{"id":590,"date":"2008-08-22T17:15:27","date_gmt":"2008-08-22T20:15:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=590"},"modified":"2008-11-05T11:19:13","modified_gmt":"2008-11-05T14:19:13","slug":"veja-entrevista-b-f-skinner","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/veja-entrevista-b-f-skinner\/","title":{"rendered":"Revista Veja 1974 &#8211; Entrevista B. F. Skinner"},"content":{"rendered":"<p><strong>Origem:<\/strong> Revista Veja &#8211; Editora Abril &#8211; n\u00ba 316 &#8211; 25 de Setembro de 1974<br \/>\n<strong>Fonte:<\/strong> <a title=\"cemp\" href=\"http:\/\/www.cemp.com.br\/novo\/corpo.asp?id=13&amp;cod=94&amp;tipo=8\" target=\"_self\">http:\/\/www.cemp.com.br\/novo\/corpo.asp?id=13&amp;cod=94&amp;tipo=8<\/a><\/p>\n<p><strong>Um pensamento pol\u00eamico: para alguns, um charlat\u00e3o, e para outros, mais importante que Freud<\/strong><br \/>\nPor <em>Hugo Estenssoro<\/em><\/p>\n<p>Dificilmente o nome de B. F. Skinner poder\u00e1 provocar, no leigo, emo\u00e7\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie. No mundo cientifico, por\u00e9m, e especialmente no campo da psicologia, Skinner \u00e9 sin\u00f4nimo de pol\u00eamica virulenta. Pol\u00eamica sem amenidades nem defer\u00eancias, na qual os campos est\u00e3o brutalmente divididos em preto e branco.<br \/>\nPara a maioria dos membros da Associa\u00e7\u00e3o Psicol\u00f3gica Americana, de acordo com uma enqu\u00eate feita em 1970, B. F. Skinner tornou-se a figura mais importante das ci\u00eancias da mente no s\u00e9culo XX &#8211; relegando Sigmund Freud ao segundo lugar. Fora dos Estados Unidos, todavia, ele \u00e9 considerado um pseudocientista, capaz at\u00e9 mesmo de poluir a reputa\u00e7\u00e3o da autentica pesquisa. Seus admiradores e seguidores v\u00eaem nele um ousado pensador arquitentando o mundo melhor do amanh\u00e3. Seus detratores o acusam de charlat\u00e3o com suspeitas, e perigosas, fei\u00e7\u00f5es fascistas.<br \/>\nA controvertida carreira de B. F. (Burhus Frederick) Skinner come\u00e7ou obscuramente em 1948, com a publica\u00e7\u00e3o de um romance ut\u00f3pico, &#8220;Walden Two&#8221;(que com o tempo se converteria em livro recomendado nas universidades e mesmo num best seller de 23 edi\u00e7\u00f5es). E somente cinco anos depois, com &#8220;Science and Human Behavior&#8221;, ele se elevaria ao posto de principal porta-voz da escola psicol\u00f3gica &#8220;behaviorista&#8221;, cujo objetivo \u00e9 &#8220;considerar apenas os fatos que podem ser objetivamente observados no comportamento das pessoas em rela\u00e7\u00e3o com seu meio ambiente&#8221;.<br \/>\nSete livros ap\u00f3s, j\u00e1 com ampla reputa\u00e7\u00e3o, instalado na c\u00e1tedra de psicologia Edgar Pierce da Universidade de Harvard, Skinner escreveria o mais debatido de seus trabalhos: &#8220;Beyond Freedom and Dignity&#8221;(1972). Desafiadoramente, o titulo propunha justamente o que os cr\u00edticos de Skinner haviam denunciado como resultado mais nocivo de suas teorias: um mundo (feliz, segundo Skinner, mas de pesadelo, segundo seus cr\u00edticos) de homens controlados por manipula\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, &#8220;al\u00e9m da liberdade e da dignidade&#8221;. Embora aclamada em algumas publica\u00e7\u00f5es especializadas, a obra causou incontrol\u00e1vel revolta e uma avalancha de criticas esmagadoras &#8211; especialmente em um longo ensaio de Noam Chomski, um dos mais importantes pensadores americanos da atualidade. E Skinner decidiu publicar um novo livro pra se justificar. Sob o discreto t\u00edtulo de &#8220;About Behaviorism&#8221;, ele come\u00e7a por enunciar as vinte criticas mais freq\u00fcentemente feitas a suas id\u00e9ias &#8211; e passa em seguida a refuta-las.<br \/>\n\u00c9 isso que faz, tamb\u00e9m, em parte na seguinte entrevista realizada em seu despojado escrit\u00f3rio em Harvard. Aos 69 anos, Skinner conserva um orgulho sensitivo e nervoso que se reflete visivelmente em seu f\u00edsico &#8211; ao mesmo tempo grande e fr\u00e1gil. Suas respostas t\u00eam sempre uma pontinha de impaci\u00eancia.<\/p>\n<p>O homem, eliminado do campo das id\u00e9ias<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Que fatores o levaram a formular suas teorias psicol\u00f3gicas?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; O ponto de partida, acredito, foi a investiga\u00e7\u00e3o das formas em que o comportamento &#8211; ao longo da escala zool\u00f3gica &#8211; \u00e9 afetado pelo meio ambiente. Minhas pesquisas, nesta dire\u00e7\u00e3o t\u00eam ocupado mais de quarenta anos de minha vida. Passando de meios ambientes simples para outros gradualmente mais complexos, tentei observar como estes fatores afetam o comportamento animal. E, de maneira lenta mas segura, consegui progredir a ponto de explicar que o comportamento animal &#8211; tanto o humano quanto o de outras esp\u00e9cies &#8211; \u00e9 totalmente definido pelo c\u00f3digo gen\u00e9tico das esp\u00e9cies. Isso se prova, naturalmente, atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies ao longo de milh\u00f5es de anos, e da historia individual de cada membro de uma determinada esp\u00e9cie durante sua vida &#8211; a que deve somar-se, ainda, o meio ambiente em que se desenvolveram suas caracter\u00edsticas individuais.<\/p>\n<p>VEJA &#8211; N\u00e3o seria uma vis\u00e3o relativamente tradicional de homem?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; S\u00f3 se considerarmos a quest\u00e3o superficialmente. A concep\u00e7\u00e3o tradicional de homem, na maior parte dos sistemas de id\u00e9ias, \u00e9 a de que ele mesmo se torna respons\u00e1vel por tudo o que faz. Certos sentimentos que ele exprime, os processos mentais eu o levam ao n\u00edvel das id\u00e9ias, e assim por diante. Estes conceitos, por\u00e9m, t\u00eam sido superados pelo pensamento e pela ci\u00eancia do nosso tempo. A &#8220;pessoa&#8221; que reside &#8220;dentro&#8221; do homem tem sido substitu\u00edda pela hist\u00f3ria ambiental do individuo. N\u00e3o mais falamos num ser originador, mas na sua hist\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o ao ambiente ou se preferir, o mundo. Isso significa, naturalmente, que o homem como um ser criativo, tem sido eliminado do campo das id\u00e9ias. Equivale a dizer que a vis\u00e3o tradicional do &#8220;homem aut\u00f4nomo&#8221;, dono de si mesmo, tem sido rejeitada. Na realidade, a id\u00e9ia de autonomia do homem n\u00e3o passa de silogismo incorreto: dizer que uma pessoa age como quer agir n\u00e3o \u00e9 uma verdadeira explica\u00e7\u00e3o de seu comportamento. Pois ainda n\u00e3o sabemos por que ela quis agir desta e n\u00e3o daquela maneira. Isso nos leva diretamente a examinar o meio ambiente como causa, como fonte de controle.<\/p>\n<p>Divaga\u00e7\u00f5es sobre a luta pela liberdade<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Seria esta, ent\u00e3o, a origem de seu conceito pouco ortodoxo sobre a liberdade humana: o meio ambiente como fonte de controle do comportamento?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; No caso da liberdade, acredito que a chamada &#8220;luta pela liberdade&#8221; tem sido, ao longo da nossa historia, a soma dos esfor\u00e7os do homem para escapar das condi\u00e7\u00f5es adversas do meio ambiente. Isto \u00e9, das condi\u00e7\u00f5es de vida perigosas, punitivas, irritantes, ou, para usar um termo geral, das condi\u00e7\u00f5es adversas que determinam nossa conduta e nossas decis\u00f5es. N\u00e3o gostamos, por exemplo, de estar sujeitos a castigos &#8211; justos ou n\u00e3o &#8211; e portanto fugimos deles, ou nos comportamos de maneira que possamos evita-lo. E, quando conseguimos faze-lo, acreditamos ser livres e ter tomado a decis\u00e3o de acordo com nossos desejos mais profundos. Mas o que temos descoberto em nossos estudos \u00e9 que, quando uma pessoa est\u00e1 fazendo supostamente deseja fazer, na realidade n\u00e3o est\u00e1 fazendo o que quer. E, sim, est\u00e1 sendo for\u00e7ada a faz\u00ea-lo por uma s\u00e9rie de condicionamentos espec\u00edficos. Nas experi\u00eancias de laborat\u00f3rio feitas por mim, na d\u00e9cada de 30, as conclus\u00f5es eram claras: quando um determinado tipo de comportamento \u00e9 castigado, as probabilidades de que esse tipo de comportamento se repita n\u00e3o se reduzidas de maneira alguma. Apenas se consegue, simplesmente, dar razoes ao sujeito da experi\u00eancia para tratar de evitar o castigo n\u00e3o repetindo seus atos. \u00c9 este o ponto de partida dos conceitos propostos no meu livro &#8220;Al\u00e9m da Liberdade e da Dignidade&#8221;. Nele eu assinalo que, se continuarmos a castigar nosso semelhantes em nome do conceito de &#8220;homem aut\u00f4nomo&#8221;, simplesmente estaremos perpetuando o sistema de provocar tipos de comportamento desej\u00e1veis atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas punitivas. O problema \u00e9 que temos medo de procurar solu\u00e7\u00f5es diferentes &#8211; solu\u00e7\u00f5es que implicariam a aceita\u00e7\u00e3o de que \u00e9 o meio ambiente a raiz causal do comportamento e n\u00e3o a moral tradicional.<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Seus cr\u00edticos assinalam que seu sistema de controle do comportamento apresenta um grave problema: se \u00e9 t\u00e3o efetivo, ou mais, quanto as causas tradicionais do nosso comportamento, h\u00e1 perigo de quem usar\u00e1 esse sistema e para que fins.<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; A quest\u00e3o, realmente, n\u00e3o \u00e9 quem poderia usar o sistema. O que devemos perguntar-nos \u00e9: sob que condi\u00e7\u00f5es o homem pode usar e abusar do poder, qualquer que seja a sua origem? Portanto, o objeto de nossa investiga\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser o todo da nossa estrutura cultural, pois ela torna poss\u00edvel que o poder, inerente \u00e0 ci\u00eancia do comportamento, seja usado desta ou daquela maneira. O meu ideal \u00e9 um novo tipo de cultura e n\u00e3o um novo tipo de pessoa. O fator essencial est\u00e1 em estabelecer condi\u00e7\u00f5es estruturais que tornem imposs\u00edvel, para qualquer pessoa, obter um poder absoluto. Tradicionalmente, historicamente, temos nos oposto aos tiranos e d\u00e9spotas atrav\u00e9s de um sistema de controle do controle &#8211; o que \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel at\u00e9 certo ponto. Afinal, \u00e9 esta a base da teoria da democracia. O povo controla seus governantes atrav\u00e9s de seus votos, ao mesmo tempo que os governantes controlam o povo atrav\u00e9s das leis. O problema, na minha opini\u00e3o, \u00e9 que esse sistema cultural pode n\u00e3o ser permanentemente vi\u00e1vel, pois n\u00e3o estamos considerando a evolu\u00e7\u00e3o das estruturas deste sistema e sua capacidade de enfrentar emerg\u00eancias futuras.<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Poderia nos dar alguns exemplos concretos da &#8220;tecnologia do comportamento&#8221; proposta pelo senhor para a cria\u00e7\u00e3o de uma estrutura cultural controlada cientificamente?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; O melhor exemplo \u00e9, sem duvida, o que podemos tirar do nosso sistema educativo. Normalmente, no esquema tradicional do processo educacional, da escola primaria at\u00e9 o ingresso na universidade, o estudante assiste \u00e0s aulas s\u00f3 porque n\u00e3o ousa fazer o contrario, ou ent\u00e3o \u00e9 punido. Nossa educa\u00e7\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria, n\u00e3o damos ao estudante raz\u00f5es positivas para estudar; o resultado \u00e9 que ele foge da aula sempre que pode. Seu objetivo \u00e9 sair da escola o mais rapidamente. Mas tamb\u00e9m parece poss\u00edvel dar aos estudantes raz\u00f5es positivas, e n\u00e3o punitivas, para assistir \u00e0s aulas. Organizar, por exemplo, um sistema de recompensas de maneira que o estudante deseje ir todos os dias \u00e0 escola e aproveite sua educa\u00e7\u00e3o. Este objetivo pode ser obtido de diversas formas. E a primeira, naturalmente, \u00e9 encontrar os fatores que podem impulsion\u00e1-lo a procurar tal satisfa\u00e7\u00e3o no estudo. Por exemplo, comida especial na hora do lanche. Ou privil\u00e9gios de outras esp\u00e9cies, capazes de assegurar que o estudante vira a obter todos os benef\u00edcios, desde que guarde um comportamento satisfat\u00f3rio tato do ponto de vista pessoal como da comunidade na qual ele vive e viver\u00e1.<\/p>\n<p>VEJA &#8211; O senhor \u00e9 conhecido, entre outras coisas, pela sua famosa &#8220;maquina de ensinar&#8221;. Poderia explicar-nos os seus princ\u00edpios gerais?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; Embora tenha sido eu mesmo quem a batizou assim, o nome &#8220;maquina de ensinar&#8221; tem causado certa confus\u00e3o. Por outra parte, se maquinas que cosem ou lavam s\u00e3o chamadas, respectivamente, maquinas de coser e de lavar, n\u00e3o vejo porque n\u00e3o seguir usando o termo. Feita essa observa\u00e7\u00e3o, entre par\u00eanteses, minha &#8220;maquina de ensinar&#8221; consiste, muito simplesmente, em programar o material did\u00e1tico de maneira que o estudante seja recompensado pelos seus esfor\u00e7os n\u00e3o no fim do curso ou de seus estudos &#8211; o que \u00e9 causa de baixa produtividade -, mas em cada uma das etapas de sua aprendizagem. Isto \u00e9, ao aprender uma li\u00e7\u00e3o, o aluno n\u00e3o \u00e9 recompensado pelos seus esfor\u00e7os um m\u00eas depois, quando recebe a nota X, mas enquanto est\u00e1 trabalhando na li\u00e7\u00e3o. Se um aluno pode ver a resposta de um problema matem\u00e1tico apenas quando terminou de resolv\u00ea-lo, ele \u00e9 estimulado por v\u00e1rios fatores: o triunfo de ter resolvido o problema corretamente ou o descobrimento da resposta correta. Se ele fica esperando a nota do professor, eu pode ter um valor punitivo, ele n\u00e3o tem verdadeiras razoes positivas para se interessas por problemas matem\u00e1ticos. \u00c9 fundamental entender que o organismo humano, em rela\u00e7\u00e3o com o seu comportamento, \u00e9 refor\u00e7ado pela sua capacidade de efetividade.<\/p>\n<p>Para as crian\u00e7as, um estimulo positivo<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Poderia descrever a metodologia de suas pesquisas?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; Bem, eu n\u00e3o fa\u00e7o mais pesquisas pessoalmente. Limito-me a usar o material produzido por gente mais jovem. Acho que j\u00e1 dei minha contribui\u00e7\u00e3o e estou em idade de tirar conclus\u00f5es. De qualquer modo, uma experi\u00eancia t\u00edpica, das usadas no meu trabalho, pode ser descrita como um espa\u00e7o determinado, sob completo controle do laboratorista. Este espa\u00e7o cont\u00e9m fontes de est\u00edmulo que podem ser aplicadas ou retiradas: correntes el\u00e9tricas, temperaturas vari\u00e1veis, sistemas de alimenta\u00e7\u00e3o, e assim por diante. Naturalmente, h\u00e1 tamb\u00e9m instrumentos para registrar as modalidades de comportamento. E, por fim, temos o que se chama &#8220;operandum&#8221;. Isto \u00e9, algo que o sujeito da experi\u00eancia possa operar: uma chave, uma alavanca, ou outra coisa apropriada. O equipamento &#8211; num laborat\u00f3rio moderno &#8211; \u00e9 altamente desenvolvido. Em termos gerais, nosso interesse fundamental est\u00e1 em saber a freq\u00fc\u00eancia com que um organismo efetua este ou aquele ato, e assim medir a probabilidade de um determinado tipo de comportamento acontecer. A um n\u00edvel superior, em pesquisas feitas com crian\u00e7as (num programa em que as ensinamos a ler), elas, por exemplo, escutam uma grava\u00e7\u00e3o com determinadas instru\u00e7\u00f5es. Na p\u00e1gina aberta de seu livro, suponhamos, poderia haver o desenho de um rato e, ao lado, duas palavras: &#8220;rato&#8221; e &#8220;mato&#8221;, unidas ao desenho com duas linhas A crian\u00e7as deve marcar uma das linhas com uma caneta especial e, se a anota\u00e7\u00e3o for correta &#8211; aquela que leva a palavra rato -, a linha ganhar\u00e1 uma cor especial. Isto serve como um &#8220;refor\u00e7o&#8221; imediato ao desejo de aprender da crian\u00e7a. O que nos leva, outra vez, ao sistema de &#8220;educa\u00e7\u00e3o programada&#8221; desenvolvido por mim, do qual falamos anteriormente: o estudante sabe imediatamente se est\u00e1 certo ou n\u00e3o, o que cria um estimulo positivo.<\/p>\n<p>Os perigos do sistema punitivo<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Mas sistemas &#8220;punitivos&#8221; em pr\u00e1tica n\u00e3o s\u00e3o igualmente efetivos? Afinal, os produtos do sistema educacional brit\u00e2nico v\u00eam, invariavelmente, desses sistemas &#8211; e t\u00eam, uma m\u00e9dia respeit\u00e1vel de capacidade profissional e intelectual.<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; Em certa medida s\u00e3o efetivos, sem d\u00favida alguma. O problema n\u00e3o \u00e9 sua efici\u00eancia, mas o fato de que, ao lado de sua efic\u00e1cia, esses sistemas proporcionam tamb\u00e9m efeitos indesej\u00e1veis. Por exemplo, quando algu\u00e9m consegue se revoltar contra eles, n\u00e3o \u00e9 sem trauma: e da\u00ed surgem os atos de viol\u00eancia, o crime, a apatia social. E isso pode ser visto em todo lugar entre os estudantes de hoje. Escapam da escola sempre que podem faz\u00ea-lo, atacam seus professores ou vandalizam a sala de aula &#8211; ou simplesmente tornam-se ap\u00e1ticos e n\u00e3o fazem nada. S\u00f3 reagem a motiva\u00e7\u00f5es negativas, como evitar um castigo. N\u00e3o acredito que esta seja a melhor maneira de fazer as coisas. Se usarmos, ao contrario, &#8220;refor\u00e7os positivos&#8221;, al\u00e9m de proporcionar educa\u00e7\u00e3o &#8211; radicalmente oposta. O estudante passa a gostar de seus estudos.<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Ao contr\u00e1rio das condi\u00e7\u00f5es de laborat\u00f3rio, o meio ambiente do nosso dia-a-dia \u00e9 infinitamente complexo. H\u00e1 alguma possibilidade de control\u00e1-lo efetivamente?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; Ocorre que nosso meio ambiente, em boa medida, j\u00e1 est\u00e1 controlado por muitos fatores, todos eles muito efetivos, mesmo se nem sempre o percebemos. Mas vamos para os exemplos: o meio ambiente industrial e comercial \u00e9 controlado pelo sistema de incentivos &#8211; sal\u00e1rios, negocia\u00e7\u00f5es entre os empregados e empregadores, promo\u00e7\u00f5es. A mesma coisa na escola, com o sistema de diplomas, o uso da disciplina e outros m\u00e9todos. A fam\u00edlia, ao mesmo tempo, controla o meio ambiente \u00edntimo da crian\u00e7a. Tais controles, naturalmente, n\u00e3o servem sempre para nossos prop\u00f3sitos. Mas \u00e9 importante reconhecer que eles existem. S\u00f3 assim podemos modific\u00e1-los de acordo com nossas necessidades e para nosso beneficio.<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Mas todos esses controles s\u00e3o independentes e, na maioria dos casos, conflitivos. Ser\u00e1 poss\u00edvel chegar a coorden\u00e1-los no meio de sua infinita complexidade?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; \u00c9 poss\u00edvel, sim, at\u00e9 certo ponto. Por exemplo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que os pais de uma crian\u00e7a comum sejam capazes de estabelecer condi\u00e7\u00f5es de precis\u00e3o absoluta &#8211; como num laborat\u00f3rio. Mas podemos lhes fornecer suficientes informa\u00e7\u00f5es e conselhos para que consigam certos controles-chaves capazes de faz\u00ea-los dirigir sua crian\u00e7a a um comportamento ideal. O controle de um meio ambiente, com o prop\u00f3sito de provocar determinado comportamento, n\u00e3o precisa ser exato como o mecanismo de um rel\u00f3gio. Podemos obter resultados satisfat\u00f3rios com ajustes de car\u00e1ter apenas geral. Justamente, um dos grandes &#8211; e mais comuns &#8211; mal-entendidos a respeito de minhas id\u00e9ias \u00e9 o de que eu estou sugerindo o estabelecimento de controles de comportamento. Ora, nada menos certo: eu estou apenas advogando por uma racionaliza\u00e7\u00e3o e planejamento dos controles existentes, de acordo com a ci\u00eancia do comportamento que estamos tentando desenvolver. N\u00e3o que eu queira abolir a liberdade &#8211; no conceito humanista da palavra. Limito-me a assinalar que, na realidade, essa liberdade \u00e9 ilus\u00f3ria, e essa ilus\u00e3o tem conseq\u00fc\u00eancias muito graves: n\u00e3o nos permite controlar os elementos que nos controlam.<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Um dos aspectos mais perturbadores de suas id\u00e9ias \u00e9 o papel do artista e do criador numa sociedade de comportamento controlado. Ser\u00e1 poss\u00edvel produzir arte &#8211; ou arte original &#8211; nas condi\u00e7\u00f5es impostas por uma sociedade deste tipo?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; Certamente que sim. Voc\u00ea me faz essa pergunta em fun\u00e7\u00e3o do mal-entendido de que falei anteriormente: nossa sociedade atual n\u00e3o est\u00e1 livre de controles. Simplesmente n\u00e3o tem o tipo de controles &#8211; cientificamente organizados &#8211; que nos permitiriam uma sociedade melhor. Ora, se nossos artistas podem produzir obras de arte sob influ\u00eancia dos controles existentes, que n\u00e3o s\u00e3o os melhores poss\u00edveis, por que n\u00e3o poder\u00e3o produzir grande arte sob controles de outro tipo, melhores?<\/p>\n<p>Um povo \u00e0 beira da fome<\/p>\n<p>VEJA &#8211; Algumas pessoas citam sistemas comunistas como exemplos de sociedades de &#8220;comportamento controlado&#8221;. Qual a sua opini\u00e3o a respeito?<\/p>\n<p>SKINNER &#8211; Os comunistas, pelo menos aqueles pa\u00edses que hoje s\u00e3o nominalmente comunistas, n\u00e3o praticam o que pregam. Mesmo assim, teoricamente, s\u00e3o sociedades de comportamento controlado. Mas, como eu disse referindo-me a outro tipo, oposto, de sociedade, a capitalista, a exist\u00eancia de controles n\u00e3o significa grande coisa. Todas as sociedades t\u00eam controles: a quest\u00e3o consiste, repito, em usar esses controles em nosso beneficio. Os controles das sociedades comunistas diferem dos controles dos pa\u00edses capitalistas s\u00f3 na dire\u00e7\u00e3o oposta. Mas encontram-se no mesmo n\u00edvel, em termos da ci\u00eancia do comportamento, que os controles capitalistas. H\u00e1 s\u00f3 uma diferen\u00e7a importante, e no plano te\u00f3rico. Se um pa\u00eds como a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica chegasse a realizar suas promessas mais ideal\u00edsticas, haveria uma cat\u00e1strofe. Kruschev prometeu ao povo sovi\u00e9tico casa, comida e roupas gratuitas para 1980. Se isso jamais chegar a converter-se em realidade, os sovi\u00e9ticos n\u00e3o ter\u00e3o qualquer incentivo para trabalhar. Ser\u00e1 o p\u00f3lo oposto do caso da sociedade inglesa na \u00e9poca do pr\u00f3prio Karl Marx. Acreditava-se ent\u00e3o que, para que o povo trabalhasse efetivamente, levando a produ\u00e7\u00e3o ao M\u00e1ximo, era necess\u00e1rio mant\u00ea-lo constantemente a beira da fome. Talvez essa situa\u00e7\u00e3o extrema de controle negativo tenha influenciado Marx em sua concep\u00e7\u00e3o de um sistema sem incentivos imediatos (porque trabalhar &#8220;para o bem comum&#8221; n\u00e3o \u00e9 um incentivo suficiente).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Origem: Revista Veja &#8211; Editora Abril &#8211; n\u00ba 316 &#8211; 25 de Setembro de 1974 Fonte: http:\/\/www.cemp.com.br\/novo\/corpo.asp?id=13&amp;cod=94&amp;tipo=8 Um pensamento pol\u00eamico: para alguns, um charlat\u00e3o, e para outros, mais importante que Freud Por Hugo Estenssoro Dificilmente o nome de B. F. Skinner poder\u00e1 provocar, no leigo, emo\u00e7\u00f5es de qualquer esp\u00e9cie. No mundo cientifico, por\u00e9m, e especialmente &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/behaviorismo\/veja-entrevista-b-f-skinner\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Revista Veja 1974 &#8211; Entrevista B. F. Skinner&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1038,"menu_order":1,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"class_list":["post-590","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=590"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/590\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2045,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/590\/revisions\/2045"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1038"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}