{"id":2695,"date":"2021-09-04T18:39:27","date_gmt":"2021-09-04T21:39:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=2695"},"modified":"2021-09-04T18:46:51","modified_gmt":"2021-09-04T21:46:51","slug":"automutilacao-por-mario-corso","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/psicanalise\/automutilacao-por-mario-corso\/","title":{"rendered":"Por que os jovens se automutilam?, por M\u00e1rio Corso"},"content":{"rendered":"<div class=\"kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\">\n<div dir=\"auto\">M\u00e1rio Corso est\u00e1 com Diana Lichtenstein Corso e Luciane Corso.<br \/>\n13 de janeiro de 2019 \u00e0s 10:41 \u00b7 Fonte: <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/lacanianodepassofundo\/posts\/1175777515919781\">https:\/\/www.facebook.com\/lacanianodepassofundo\/posts\/1175777515919781<\/a>.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div class=\"kvgmc6g5 cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\"><\/p>\n<div dir=\"auto\">Dos encontros familiares de fim de ano, longas conversas com a irm\u00e3-cunhada Luciane Corso, professora em uma escola de periferia, sobre seus adolescentes. Entre as in\u00fameras preocupa\u00e7\u00f5es dela, chamavam a aten\u00e7\u00e3o as automutila\u00e7\u00f5es. O assunto tomou ares de urg\u00eancia principalmente depois da perda de um aluno, que ceifou a pr\u00f3pria vida. O que est\u00e1 acontecendo com esta meninada que se machuca tanto, como se a vida deles j\u00e1 n\u00e3o fosse boa nisso? \u00c0 coragem dela e de tantos que est\u00e3o no corpo a corpo com os adolescentes dos nossos dias, dedicamos estas reflex\u00f5es. Parte delas prov\u00e9m do nosso livro sobre adolesc\u00eancia.<\/div>\n<p>\n<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div class=\"o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\">\n<div dir=\"auto\">Cortes autoinflingidos<\/div>\n<p>\n<\/div>\n<div dir=\"auto\"><\/div>\n<div class=\"o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\">\n<div dir=\"auto\">Deixa-me ver como te pareces e te direi exatamente como \u00e9s. Isso n\u00e3o \u00e9 uma completa novidade, pois h\u00e1 muito dependuramos sobre o corpo todos os revestimentos necess\u00e1rios para explicitar nossa posi\u00e7\u00e3o social. Com os primeiros homin\u00eddeos foram descobertos adere\u00e7os corporais que j\u00e1 diziam disso. Novidades nesse front? Duas: em primeiro lugar a customiza\u00e7\u00e3o extrema dessas informa\u00e7\u00f5es visuais, pois hoje a moda ainda dita, mas j\u00e1 n\u00e3o padroniza tanto; em segundo, a relev\u00e2ncia da pele enquanto lugar de express\u00e3o. A moda mais importante hoje diz respeito ao \u201cindesp\u00edvel\u201d.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Trata-se de um corpo em constante modifica\u00e7\u00e3o: mimado por dietas e academias, esculpido a bisturi, decorado com tatuagens e piercings, que d\u00e1 trabalho e dele tanto se espera. Se sempre fomos atrav\u00e9s de um corpo, nunca precisamos tanto de um para ser algu\u00e9m. Est\u00e1 fora de moda apenas ter sucesso, ser admirado, \u00e9 preciso que o bi\u00f3tipo prove isso. O corpo faz parte do triunfo, ou ele n\u00e3o \u00e9 total.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Em resumo: o valor que damos \u00e0 nossa complei\u00e7\u00e3o f\u00edsica cresceu. Sem saudosismos, talvez seja porque descobrimos que n\u00e3o temos um corpo e sim somos um corpo. Seria uma mudan\u00e7a e tanto. Historicamente nos concebemos como uma alma presa \u00e0 mat\u00e9ria, e n\u00e3o como um organismo em que brota uma subjetividade. Talvez em ato estejamos \u00e0 frente da ideia que temos de n\u00f3s mesmos, j\u00e1 vivendo um pensamento que vir\u00e1.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Mas a divaga\u00e7\u00e3o \u00e9 para situar um problema que preocupa pais e professores: muitos jovens est\u00e3o secretamente se cortando. Primeiro acalmem-se, o mundo n\u00e3o piorou, n\u00e3o \u00e9 mais desesperador do que era, apenas os sintomas transmutam-se. Tanto como antes n\u00e3o nos tatu\u00e1vamos tanto, &#8211; escolhendo um dos exemplos de fen\u00f4menos da nova ordem corporal &#8211; n\u00e3o nos cort\u00e1vamos tanto. Portanto, \u00e9 preciso inserir o gesto nesse novo momento onde \u201cfalamos\u201d mais desde o corpo. Os mais velhos se assustam por n\u00e3o conhecer estes mecanismos do dialeto corporal recente, por isso lhes parece t\u00e3o pungente.<\/div>\n<div dir=\"auto\">O que temos, \u00e9 um sofrimento agudo que n\u00e3o encontra outra forma de se expressar. \u00c9 preciso escutar, que entenda essa dor, para que ela possa ser dita de outra maneira. Acompanhado de algu\u00e9m que entenda o que se passa, talvez isso n\u00e3o precise ser corporalmente encenado.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Fazer-se cortes, em bra\u00e7os, coxas e barriga, \u00e9 uma experi\u00eancia recorrente nos momentos de crise, principalmente nas meninas. Elas n\u00e3o est\u00e3o tentando matar-se, cortar os pulsos, embora algum acidente possa acontecer. Pelo contr\u00e1rio, a experi\u00eancia de dor e o surgimento do sangue s\u00e3o uma forma de sentir-se vivas. O que estas jovens sentem, e precisam dissipar, pode ser compreendido por aqueles que nunca recorreram a essas pequenas mutila\u00e7\u00f5es, se considerarmos que \u00e9 muito pr\u00f3ximo dos sofrimentos da ang\u00fastia.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Os momentos mais radicais da ang\u00fastia s\u00e3o os ataques de p\u00e2nico, nos quais \u00e9 comum aos acometidos, principalmente quando novatos, irem parar em emerg\u00eancias de hospital, certos de estar morrendo. Neles a respira\u00e7\u00e3o \u00e9 sentida como insuficiente, curta, e tende a ser acelerada, causando tontura, paradoxalmente, por excesso de oxig\u00eanio. O cora\u00e7\u00e3o salta, acelera, cada vez mais quanto mais se monitora seu batimento com medo do pren\u00fancio de um colapso. A fantasia de morte na verdade traduz uma viv\u00eancia de esvanecimento: mais do que morrer, sentimos demasiadamente nosso corpo enquanto nossos contornos nos abandonam. Em outras palavras: ficamos reduzidos a puro corpo e sentimos o vazio subjetivo como se fosse este e n\u00e3o nossa mente a estar colapsando. As experi\u00eancias de suor, cabelos arrepiados, frio, calor, dor de barriga, pr\u00f3prios do p\u00e2nico &#8211; reagir\u00edamos assim se um le\u00e3o aparecesse na nossa frente &#8211; tendem a devolver a consci\u00eancia de um corpo na emin\u00eancia de sumir, congelar.<\/div>\n<div dir=\"auto\">\u00c9 dif\u00edcil entender como um ferimento pode significar al\u00edvio, mas precisamos abrir o pensamento para a complexidade dos comportamentos humanos, nos quais o que \u00e9 agrad\u00e1vel, desagrad\u00e1vel, bom e ruim assumem tons bem peculiares. Ao inv\u00e9s de entrar em p\u00e2nico, quem se corta reencontra-se com sua pele, seu sangue, a dor, que funcionam como uma sangria da ang\u00fastia. \u00c9 uma provid\u00eancia, a poss\u00edvel para algu\u00e9m, em geral muito jovem, que sente-se desaparecendo ou incapaz de ocupar um lugar no mundo ou na vida de algu\u00e9m importante<\/div>\n<div dir=\"auto\">Geralmente os cortes s\u00e3o uma tentativa desesperada de estancar uma ang\u00fastia transformando-a em dor f\u00edsica, a modo de dar visibilidade ao sofrimento ps\u00edquico. Tamb\u00e9m possibilitam parar para retomar depois, pois restando a marca, n\u00e3o ser\u00e1 esquecida. \u00c9 uma dor que n\u00e3o pode ser deixada de lado, tampouco \u00e9 poss\u00edvel suport\u00e1-la o tempo todo. \u00c9 um corte na carne e na cena. Por isso nos relatos o corte \u00e9 dito como um al\u00edvio moment\u00e2neo.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Esses ferimentos costumam constituir-se em um grande segredo vis\u00edvel. Podemos perguntar-nos por que algo vis\u00edvel seria secreto e muitas vezes \u00e9 justamente esse o jogo: ter no corpo marcas que n\u00e3o devem ser vistas pela m\u00e3e (ou pelos familiares), justo ela que conhecia cada cantinho dessa anatomia. Ao mesmo tempo, essas marcas ser\u00e3o mostradas apenas a pessoas de extrema confian\u00e7a e em momentos especiais. Mesmo quando atendemos algu\u00e9m que tem esses h\u00e1bitos, podemos at\u00e9 n\u00e3o ser informados disso num primeiro momento. O paciente n\u00e3o chegar\u00e1 dizendo ou achando que isso \u00e9 seu problema, assim como dificilmente mostrar\u00e1 seus ferimentos. Eles s\u00e3o sua maior intimidade, por isso constituem em algo a ser ocultado, principalmente do olhar materno.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Chama a aten\u00e7\u00e3o que seja uma pr\u00e1tica principalmente &#8211; embora n\u00e3o exclusivamente &#8211; feminina que via de regra principia em per\u00edodos pr\u00f3ximos da menarca, quando o sangue brota do corpo da menina pela primeira vez. Nesse sentido, poder\u00edamos tamb\u00e9m supor que \u00e9 um modo de lembrar-se da feminilidade nascente e da perda da conex\u00e3o infantil com a m\u00e3e. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 irrelevante observar que na nossa sociedade, supostamente evolu\u00edda, o corpo feminino seja ainda objeto de tanta repulsa: o sangue menstrual, os pelos pubianos, os mamilos e a lacta\u00e7\u00e3o, ainda s\u00e3o vis\u00f5es que causam repulsa e rea\u00e7\u00f5es exacerbadas.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Machucados cicatrizam e tornam-se mem\u00f3rias inesquec\u00edveis, que depois de algum tempo deixam de sangrar e doer. Cicatrizes s\u00e3o como uma assinatura indel\u00e9vel de um sofrimento. Por\u00e9m, se a dor de uma ferida ps\u00edquica fechar suturando um lamento que n\u00e3o se transformou em palavras, ela voltar\u00e1 iniciando novos apelos, que podem ser vistos mas n\u00e3o escutados. Por isso as feridas s\u00e3o reabertas. Ao inv\u00e9s de calar as dores com analg\u00e9sicos para a alma, conv\u00e9m lembrar: estes machucados s\u00f3 cicatrizam de verdade se for de dentro para fora, \u00e9 preciso deixar sangrar as palavras at\u00e9 que as dores sequem.<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\">\n<div dir=\"auto\">Este texto cont\u00e9m excertos do cap\u00edtulo 2 dos do nosso livro \u201cAdolesc\u00eancia em cartaz: psican\u00e1lise e filmes para entende-la\u201d, Ed. Artmed, 2018.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><a href=\"http:\/\/www.marioedianacorso.com\/adolescencia\/sumario-introducao\">http:\/\/www.marioedianacorso.com\/adolescencia\/sumario-introducao<\/a>.<\/div>\n<div dir=\"auto\"><a href=\"https:\/\/srvd.grupoa.com.br\/uploads\/imagensExtra\/legado\/C\/CORSO_Diana_Lichtenstein\/Adolescencia_Cartaz\/blog\/introducao.pdf\">https:\/\/srvd.grupoa.com.br\/uploads\/imagensExtra\/legado\/C\/CORSO_Diana_Lichtenstein\/Adolescencia_Cartaz\/blog\/introducao.pdf<\/a>.<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"o9v6fnle cxmmr5t8 oygrvhab hcukyx3x c1et5uql ii04i59q\">\n<div dir=\"auto\">Sobre os riscos de suic\u00eddio na adolesc\u00eancia, cap\u00edtulo free online:<\/div>\n<div dir=\"auto\"><a href=\"https:\/\/srvd.grupoa.com.br\/uploads\/imagensExtra\/legado\/C\/CORSO_Diana_Lichtenstein\/Adolescencia_Cartaz\/blog\/cap_10.pdf\">https:\/\/srvd.grupoa.com.br\/uploads\/imagensExtra\/legado\/C\/CORSO_Diana_Lichtenstein\/Adolescencia_Cartaz\/blog\/cap_10.pdf<\/a>.<\/div>\n<div dir=\"auto\">Partes deste escrito sa\u00edram na coluna do M\u00e1rio \u201cPor que os jovens se automutilam?\u201d, deste fim de semana na ZH:\u00a0 <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/colunistas\/mario-corso\/noticia\/2019\/01\/por-que-os-jovens-se-automutilam-cjqsfeq1d00n301uk5l0r4zoa.html\">https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/colunistas\/mario-corso\/noticia\/2019\/01\/por-que-os-jovens-se-automutilam-cjqsfeq1d00n301uk5l0r4zoa.html<\/a>.<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Corso est\u00e1 com Diana Lichtenstein Corso e Luciane Corso. 13 de janeiro de 2019 \u00e0s 10:41 \u00b7 Fonte: https:\/\/www.facebook.com\/lacanianodepassofundo\/posts\/1175777515919781. 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