{"id":387,"date":"2008-08-13T15:59:29","date_gmt":"2008-08-13T18:59:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=387"},"modified":"2020-06-15T11:39:06","modified_gmt":"2020-06-15T14:39:06","slug":"papert-habilidade-de-aprender","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/papert-habilidade-de-aprender\/","title":{"rendered":"Seymour Papert &#8211; A maior vantagem competitiva \u00e9 a habilidade de aprender"},"content":{"rendered":"<p><strong>Origem:<\/strong> Entrevista com Seymour Papert, por Ana de F\u00e1tima Souza<br \/>\n<strong>Fonte (<span class=\"author\">Publicado em 28 fev 2001<\/span>): <\/strong><a href=\"https:\/\/super.abril.com.br\/tecnologia\/a-maior-vantagem-competitiva-e-a-habilidade-de-aprender\">https:\/\/super.abril.com.br\/tecnologia\/a-maior-vantagem-competitiva-e-a-habilidade-de-aprender<\/a>.<\/p>\n<p>O sul-africano Seymour Papert \u00e9 um dos maiores vision\u00e1rios do uso da tecnologia na educa\u00e7\u00e3o. Em plena d\u00e9cada de 1960, ele j\u00e1 dizia que toda crian\u00e7a deveria ter um computador em sala de aula. Na \u00e9poca, suas teorias pareciam fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Entre 1967 e 1968, desenvolveu uma linguagem de programa\u00e7\u00e3o totalmente voltada para a educa\u00e7\u00e3o, o Logo. Mas a comunidade pedag\u00f3gica s\u00f3 passou a incorporar as id\u00e9ias de Papert a partir de 1980, quando ele lan\u00e7ou o livro Mindstorms: Children, Computers and Powerful Ideas \u2013 no qual mostrava caminhos para utiliza\u00e7\u00e3o das m\u00e1quinas no ensino. As escolas come\u00e7aram a usar computadores. Ok. Mas isso n\u00e3o representou uma mudan\u00e7a na forma de educar. O computador servia apenas como suplemento para o papel tradicional de professores e alunos. Agora, Papert enxerga uma mudan\u00e7a dr\u00e1stica para breve e n\u00e3o ser\u00e3o as escolas que v\u00e3o impulsionar as transforma\u00e7\u00f5es&#8230; mas as crian\u00e7as. Papert \u00e9 matem\u00e1tico, Ph.D, diretor do grupo de Epistemologia e Aprendizado do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e um dos fundadores do MIT Media Lab, onde continua pesquisando. Ele tamb\u00e9m trabalha em um programa de educa\u00e7\u00e3o de jovens infratores em Maine, onde mora.<\/p>\n<p><strong>Ana de F\u00e1tima Souza &#8211; Voc\u00ea \u00e9 apontado como pioneiro na defesa da introdu\u00e7\u00e3o dos computadores em salas de aula, como instrumentos para o processo de aprendizado. Mas suas id\u00e9ias v\u00e3o al\u00e9m da quest\u00e3o tecnol\u00f3gica. Quando voc\u00ea come\u00e7ou a perceber que algo estava errado com a educa\u00e7\u00e3o tradicional?<br \/>\nSeymour Papert<\/strong> &#8211; Quando eu era crian\u00e7a, v\u00e1rios fatores me levaram a entender que alguma coisa estava muito errada:<br \/>\n1 &#8211; Minha primeira escola era pequena e bastante progressiva, dirigida por uma mulher de mente aberta, que pensava independentemente e estimulava as crian\u00e7as a fazerem o mesmo.<br \/>\n2 &#8211; Mais tarde, fui enviado a uma escola de linha formal brit\u00e2nica. Eu a odiei e me tornei um rebelde fervoroso.<br \/>\n3 &#8211; Estava crescendo na \u00c1frica do Sul e o quadro pol\u00edtico me levou a um violento conflito com autoridades, inclusive com a escola. Assim como Paulo Freire, comecei a ver que a escola era antipol\u00edtica.<br \/>\n4 &#8211; At\u00e9 mesmo quando eu estudava em uma escola elementar relativamente boa, conseguia perceber que estava aprendendo muito mais fora da escola do que dentro dela.<\/p>\n<p><strong>E qual foi sua primeira atitude para tentar mudar o sistema educacional?<\/strong><br \/>\nDecidi ter uma vida de rebeli\u00e3o construtiva.<\/p>\n<p><strong>Sua preocupa\u00e7\u00e3o com as crian\u00e7as cresceu quando trabalhou com Jean Piaget. Quanto tempo voc\u00eas trabalharam juntos?<\/strong> <strong>E qual a grande contribui\u00e7\u00e3o dele?<\/strong><br \/>\nTrabalhamos em per\u00edodo integral por quatro anos. Mas, no total, foram dez anos. Piaget teve uma carreira extremamente longa e intensa. Sua primeira publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica foi aos 11 anos e seus \u00faltimos trabalhos estavam em andamento quando morreu, aos 84 anos. Ele criou v\u00e1rios novos campos da ci\u00eancia, como a Teoria Cognitiva, a Epistemologia da Evolu\u00e7\u00e3o e a Psicologia do Desenvolvimento e defendeu uma nova forma de pensar sobre as crian\u00e7as, que forneceu a base te\u00f3rica que impulsiona os movimentos por uma reforma educacional em nossos dias. Para ele, as crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o cont\u00eaineres onde deve ser depositado o conhecimento, mas construtoras ativas de conhecimento, pequenos cientistas que est\u00e3o sempre testando suas teorias sobre o mundo.<\/p>\n<p><strong>Quando aconteceu a cria\u00e7\u00e3o da linguagem de programa\u00e7\u00e3o Logo?<\/strong><br \/>\nFoi desenvolvida gradualmente entre 1967 e 1968. A id\u00e9ia era dar \u00e0 crian\u00e7a controle sobre a mais poderosa tecnologia dispon\u00edvel em nossos tempos. A linguagem foi desenvolvida para permitir que crian\u00e7as programassem a m\u00e1quina, em vez de serem programadas por ela.<\/p>\n<p><strong>O que os cidad\u00e3os do futuro precisam saber?<\/strong><br \/>\nComo lidar com desafios. Precisam saber como enfrentar um problema inesperado para o qual n\u00e3o h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o preestabelecida. Precisamos adquirir habilidades necess\u00e1rias para participar da constru\u00e7\u00e3o do novo ou ent\u00e3o nos resignarmos a uma vida de depend\u00eancia. A verdadeira habilidade competitiva \u00e9 a habilidade de aprender. N\u00e3o devemos aprender a dar respostas certas ou erradas, temos de aprender a solucionar problemas.<\/p>\n<p><strong>E por que ainda existe tanta resist\u00eancia para adotar novas formas de ensino?<\/strong><br \/>\nAcho que antes as pessoas eram mais resistentes. Quando as tecnologias eram caras e distantes, qualquer proposta parecia muito radical. Atualmente, com f\u00e1cil acesso, a necessidade de se preparar para um mundo cada vez mais informatizado estimula os cidad\u00e3os a buscarem o novo. Hoje, tr\u00eas milh\u00f5es de crian\u00e7as norte-americanas deixaram escolas tradicionais e seus pais buscam outras formas de ensino, muitas vezes em suas pr\u00f3prias casas.<\/p>\n<p><strong>Isso n\u00e3o parece ser o fim da escola?<br \/>\n<\/strong>N\u00e3o. Mas \u00e9 um forte ind\u00edcio de que a escola da forma que a conhecemos, e que nossos pais e av\u00f3s conheceram, precisa mudar radicalmente.<\/p>\n<p><strong>Algumas correntes falam que o aluno poder\u00e1 aprender de sua casa, em seu computador. Voc\u00ea acha que a escola do futuro ser\u00e1 assim?<br \/>\n<\/strong>Eu acredito que estamos assistindo \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de novas formas sociais para o aprendizado. \u00c9 uma bobagem tentar antecipar a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>E o curr\u00edculo que as escolas t\u00eam hoje? O que tem de ser mudado para incorporar as necessidades da era da informa\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>O curr\u00edculo, no sentido de separar o que deve ser aprendido e em que idade deve ser aprendido, pertence a uma \u00e9poca pr\u00e9-digital. Ele ser\u00e1 substitu\u00eddo por um sistema no qual o conhecimento pode ser obtido quando necess\u00e1rio. Qualifica\u00e7\u00f5es ser\u00e3o baseadas no que as pessoas tiverem feito, produzido. Muito do conte\u00fado do atual curr\u00edculo \u00e9 conhecimento de que ningu\u00e9m precisa ou \u00e9 necess\u00e1rio apenas para especialistas.<\/p>\n<p><strong>Esse \u00e9 um dos aspectos que voc\u00ea critica na educa\u00e7\u00e3o tradicional: a segrega\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as por idade. Por qu\u00ea? Qual seria a solu\u00e7\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 um absurdo achar que s\u00f3 se deve aprender determinado conte\u00fado quando se tem sete anos e outro quando se tem oito. A id\u00e9ia de um curr\u00edculo linear lembra o sistema de produ\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie industrial. Temos de aprender a perceber a necessidade de cada indiv\u00edduo. Ele \u00e9 quem vai ditar o que precisa aprender, a que hora e com que intensidade.<\/p>\n<p><strong>Ou seja, devemos dar \u00e0s crian\u00e7as poder para controlar seu processo de aprendizado. Mas que poder \u00e9 esse?<br \/>\n<\/strong>Devemos dar a chance de as crian\u00e7as apontarem suas necessidades de aprendizado. Mas elas j\u00e1 est\u00e3o fazendo isso. As crian\u00e7as das novas gera\u00e7\u00f5es cada vez aprendem mais fora da escola. Nos Estados Unidos, 60% das crian\u00e7as em idade escolar t\u00eam computador em casa. \u00c9 verdade que nem todas usam o computador como uma ferramenta eficaz, mas algumas o fazem e t\u00eam ricas experi\u00eancias de aprendizado. S\u00e3o elas que est\u00e3o chegando \u00e0 escola e questionando \u201cpor que n\u00e3o estamos fazendo aqui o que sabemos como fazer em casa\u201d? Elas est\u00e3o pressionando as escolas e os professores a mudar as coisas. Caso contr\u00e1rio, elas mesmas o far\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Na d\u00e9cada de 1960, quando voc\u00ea falou que toda crian\u00e7a deveria ter um computador na sala de aula parecia loucura porque computadores pessoais n\u00e3o eram comuns. Hoje, as escolas t\u00eam, no m\u00ednimo, um laborat\u00f3rio com computadores, mas seu uso ainda \u00e9 de suporte para formas e curr\u00edculos escolares tradicionais. Quanto tempo levar\u00e1 para que tenhamos m\u00e9todos de ensino completamente novos?<\/strong><br \/>\nAcredito que daqui a algo entre cinco e dez anos os educadores de todo o mundo aceitar\u00e3o a id\u00e9ia de que precisamos de transforma\u00e7\u00f5es radicais.<\/p>\n<p><strong>De que formas os computadores e a internet devem ser usados para garantir um bom aprendizado?<\/strong><br \/>\nDe que formas o l\u00e1pis pode ser usado? De tantas formas que n\u00e3o podemos fazer uma lista. Ele foi incorporado, tornou-se parte de tudo. Assim \u00e9 com o computador e com a internet&#8230;<\/p>\n<p><strong>Em pa\u00edses como o Brasil, onde as escolas particulares \u2013 freq\u00fcentadas por crian\u00e7as ricas \u2013 oferecem o que h\u00e1 de melhor no uso de tecnologias e as escolas p\u00fablicas esperam do governo n\u00e3o s\u00f3 computadores mas equipamentos b\u00e1sicos, o abismo entre classes sociais n\u00e3o deve crescer ainda mais em termos de conhecimento e de oportunidades?<br \/>\n<\/strong>Governos devem encontrar formas de dar aos pobres pleno acesso ao conhecimento de primeira classe. Pa\u00edses ricos devem entender que, ajudando pa\u00edses mais pobres a fazer isso, n\u00e3o estar\u00e3o fazendo caridade. O conhecimento \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a estabilidade internacional, a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente e a paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Origem: Entrevista com Seymour Papert, por Ana de F\u00e1tima Souza Fonte (Publicado em 28 fev 2001): https:\/\/super.abril.com.br\/tecnologia\/a-maior-vantagem-competitiva-e-a-habilidade-de-aprender. O sul-africano Seymour Papert \u00e9 um dos maiores vision\u00e1rios do uso da tecnologia na educa\u00e7\u00e3o. Em plena d\u00e9cada de 1960, ele j\u00e1 dizia que toda crian\u00e7a deveria ter um computador em sala de aula. 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