{"id":2283,"date":"2009-09-10T01:52:36","date_gmt":"2009-09-10T04:52:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/?p=2283"},"modified":"2021-11-11T12:10:39","modified_gmt":"2021-11-11T15:10:39","slug":"uso-excessivo-de-antidepressivos-criou-psiquiatria-veterinaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/psicoeduc\/blog\/uso-excessivo-de-antidepressivos-criou-psiquiatria-veterinaria\/","title":{"rendered":"Uso excessivo de antidepressivos criou &#8220;psiquiatria veterin\u00e1ria&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fonte:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.abril.com.br\/noticias\/comportamento\/uso-excessivo-antidepressivos-criou-psiquiatria-veterinaria-375631.shtml\">http:\/\/www.abril.com.br\/noticias\/comportamento\/uso-excessivo-antidepressivos-criou-psiquiatria-veterinaria-375631.shtml&amp;lt<\/a><\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, 30 &#8211; Habituados, por dever de of\u00edcio, a ouvir os outros, os psicanalistas s\u00e3o seres que se observam. MARIA RITA KEHL dirigia seu carro pela Via Dutra, quando surgiu pela frente um cachorro. N\u00e3o havia como parar, o carro estava acossado pelos caminh\u00f5es que vinham portr\u00e1s. O animal foi atropelado, e saiu mancando pelo acostamento.<\/p>\n<p>O choque fez a psicanalista meditar sobre a velocidade que preside a vida contempor\u00e2nea, a acelera\u00e7\u00e3o que nos leva a reagir instantaneamente a tudo que acontece para, em seguida, esquecer com igual rapidez. Vivemos em regime de um eterno presente, cada vez mais intenso. E cada vez mais sem sentido, para n\u00e3o dizer &#8220;alienado&#8221;, conforme vocabul\u00e1rio de outra \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em sua cl\u00ednica, e na pr\u00f3pria literatura das profiss\u00f5es psi, Maria Rita tem observado o aumento de queixas de depress\u00e3o. Talvez seja o mal-estar do s\u00e9culo, a &#8220;mol\u00e9stia&#8221; do capitalismo turbinado e globalizado. O c\u00e3o da Via Dutra (que, afinal, n\u00e3o morreu no acidente) a ajudou a juntar as duas pontas do problema e relacionar a depress\u00e3o com determinada experi\u00eancia do tempo: talvez os deprimidos sejam os sujeitos que &#8220;sofrem de um sentimento de tempo estagnado, desajustados do tempo s\u00f4frego do mundo capitalista&#8221;.<\/p>\n<p>Esta a hip\u00f3tese de &#8220;O Tempo e o C\u00e3o&#8221; (Boitempo, 304 p\u00e1ginas), livro que faz com que an\u00e1lise cl\u00ednica e cr\u00edtica social dialoguem e se completem de modo a iluminar o fen\u00f4meno da depress\u00e3o contempor\u00e2nea. A seguir, a entrevista concedida pela psicanalista \u00e0 reportagem.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo do livro, &#8220;O Tempo e o C\u00e3o&#8221;, refere-se diretamente a uma experi\u00eancia, que imagino um tanto traum\u00e1tica, de atropelar um cachorro na estrada. Gostaria que explicasse como elaborou esse incidente no sentido de uma percep\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es entre a depress\u00e3o e a temporalidade.<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Foi um acidente de pequena import\u00e2ncia at\u00e9 mesmo para o c\u00e3o, que consegui n\u00e3o matar por sorte. Por pouco, a velocidade normal do tr\u00e1fego na Via Dutra, entre caminh\u00f5es e \u00f4nibus, me obrigaria a passar por cima dele. Se em vez de um c\u00e3o fosse uma crian\u00e7a seria impens\u00e1vel n\u00e3o frear, mas teria provocado um acidente de propor\u00e7\u00f5es tremendas. Qual a novidade disso? Sabemos que a velocidade regular de nossa vida cotidiana \u00e9 brutal; estamos habituados a ela. Mas o incidente na estrada me fez pensar nos efeitos subjetivos da acelera\u00e7\u00e3o da vida contempor\u00e2nea. Na \u00e9poca andava lendo Benjamin, para quem a atividade cont\u00ednua de &#8220;aparar os choques&#8221; da vida moderna (repare que ele escrevia sobre Paris no final do 19) \u00e9 incompat\u00edvel com a dimens\u00e3o da experi\u00eancia e est\u00e1 entre as causas do que ele chama de melancolia. Comecei a pensar no livro por a\u00ed.<\/p>\n<p>Interessantes as obje\u00e7\u00f5es ao uso intensivo dos medicamentos no tratamento psiqui\u00e1trico das depress\u00f5es. A doutrina da &#8220;efic\u00e1cia contempor\u00e2nea&#8221; passa necessariamente pela medicaliza\u00e7\u00e3o do sintoma?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Eu n\u00e3o condeno em bloco o uso dos antidepressivos. Sei que muitas pessoas dependem de medica\u00e7\u00e3o at\u00e9 para sair de casa e chegar ao analista. Os antidepressivos podem salvar vidas. Minha cr\u00edtica se refere ao uso indiscriminado de medicamento como tentativa de apagamento do sujeito do inconsciente, segundo a l\u00f3gica de que o valor da vida se mede pela efici\u00eancia. Os efeitos dessa alian\u00e7a sobre o modo como as pessoas tentam suprimir as pr\u00f3prias crises normais da exist\u00eancia com medicamentos, a meu ver, incluem-se entre as causas do aumento das depress\u00f5es no s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>De que maneira isso tamb\u00e9m pode ser interpretado como uma coniv\u00eancia entre a psiquiatria e o interesse econ\u00f4mico dos laborat\u00f3rios?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Este \u00e9 um fato objetivo. A press\u00e3o dos laborat\u00f3rios sobre os psiquiatras, a presen\u00e7a maci\u00e7a das grandes marcas de medicamentos a financiar congressos de psiquiatria, o prest\u00edgio dos medicamentos de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o aos quais os psiquiatras temem ficar desatualizados e perder clientela, etc. A psiquiatria hoje est\u00e1 t\u00e3o atrelada \u00e0s descobertas da ind\u00fastria farmac\u00eautica que, de acordo com alguns cr\u00edticos da \u00e1rea, a produ\u00e7\u00e3o de um pensamento te\u00f3rico sobre as doen\u00e7as mentais se reduziu a zero. Virou uma &#8220;psiquiatria veterin\u00e1ria&#8221;, na express\u00e3o do psicanalista Andr\u00e9 Green. Mas h\u00e1 importantes exce\u00e7\u00f5es a este estado de coisas; n\u00e3o s\u00e3o poucos os psiquiatras que indicam que a medica\u00e7\u00e3o deva ser acompanhada de alguma forma de terapia da palavra.<\/p>\n<p>De qualquer forma, o que parece contar mesmo \u00e9 a &#8220;acelera\u00e7\u00e3o do tempo&#8221; contempor\u00e2neo. Ponho entre aspas porque o tempo n\u00e3o acelera e sim a nossa percep\u00e7\u00e3o dele. Voc\u00ea associa esse fen\u00f4meno \u00e0s novas tecnologias, ao chamado turbocapitalismo? Estes fen\u00f4menos predisp\u00f5em \u00e0 depress\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Voc\u00ea tem toda a raz\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o tempo que acelera, somos n\u00f3s. Ali\u00e1s, o que \u00e9 o tempo? A leitura de Henri Bergson me foi de grande valia para pensar nessa quest\u00e3o. A impress\u00e3o que se tem, desde a revolu\u00e7\u00e3o industrial, \u00e9 que o tempo em sua dimens\u00e3o cronol\u00f3gica vem se acelerando de uma forma exasperante. Quanto mais tentamos aproveitar o tempo, quanto mais dispomos das horas e dos dias segundo a convic\u00e7\u00e3o de que &#8220;tempo \u00e9 dinheiro&#8221;, mais sofremos do sentimento de desperdi\u00e7ar a vida. Voc\u00ea j\u00e1 reparou que depois de uma semana muito corrida, com a agenda repleta de compromissos, tem-se a impress\u00e3o de que o tempo voou e nada aconteceu? O que me preocupa \u00e9 que, na tentativa de fazer render o tempo desde o come\u00e7o da vida, hoje os pais de classe m\u00e9dia e alta come\u00e7am a educar seus filhos segundo o mesmo princ\u00edpio da agenda cheia. Algumas dessas crian\u00e7as cheias de compromissos se tornam insatisfeitas, dependentes de estimula\u00e7\u00e3o externa, incapazes de devanear e inventar brincadeiras quando est\u00e3o desocupadas.<\/p>\n<p>Achei interessante (e alarmante) essa quest\u00e3o das m\u00e3es ansiosas, que n\u00e3o conseguem dar aos filhos o seu devido tempo e mant\u00eam uma expectativa alta em seu desempenho. Em que medida isso afeta a crian\u00e7a e a predisp\u00f5e \u00e0 depress\u00e3o? A posi\u00e7\u00e3o (enfraquecida) dos pais tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o. De que maneira a fam\u00edlia nuclear parece se desagregar atualmente por for\u00e7a das exig\u00eancias sociais crescentes?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Essa pergunta s\u00e3o duas, certo? A ansiedade materna, bem antes de se manifestar como expectativa pelo desempenho da crian\u00e7a, tem a ver com a pressa em mant\u00ea-la sempre satisfeita. Mas a melhor forma de amar uma crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 impedir que ela conhe\u00e7a a falta: a falta \u00e9 constitutiva do aparelho ps\u00edquico. Ela n\u00e3o pode faltar! A crian\u00e7a come\u00e7a a virar gente (sujeito) ao inventar recursos simb\u00f3licos para lidar com o vazio e a insatisfa\u00e7\u00e3o. Ora, a sociedade em que vivemos \u00e9 regida por essa esp\u00e9cie de imperativo kantiano \u00e0s avessas: goze. Que dizer da obrigatoriedade do gozo? Ela s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 mais danosa porque \u00e9 imposs\u00edvel de cumprir. Aqui entra sua segunda quest\u00e3o: os chamados pais enfraquecidos s\u00e3o exatamente os que vivem em d\u00edvida com a satisfa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Dif\u00edcil encontrar algum ideal t\u00e3o inquestion\u00e1vel quanto o prazer. Mesmo os pais que n\u00e3o desconhecem a fun\u00e7\u00e3o de colocar limites aos excessos de suas crian\u00e7as, n\u00e3o encontram outros ideais para transmitir a elas.<\/p>\n<p>De certa forma, a modernidade pode ser vista como uma patologia do tempo, que atingiu um ponto insuport\u00e1vel de acelera\u00e7\u00e3o. Acredita que esse fator ou pode produzir outros sintomas ps\u00edquicos al\u00e9m da depress\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Certamente sim: as drogadi\u00e7\u00f5es, por exemplo, n\u00e3o seriam sintomas da urg\u00eancia em gozar que comanda a vida contempor\u00e2nea? E a viol\u00eancia banalizada nas grandes cidades, n\u00e3o seria sinal do encolhimento da capacidade de negociar conflitos em fun\u00e7\u00e3o dessa mesma urg\u00eancia?<\/p>\n<p>Voc\u00ea acredita que um estudo psicanal\u00edtico desse tipo funciona tamb\u00e9m como uma cr\u00edtica ao capitalismo contempor\u00e2neo, ao consumismo, \u00e0 reifica\u00e7\u00e3o crescente, etc?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Espero que sim, ainda que as cr\u00edticas jamais tenham tido o poder de derrubar o capitalismo. O que o derrubar\u00e1, algum dia, ser\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es materiais concretas produzidas por suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es. Nossa: agora falei como uma cartilha. Mas penso que a produ\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico \u00e9 um importante dispositivo contra o conformismo, o sentimento fatalista de que est\u00e1 &#8220;tudo dominado&#8221;, de que o capitalismo conseguiu anular todas as vis\u00f5es de mundo diferentes dele. A cr\u00edtica \u00e9 um &#8220;veneno antimelancolia&#8221;, no sentido benjaminiano da &#8220;indol\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o&#8221; que caracteriza a atitude fatalista.<\/p>\n<p>J\u00e1 detectou em sua cl\u00ednica alguma repercuss\u00e3o da atual crise econ\u00f4mica mundial? Acha que ela contribuir\u00e1 para gerar mais depressivos ou ao contr\u00e1rio, pode produzir uma conscientiza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do modelo atual?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; No meu consult\u00f3rio, casualmente, n\u00e3o. Pode ser quest\u00e3o de tempo. Quanto \u00e0 crise atual provocar ainda mais depress\u00f5es, respondo que sim, no que concerne ao desemprego, ao desamparo, \u00e0 desesperan\u00e7a dos que s\u00e3o chutados para fora do sistema produtivo como seres sup\u00e9rfluos. E por outro lado, n\u00e3o: o abalo do pensamento \u00fanico que correspondia ao triunfo da concentra\u00e7\u00e3o do capital financeiro poder\u00e1 ter interessantes efeitos antidepressivos. Somos novamente convocados a pensar, fazer projetos coletivos, resgatar esperan\u00e7as em outra ordem mais justa que esta que causou o desastre. O singular, o modesto, o pequeno, poder\u00e3o retomar seu trabalho nas brechas do grandioso, do monumental, do &#8220;dinheiro que apenas se olha&#8221; (D\u00e9bord). Os movimentos sociais poder\u00e3o se revitalizar; as pessoas poder\u00e3o reinventar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e deixar de se sentir sup\u00e9rfluas. Quem sabe o fatalismo melanc\u00f3lico deixe de dominar a subjetividade?<\/p>\n<p>Voc\u00ea acha que a prolifera\u00e7\u00e3o de manuais de autoajuda, de receitas de felicidade, tem algo a ver com a &#8220;felicidade obrigat\u00f3ria&#8221; que a sociedade do desempenho nos prescreve?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Concordo com voc\u00ea. Mas respeito aqueles que, na falta de outros recursos, buscam nesses livros caminhos para sair da depress\u00e3o. Ocorre que o ideal de felicidade, que no s\u00e9culo 18 nos libertou do conformismo religioso, hoje se tornou opressivo. Virou uma subideologia da sociedade de consumo. Ora, a felicidade n\u00e3o \u00e9 uma mercadoria que se possua. N\u00e3o \u00e9 uma conquista do ego; ela n\u00e3o para quieta, n\u00e3o nos garante nada. As pessoas sentem-se culpadas por n\u00e3o possuir a tal felicidade, o que os torna ainda mais infelizes. Prefiro, com Oswald de Andrade, deixar de lado a felicidade e apostar na prova dos nove da alegria.<\/p>\n<p>Voc\u00ea v\u00ea possibilidade de diminuir o sofrimento do depressivo, sem alterar as condi\u00e7\u00f5es sociais que com ele se relacionam?<\/p>\n<p><strong>MARIA RITA KEHL<\/strong> &#8211; Voc\u00ea me permite esclarecer um ponto importante. A ideia de que a depress\u00e3o seja um sintoma social n\u00e3o significa que osdepressivos devam ser tratados como casos sociol\u00f3gicos. Os depressivos devem ser escutados, como todos os que buscam a psican\u00e1lise, um a um. Assim, em sua singularidade irredut\u00edvel, deve ser conduzida a an\u00e1lise dos depressivos &#8211; que passa, necessariamente, pela revers\u00e3o da forma como cada um deles se deixou alienar (como todo sujeito, ali\u00e1s) pelas forma\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas do imagin\u00e1rio social.<\/p>\n<p>FIM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: http:\/\/www.abril.com.br\/noticias\/comportamento\/uso-excessivo-antidepressivos-criou-psiquiatria-veterinaria-375631.shtml&amp;lt S\u00e3o Paulo, 30 &#8211; Habituados, por dever de of\u00edcio, a ouvir os outros, os psicanalistas s\u00e3o seres que se observam. MARIA RITA KEHL dirigia seu carro pela Via Dutra, quando surgiu pela frente um cachorro. N\u00e3o havia como parar, o carro estava acossado pelos caminh\u00f5es que vinham portr\u00e1s. 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