{"id":2329,"date":"2012-05-14T20:27:36","date_gmt":"2012-05-14T23:27:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=2329"},"modified":"2012-05-14T20:27:36","modified_gmt":"2012-05-14T23:27:36","slug":"mario-de-andrade-macunaima","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/variados\/mario-de-andrade-macunaima\/","title":{"rendered":"Mario de Andrade, Macuna\u00edma e a professora municipal"},"content":{"rendered":"<p>Mario de Andrade, Macuna\u00edma e a professora municipal<br \/>\n<strong><br \/>\nMACUNA\u00cdMA<br \/>\nO her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter<\/strong><br \/>\n(raps\u00f3dia)<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Andrade, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o 1928, Livraria Jos\u00e9 Olympio Editora, Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Macuna\u00edma<\/p>\n<p>No fundo do mato-virgem nasceu Macuna\u00edma, her\u00f3i de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o sil\u00eancio foi t\u00e3o grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a \u00edndia, tapanhumas pariu uma crian\u00e7a feia. Essa crian\u00e7a \u00e9 que chamaram de Macuna\u00edma.<\/p>\n<p>J\u00e1 na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos n\u00e3o falando. Sio incitavam a falar exclamava:<\/p>\n<p>\u2014 Ai! que pregui\u00e7a!. . .<\/p>\n<p>e n\u00e3o dizia mais nada.&#8221;] Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxi\u00faba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape j\u00e1 velhinho e Jigu\u00ea na for\u00e7a de homem. O divertimento dele era decepar cabe\u00e7a de sa\u00fava. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macuna\u00edma dandava pra ganhar vint\u00e9m. E tamb\u00e9m espertava quando a fam\u00edlia ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz-que habitando a \u00e1gua-doce por l\u00e1. No mucambo si alguma cunhat\u00e3 se aproximava dele pra fazer festinha, Macuna\u00edma punha a m\u00e3o nas gra\u00e7as dela, cunhat\u00e3 se afastava. Nos machos guspia na cara. Por\u00e9m respeitava os velhos, e freq\u00fcentava com aplica\u00e7\u00e3o a murua a porac\u00ea o tor\u00ea o bacoroc\u00f4 a cucuicogue, todas essas dan\u00e7as religiosas da tribo.<\/p>\n<p>Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da m\u00e3e estava por debaixo do ber\u00e7o, o her\u00f3i mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Ent\u00e3o adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estramb\u00f3licas e dava patadas no ar.<\/p>\n<p>Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens do her\u00f3i. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que &#8220;espinho que pinica, de pequeno j\u00e1 traz ponta&#8221;, e numa pagelan\u00e7a Rei Nag\u00f4 fez um discurso e avisou que o her\u00f3i era inteligente.<\/p>\n<p>Nem bem teve seis anos deram \u00e1gua num chocalho pra ele e Macuna\u00edma principiou falando como todos. E pediu pra m\u00e3e que largasse da mandioca ralando na cevadeira e levasse ele passear no mato. A m\u00e3e n\u00e3o quis porque n\u00e3o podia largar da mandioca n\u00e3o. Macuna\u00edma choramingou dia inteiro. De noite continuou chorando. No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que a m\u00e3e principiasse o trabalho. Ent\u00e3o pediu pra ela que largasse de tecer o paneiro de guarum\u00e1-membeca e levasse ele no mato passear. A m\u00e3e n\u00e3o quis porque n\u00e3o podia largar o paneiro n\u00e3o. E pediu pra nora, companheira de Jigu\u00ea que levasse o menino. A companheira de Jigu\u00ea era bem mo\u00e7a e chamava Sofar\u00e1. Foi se aproximando ressabiada por\u00e9m desta vez Macuna\u00edma ficou muito quieto sem botar a m\u00e3o na gra\u00e7a de ningu\u00e9m. A mo\u00e7a carregou o pi\u00e1 nas costas e foi at\u00e9 o p\u00e9 de aninga na beira do rio. A \u00e1gua parar\u00e1 pra inventar um ponteio de gozo nas folhas do javari. O longe estava bonito com muitos bigu\u00e1s e biguatingas avoando na estrada do furo. A mo\u00e7a botou Macuna\u00edma na praia por\u00e9m ele principiou choramingando, que tinha muita formiga!&#8230; e pediu pra Sofar\u00e1 que o levasse at\u00e9 o derrame do morro l\u00e1 dentro do mato, a mo\u00e7a fez. Mas assim que deitou o curumim nas tiriricas, taj\u00e1s e trapoerabas da serrapilheira, ele botou corpo num \u00e1timo e ficou um pr\u00edncipe lindo. Andaram por l\u00e1 muito.<\/p>\n<p>Quando voltaram pra maloca a mo\u00e7a parecia muito fatigada de tanto carregar pi\u00e1 nas costas. Era que o her\u00f3i tinha brincado muito com ela. Nem bem ela deitou Macuna\u00edma na rede, Jigu\u00ea j\u00e1 chegava de pescar de pu\u00e7\u00e1 e a companheira n\u00e3o trabalhara nada. Jigu\u00ea enquizlou e depois de catar os carrapatos deu nela muito. Sofar\u00e1 ag\u00fcentou a sova sem falar um isto.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>Macumba<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>(p\u00e1gina 88)<\/p>\n<p>No outro dia o tempo estava inteiramente frio e o her\u00f3i resolveu se vingar de Venceslau Pietro Pietra dando uma sova nele pra esquentar. Por\u00e9m por causa de n\u00e3o ter for\u00e7a tinha mas era muito medo do gigante. Pois ent\u00e3o resolveu tomar um trem e ir no Rio de Janeiro se socorrer de Exu diabo em cuja honra se realizava uma macumba no outro dia.<\/p>\n<p>Era junho e o tempo estava inteiramente frio. A macumba se rezava l\u00e1 no Mangue no zung\u00fa da tia Ciata, feiticeira como n\u00e3o tinha outra, m\u00e3e-de-santo famanada e cantadeira ao viol\u00e3o. \u00c0s vinte horas Macuna\u00edma chegou na biboca levando debaixo do bra\u00e7o o garraf\u00e3o de pinga obrigat\u00f3rio. J\u00e1 tinha muita gente l\u00e1, gente direita, gente pobre, advogados gar\u00e7ons pedreiros meias-colheres deputados gatunos, todas essas gentes e a fun\u00e7\u00e3o ia principiando. Macuna\u00edma tirou os sapatos e as meias como os outros e enfiou no pesco\u00e7o a milonga feita de cera de vespa tatucaba e raiz seca de assacu. Entrou na sala cheia e afastando a mosquitada foi de quatro saudar a candombl\u00e8zeira im\u00f3vel sentada na tripe\u00e7a, n\u00e3o falando um isto. Tia Ciata era uma negra velha com um s\u00e9culo no sofrimento, javev\u00f3 e galguincha com a cabeleira branca esparramada feito luz em torno da cabe\u00e7a pequetita. Ningu\u00e9m mais n\u00e3o enxergava olhos nela, era s\u00f3 ossos duma compridez j\u00e1 sonolenta pendependendo, pro ch\u00e3o de terra.<\/p>\n<p>Vai, um rapaz filho de Oxum, falavam, filho de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o cuja macumba era em dezembro, distribuiu uma vela acesa pra cada um dos marinheiros marcineiros jornalistas rica\u00e7os gamelas f\u00eameas empregados-p\u00fablicos, muitos empregados-p\u00fablicos! todas essas gentes e apagou o bico de g\u00e1s alumiando a saleta.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a macumba principiou de deveras se fazendo um \u00e7air\u00ea pra saudar os santos. E era assim: Na ponta vinha o og\u00e3 tocador de atabaque, um negr\u00e3o filho de Ogum, bexiguento e fadistas de profiss\u00e3o, se chamando Olel\u00ea Rui Barbosa. Tabaque mexiamexia acertado num ritmo que manejou toda a prociss\u00e3o. E as velas jogaram nas paredes de papel com florzinhas, sombras tremendo vagarentas feito assombra\u00e7\u00e3o. Atr\u00e1s do og\u00e3 vinha tia Ciata quase sem mexer, s\u00f3 bei\u00e7os puxando a reza mon\u00f3tona. E ent\u00e3o seguiam advogados taifeiros curandeiros poetas o her\u00f3i gatunos portugas senadores, todas essas gentes dan\u00e7ando e cantando a resposta da reza.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>(p\u00e1gina 95)<\/p>\n<p>Depois que todos beijaram adoraram e se benzeram muito, foi a hora dos pedidos e promessas. Um carniceiro pediu pra todos comprarem a carne doente dele e Exu consentiu. Um fazendeiro pediu pra n\u00e3o ter mais sa\u00fava nem maleita no s\u00edtio dele e Exu se riu falando que isso n\u00e3o consentia n\u00e3o. Um namorista pediu pra pequena dele conseguir o lugar de professora municipal pra casarem e Exu consentiu. Um m\u00e9dico fez um discurso pedindo pra escrever com muita eleg\u00e2ncia a fala portuguesa e Exu n\u00e3o consentiu. Assim.<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mario de Andrade, Macuna\u00edma e a professora municipal MACUNA\u00cdMA O her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter (raps\u00f3dia) M\u00e1rio de Andrade, 1\u00aa edi\u00e7\u00e3o 1928, Livraria Jos\u00e9 Olympio Editora, Rio de Janeiro. I Macuna\u00edma No fundo do mato-virgem nasceu Macuna\u00edma, her\u00f3i de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. 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