8230;<br \/>\nQuest\u00e3o: Eis aqui o que Russell disse: \u201cN\u00e3o vejo como refutar os argumentos da subjetividade de<br \/>\nvalores \u00e9ticos, mas vejo-me incapaz de acreditar que tudo o que est\u00e1 errado com a extravagante<br \/>\ncrueldade \u00e9 que n\u00e3o gosto disso.\u201d Voc\u00ea tem um tipo similar de dilema ou voc\u00ea \u2013<br \/>\nResposta: Oh, bem, sim, obviamente a crueldade extravagante \u00e9 errada por dois motivos: \u00e9<br \/>\nerrada no sentido que uma cultura que a tolera teria que ser uma cultura, n\u00e3o com o que os indiv\u00edduos<br \/>\nsintam. Mas para evitar-se isso, a cultura ensina aos indiv\u00edduos o que \u00e9 errado , e que eles deveriam<br \/>\nassim sentir-se culpados. Isto \u00e9 muito diferente da raz\u00e3o por que a cultura \u00e9 respons\u00e1vel por isso.<br \/>\nQuest\u00e3o: Dessa forma, os valores reduzem-se a duas coisas \u2013 uma \u00e9 a sobreviv\u00eancia cultural \u2013<br \/>\nResposta: H\u00e1 tr\u00eas n\u00edveis. H\u00e1 os valores da sele\u00e7\u00e3o natural: o sal \u00e9 bom, o a\u00e7\u00facar \u00e9 bom \u2013 agora<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o bons porque abusamos deles. Ent\u00e3o, h\u00e1 o n\u00edvel pessoal: o que \u00e9 refor\u00e7ador para voc\u00ea ,<br \/>\nsegundo suas pr\u00f3prias raz\u00f5es. E a cultura: o que \u00e9 bom para os outros, o que as culturas refor\u00e7am nos<br \/>\nindiv\u00edduos porque \u00e9 bom para a cultura e sua sobreviv\u00eancia, n\u00e3o realmente aquilo de que as pessoas<br \/>\ngostam&#8230; Um mundo que \u00e9 planejado de forma que a maior parte do tempo voc\u00ea faz o que quer, o que<br \/>\n\u00e9 positivamente comportamento refor\u00e7ado, \u00e9 um mundo eficaz. No entanto, ele n\u00e3o seria julgado por<br \/>\nisso, afinal de contas a felicidade n\u00e3o \u00e9 o bem final. \u00c8 o \u00faltimo bem para o indiv\u00edduo, mas n\u00e3o para a<br \/>\nsociedade.<br \/>\nQuest\u00e3o: Mas todos esses usos para a palavra bem s\u00e3o instrumentais; \u00e9 o que os fil\u00f3sofos<br \/>\nchamariam de um sentido \u201cn\u00e3o moral\u201d, exclusivamente. Dessa forma, voc\u00ea eliminou o sentido moral<br \/>\nda exist\u00eancia.<br \/>\nResposta: Se voc\u00ea entende a\u00ed um sentido moral, h\u00e1 que se fazer a distin\u00e7\u00e3o entre se isto \u00e9 a<br \/>\nconseq\u00fc\u00eancia, que \u00e9 o que seleciona, ou o medo de incentivar, que tem a ver com o uso de medidas \u00e0s<br \/>\nquais o indiv\u00edduo se refere, que faz sentir-se culpado, e assim por diante.<br \/>\nQuest\u00e3o: Analisemos um exemplo hipot\u00e9tico de um comportamento- como o sacrif\u00edcio de virgens<br \/>\nnuma cultura primitiva. N\u00e3o se trata de um mal ajustamento \u00e0 cultura, digamos, e os indiv\u00edduos dela<br \/>\nparticipantes n\u00e3o tem escr\u00fapulos de consci\u00eancia sobre isso. Mas o que voc\u00ea diria sobre isso a n\u00e3o ser \u201c<br \/>\n\u2018Juck\u2019, n\u00e3o gosto disso\u201d, exatamente como se voc\u00ea n\u00e3o gostasse de br\u00f3colis?<br \/>\nResposta: Bem, que posso dizer? Isto \u00e9, n\u00e3o conhe\u00e7o as condi\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, como isso surgiu&#8230;<br \/>\nComo n\u00e3o conhe\u00e7o o valor da sobreviv\u00eancia que pode ter tido para a sobreviv\u00eancia, n\u00e3o posso dizer<br \/>\nque isso \u00e9 errado nesse sentido. Se ent\u00e3o eu dissesse, se isso fosse em minha cultura, minha cultura<br \/>\nensinou-me a dizer que \u00e9 errado, da\u00ed eu digo que \u00e9 errado&#8230;<br \/>\n[Sobre criatividade e o self]: Quando eu terminei Beyond freedom and dignity, tive um<br \/>\nsentimento estranho de que nem mesmo tinha escrito o livro. Veja, n\u00e3o digo isso no sentido em que as<br \/>\npessoas t\u00eam asseverado que alter egos t\u00eam escrito livros para elas, e assim por diante, mas isto \u00e9<br \/>\nclaro, tornou-se p\u00fablico por meu comportamento e n\u00e3o devido a algo chamado \u201cmim\u201d ou \u201ceu\u201d<br \/>\ninterior&#8230;<br \/>\nO homem n\u00e3o \u00e9 um criador&#8230; Isso n\u00e3o significa que n\u00e3o tenha havido grandes livros ou grande<br \/>\nm\u00fasica. Claro! O individual \u00e9 muito importante. A quest\u00e3o \u00e9 o que realmente est\u00e1 acontecendo quando<br \/>\nacontece, n\u00e3o \u00e9? Se voc\u00ea pensa que Beethoven era algu\u00e9m que possu\u00eda um tipo especial de g\u00eanio, o<br \/>\nque lhe possibilitou, a partir de nada, escrever nove grandes sinfonias, ent\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 errado, e n\u00e3o<br \/>\nfar\u00e1 muito como um professor de m\u00fasica. Se, em vez disso, voc\u00ea pensar que Beethoven foi algu\u00e9m<br \/>\nque, ainda bem jovem, assimilou tudo o que havia na \u00e9poca sobre m\u00fasica e da\u00ed, devido a fatos que o<br \/>\nafetaram pessoalmente, como circunst\u00e2ncias fortuitas e outros epis\u00f3dios, ele introduziu inova\u00e7\u00f5es<br \/>\nbem- sucedidas e continuou repetindo-as, e as escreveu porque estava altamente refor\u00e7ado para isso<br \/>\nent\u00e3o, este \u00e9 um ponto de vista diferente, e ele \u00e9, ainda, um grande homem.<\/p>\n<p>Quest\u00e3o: Voc\u00ea n\u00e3o acha que poderia haver alguma parte do comportamento humano que n\u00e3o<br \/>\npossa ser explicada dessa maneira?<\/p>\n<p>Resposta: Bem, voc\u00ea pode sempre dizer que talvez haja alguma coisa no comportamento<br \/>\nhumano que n\u00e3o tenha sido explicada ou que n\u00e3o possa ser explicada, mas isso \u00e9 como dizer a Newton<br \/>\nque h\u00e1 uns poucos corpos celestes que n\u00e3o obedecem \u00e0 lei da gravidade. Onde est\u00e3o eles?&#8230;<br \/>\nSamuel Butler&#8230; disse que uma galinha \u00e9 simplesmente a maneira de um ovo fazer outro ovo.<br \/>\nHoje, os geneticistas dir\u00e3o a mesma coisa: o organismo \u00e9&#8230; exatamente algo que \u00e9 temporariamente<br \/>\nenvolvido para que os genes possam sobreviver. Agora, pense que o mesmo pode ser dito das<br \/>\nculturas. Certa vez dei um escrito meu ao Centro de Poesia de New York, intitulado \u201cTer um Poema\u201d.<br \/>\nComparei produzir um poema a ter uma crian\u00e7a. O audit\u00f3rio n\u00e3o gostou da minha an\u00e1lise de ter um<br \/>\nbeb\u00ea porque eu disse que&#8230; uma m\u00e3e \u00e9 simplesmente a maneira de um ovo fertilizado fazer mais ovos<br \/>\nfertilizados.<br \/>\nQuando eu estava no gin\u00e1sio, fiquei muito impressionado com um livro de bot\u00e2nica que descrevia<br \/>\na vida de um rabanete.<br \/>\nFui acusado de olhar para mim mesmo como um rabanete, e penso que isso \u00e9 provavelmente<br \/>\ncorreto. No primeiro ano, esse rabanete armazena sua enorme raiz. No ano seguinte , produz ramos e<br \/>\nflores e sementes, e, finalmente, a pequena coisa abaixo est\u00e1 pronta; al\u00e9m disso, a planta inteira<br \/>\nmorre quando as sementes ficam maduras. Dessa forma, a planta rabanete \u00e9 apenas uma forma de<br \/>\nsuas sementes fazerem mais sementes de rabanete. Agora, argumento que isso \u00e9 a verdade de um<br \/>\npoeta, tamb\u00e9m: um poeta \u00e9 simplesmente uma forma pela qual uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria faz mais de uma<br \/>\ntradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Agora, as coisas acontecem para um poeta, essas s\u00e3o as varia\u00e7\u00f5es na gen\u00e9tica, e<br \/>\nalguma coisa nova brota \u2013 mas isso n\u00e3o \u00e9 devido ao poeta. \u00c9 a vida pessoal do poeta, os poemas que<br \/>\nele leu, as cr\u00edticas recebidas, e assim por diante \u2013 tudo isto \u00e9 respons\u00e1vel por aquilo que ele fez. Voc\u00ea, ent\u00e3o, lhe daria cr\u00e9dito? Bem, n\u00f3s damos cr\u00e9dito, porque isso \u00e9 como levamos as pessoas a fazerem coisas, mas cientificamente n\u00e3o \u00e9 merecido. Se a quest\u00e3o \u00e9 quanto o indiv\u00edduo contribui, penso que a resposta a isso \u00e9: nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Uma Conversa com B. F. Skinner Entrevistadora: Alfie Kohn Fonte:, KOHN, Alfie. Punidos pelas recompensas. S\u00e3o Paulo: Atlas, 1998. 392p. Muito antes de ser o psic\u00f3logo mais influente dos Estados Unidos, Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) decidiu ser escritor. Formou-se no Hamilton College em Ingl\u00eas, e passou um ano infeliz com os seus pais, tentando &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/conversa-com-skinner\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Uma conversa com Skinner&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1038,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"class_list":["post-2167","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2167","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2167"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2167\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2168,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2167\/revisions\/2168"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1038"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2167"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}