{"id":2261,"date":"2009-07-16T17:48:20","date_gmt":"2009-07-16T20:48:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=2261"},"modified":"2009-08-08T16:14:11","modified_gmt":"2009-08-08T19:14:11","slug":"uma-melancolizacao-do-laco-social","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/psicanalise\/uma-melancolizacao-do-laco-social\/","title":{"rendered":"Uma melancoliza\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autor:<\/strong> Olivier Douville<br \/>\n<strong>T\u00edtulo:<\/strong> Uma melancoliza\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social?<br \/>\n<strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/agora\/v7n2\/v7n2a01.pdf\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/agora\/v7n2\/v7n2a01.pdf<\/a><\/p>\n<p>RESUMO: Interrogando-se sobre as vizinhan\u00e7as epist\u00eamicas entre antropologia e psican\u00e1lise, o autor exp\u00f5e em os procedimentos de institui\u00e7\u00e3o do Terceiro e do interdito est\u00e3o em crise nas modernidades, com as conseq\u00fc\u00eancias cl\u00ednicas desta crise. O trabalho sobre o la\u00e7o social, sua melancoliza\u00e7\u00e3o, permitiria reatar os fios do di\u00e1logo e dos encontros entre antrop\u00f3logos e psicanalistas.<\/p>\n<p>PALAVRAS-CHAVE: Psican\u00e1lise, antropologia, la\u00e7o social.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese de que o la\u00e7o social contempor\u00e2neo podia se melancolizar no concreto da vida dos sujeitos foi vislumbrada por mim desde o ver\u00e3o de 1988, a partir de uma temporada de estudos sobre a \u201cpsiquiatria comunit\u00e1ria\u201d na ilha da Reuni\u00e3o. Foi na ocasi\u00e3o do col\u00f3quio \u201cA esperan\u00e7a transcultural\u201d, quando fui convidado por seus dois principais organizadores a refletir sobre a figura do estrangeiro em Freud e sobre as incid\u00eancias subjetivas das situa\u00e7\u00f5es de biling\u00fcismo.<\/p>\n<p>Na metr\u00f3pole ou na ilha, estas duas tem\u00e1ticas est\u00e3o articuladas, mas na ilha esta articula\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais forte. Os la\u00e7os insulares da Reuni\u00e3o n\u00e3o t\u00eam nada de muito ex\u00f3tico. A sua tend\u00eancia a serem bastante perme\u00e1veis \u00e0 quest\u00e3o fundamental da exclus\u00e3o e da inclus\u00e3o, os usos discriminantes das superf\u00edcies de proje\u00e7\u00e3o das legitimidades e dos poderes que desenham e definem os biling\u00fcismos s\u00e3o tamb\u00e9m an\u00e1logos \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es culturais que se produzem hoje nas sociedades multi\u00e9tnicas mais amplas. Esta ilha do oceano \u00cdndico foi para mim um \u201ccampo\u201d rico em problem\u00e1ticas devido \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o violenta e possessiva \u2014 \u00e0s vezes vergonhosa \u2014 com a l\u00edngua crioula, l\u00edngua \u201cmaterna\u201d da maioria, dado tamb\u00e9m a sua influ\u00eancia nas afasias devastadoras de um discurso colonial, e em raz\u00e3o, ainda, de seus la\u00e7os apaixonados e intrincados com o passado e com os estratos de migra\u00e7\u00f5es que comp\u00f5em a sua popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O quadro p\u00f3s-colonial de neutraliza\u00e7\u00e3o se funda em mecanismos pelos quais os sujeitos s\u00e3o privados de mem\u00f3ria e de l\u00edngua. O ponto de partida que este artigo prop\u00f5e faz valer um paralelo que parecer\u00e1 rude entre estas situa\u00e7\u00f5es p\u00f3scoloniais e as incid\u00eancias subjetivas das atuais globaliza\u00e7\u00f5es em escala planet\u00e1ria. O discurso que autoriza tal provoca\u00e7\u00e3o \u00e9 sustentado pela minha posi\u00e7\u00e3o de analista cl\u00ednico. Com efeito, v\u00e1rios pacientes que n\u00e3o t\u00eam muito a ver com esta quimera do paciente padr\u00e3o, que deseja conduzir de modo satisfat\u00f3rio um tratamento at\u00e9 o fim, v\u00eam ao encontro de analistas para dizer, enredar e desenredar as rela\u00e7\u00f5es entre melancoliza\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria e melancoliza\u00e7\u00e3o do sujeito, entre trauma hist\u00f3rico e acidente singular. A situa\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica n\u00e3o \u00e9 mais, ent\u00e3o, o dispositivo que permite a emerg\u00eancia do elemento recalcado, mas tamb\u00e9m a ocasi\u00e3o na qual se dizem enfim as palavras banidas e os significantes da filia\u00e7\u00e3o que foram atacados pelas viol\u00eancias da hist\u00f3ria. Um trabalho pr\u00e9vio com certos sujeitos consiste em vencer este desespero singular com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 palavra. A neutralidade aqui seria a neutraliza\u00e7\u00e3o, se o psicanalista se reduzisse a encarnar de modo obstinado a figura do Outro que nada poderia emocionar ou impressionar. Sujeitos em melancoliza\u00e7\u00e3o de la\u00e7o foram, em sua hist\u00f3ria, vivida ou herdada, confrontados com esta figura da onipot\u00eancia, figura que nenhum grito, nenhuma formula\u00e7\u00e3o de excesso poderia fazer reagir.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente um programa de pesquisa e de trabalho submetido \u00e0 sua urg\u00eancia e ao mais preciso da sua articula\u00e7\u00e3o que poderia ser proposto: pensar o la\u00e7o entre o estatuto da palavra em nossas modernidades e os modos segundo os quais alguns de nossos analisandos, freq\u00fcentemente de passagem, em err\u00e2ncia ou em exclus\u00e3o, utilizam a situa\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica para reviver, ou mesmo inventar uma prova: a de retomar o gosto pelos poderes da palavra.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, sou cada vez mais conduzido a dialogar com antrop\u00f3logos e soci\u00f3logos. Devo isto, em primeiro lugar, \u00e0queles, dentre meus pacientes, que vinham de horizontes culturais distintos da nossa ocidental modernidade \u2014 embora, provavelmente, n\u00e3o viessem de outros horizontes pol\u00edticos. Tentei ent\u00e3o formalizar as condi\u00e7\u00f5es que permitissem que a oferta da escuta e do cuidado psicanal\u00edticos, oferta que, em v\u00e1rios aspectos, parece absolutamente localizada do ponto de vista cultural, possa entretanto abrigar migrantes, refugiados (e seus filhos). Estes pacientes desejavam, como v\u00e1rios de seus compatriotas, demandar e encontrar escuta e cuidado, para al\u00e9m dos dispositivos propostos pelos \u201ctradicl\u00ednicos\u201d (ou por seus imitadores etnopsiquiatras). N\u00e3o foi ent\u00e3o uma constata\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica em escutar e ajudar pacientes vindos de outros horizontes culturais que n\u00e3o o de seu terapeuta que me conduziu a trabalhar com a antropologia.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: x-small\">O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: Olivier Douville T\u00edtulo: Uma melancoliza\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social? Fonte: http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/agora\/v7n2\/v7n2a01.pdf RESUMO: Interrogando-se sobre as vizinhan\u00e7as epist\u00eamicas entre antropologia e psican\u00e1lise, o autor exp\u00f5e em os procedimentos de institui\u00e7\u00e3o do Terceiro e do interdito est\u00e3o em crise nas modernidades, com as conseq\u00fc\u00eancias cl\u00ednicas desta crise. 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