{"id":56,"date":"2008-06-11T15:56:32","date_gmt":"2008-06-11T18:56:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=56"},"modified":"2021-05-10T09:46:13","modified_gmt":"2021-05-10T12:46:13","slug":"a-inteligencia-dos-antropoides","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/gestalt\/a-inteligencia-dos-antropoides\/","title":{"rendered":"A intelig\u00eancia dos antrop\u00f3ides &#8211; K\u00f6hler"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fragmento de:<\/strong> &#8220;A intelig\u00eancia dos Antrop\u00f3ides&#8221; de Wofgang K\u00f6hler<br \/>\n<strong>Fonte: <\/strong>KOHLER, Wolfgang. <em>Wolfgang K\u00f6hler: Psicologia<\/em>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1978. p. 39-56.<br \/>\n<strong>Publica\u00e7\u00e3o original:<\/strong> K\u00f6hler, Wofgang. Intelligence in apes. In MURCHINSON, C. (org.). <em>Psychologies of 1925<\/em>. Worcester: Clark University Press, 1926. p\u00e1g. 145-161. (Confer\u00eancia pronunciada na Clark University em 30 de abril de 1925.) A seguir, fragmentos do texto integral.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/gestalt\/fotos-da-experiencia-de-kohler\/\">Veja algumas fotos<\/a> da experi\u00eancia de K\u00f6hler relatada no artigo abaixo.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Trabalhando com chimpanz\u00e9s, usei m\u00e9todo um pouco diferente. O antropoide estava preso em uma jaula gradeada, observando-me. Fora do alcance dos seus bra\u00e7os, cavei um buraco, coloquei algumas frutas e cobri tudo &#8212; buraco e arredores &#8212; com areia. O chimpanz\u00e9 n\u00e3o conseguia alcan\u00e7ar o alimento desejado, porque o buraco havia sido cavado bem longe de sua jaula. Assim que me aproximei das grades, ele me agarrou o bra\u00e7o e tentou empurr\u00e1-lo em dire\u00e7\u00e3o ao alimento escondido, rea\u00e7\u00e3o que adotava sempre que n\u00e3o conseguia alcan\u00e7ar, por seus pr\u00f3prios meios, o objetivo desejado. \u00c9 claro que esse comportamento j\u00e1 era uma rea\u00e7\u00e3o retardada. Todavia, como eu desejava um retardamento ainda maior, n\u00e3o lhe fiz o favor pedido. Vendo que suas s\u00faplicas n\u00e3o eram atendidas, o chimpanz\u00e9 largou o meu bra\u00e7o e come\u00e7ou a brincar em sua jaula, aparentemente desatento com o lugar onde a comida fora enterrada. Quarenta e cinco minutos depois, joguei uma vara dentro da jaula, no lado oposto ao do buraco que continha as desejadas frutas. Acostumado que estava a usar varas como instrumentos, o antropoide imediatamente se apossou dela, dirigiu-se para as barras pr\u00f3ximas do buraco, e come\u00e7ou a escavar a areia no ponto exato onde estavam enterradas as frutas. Conseguiu desenterr\u00e1-la e pux\u00e1-las para si. Esse experimento foi repetido muitas vezes &#8212; com as frutas enterradas em diferentes lugares &#8212; sempre com os mesmo resultados positivos.<\/p>\n<p>Como os comportamentos obtidos eram sempre admiravelmente corretos, resolvi aumentar o tempo entre a percep\u00e7\u00e3o do alimento e a oportunidade de obt\u00ea-lo. Assim, um dia, enterrei alimento num lugar qualquer do grande terreno que os antropoides usavam para recrea\u00e7\u00e3o. Os animais assistiram a opera\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tiveram oportunidade de obter a comida desejada, porque eu os levei imediatamente para o dormit\u00f3rio. S\u00f3 os trouxe de volta no dia seguinte, cerca de dezessete horas depois, mais de metade das quais eles passaram dormindo. Pois bem. Assim mesmo, um dos chimpanz\u00e9s n\u00e3o hesitou um momento: assim que voltou ao p\u00e1tio de recreio, encaminhou-se diretamente para o local em que as frutas foram enterradas, e descobriu-as ap\u00f3s algumas tentativas [Nota de rodap\u00e9: Poder-se-ia dizer que o local onde estava enterrado o alimento n\u00e3o atraiu o antropoide pelo fato de este saber que havia comida ali, mas por causa do aspecto incomum que o terreno apresentava, dada as escava\u00e7\u00f5es feitas por mim. Aos meus olhos nada havia de incomum ali, porque tomei a precau\u00e7\u00e3o de cobrir toda a \u00e1rea com areia seca. Todavia, para rebater melhor essa cr\u00edtica, devo acrescentar que, depois de os animais terem sido recolhidos, cavei v\u00e1rios buracos e enchi todos da mesma forma. No entanto, como disse, o animal dirigiu-se ao local certo].<\/p>\n<p>Poder-se-ia dizer que o local onde estava enterrado o alimento n\u00e3o atraiu o antropoide pelo fato de este saber que havia comida ali, mas por causa do aspecto incomum que o terreno apresentava, dada as escava\u00e7\u00f5es feitas por mim. Aos meus olhos nada havia de incomum ali, porque tomei a precau\u00e7\u00e3o de cobrir toda a \u00e1rea com areia seca. Todavia, para rebater melhor essa cr\u00edtica, devo acrescentar que, depois de os animais terem sido recolhidos, cavei v\u00e1rios buracos e enchi todos da mesma forma. No entanto, como disse, o animal dirigiu-se ao local certo.<\/p>\n<p>Em outro experimento escondemos uma vara no madeirame do teto, de tal forma que os animais n\u00e3o a podiam ver do ch\u00e3o. Mais uma vez eles observaram com grande interesse o nosso incomum procedimento. Logo a seguir foram levados para o dormit\u00f3rio. Na manh\u00e3 seguinte, quando um deles foi trazido para a sala em quest\u00e3o, viu algumas bananas do outro lado das grades, fora do alcance dos seus bra\u00e7os. Como fazem os antropoides acostumados a usar bast\u00f5es, ele olhou em volta &#8212; da mesma forma que o faria algu\u00e9m que estivesse procurando algo &#8211;, mas n\u00e3o encontrou nenhum instrumento capaz de o auxiliar. Depois de alguns segundos, olhou para o lugar onde a vara tinha sido escondida na noite anterior. Ele n\u00e3o podia ver a vara, mas, mesmo assim, subiu naquela parte do teto onde ela tinha sido posta. Logo desceu com ela nas m\u00e3os, dirigiu-se \u00e0s bananas e puxou-as para si. Repeti esse experimento com todos os chimpanz\u00e9s que haviam visto o bast\u00e3o ser escondido no teto e, todos eles, independentemente uns dos outros, resolveram o problema do mesmo modo.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Se essa observa\u00e7\u00f5es tiverem algum fundamento, seremos compelidos a rever nossas teorias a respeito da aprendizagem. Mas isso exigir\u00e1, fatalmente, novos experimentos, porque, apesar de j\u00e1 conhecermos algumas coisa a respeito da organiza\u00e7\u00e3o e reorganiza\u00e7\u00e3o de campos perceptivos no homem, quase nada sabemos disso quando se trata de animais. Assim sendo, proponho que realizemos experimentos nesse sentido. Temos m\u00e9todos para isso. Enquanto esses experimentos n\u00e3o s\u00e3o realizados, podemos adiantar como simples hip\u00f3tese que, tanto nos animais como nos seres humanos, a forma de apresenta\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos num campo tem grande influ\u00eancia na organiza\u00e7\u00e3o resultante. Uma consequ\u00eancia pr\u00e1tica dessa hip\u00f3tese \u00e9 a seguinte: podemos auxiliar melhor os animais a prenderem, se apresentarmos os est\u00edmulos de tal modo e em tais condi\u00e7\u00f5es gerais de ambienta\u00e7\u00e3o que esses est\u00edmulos tendam espontaneamente a se tornar os fatores dominantes da situa\u00e7\u00e3o. Todavia, este n\u00e3o \u00e9 o local apropriado para explicar de que modo isso poder\u00e1 ser feito.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Um dia um chimpanz\u00e9 n\u00e3o foi alimentado pela manh\u00e3, mas o seu alimento foi pendurado no teto de seu viveiro. Pusemos uma caixa no ch\u00e3o, a alguns metro do local adequado, mas o animal n\u00e3o a utilizou. Na verdade, ele nunca havia utilizado anteriormente uma caixa como instrumento auxiliar. Tentou, em v\u00e3o, alcan\u00e7ar o alimento dependurado no teto, pulando para alcan\u00e7\u00e1-lo, subindo pelas paredes externas e se deslocando ao longo do telhado. Em dado momento, ficou t\u00e3o fatigado que foi v\u00e1rias vezes at\u00e9 a caixa para sentar-se e descansar um pouco, enquanto olhava tristemente para a comida dependurada no teto. Passaram-se muitas horas sem que o chimpanz\u00e9 mostrasse qualquer ind\u00edcio de ter atinado com a solu\u00e7\u00e3o do problema. Peguei, ent\u00e3o, a caixa, coloquei-a debaixo do alimento, subi nela, e toquei o alimento com as m\u00e3os. Em seguida desci e novamente empurrei a caixa para longe. Em menos de um minuto, o chimpanz\u00e9, que havia observado os meu procedimentos, pegou a caixa, arrastou-a para baixo do alimento, subiu nela, e conseguiu a fruta desejada.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<p>Observando o comportamento de um companheiro que sabe resolver o problema, um chimpanz\u00e9 inteligente percebe logo que, por exemplo, mover a caixa significa desloc\u00e1-la para debaixo da comida. O movimento \u00e9 percebido como um deslocamento com essa orienta\u00e7\u00e3o fundamental. Por outro lado, um animal est\u00fapido v\u00ea o movimento da caixa como algo isolado, isto \u00e9, n\u00e3o o relaciona com o local do alimento. Ele ver\u00e1 fases isoladas do desempenho todo, n\u00e3o as percebendo como partes relacionadas com a estrutura essencial da situa\u00e7\u00e3o, como partes da solu\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que essa organiza\u00e7\u00e3o correta n\u00e3o \u00e9 simplesmente transmitida na sequ\u00eancia de imagens retinianas que a a\u00e7\u00e3o do animal modelo produz. Com o imitar acontece o mesmo que com o ensinar. Ao ensinarmos crian\u00e7as, apenas podemos propiciar a elas condi\u00e7\u00f5es ou &#8220;sinais&#8221; favor\u00e1veis para as novas coisas que a crian\u00e7a tem de &#8220;aprender&#8221;; \u00e9 sempre necess\u00e1rio que a crian\u00e7a tamb\u00e9m contribua com algo, algo esse que poder\u00edamos chamar de &#8220;entendimento&#8221;, e que, \u00e0s vezes, surge de repente. N\u00e3o podemos simplesmente despej\u00e1-lo dentro da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Se, em alguns casos, os antropoides s\u00e3o capazes de &#8220;ver&#8221; a conex\u00e3o necess\u00e1ria que existe entre as partes do desempenho que observam e os fundamento de uma situa\u00e7\u00e3o, surge naturalmente a pergunta. Ser\u00e1 que, \u00e0s vezes, esse animais seriam capazes de inventar desempenhos semelhantes, como solu\u00e7\u00f5es para novas situa\u00e7\u00f5es? Um antropoide que v\u00ea uma caixa colocada sob algumas frutas dependuradas do teto, mas n\u00e3o diretamente, tentar\u00e1 alcan\u00e7\u00e1-las subindo nela. Como a caixa n\u00e3o est\u00e1 corretamente colocada, talvez o antropoide n\u00e3o consiga alcan\u00e7ar imediatamente o alimento desejado. Seria ele capaz de &#8220;entender a situa\u00e7\u00e3o&#8221; e mover um pouco a caixa para que ela fique sob o alimento? J\u00e1 descrevi, em outra ocasi\u00e3o, o modo pelo qual alguns chimpanz\u00e9s resolvem esse tipo simples de problema, sem a ajuda de treinos ou da imita\u00e7\u00e3o do comportamento de companheiros. Essa descri\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi uma vez traduzida para o ingl\u00eas; n\u00e3o h\u00e1 necessidade de repeti-la aqui.<\/p>\n<p>Seja-me, por\u00e9m, permitido mencionar um aspecto do comportamento dos antropoides, que pode ser observado em muito experimentos. Um antropoide v\u00ea seu alimento no ch\u00e3o, fora de sua gaiola e longe do alcance de suas m\u00e3os. Ele j\u00e1 usara diversas vezes um bast\u00e3o como instrumento auxiliar nessa situa\u00e7\u00e3o, mas, agora, n\u00e3o h\u00e1 nenhum em sua gaiola, mas apenas uma pequena \u00e1rvore, um tronco com dois ou tr\u00eas galhos. Durante muito tempo o animal n\u00e3o encontra solu\u00e7\u00e3o para o seu problema. Ele conhece bast\u00f5es e sabe us\u00e1-los mas, agora, n\u00e3o os t\u00eam a sua disposi\u00e7\u00e3o e sim uma \u00e1rvore. Ele n\u00e3o v\u00ea as partes da \u00e1rvore como bast\u00f5es em potencial. Mas, de repente, ele descobre a solu\u00e7\u00e3o do problema: quebra um dos galhos da \u00e1rvore e o utiliza como um bast\u00e3o.<\/p>\n<p>(&#8230;)<\/p>\n<hr \/>\n<p>Wolfgang K\u00f6hler, juntamente com Max Wertheimer e Kurt Koffka, s\u00e3o os fundadores e principais autores da Psicologia da Gestalt ou Psicologia da Forma.<\/p>\n<p>Vers\u00e3o do texto para impress\u00e3o: <a href=\"https:\/\/ufrgs.br\/psicoeduc\/arquivos\/gestalt-kohler.pdf\">https:\/\/ufrgs.br\/psicoeduc\/arquivos\/gestalt-kohler.pdf<\/a>.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es sobre o texto:<\/p>\n<p>1 \u2013 Quais os procedimentos do autor para dificultar a resolu\u00e7\u00e3o de problemas pelos chimpanz\u00e9s?<\/p>\n<p>2 \u2013 Quais os procedimentos do autor para facilitar a resolu\u00e7\u00e3o de problemas pelos chimpanz\u00e9s?<\/p>\n<p>3 \u2013 Como podemos generalizar e pensar no aux\u00edlio \u00e0 aprendizagem pelos seres humanos?<\/p>\n<hr \/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragmento de: &#8220;A intelig\u00eancia dos Antrop\u00f3ides&#8221; de Wofgang K\u00f6hler Fonte: KOHLER, Wolfgang. Wolfgang K\u00f6hler: Psicologia. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1978. p. 39-56. Publica\u00e7\u00e3o original: K\u00f6hler, Wofgang. Intelligence in apes. In MURCHINSON, C. (org.). Psychologies of 1925. Worcester: Clark University Press, 1926. p\u00e1g. 145-161. (Confer\u00eancia pronunciada na Clark University em 30 de abril de 1925.) A seguir, &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/gestalt\/a-inteligencia-dos-antropoides\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;A intelig\u00eancia dos antrop\u00f3ides &#8211; K\u00f6hler&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1048,"menu_order":1,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":{"_lmt_disableupdate":"no","_lmt_disable":"","footnotes":""},"class_list":["post-56","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2658,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/56\/revisions\/2658"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1048"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}