{"id":54,"date":"2008-06-11T15:55:06","date_gmt":"2008-06-11T18:55:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=54"},"modified":"2019-08-05T17:22:15","modified_gmt":"2019-08-05T20:22:15","slug":"sobre-o-behaviorismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/sobre-o-behaviorismo\/","title":{"rendered":"Sobre o behaviorismo &#8211; Skinner"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fragmento de:<\/strong> &#8220;Sobre o behaviorismo&#8221; (Introdu\u00e7\u00e3o &#8211; p\u00e1g. 7-11) de B. F. Skinner<br \/>\n<strong> Fonte:<\/strong> SKINNER, B. F. <span style=\"text-decoration: underline;\">Sobre o Behaviorismo<\/span>. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1974. p\u00e1g. 7-11. Introdu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Behaviorismo n\u00e3o \u00e9 a ci\u00eancia do comportamento humano, mas, sim, a filosofia dessa ci\u00eancia. Algumas das quest\u00f5es que ele prop\u00f5e s\u00e3o: \u00c9 poss\u00edvel tal ci\u00eancia? Pode ela explicar cada aspecto do comportamento humano? Que m\u00e9todos pode empregar? S\u00e3o suas leis t\u00e3o v\u00e1lidas quanto as da F\u00edsica e da Biologia? Proporcionar\u00e1 ela uma tecnologia e, em caso positivo, que papel desempenhar\u00e1 nos assuntos humanos? S\u00e3o particularmente importantes suas rela\u00e7\u00f5es com as formas anteriores de tratamento do mesmo assunto. O comportamento humano \u00e9 o tra\u00e7o mais familiar do mundo em que as pessoas vivem, e deve ter dito mais sobre ele do que sobre qualquer outra coisa. E de tudo o que foi dito, o que vale a pena ser conservado?<\/p>\n<p>Algumas dessas quest\u00f5es ser\u00e3o eventualmente respondidas pelo \u00eaxito ou pelo malogro das iniciativas cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, mas colocam-se alguns problemas atuais, os quais exigem que respostas provis\u00f3rias sejam dadas de imediato. Muitas pessoas inteligentes acreditam que as respostas j\u00e1 foram encontradas e que nenhuma delas \u00e9 promissora. Eis, como exemplo, algumas das coisas comumente ditas sobre o Behaviorismo ou a ci\u00eancia do comportamento. Creio que s\u00e3o todas falsas.<\/p>\n<p>1. O Behaviorismo ignora a consci\u00eancia, os sentimentos e os estados mentais.<\/p>\n<p>2. Negligencia os dons inatos e argumenta que todo comportamento \u00e9 adquirido durante a vida do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>3. Apresenta o comportamento simplesmente como um conjunto de respostas a est\u00edmulos, descrevendo a pessoa como um aut\u00f4mato, um rob\u00f4, um fantoche ou uma m\u00e1quina.<\/p>\n<p>4. N\u00e3o tenta explicar os processos cognitivos.<\/p>\n<p>5. N\u00e3o considera as inten\u00e7\u00f5es ou os prop\u00f3sitos.<\/p>\n<p>6. N\u00e3o consegue explicar as realiza\u00e7\u00f5es criativas &#8212; na Arte, por exemplo, ou na M\u00fasica, na Literatura, na Ci\u00eancia ou na Matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>7. N\u00e3o atribui qualquer papel ao eu ou \u00e0 consci\u00eancia do eu.<\/p>\n<p>8. \u00c9 necessariamente superficial e n\u00e3o consegue lidar com as profundezas da mente ou da personalidade.<\/p>\n<p>9. Limita-se \u00e0 previs\u00e3o e ao controle do comportamento e n\u00e3o apreende o ser, ou a natureza essencial do homem.<\/p>\n<p>10. Trabalha com animais, particularmente com ratos brancos, mas n\u00e3o com pessoas, e sua vis\u00e3o do comportamento humano at\u00e9m-se, por isso, \u00e0queles tra\u00e7os que os seres humanos e os animais t\u00eam em comum.<\/p>\n<p>11. Seus resultados, obtidos nas condi\u00e7\u00f5es controladas de um laborat\u00f3rio, n\u00e3o podem ser reproduzidos na vida di\u00e1ria, e aquilo que ele tem a dizer acerca do comportamento humano no mundo mais amplo torna-se, por isso, uma metaci\u00eancia n\u00e3o-comprovada.<\/p>\n<p>12. Ele \u00e9 supersimplista e ing\u00eanuo e seus fatos s\u00e3o ou triviais ou j\u00e1 bem conhecidos.<\/p>\n<p>13. Cultua os m\u00e9todos da Ci\u00eancia mas n\u00e3o \u00e9 cient\u00edfico; limita-se a emular as Ci\u00eancias.<\/p>\n<p>14. Suas realiza\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas poderiam ter sido obtidas pelo uso do senso comum.<\/p>\n<p>15. Se suas alega\u00e7\u00f5es s\u00e3o v\u00e1lidas, devem aplicar-se ao pr\u00f3prio cientista behaviorista e, assim sendo, este diz apenas aquilo que foi condicionado a dizer e que n\u00e3o pode ser verdadeiro.<\/p>\n<p>16. Desumaniza o homem; \u00e9 redutor e destr\u00f3i o homem enquanto homem.<\/p>\n<p>17. S\u00f3 se interessa pelos princ\u00edpios gerais e por isso negligencia a unicidade do individual.<\/p>\n<p>18. \u00c9 necessariamente antidemocr\u00e1tico porque a rela\u00e7\u00e3o entre o experimentador e o sujeito \u00e9 de manipula\u00e7\u00e3o e seus resultados podem, por essa raz\u00e3o, ser usados pelos ditadores e n\u00e3o pelos homens de boa vontade.<\/p>\n<p>19. Encara as id\u00e9ias abstratas, tais como moralidade ou justi\u00e7a, como fic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>20. \u00c9 indiferente ao calor e \u00e0 riqueza da vida humana, e \u00e9 incompat\u00edvel com a cria\u00e7\u00e3o e o gozo da arte, da m\u00fasica, da literatura e com o amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Creio que estas afirma\u00e7\u00f5es representam uma extraordin\u00e1ria incompreens\u00e3o do significado e das realiza\u00e7\u00f5es de uma empresa cient\u00edfica. Como se pode explicar isso? A hist\u00f3ria dos prim\u00f3rdios do movimento talvez tenha causado confus\u00e3o. O primeiro behaviorista expl\u00edcito foi John B. Watson, que, em 1913, lan\u00e7ou uma esp\u00e9cie de manifesto chamado A Psicologia tal Como a V\u00ea um Behaviorista. Como o t\u00edtulo mostra, ele n\u00e3o estava propondo uma nova ci\u00eancia mas afirmando que a Psicologia deveria ser redefinida como o estudo do comportamento. Isto pode ter sido um erro estrat\u00e9gico. A maioria dos psic\u00f3logos da \u00e9poca acreditava que seus estudos estavam voltados para os processos mentais num mundo mental consciente e, naturalmente, n\u00e3o se sentiam propensos a concordar com Watson. Os primeiros behavioristas gastaram muito tempo e confundiram um problema central importante ao atacar o estudo introspectivo da vida mental.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Watson fez importantes observa\u00e7\u00f5es acerca do comportamento instintivo e foi, na verdade, um dos primeiros etologistas no sentido moderno; impressionou-se muito, por\u00e9m, com as novas provas, acerca daquilo que um organismo podia aprender a fazer, e fez algumas alega\u00e7\u00f5es exageradas, acerca do potencial de uma crian\u00e7a rec\u00e9m-nascida. Ele pr\u00f3prio considerou-as exageradas, mas, desde ent\u00e3o, tais alega\u00e7\u00f5es t\u00eam sido usadas para desacredit\u00e1-lo. Sua nova ci\u00eancia nascera, por assim dizer, prematuramente. Dispunha-se de muito poucos fatos relativos ao comportamento &#8212; particularmente o comportamento humano. A escassez de fatos \u00e9 sempre um problema para uma ci\u00eancia nova, mas para o programa agressivo de Watson, num campo t\u00e3o vasto quanto o do comportamento humano, era particularmente prejudicial. Fazia-se mister um suporte de fatos maior do que aquele que Watson foi capaz de encontrar e, por isso, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que muitas de suas declara\u00e7\u00f5es pare\u00e7am simplificadas e ing\u00eanuas.<\/p>\n<p>Entre os fatos de que dispunha, relativos ao comportamento, estavam os reflexos e os reflexos condicionados, e Watson explorou-os ao m\u00e1ximo. Todavia, o reflexo sugeria um tipo de causalidade mec\u00e2nica que n\u00e3o era incompat\u00edvel com a concep\u00e7\u00e3o que, o s\u00e9culo XIX tinha de uma m\u00e1quina. A mesma impress\u00e3o fora dada pelo trabalho do fil\u00f3sofo russo Pavlov, publicado mais ou menos na mesma \u00e9poca, e n\u00e3o foi corrigida pela psicologia do est\u00edmulo-resposta, surgida nas tr\u00eas ou quatro d\u00e9cadas seguintes.<\/p>\n<p>Watson naturalmente destacou os resultados mais pass\u00edveis de reprodu\u00e7\u00e3o que p\u00f4de descobrir, e muitos deles foram obtidos com animais &#8212; os ratos brancos da Psicologia animal e os c\u00e3es de Pavlov. Parecia estar impl\u00edcito que o comportamento humano n\u00e3o tinha caracter\u00edsticas distintivas. E, para apoiar a sua afirma\u00e7\u00e3o de que a Psicologia era uma ci\u00eancia, e para preencher o seu livro, ele fez empr\u00e9stimos da anatomia e da fisiologia. Pavlov adotou a mesma linha ao insistir em que seus experimentos sobre o comportamento eram, na realidade, &#8220;uma investiga\u00e7\u00e3o da atividade fisiol\u00f3gica do c\u00f3rtex cerebral&#8221;, embora nenhum dos dois pudesse apontar qualquer observa\u00e7\u00e3o direta do sistema nervoso que esclarecesse o comportamento. Eles foram tamb\u00e9m for\u00e7ados a fazer interpreta\u00e7\u00f5es apressadas do comportamento complexo; Watson afirmando que o pensamento era apenas uma fala subvocal e Pavlov, que a linguagem n\u00e3o passava de &#8220;um segundo sistema de sinais&#8221;. Nada, ou quase nada, tinha Watson a dizer a respeito de inten\u00e7\u00f5es, prop\u00f3sitos ou criatividade. Ele acentuava a promessa tecnol\u00f3gica de uma ci\u00eancia do comportamento, mas seus exemplos n\u00e3o eram incompat\u00edveis com um controle manipulador.<\/p>\n<p>Mais de sessenta anos se passaram desde que Watson publicou seu manifesto e muita coisa ocorreu nesse per\u00edodo. A an\u00e1lise cient\u00edfica do comportamento tem feito progressos dram\u00e1ticos, e as defici\u00eancias da apresenta\u00e7\u00e3o de Watson s\u00e3o agora, creio eu, principalmente de interesse hist\u00f3rico. Contudo, a cr\u00edtica n\u00e3o mudou muito. Todas as incompreens\u00f5es apontadas acima s\u00e3o encontr\u00e1veis em publica\u00e7\u00f5es correntes, escritas por fil\u00f3sofos, te\u00f3logos, cientistas sociais, historiadores, homens e mulheres de letras, psic\u00f3logos e muitos outros. As extravag\u00e2ncias da hist\u00f3ria anterior do movimento dificilmente bastar\u00e3o para explicar tais incompreens\u00f5es.<\/p>\n<p>Alguns problemas surgem, sem d\u00favida, do fato de ser o comportamento humano um campo delicado. H\u00e1 muita coisa em jogo no modo por que nos vemos a n\u00f3s mesmos e uma formula\u00e7\u00e3o behaviorista certamente exige mudan\u00e7as perturbadoras. Al\u00e9m disso, termos origin\u00e1rios de formula\u00e7\u00f5es anteriores est\u00e3o hoje incorporados \u00e0 nossa linguagem, sendo que, durante s\u00e9culos, tiveram um lugar tanto na literatura t\u00e9cnica quanto na literatura leiga. Todavia, seria injusto afirmar que o cr\u00edtico n\u00e3o foi capaz de libertar-se desses preconceitos hist\u00f3ricos. Deve haver alguma outra raz\u00e3o que explique por que o behaviorismo, como a filosofia de uma ci\u00eancia do comportamento, \u00e9 ainda t\u00e3o mal compreendido.<\/p>\n<p>Creio que a explica\u00e7\u00e3o disso reside no fato de que a Ci\u00eancia \u00e9, em si mesma, mal compreendida. H\u00e1 muitos tipos de ci\u00eancia do comportamento, e algumas, como mostrarei mais tarde, apresentam seu campo de estudos de maneira a n\u00e3o suscitar importantes quest\u00f5es relativas ao comportamento. As cr\u00edticas acima apontadas s\u00e3o respondidas de forma deveras eficaz por uma disciplina especial que recebeu o nome de an\u00e1lise experimental do comportamento. O comportamento de organismos individuais \u00e9 estudado em ambientes cuidadosamente controlados, sendo a rela\u00e7\u00e3o entre comportamento e ambiente ent\u00e3o formuladas, infelizmente, fora do grupo dos especialistas, muito pouco se conhece acerca dessa an\u00e1lise. Seus investigadores mais ativos, e h\u00e1 centenas deles, raramente fazem qualquer esfor\u00e7o para explicar seus resultados \u00e0queles que n\u00e3o s\u00e3o especialistas. Em conseq\u00fc\u00eancia disso, poucas pessoas est\u00e3o familiarizadas com os fundamentos cient\u00edficos do que, a meu ver, \u00e9 a mais convincente exposi\u00e7\u00e3o do ponto de vista behaviorista.<\/p>\n<p>O behaviorismo que apresento neste livro \u00e9 a filosofia dessa vers\u00e3o especial de uma ci\u00eancia do comportamento. O leitor deve saber que nem todos os behavioristas concordam com tudo quanto digo. Watson falou pelo &#8220;behaviorista&#8221; e em seu tempo ele era o behaviorista mas ningu\u00e9m pode assumir esse papel hoje em dia. O que se segue \u00e9, admito &#8212; e, como um behaviorista, devo dizer necessariamente &#8211;, um ponto de vista pessoal. Creio, todavia, que se trata de uma descri\u00e7\u00e3o consistente e coerente, a qual responde de modo satisfat\u00f3rio \u00e0s criticas acima citadas.<\/p>\n<p>Acredito tamb\u00e9m em sua import\u00e2ncia. Os maiores problemas enfrentados hoje pelo mundo s\u00f3 poder\u00e3o ser resolvidos se melhorarmos nossa compreens\u00e3o do comportamento humano. As concep\u00e7\u00f5es tradicionais t\u00eam estado em cena h\u00e1 s\u00e9culos e creio ser justo dizer que se revelaram inadequadas. S\u00e3o, em grande parte, respons\u00e1veis pela situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos hoje. O behaviorismo oferece uma alternativa promissora e eu escrevi este livro como um esfor\u00e7o para tornar clara tal posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<hr \/>\n<h4 style=\"margin-bottom: 0cm; margin-top: 0cm;\">* O texto integral encontra-se dispon\u00edvel na fonte indicada acima.<\/h4>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: xx-small;\">Compare pre\u00e7os de livros sobre <a href=\"http:\/\/compare.buscape.com.br\/categorias?id=3482&amp;c=0&amp;raiz=3482ens=0&amp;kw=behaviorismo&amp;lkout=1&amp;site_origem=1165663\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">behaviorismo<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragmento de: &#8220;Sobre o behaviorismo&#8221; (Introdu\u00e7\u00e3o &#8211; p\u00e1g. 7-11) de B. F. Skinner Fonte: SKINNER, B. F. Sobre o Behaviorismo. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1974. p\u00e1g. 7-11. Introdu\u00e7\u00e3o. O Behaviorismo n\u00e3o \u00e9 a ci\u00eancia do comportamento humano, mas, sim, a filosofia dessa ci\u00eancia. 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