{"id":2253,"date":"2009-07-16T16:06:15","date_gmt":"2009-07-16T19:06:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=2253"},"modified":"2009-07-16T16:06:15","modified_gmt":"2009-07-16T19:06:15","slug":"o-que-esta-errado-com-a-vida-cotidiana-no-mundo-ocidental","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/o-que-esta-errado-com-a-vida-cotidiana-no-mundo-ocidental\/","title":{"rendered":"O que est\u00e1 errado com a vida cotidiana no mundo ocidental?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autor<\/strong>: B. F. Skinner<br \/>\n<strong>Fonte<\/strong>: Skinner, B. F. (1987), What is Wrong with Daily Life in the Western World? in: Skinner, B. F. Upon Further Reflection. Englewood Clifs (New Jersey): Prentice Hall, p.15-31.<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o<\/strong>: Traduzido por Renata Cristina Gomes e revisado por H\u00e9lio Jos\u00e9 Guilhardi e Noreen Campbell de Aguirre.<br \/>\n<strong>Dispon\u00edvel em<\/strong>: <a href=\"http:\/\/www.iaac.com.br\/textos\/skinner\/erradovidacotidiana.pdf\">http:\/\/www.iaac.com.br\/textos\/skinner\/erradovidacotidiana.pdf<\/a><\/p>\n<p>Existem muitas coisas erradas com o mundo hoje, mas elas n\u00e3o perturbam a todos. Superpopula\u00e7\u00e3o, esgotamento e polui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, e at\u00e9 mesmo a possibilidade de uma guerra nuclear s\u00e3o freq\u00fcentemente desconsiderados como se forem assuntos para um futuro razoavelmente distante. Pobreza, doen\u00e7a e viol\u00eancia s\u00e3o problemas atuais, mas n\u00e3o para todos. Muitos daqueles que vivem nas democracias ocidentais desfrutam de um grau razo\u00e1vel de fartura, liberdade e seguran\u00e7a. Mas eles t\u00eam o seu pr\u00f3prio problema. Apesar de seus privil\u00e9gios, muitos est\u00e3o aborrecidos, inquietos ou deprimidos. N\u00e3o est\u00e3o desfrutando suas vidas. N\u00e3o gostam daquilo que fazem; n\u00e3o fazem aquilo de que gostam. Numa palavra, est\u00e3o infelizes. Esse n\u00e3o \u00e9 o problema mais s\u00e9rio no mundo, mas se poderia dizer que \u00e9 premente. Algo semelhante ao estilo de vida atual no Ocidente \u00e9 aquilo que a maioria das pessoas almeja desfrutar ap\u00f3s ter resolvido seus outros problemas. N\u00e3o existiria alguma coisa mais promissora para o futuro da esp\u00e9cie?<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o afirma\u00e7\u00f5es acerca de como as pessoas se sentem. Express\u00e1-las dessa forma \u00e9 um padr\u00e3o. Por s\u00e9culos, sentimentos t\u00eam sido aceitos tanto como causas quanto como efeitos de comportamento. Diz-se que as pessoas fazem o que fazem porque se sentem propensas (feel like) a faz\u00ea-lo, e sentem o que sentem por causa do que fizeram. Como os sentimentos parecem assumir um papel t\u00e3o importante, argumenta-se que uma ci\u00eancia do comportamento estaria incompleta, caso n\u00e3o fosse capaz de resolver o tipo de problema com o qual estamos preocupados aqui.<\/p>\n<p>Sentimentos, entretanto, n\u00e3o est\u00e3o fora do alcance de uma ci\u00eancia comportamental. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que os sentimentos s\u00e3o, mas o que \u00e9 sentido. Sentir \u00e9 um verbo \u2013 como ver, ouvir ou saborear. N\u00f3s vemos, ouvimos e saboreamos coisas no mundo ao nosso redor, e n\u00f3s sentimos coisas em nosso corpo. Quando nos sentimos fracos, estamos sentindo m\u00fasculos fracos; quando nos sentimos cansados, estamos sentindo um corpo cansado; quando temos uma dor de dente, estamos sentindo um dente inflamado. Sentimentos diferem de outros tipos de sentidos de diversas formas. Uma vez que aquilo que sentimos est\u00e1 debaixo (within) de nossa pele, n\u00f3s n\u00e3o podemos escapar disso. Os \u00f3rg\u00e3os dos sentidos, com os quais sentimos, n\u00e3o s\u00e3o facilmente observados como aqueles com os quais vemos coisas no mundo ao nosso redor. E n\u00e3o podemos relatar o que sentimos t\u00e3o acuradamente quanto aquilo que vemos, porque aqueles que nos ensinam a faz\u00ea-lo carecem de informa\u00e7\u00e3o a respeito do corpo que sentimos. N\u00e3o precisamos, entretanto, nos deter em quest\u00f5es epistemol\u00f3gicas, a fim de colocar a seguinte pergunta: O que n\u00f3s sentimos quando n\u00e3o estamos gostando de nossas vidas? E, em decorr\u00eancia, o que devemos mudar se queremos sentir diferentemente?<\/p>\n<p>Sugiro que as respostas ser\u00e3o encontradas em algo que aconteceu na hist\u00f3ria da esp\u00e9cie. Os primeiros membros da Homo Sapiens devem ter sido muito semelhantes aos outros primatas que vemos hoje. Eles devem ter tido suas pr\u00f3prias maneiras de colher ou ca\u00e7ar seu alimento, construir abrigos, encontrar parceiros, criar uma fam\u00edlia e evitar perigo. Seu comportamento, assim como o de outros primatas, deve ter sido, em grande parte, produto de sele\u00e7\u00e3o natural e, talvez, n\u00e3o tenha sido modificado mais prontamente, atrav\u00e9s de condicionamento, do que o de tais primatas. Como outras esp\u00e9cies, eles teriam se beneficiado a partir da experi\u00eancia de outros, mas apenas atrav\u00e9s de imita\u00e7\u00e3o e modela\u00e7\u00e3o (modeling).<\/p>\n<p>A esp\u00e9cie humana deu um passo evolucion\u00e1rio \u00fanico quando sua musculatura vocal ficou sob controle operante e a linguagem nasceu. As pessoas puderam, ent\u00e3o, tanto dizer como mostrar aos outros o que fazer. Ambientes sociais, ou culturas, extremamente complexos emergiram, e deram \u00e0 esp\u00e9cie seu extraordin\u00e1rio poder. Eu defenderia que, ao mesmo tempo, muitas das novas pr\u00e1ticas culturais desgastaram ou destru\u00edram certas rela\u00e7\u00f5es entre organismo e ambiente que prevaleciam quando o condicionamento operante emergiu.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 facilmente descrito como uma quest\u00e3o de sentimentos porque os sentimentos em quest\u00e3o est\u00e3o estreitamente relacionados a refor\u00e7amento operante. Conseq\u00fcentemente, dizemos que coisas refor\u00e7adoras nos agradam (please), que n\u00f3s gostamos delas, que elas s\u00e3o sentidas como boas (they feel good). A associa\u00e7\u00e3o de refor\u00e7amento com sentimento \u00e9 t\u00e3o forte que h\u00e1 muito tem sido dito que coisas refor\u00e7am porque s\u00e3o boas (they feel good) ou s\u00e3o boas (they feel good) porque refor\u00e7am. Dever\u00edamos dizer, ao inv\u00e9s disso, que as coisas s\u00e3o boas (they feel good) e refor\u00e7am por causa do que aconteceu na evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Os organismos presumivelmente comem alimentos nutritivos porque varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que aumentaram a probabilidade de faz\u00ea-lo contribu\u00edram para sobreviv\u00eancia do indiv\u00edduo e da esp\u00e9cie e, portanto, foram selecionadas. Para esp\u00e9cies mais simples, geralmente n\u00e3o dizemos que o alimento deve \u201cser gostoso\u201d (taste good). A quest\u00e3o do gostar (enjoyment) provavelmente surgiu quando organismos se tornaram suscet\u00edveis ao refor\u00e7amento pelos mesmos alimentos. Eles comiam, ent\u00e3o, por duas raz\u00f5es: o comportamento era inato e era tamb\u00e9m refor\u00e7ado por suas conseq\u00fc\u00eancias. \u00c9 o efeito refor\u00e7ador, n\u00e3o a tend\u00eancia gen\u00e9tica a comer, que relatamos quando dizemos que o alimento \u201cest\u00e1 gostoso\u201d (taste good).<\/p>\n<p>O refor\u00e7amento, entretanto, tem um outro efeito: comportamento que \u00e9 refor\u00e7ado tem maior probabilidade de ocorrer novamente. Correndo o risco de ser seriamente mal interpretado pelos cr\u00edticos do behaviorismo, farei uma distin\u00e7\u00e3o entre os efeitos de ser agrad\u00e1vel (pleasing) e o de ser fortalecedor. Eles ocorrem em momentos diferentes e s\u00e3o sentidos como coisas diferentes. Quando sentimos prazer (feel pleased), n\u00e3o estamos necessariamente sentindo uma maior inclina\u00e7\u00e3o a nos comportarmos da mesma forma. (De fato, quando chamamos um refor\u00e7ador de satisfat\u00f3rio, ao inv\u00e9s de agrad\u00e1vel, como fez Thorndike, sugerimos que ele reduz a probabilidade de agir da mesma maneira, j\u00e1 que satisfat\u00f3rio \u00e9 etimologicamente pr\u00f3ximo a saciador.) Quando repetimos comportamento que foi refor\u00e7ado, por outro lado, n\u00e3o sentimos o efeito agrad\u00e1vel que sentimos na ocasi\u00e3o em que o refor\u00e7amento ocorreu. Agrad\u00e1vel (pleasing) parece ser a palavra inglesa cotidiana mais pr\u00f3xima de refor\u00e7ador (reinforcing), mas refere-se apenas \u00e0 metade do efeito.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: x-small\">O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: B. F. Skinner Fonte: Skinner, B. F. (1987), What is Wrong with Daily Life in the Western World? in: Skinner, B. F. Upon Further Reflection. Englewood Clifs (New Jersey): Prentice Hall, p.15-31. Tradu\u00e7\u00e3o: Traduzido por Renata Cristina Gomes e revisado por H\u00e9lio Jos\u00e9 Guilhardi e Noreen Campbell de Aguirre. 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