{"id":83,"date":"2008-06-11T16:10:14","date_gmt":"2008-06-11T19:10:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?page_id=83"},"modified":"2008-11-14T16:04:02","modified_gmt":"2008-11-14T19:04:02","slug":"psicogenese-da-ortografia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/psicogenese-da-ortografia\/","title":{"rendered":"Psicog\u00eanese da ortografia"},"content":{"rendered":"<p><strong>T\u00edtulo:<\/strong> A aquisi\u00e7\u00e3o da ortografia em crian\u00e7as rec\u00e9m-alfabetizadas: sistematiza\u00e7\u00e3o l\u00f3gica ou informa\u00e7\u00e3o social?<br \/>\n<strong>Autor:<\/strong> Paulo Francisco Slomp<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nN\u00f3s, adultos longamente escolarizados e instru\u00eddos, nos deparamos freq\u00fcentemente com d\u00favidas a respeito de como escrever alguma palavra. Devemos colocar &#8220;\u00e7&#8221; ou &#8220;ss&#8221;, &#8220;x&#8221; ou &#8220;ch&#8221;? A maneira considerada mais correta para sanar esse tipo de d\u00favida seria consultar ao dicion\u00e1rio. Mas, mesmo assim, poderemos permanecer em d\u00favida se consultarmos mais de um dicion\u00e1rio. Como assinala Cagliari (1990, p\u00e1g. 102-3), decidir sobre a forma &#8216;correta&#8217; de escrever palavras \u00e9 uma dificuldade tradicional de gram\u00e1ticos e dicionaristas, e eles divergem seriamente em muitas ocasi\u00f5es.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a solu\u00e7\u00e3o mais adequada neste tipo de situa\u00e7\u00e3o pode ser a \u00faltima a ser efetivada, j\u00e1 que a consulta ao dicion\u00e1rio pode implicar em se deslocar at\u00e9 a estante, folhear pacientemente o volume at\u00e9 encontrar a p\u00e1gina, etc. No cotidiano as pessoas se utilizam de diversas outras maneiras de enfrentar d\u00favidas ortogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Uma forma muito comum de enfrentar uma d\u00favida ortogr\u00e1fica \u00e9 justamente n\u00e3o resolv\u00ea-la, substituindo a palavra que causa dificuldade por um sin\u00f4nimo que n\u00e3o causa d\u00favida quanto \u00e0 grafia. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel reformular o que desejamos escrever de tal forma a evitar o emprego de uma palavra. Contudo, dependendo do contexto, a substitui\u00e7\u00e3o de uma palavra por um sin\u00f4nimo ou a reformula\u00e7\u00e3o frasal n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis, sob pena de o que escrevemos perder algo de seu efeito sem\u00e2ntico e\/ou est\u00e9tico.<\/p>\n<p>Uma outra maneira bastante difundida \u2014 talvez mais r\u00e1pida mas menos confi\u00e1vel \u2014 de decidir sobre a escrita de uma palavra \u00e9 coloc\u00e1-la em duas vers\u00f5es para extrair algum contraste. Vejamos um exemplo.<\/p>\n<p align=\"center\">PRETENCIOSA<br \/>\nPRETENSIOSA<\/p>\n<p>Da compara\u00e7\u00e3o das duas grafias poderia-se chegar, talvez, a uma conclus\u00e3o sobre qual delas \u00e9 a correta. Desconhecemos a origem desse m\u00e9todo de resolu\u00e7\u00e3o de d\u00favidas ortogr\u00e1ficas mas acreditamos que ele n\u00e3o prov\u00e9m de uma recomenda\u00e7\u00e3o fundamentada em qualquer teoria cl\u00e1ssica sobre o conhecimento. Por\u00e9m, poder\u00edamos imaginar que ele parte da suposi\u00e7\u00e3o de que o sujeito, atrav\u00e9s da diferen\u00e7a instaurada pela compara\u00e7\u00e3o, buscaria em sua mem\u00f3ria a lembran\u00e7a de como estava escrita a palavra quando a viu anteriormente. Nesse caso a t\u00e9cnica estaria pr\u00f3xima \u00e0 concep\u00e7\u00e3o de que o conhecimento prov\u00e9m exclusivamente da experi\u00eancia, ou seja, da informa\u00e7\u00e3o social sobre o modo correto de escrever. Ainda nessa concep\u00e7\u00e3o poder\u00edamos incluir a comum id\u00e9ia de que as pessoas que l\u00eaem bastante escrevem corretamente, devido ao fato de j\u00e1 terem visto repetidas vezes o modo correto de grafar as palavras. Tamb\u00e9m seria poss\u00edvel imaginar que a t\u00e9cnica da compara\u00e7\u00e3o de grafias estaria embasada na concep\u00e7\u00e3o de que o conhecimento prov\u00e9m da &#8216;boa-forma&#8217; perceptiva, e assim a maneira de escrever uma palavra que &#8220;cair melhor na vista&#8221; ser\u00e1 a maneira adequada de graf\u00e1-la. Estar\u00edamos ent\u00e3o no campo da psicologia da Gestalt, com seus pressupostos de que o conhecimento \u00e9 possibilitado pelas estruturas que comandam o funcionamento da percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"color: #804040\"><strong><em>&#8220;Mas, a final, a hortografia \u00e9 inportante? Trata se de uma questao ecenssial ou \u00e9 uma criassao da mente umana para conplicar as coizas e dificultar o asse\u00e7o ao conhecimento? Trata se de uma comsecu\u00eancia da expecialisa\u00e7\u00e3o ou s\u00f3 serve para xatear?&#8221; <\/em><\/strong><\/span><\/p>\n<p>Se somos capazes de compreender o texto acima, por que perder tempo com a ortografia? \u00c9 o que nos pergunta Albalat (1991) na introdu\u00e7\u00e3o de seu artigo sobre ortografia da l\u00edngua espanhola. Em seu modo ao mesmo tempo l\u00facido e radical esse autor nos coloca, entre outras quest\u00f5es, que as conven\u00e7\u00f5es gr\u00e1ficas deveriam ser simplificadas ao m\u00e1ximo com vistas a facilitar seu manejo pelos usu\u00e1rios, inclusive a n\u00edvel internacional, entre pa\u00edses que compartilham a mesma l\u00edngua. A ortografia poderia ser ent\u00e3o um ve\u00edculo clarificador da comunica\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s funcionar como mecanismo de exclus\u00e3o cultural ao fazer com que a maioria das pessoas ( que a desconhecem ) se sintam diminu\u00eddas e conseq\u00fcentemente inibidas em escrever. Nesse sentido pode ser interessante o ponto de vista daqueles que defendem que dever\u00edamos escrever como falamos e dever\u00edamos falar como escrevemos.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s id\u00e9ias expostas por Albalat, existem v\u00e1rios autores que consideram que a quest\u00e3o da ortografia envolve uma gama bastante ampla e complexa de aspectos, a come\u00e7ar pela diferencia\u00e7\u00e3o entre l\u00edngua falada e l\u00edngua escrita.<\/p>\n<p>Desde a perspectiva psicoling\u00fc\u00edstica, Kato (1986) nos alerta que embora a escrita alfab\u00e9tica (representa\u00e7\u00e3o de segunda ordem) tenha sido concebida para representar a fala (representa\u00e7\u00e3o de primeira ordem), ela n\u00e3o chega a ser uma escrita fon\u00e9tica. As modalidades oral e escrita da linguagem apresentam uma isomorfia apenas parcial, porque fazem a sele\u00e7\u00e3o a partir do mesmo sistema gramatical e podem expressar as mesmas inten\u00e7\u00f5es. O que determina as diferen\u00e7as entre elas s\u00e3o as diferentes condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, tais como: a depend\u00eancia contextual, o grau de planejamento, a submiss\u00e3o consciente \u00e0s regras prescritivas convencionalizadas para a escrita.<\/p>\n<p>Por sua vez, dirigindo-se aos professores alfabetizadores, Lemle (1987) trata de deixar claro que, ao contr\u00e1rio do que sup\u00f5e o alfabetizando, \u00e9 bastante complicada a rela\u00e7\u00e3o dos sons da fala com as letras. Do ponto de vista do aluno que est\u00e1 aprendendo a ler e a escrever, se apropriar da id\u00e9ia de que existe uma correspond\u00eancia biun\u00edvoca entre sons e letras \u00e9 fundamental, mas ele logo ter\u00e1 que relativizar a concep\u00e7\u00e3o de que para cada letra existe apenas um som e de que para cada som existe apenas uma letra. Lemle tamb\u00e9m ataca uma explica\u00e7\u00e3o bastante difundida para os erros ortogr\u00e1ficos que as crian\u00e7as, principalmente as de classes populares, cometem. Seria a id\u00e9ia de que as crian\u00e7as que n\u00e3o escrevem ortograficamente assim o fazem porque falam errado. Para escrever corretamente seria necess\u00e1rio primeiro ensin\u00e1-las a pronunciar; a falar corretamente. Para Lemle, dizer que algu\u00e9m fala errado corresponde a um equ\u00edvoco ling\u00fc\u00edstico, um desrespeito humano e um erro pol\u00edtico. Um equ\u00edvoco ling\u00fc\u00edstico, pois ignora o fato de que as diferentes comunidades ling\u00fc\u00edsticas possuem os seus pr\u00f3prios dialetos. Um desrespeito humano, pois humilha e desvaloriza a pessoa que recebe a qualifica\u00e7\u00e3o de que fala errado. Um erro pol\u00edtico, pois ao se rebaixar a auto-estima ling\u00fc\u00edstica de uma pessoa ou de uma comunidade, contribui-se para achat\u00e1-la, amedront\u00e1-la e torn\u00e1-la passiva, inerte e incapaz de manifestar seu anseios (p\u00e1g. 20).<\/p>\n<p>Cagliari (1989) \u00e9 outro ling\u00fcista que insiste bastante em dizer aos professores alfabetizadores que a linguagem \u00e9 din\u00e2mica, se modificando em fun\u00e7\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o, n\u00e3o podendo ser consideradas como erradas as falas caracter\u00edsticas de uma dada comunidade. Salienta tamb\u00e9m as diferen\u00e7as entre l\u00edngua escrita e falada: &#8220;A fala tem aspectos (contextuais e pragm\u00e1ticos) que a escrita n\u00e3o revela, e a escrita tem aspectos que a linguagem oral n\u00e3o usa. S\u00e3o dois usos diferentes, cada qual com suas caracter\u00edsticas pr\u00f3prias, sua vida pr\u00f3pria, almejando finalidades espec\u00edficas&#8221; (p\u00e1g. 37). Assim, atrav\u00e9s do pequeno levantamento bibliogr\u00e1fico realizado nos par\u00e1grafos precedentes, podemos perceber que a quest\u00e3o da ortografia \u00e9 bastante complexa e n\u00e3o devemos abord\u00e1-la de forma simplista.<\/p>\n<p><strong>Objeto e Metodologia da Pesquisa<\/strong><br \/>\nO autor do presente projeto de pesquisa realizou sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado (Slomp, 1991) a partir das descobertas de Ferreiro e Teberosky (1986) sobre a psicog\u00eanese da l\u00edngua escrita. Essas autoras, seguindo rigorosamente a perspectiva da teoria piagetiana, revolucionaram o modo de conceber a aprendizagem da leitura e da escrita. Em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0s teorias que entendem a aprendizagem como 1) algo que \u00e9 primordialmente fruto das transmiss\u00f5es sociais e adquirido pelo sujeito atrav\u00e9s de associa\u00e7\u00f5es entre imagens mentais, ou como 2) algo que \u00e9 primordialmente fruto das capacidades de discrimina\u00e7\u00e3o perceptiva (visuais, auditivas) do sujeito, a teoria de Piaget postula que o desenvolvimento da intelig\u00eancia se d\u00e1 primordialmente atrav\u00e9s de um processo de equilibra\u00e7\u00e3o das estruturas cognitivas, onde o sujeito, em sua a\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, ocupa um lugar central. Isto significa &#8220;um processo que conduz de certos estados de equil\u00edbrio a outros, qualitativamente diferentes, passando por m\u00faltiplos desequil\u00edbrios e reequilibra\u00e7\u00f5es&#8221; (Piaget, 1976).<\/p>\n<p>No campo espec\u00edfico da alfabetiza\u00e7\u00e3o, Ferreiro e Teberosky utilizaram os seguintes princ\u00edpios b\u00e1sicos para conduzir o trabalho: n\u00e3o identificar progressos na leitura com avan\u00e7os no decifrado e n\u00e3o identificar progressos na escrita com avan\u00e7os na exatid\u00e3o da c\u00f3pia. Atrav\u00e9s de uma criativa produ\u00e7\u00e3o de materiais para serem utilizados nas entrevistas com as crian\u00e7as e do emprego escrupuloso do m\u00e9todo de interrogat\u00f3rio cl\u00ednico piagetiano, as autoras detectaram progressivos n\u00edveis de desenvolvimento que o sujeito percorre antes de finalmente se apropriar da l\u00f3gica que rege o sistema alfab\u00e9tico de escrita. O coroamento do processo se caracteriza pela concep\u00e7\u00e3o de que para cada fonema da emiss\u00e3o verbal deve corresponder uma letra na escrita.<\/p>\n<p>Nesse ponto o aprendiz inicia um novo e important\u00edssimo trabalho intelectual: a preocupa\u00e7\u00e3o com as quest\u00f5es de ortografia. As conven\u00e7\u00f5es ortogr\u00e1ficas s\u00e3o respons\u00e1veis por um desequil\u00edbrio cognitivo que leva \u00e0 relativiza\u00e7\u00e3o da suposi\u00e7\u00e3o inicial de correspond\u00eancia biun\u00edvoca entre os sons da fala e as letras. O sujeito se defronta com escritas que atribuem duas letras para apenas um fonema (rr, ch, lh, qu, gu) e letras que correspondem a fonema algum ( h ). Em outros casos um mesmo fonema \u00e9 representado por letras diferentes ( s-c: sinto-cinto; g-j: girafa-jib\u00f3ia; s-x: estender-extens\u00e3o; etc.) e tamb\u00e9m uma mesma letra pode remeter a sons diferentes ( g: gigante; c: cacique; r: raro; etc.). Assim, vemos que as crian\u00e7as rec\u00e9m-alfabetizadas est\u00e3o envolvidas em quest\u00f5es bastante desafiadoras. A partir dos elementos acima mencionados podemos formular os seguintes pontos para uma investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Objetivos da Pesquisa<\/strong><br \/>\n&#8211; Averiguar a exist\u00eancia ou n\u00e3o de uma psicog\u00eanese da ortografia;<\/p>\n<p>&#8211; Identificar o modo pelo qual as crian\u00e7as rec\u00e9m-alfabetizadas encaram o fen\u00f4meno ortogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>&#8211; Investigar a exist\u00eancia ou n\u00e3o de n\u00edveis de desenvolvimento cognitivo quanto \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o do modo ortogr\u00e1fico de escrita.<\/p>\n<p><strong>Metodologia<\/strong><br \/>\nPretendendo seguir o mesmo caminho das descobertas da teoria psicogen\u00e9tica a respeito do processo de apropria\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica que sustenta o sistema alfab\u00e9tico, esta pesquisa se prop\u00f5e averiguar as quest\u00f5es relativas ao processo de aquisi\u00e7\u00e3o da escrita ortogr\u00e1fica em crian\u00e7as rec\u00e9m-alfabetizadas. Neste sentido caracteriza-se como pesquisa b\u00e1sica pois pretende investigar a exist\u00eancia ou n\u00e3o de uma g\u00eanese cognitiva na apropria\u00e7\u00e3o das especificidades ortogr\u00e1ficas de nossa l\u00edngua escrita. Estudar-se-\u00e1 a possibilidade de a aquisi\u00e7\u00e3o do sistema ortogr\u00e1fico ser de natureza conceitual &#8211; instituindo-se como um processo cognitivo progressivo no qual o sujeito constr\u00f3i e testa suas hip\u00f3teses &#8211; ou provir prioritariamente de informa\u00e7\u00f5es sociais que dispensam sistematiza\u00e7\u00e3o l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o presente estudo poder\u00e1 ser utilizado como subs\u00eddio para futuras pesquisas aplicadas pois entende-se que possibilitar\u00e1 a organiza\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios norteadores para a cria\u00e7\u00e3o de materiais e situa\u00e7\u00f5es did\u00e1tico-pedag\u00f3gicas apropriadas para a aprendizagem da ortografia nas s\u00e9ries iniciais do ensino de I Grau (tanto para crian\u00e7as como para adultos).<\/p>\n<p>A coleta dos dados tem a preocupa\u00e7\u00e3o de adotar como diretriz central o emprego criterioso do m\u00e9todo cl\u00ednico de entrevista cognitiva , tal como Piaget (1973) o formulou inicialmente e o desenvolveu ao longo da obra. Sobre o emprego dessa t\u00e9cnica de entrevista, o mestre su\u00ed\u00e7o nos diz:<\/p>\n<p><span style=\"color: #804040\">&#8220;O bom experimentador deve efetivamente reunir duas qualidades muitas vezes incompat\u00edveis: saber observar ou seja, deixar a crian\u00e7a falar, n\u00e3o desviar nada, n\u00e3o esgotar nada e, ao mesmo tempo, saber buscar algo preciso, ter a cada instante uma hip\u00f3tese de trabalho, uma teoria, verdadeira ou falsa, para controlar&#8221;. <\/span><\/p>\n<p>Quanto ao emprego do m\u00e9todo cl\u00ednico para o estudo das concep\u00e7\u00f5es infantis sobre a ortografia, Matteoda (1989) nos fornece uma interessante pesquisa inicial com crian\u00e7as de l\u00edngua espanhola onde encontramos um modo de abordar a quest\u00e3o com materiais e tarefas espec\u00edficas. Esta autora caracteriza a ortografia como um objeto de conhecimento de natureza social-cultural, suscet\u00edvel de gerar processos de constru\u00e7\u00e3o cognitiva que levam \u00e0 compreens\u00e3o da complexa composi\u00e7\u00e3o do sistema ortogr\u00e1fico em crian\u00e7as que j\u00e1 se apoderaram do modo de funcionamento do sistema alfab\u00e9tico. Dessa forma, o sistema ortogr\u00e1fico estaria alicer\u00e7ado em dois componentes: um normativo e outro representativo. O primeiro corresponde ao car\u00e1ter estritamente convencional e arbitr\u00e1rio do conjunto de leis que conformam o sistema ortogr\u00e1fico. O segundo permite estabelecer a rela\u00e7\u00e3o que existe entre a ortografia e as estruturas ling\u00fc\u00edsticas (sem\u00e2nticas, sint\u00e1ticas e pragm\u00e1ticas) que s\u00e3o representadas no plano da l\u00edngua escrita mediante a ado\u00e7\u00e3o de um sistema ortogr\u00e1fico de representa\u00e7\u00e3o. Para embasar essas considera\u00e7\u00f5es ling\u00fc\u00edsticas Matteoda apoia-se nos textos de Kenneth Goodman (1987) e Yetta Goodman (1987).<\/p>\n<p>Assim, ap\u00f3s entrevistar crian\u00e7as que estavam cursando de 1\u00aa at\u00e9 6\u00aa S\u00e9rie do I Grau, a pesquisadora da cidade argentina de Rio Quarto chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que existiriam tr\u00eas n\u00edveis na g\u00eanese cognitiva da ortografia. O primeiro, apresentado por crian\u00e7as das primeiras s\u00e9ries, &#8220;implica em uma concep\u00e7\u00e3o de ortografia enquanto representa\u00e7\u00e3o de aspectos fon\u00e9ticos exclusivamente&#8221; (p\u00e1g. 11) cujo conte\u00fado \u00e9 que &#8220;a identidade do som eq\u00fcivale \u00e0 identidade de representa\u00e7\u00e3o e que as diferen\u00e7as ortogr\u00e1ficas obedecem a diferen\u00e7as fon\u00e9ticas&#8221; (p\u00e1g. 20). Uma das caracter\u00edsticas desse est\u00e1gio \u00e9 a presen\u00e7a de emiss\u00f5es fonem\u00e1ticas artificiais (deforma\u00e7\u00e3o na pron\u00fancia de palavras) que as crian\u00e7as utilizam com o objetivo de argumentar em favor de suas concep\u00e7\u00f5es. Em l\u00edngua portuguesa seria algo da ordem do que uma menina de 2\u00aa s\u00e9rie (7 anos e 8 meses) manifestou ao ser questionada sobre a alternativa de escrever a palavra palha\u00e7o com &#8216;\u00e7&#8217; ou com &#8216;ss&#8217;. Ela argumentou que palha\u00e7o n\u00e3o poderia ser escrito com &#8216;ss&#8217; porque a pron\u00fancia ficaria modificada para &#8220;palhass\u00f4&#8221;. Outra caracter\u00edstica curiosa desse primeiro n\u00edvel \u00e9 a id\u00e9ia, apresentada por algumas crian\u00e7as, de que a forma\u00e7\u00e3o de s\u00edlabas deve preferencialmente seguir a costumeira composi\u00e7\u00e3o entre uma consoante e uma vogal. Especificamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 letra &#8216;h&#8217;, existe a concep\u00e7\u00e3o de que \u00e9 essa letra que permite fazer &#8216;soar&#8217; aquela que lhe sucede. Em l\u00edngua portuguesa seria algo semelhante \u00e0 id\u00e9ia de que a grafia &#8220;omem&#8221;, quando pronunciada, resultaria em uma emiss\u00e3o sonora correspondente \u00e0 &#8220;mem&#8221;, pois o &#8216;h&#8217; e o &#8216;o&#8217; formariam uma unidade indissoci\u00e1vel.<\/p>\n<p>O segundo n\u00edvel seria de transi\u00e7\u00e3o entre o primeiro e o terceiro.<\/p>\n<p>O terceiro n\u00edvel na psicog\u00eanese da ortografia, encontrado por Matteoda em crian\u00e7as de 5\u00aa e 6\u00aa s\u00e9ries, consiste na &#8220;concep\u00e7\u00e3o do sistema ortogr\u00e1fico como representa\u00e7\u00e3o de aspectos sem\u00e2nticos&#8221; (1989, p\u00e1g. 11) onde pode-se observar que &#8220;as argumenta\u00e7\u00f5es das crian\u00e7as remetem \u00e0 rela\u00e7\u00f5es sem\u00e2nticas entre palavras e procuram fazer corresponder ao parentesco na estrutura sem\u00e2ntica uma invari\u00e2ncia na representa\u00e7\u00e3o ortogr\u00e1fica&#8221; (p\u00e1g. 27).<\/p>\n<p>Para a presente pesquisa utilizaremos os aspectos principais do roteiro de entrevista utilizado por Matteoda. Realizamos importantes modifica\u00e7\u00f5es com vistas a adapt\u00e1-lo \u00e0 l\u00edngua portuguesa e \u00e0s caracter\u00edsticas s\u00f3cio-culturais e ling\u00fc\u00edsticas da regi\u00e3o da cidade de Porto Alegre e redondezas. Tamb\u00e9m introduzimos uma das t\u00e9cnicas utilizada por Carraher (1985), que prev\u00ea a solicita\u00e7\u00e3o de que as crian\u00e7as escrevam &#8220;palavras inventadas, que n\u00e3o existem&#8221;, t\u00e9cnica esta mencionada no artigo onde a autora realiza um breve estudo classificat\u00f3rio dos erros ortogr\u00e1ficos mais comuns cometidos por crian\u00e7as das s\u00e9ries iniciais.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/strong><br \/>\nALBALAT, Vicente Barbera. La reforma ortogr\u00e1fica. <span style=\"text-decoration: underline\">Apuntes de Educacion<\/span>, Madri, n\u00ba 40, p\u00e1g. 2-4, jan. 1991.<\/p>\n<p>CAGLIARI, Luiz Carlos. <span style=\"text-decoration: underline\">Alfabetiza\u00e7\u00e3o e Ling\u00fc\u00edstica<\/span>. S\u00e3o Paulo: Scipione, 1989.<\/p>\n<p>___. A ortografia na escola e na vida. in ALVES, Maria Leila (coord). <span style=\"text-decoration: underline\">Isto se aprende com o ciclo b\u00e1sico<\/span>. S\u00e3o Paulo: Secretaria de Estado da Educa\u00e7\u00e3o, 1990.<\/p>\n<p>CARRAHER, Terezinha Nunes. Explora\u00e7\u00f5es sobre o desenvolvimento da ortografia em portugu\u00eas. <span style=\"text-decoration: underline\">Psicologia: Teoria e pesquisa<\/span>, Bras\u00edlia, V.1, n.1, p\u00e1g. 269-285, set.1985.<\/p>\n<p>FERREIRO, Em\u00edlia, TEBEROSKY, Ana. <span style=\"text-decoration: underline\">Psicog\u00eanese da l\u00edngua escrita<\/span>. Porto Alegre: Artes M\u00e9dicas, 1986.<\/p>\n<p>GOODMAN, Kenneth. O processo de leitura: considera\u00e7\u00f5es a respeito das l\u00ednguas e do desenvolvimento. in FERREIRO, Em\u00edlia e PALACIO, Margarita Gomes. <span style=\"text-decoration: underline\">Os processos de leitura e escrita<\/span>: novas perspectivas. Porto Alegre: Artes M\u00e9dicas, 1987.<\/p>\n<p>GOODMAN, Yetta. O desenvolvimento da escrita em crian\u00e7as muito pequenas. in FERREIRO, Em\u00edlia e PALACIO, Margarita Gomes. <span style=\"text-decoration: underline\">Os processos de leitura e escrita<\/span>: novas perspectivas. Porto Alegre: Artes M\u00e9dicas, 1987.<\/p>\n<p>KATO, Mary. <span style=\"text-decoration: underline\">No mundo da escrita<\/span>: Uma perspectiva psicoling\u00fc\u00edstica. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1986.<\/p>\n<p>LEMLE, Miriam. <span style=\"text-decoration: underline\">Guia te\u00f3rico do alfabetizador<\/span>. S\u00e3o Paulo: \u00c1tica, 1987.<\/p>\n<p>MATTEODA, Maria C\u00e9lia. <span style=\"text-decoration: underline\">Concepciones infantiles acerca del sistema de representaci\u00f3n ortogr\u00e1fica<\/span>. Rio Quarto: Universidad Nacional de Rio Quarto, 1989. (relat\u00f3rio parcial de pesquisa)<\/p>\n<p>PIAGET, Jean. <span style=\"text-decoration: underline\">A representa\u00e7\u00e3o do mundo na crian\u00e7a<\/span>. Rio de Janeiro: Record, 1973.<\/p>\n<p>___. <span style=\"text-decoration: underline\">A equilibra\u00e7\u00e3o das estruturas cognitivas<\/span>: problema central do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.<\/p>\n<p>SLOMP, Paulo Francisco. <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/dissertacao-slomp\/\"><span style=\"text-decoration: underline\">Conceitualiza\u00e7\u00e3o da leitura e escrita por adultos n\u00e3o-alfabetizados<\/span><\/a>. Porto Alegre: Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o\/UFRGS, 1991. (Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00edtulo: A aquisi\u00e7\u00e3o da ortografia em crian\u00e7as rec\u00e9m-alfabetizadas: sistematiza\u00e7\u00e3o l\u00f3gica ou informa\u00e7\u00e3o social? Autor: Paulo Francisco Slomp Introdu\u00e7\u00e3o N\u00f3s, adultos longamente escolarizados e instru\u00eddos, nos deparamos freq\u00fcentemente com d\u00favidas a respeito de como escrever alguma palavra. Devemos colocar &#8220;\u00e7&#8221; ou &#8220;ss&#8221;, &#8220;x&#8221; ou &#8220;ch&#8221;? A maneira considerada mais correta para sanar esse tipo de d\u00favida &hellip; <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/piaget\/psicogenese-da-ortografia\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Psicog\u00eanese da ortografia&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1063,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"_lmt_disableupdate":"","_lmt_disable":"","footnotes":""},"class_list":["post-83","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/83","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=83"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/83\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1952,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/83\/revisions\/1952"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1063"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=83"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}