Mars Gradivus

Revista do Laboratório de Psicanálise e Aprendizagem

     

         Instituto de Psicologia        UFRGS

   

      Ano 1      Número 1        2002

 

 

 

 PESQUISAS PSICOLÓGICAS E PESQUISA PSICANALÍTICA

 

 

 

 

Prof. Dr. José Luiz CAON

 

 

A IDENTIFICAÇÃO DO PROBLEMA

 

Semanalmente, a Pós-Graduação em Psicologia do Instituto de Psicologia da UFRGS, oferece um seminário a todos os seus mestrandos e doutorandos. Cada sessão é ministrada, ou por professores pesquisadores da própria pós-graduação, ou por pesquisadores convidados. Outrossim, duas vezes, antes e depois do ato de qualificação do projeto de doutoramento, cada um dos doutorandos tem a incumbência de apresentar e de submeter, à audiência desse Seminário Magno (SM), também chamado de Seminário Interdisciplinar (SI), seu projeto de estudos e pesquisas doutorais.

 

Uma das diretivas desse SM ou SI tem por objetivo abarcar e promover pesquisas do campo psi, fortemente diferenciadas, quer pelo conteúdo, quer pelo método, realizadas ou em realização. Assim sendo, o SM ou SI é um seminário interdisciplinar e transdisciplinar, tanto horizontalmente, como verticalmente. Horizontalmente, orque é apresentado e debatido entre pesquisadores em formação.  Verticalmente, orque é apresentado por pesquisadores veteranos aos mestrandos e doutorados, esses sendo pesquisadores em formação inicial ou avançada.

 

A participação, como assistente ou como expositor, nas sessões desse SM ou SI, dá, ao participante, condições de aprofundamento na utilização de seu modelo de pesquisa abraçado e, permite-lhe, ao mesmo tempo, fortalecer-se no sentido de confrontar o próprio modelo com os outros modelos de pesquisa dos colegas. Num primeiro momento, parecia que os diversos modelos de pesquisas apresentados podiam ser integrados em três grandes sub-grupos pertencentes a um único grande grupo, o grupo de  pesquisa psicológica. Tratava-se de três sub-grupos: modelo de pesquisa psicológica comportamental; modelo pesquisa psicológica fenomenológica e modelo de pesquisa psicológica psicanalítica.

 

O presente estudo, cujo objeto é estabelecer alguns encaminhamentos para o exame e análise comparativos dos três sub-grupos de pesquisa psicológica realizada nesse programa de mestrado com doutorado, servir-se-á de alguns aspectos dessa experiência pioneira da Pós-Graduação em Psicologia, no IPSI/UFRGS. Objetivam-se, assim, a iniciação e aprofundamento da formação de pesquisadores e também o aperfeiçoamento na formação continuada dos diretores de pesquisas de obediência a diferentes modelos. No início, portanto, esses modelos, como acabamos de mencionar, identificam-se como:

 

a)   modelo da pesquisa psicológica comportamental;

b)   modelo da pesquisa psicológica fenomenológica;

c)   modelo da pesquisa psicológica psicanalítica.

 

O último modelo, incorporado no grande e supremo grupo “pesquisa psicológica”, como sub-grupo de nome “modelo de pesquisa psicológica psicanalítica”, é o próprio paradigma da pesquisa psicanalítica, a qual é também conhecida como pesquisa metapsicológica. (“Metapsicologia” é palavra cunhada por Freud; cf. CAON, J. L. (1996). "Psicanálise <> Metapsicologia", in Slavutzky et al. (org), História, clínica e perspectiva nos cem anos de psicanálise. POA: Artes Médicas, p. 61-73).

 

No Laboratório de Psicanálise e Aprendizagem (LPA) do IPSI/UFRGS, as palavras-chaves, “metapsicologia” e “pesquisa metapsicológica” são intgradas junto a outras palavras-chaves que as incluem, mas que incluem também outras perspectivas teóricas, tendo como denominador comum, a Psicopatologia Elementar. A Psicopatologia Elementar trata da descrição, classificação e ordenamentos dos comportamentos, fenômenos e processos psicopatológicos, apresentados como tipos, quadros, personalidades ou caracteres psicopatológicos, reações psicopatológicas, diagnósticos, categorias, transtornos, síndromes, sintomas, mecanismos de defesas, etc. deiando provisoriamente delado as as explicações teóricas específicas. Assim sendo, as palavras-chaves, “metapsicopatologia” e “pesquisa metapsicopatológica” abarcam, agora, no LPA, tanto aquilo que Freud e os psicanalistas propõem como “metapsicologia” e “pesquisa psicanalítica” quanto aquilo que outros psicopatólogos propõem como “Psicologia Patológica” (Janet, 1889), “Psicopatologia Geral” (Jaspers, 1913), Psicopatologia Clínica” (Kurt Schneider, 1946), e outros nomes identificadores de outras sistematizações.

 

O LPA é essencialmente laboratório de pesquisas psicanalíticas realizadas lado a lado e na presença de outras pesquisas psicológicas e psicopatológicas não psicanalíticas. Assim sendo, o LPA tem como campo e objeto a pesquisa psicopatológica diferentemente do Seminário Magno que acolhe pesquisas psicológicas em geral, estando implícitas nelas as pesquisas psicopatológicas. No LPA, os três modelos de pesquisa psicológica acima mencionados atêm-se, agora, exclusivamente ao psicopatológico. Então, aqueles modelos agora, no LPA, passam a ser identificados como:

 

1.   modelo da pesquisa psicopatológica neurocomportamental;

2.   modelo da pesquisa psicopatológica fenomenológica;

3.   modelo da pesquisa psicopatológica psicossociológica;

4.   modelo da pesquisa psicopatológica etno-antropológica;

5.   modelo da pesquisa psicopatológica filosófico-culturalista;

6.   modelo da pesquisa psicanalítica.

 

Observe o leitor que se escreve somente “modelo de pesquisa psicanalítica” e não “modelo de pesquisa psicopatológica psicanalítica”. Desde Freud, o termo “psicanalítico” está incluído no termo “psicopatológico”. Assim, quem diz “pesquisa psicanalítica” está dizendo “pesquisa psicopatológica” e quem diz “psicanálise” também diz “psicopatologia”.

 

 Os mestrandos, os doutorandos e os pesquisadores dos sub-grupos de pesquisa psicológica comportamental ou fenomenológica, embora estejam um tanto atentos àquilo que se produz no LPA, não têm ainda muita participação nos encontros do LPA. Presentemente, candidatos e alunos de outros mestrados e doutorados e pesquisadores da comunidade científica (pesquisa psicopatológcia psicossocial, pesquisa psicopatológica filosófico-culturalista, pesquisa psicopatológica etno-antropológica, etc.), fazem-se bem mais prsentes, nas reuniões do LPA, do que os mestrandos e doutorados em pesquisa psicológica comportamental e fenomenológica. E muitos participantes do LPA também participantes do Seminário Magno encontram, em parte, nesse Seminário Interdisciplinar, embora não centrado no objeto, “o   psicopatológico”,  aquilo que mais fortemente e com mais propriedade encontram no LPA: a transdisciplinaridade. No LPA, transdisciplinaridde é  entendida como a contribuição de cada pesquisador levando problemas para o campo do outro.

 

Observa-se que, nas três últimas décadas do Século XX, muitos psicanalistas integraram-se em programas de pesquisa psicológica gerados e desenvolvidos nos programas de pós-graduação das universidades, especialmente nos cursos de psicologia. E observou-se, justamente nas práticas desses programas de pós-graduação, que a redação das pesquisas não é o único revelador das especificidades e das diferenças entre a pesquisa psicológica comportamental, fenomenológica ou psicanalítica. De fato, no momento presente, a direção dos estudos mestrais e doutorais é perspectivada diferentemente no seio da pesquisa psicológica comportamental, na pesquisa psicológica fenomenológica e na pesquisa psicológica psicanalítica. Aparecia, então, que a própria intervenção junto ao usuário, também diferentemente nomeado nas três diferentes pesquisas, ressaltava que estávamos diante de três modelos de pesquisa a coexistirem no mesmo campo da pesquisa da psique ou da alma.

 

Todavia, é especialmente nas redações da pesquisa psicológica comportamental, fenomenológica ou psicanalítica que não podem não se revelar as especificidades e diferenças fundamentais de cada uma. No que se refere à pesquisa psicanalítica, até o presente, diversos estudos e trabalhos foram realizados e publicados, tendo por objeto a construção e redação do caso na pesquisa psicanalítica. (*Cf. Pulsional:  Revista de Psicanálise, n. 140-141).

 

 O LPA e o SM ou SI, após intercâmbios presenciais com o Prof. Dr. Bento Itamar BORGES, da Universidade Federal de Uberlândia, especialista em estudos e pesquisas sobre o gênero ensaio, estão preparando uma série de textos sobre a redação da pesquisa psicanalítica em forma de ensaio metapsicopatológico. O LPA que já publicou alguns textos em revistas está lançando uma revista eletrônica, Mars Gradivus, onde aparecerão especialmente os novos trabalhos dos pesquisadores psicanalíticos do LPA. Um livro sobre o gênero ensaio será lançado pelo Prof. Dr. Bento BORGES.

 

O estudo presente quer também reencaminhar esse assunto ou temática e situar o comparatismo entre pesquisa psicológica comportamental ou fenomenológica e pesquisa psicanalítica. Espera-se, assim, poder vislumbrar um caminho viável, válido, valioso,  profissionalizante ou formativo de pesquisas, cujo tema e assunto são a alma humana. Nesse campo de pesquisas, a viabilidade representa as condições de possibilidade das pesquisas; a validade representa sua consistência lógica; o valor, sua consistência ética e dianoética;  e a  profissionalização ou formação continuada, sua  consistência pedagógico-didática.

 

 Este estudo é, assim, um chamado dirigido tanto aos pesquisadores implicados com temas do campo psi, quanto aos diretores de órgãos de pesquisa e de órgãos de fomento à pesquisa psicológica.

 

Uma observação ainda sobre a retomada da pesquisa psicanalítica nas comunidades universitárias e para-universitárias, onde, até o presente, se encontram muitos psicanalistas que acanhadamente, como que pedindo licença, não abraçam frontalmente a pesquisa psicanalítica e que mal se atrevem a dizer que estão realizando “pesquisa em psicanálise”. Esquecem, nesse ponto, o exemplo de Freud da psychoanalytische Forschung e de Lacan da recherche psychanalytique?

 

A pesquisa psicanalítica é a continuação da formação psicanalítica iniciada com a experiência primordial na situação psicanalítica do tratamento, onde o analisante aparece como o arquimodelo do pesquisador psicanalítico. Assim sendo, a pesquisa psicanalítica na comunidade universitária ou pára-universitária não confere formação psicanalítica primordial, mas, pelo contrário, supõe-na já existente no pesquisador psicanalítico. Dito de outro modo, a pesquisa psicanalítica na comunidade universitária ou pára-universitária é a refundação daquela experiência adquirida e construída na análise pessoal sob a direção de um psicanalista. Assim, o analisante é o insuperável arquimodelo do pesquisador psicanalítico na comunidade universitária e pára-universitária.    

 

COMPARATISMO INCIAL ENTRE PESQUISAS PSICO(PATO)LÓGICAS COMPORTAMENTAL OU FENOMENOLÓGICA

 E PESQUISA PSCIANALÍTICA

 

As pesquisas psico(pato)lógica comportamental e fenomenológica que têm especificidades próprias distinguem-se uma da outra. Todavia, há características comuns a ambas que as distinguem da pesquisa psicanalítica, como há outras características específicas de uma e de outra com as quais, singularmente, se distinguem da pesquisa psicanalítica. Nesta secção, após uma breve introdução à pesquisa psico(pato)lógica científica (a), serão apresentados, singularmente, os três sub-grupos do grupo pesquisa psico(pato)lógica, a saber: pesquisa psico(pato)lógica comportamental (b); pesquisa psico(pato)lógica fenomenológica (c); pesquisa psicanalítica (d).

 

 

        Para alguns autores, como Barry F. ANDERSON (1968), El método científico: estructura de um experimento psicológico, a psicologia e portanto a pesquisa psicológica inclusive, é “uma ciência a mais, e seus procedimentos e suas regras são essencialmente as mesmas que as da física, química, biologia e sociologia; esta semelhança de enfoque é o que faz a todas serem ciências.”  (p. 5). Todavia, pode-se perguntar a esse autor e àqueles que pensam como ele, se por acaso as outras ciências – física, química, biologia e sociologia - sucumbissem, a psicologia também desapareceria? Se a resposta for positiva, então a razão de ser dessas ciências não supõe nem implica a autonomia de cada uma. Se a resposta for negativa, então a psicologia supõe e deveras tem aquilo a que sempre aspira: ser uma ciência autônoma. A forma como Anderson concebe e aparentemente eleva a psicologia equiparando-a a outras ciências não está de acordo com essa aspiração, pois que a psicologia, como as outras ciências, não se sustenta a não ser equiparando-se às outras. Entretanto, ele não esclarece como essas outras se sustentam.  

 

Desde sempre, a ciência é ciência porque observa e porque explica aquilo que observa. Considero que esses dois atos, observação e explicação, constituem dois gêneros, cada qual com muitas espécies.

 

Outrossim, a observação feita por um observador já é observação, quando começa como a mais simples tomada de consciência de senso comum. E ela não se esgota nem se extingue, quando se torna a mais elaborada e crítica observação testada em alteridade com outros especialistas. Os atos de observar e de explicar são continuados: sem isso a ciência que vive de problemas e de novas teorizações, torna-se doutrina e hábito inveterado e dogmático.

 

Acresce que os dados empíricos e imediatos a partir dos quais se dá uma observação elementar ou complexa e controlada não são só dados da sensopercepção. Há dados imediatos da consciência e de outros estados mentais que não podem ser observados em cima do lance. As vivências, por exemplo, podem ser pré-observadas e pós-observadas, isto é, podem ser objeto de auto-observação, graças a lembranças ou a antecipações da vivência. Isto é, da vivência podemos dizer algo antes ou depois dela, mas jamais durante. Assim, no presente, os pesquisadores do campo psi, como o fazem muitos, desde os séculos XIX e XX, os psicanalistas e os fenomenólogos, por exemplo, não se restringem somente ao comportamento, como se restringem os reflexologistas russos (desde Pavlov, etc.) e os comportamentalistas americanos (desde Watson, Skinner, etc.). Então, além do comportamento, há o vivido, objeto da pesquisa fenomenológica, e o inconsciente, objeto da pesquisa psicanalítica.

 

 Segundo a decisão redutora dos comportamentalistas, os pesquisadores psicológicos são pesquisadores não de um imenso campo psíquico resolutamente excluído por eles, mas, pesquisadores, como o Pequeno Príncipe, de um pequeno mundo. E são pesquisadores de um exíguo campo tornado ainda mais exíguo por causa da escolha de seu método pequeno e de pouco alcance. Todavia, método fortemente seguro. Mas, seu método é seguro não por ser restrito e de pouco alcance, mas por se fundar em controle racional. Entretanto, a decisão por métodos seguros não exclui, necessariamente, o campo sempre incomensurável da mente humana.

 

Segundo Anderson, Hyman (1964), “Natureza da investigação psicológica”; Paul Fraisse (1968) O método experimental, o pesquisador psicológico como qualquer pesquisador em campo de pesquisa, pode ser apresentado por meio de cinco funções específicas:

 

1.   a função de inventor de problemas e de hipóteses;

2.   a função de técnico em observação de fatos;

3.   a função de operador ou analista de fatos;

4.   a função de pensador que explica os fatos e lhes dá sentido;

5.   a função de expositor e demonstrador das condições necessárias e suficientes da existência e causalidade dos fatos apresentados. (Cf. por exemplo, Hyman, 1964, p. 11).

 

Então, aquilo que distingue as pesquisas não seria o método, mas o objeto, o assunto, o tema. Assim, os temas do pesquisador psicológico seriam a aprendizagem, o comportamento, a resolução de problemas, tudo aquilo que, comumente, se considera como gênese e estruturação das funções da mente, etc. Os temas do pesquisador psicopatológico seriam os assuntos referentes à gênese, identificação e modificação dos processos e funções também considerados transtornos da mente.

 

Todavia, podemos duvidar se o método do pesquisador psicológico concebido pelos autores recém citados e o método do pesquisador psicopatológico podem e devem ser os mesmos. Não é difícil ver que aquilo que distingue o pesquisador psicológico do pesquisador psicopatológico não são tanto os assuntos ou temas, mas, especialmente as idéias originais e desbravadoras sobre esses temas e assuntos. Então, são os métodos segundo os quais os mesmos temas são tratados diferentemente. São eles que distinguem uma pesquisa psicológica de uma pesquisa psicopatológica.

 

 Observe-se também que, por um lado, as idéias fecundas não compartidas acabam ficando e desaparecendo na intimidade ou obscuridade do pesquisador. E, por outro lado, uma metodologia que compartilha idéias triviais não passa de instrumento estéril.

 

Olhando-se de perto, também o físico e o psicólogo são diferentes não somente por causa do assunto ou do tema, mas também por causa do método da pesquisa. Assim se passa, como se disse, entre o pesquisador psicológico e o pesquisador psicopatológico que diferem tanto pelo tema como pelo método da pesquisa.

 

Entretanto, o pesquisador psicanalítico que já se distingue do pesquisador psicológico comportamental e do pesquisador psicológico fenomenal tanto pelo assunto ou tema, quanto pelo método de pesquisa, ao distinguir-se de ambos, não conseguiu sempre convencer esses primos próximos que a pesquisa psicanalítica é científica tanto pelo objeto quanto pelo método. Essa exigência, da qual o pesquisador psicanalítico não pode eticamente e dianoeticamente se subtrair, confunde os psicólogos e também os psicanalistas.

 

Pelo lado dos pesquisadores psicológicos comportamental e fenomenológico, essa confusão se explica pelo fato de que eles conhecem, mas não cultivam o método psicanalítico de pesquisa. Pelo lado dos psicanalistas, ela se explica pelo fato de que a teimosia e o obscurantismo pré-freudianos de que padecem os psicanalistas contemporâneos, faz com que eles se ergam, ou em posição de desprezo pela pesquisa universitária ou acadêmica, ou em posição de incapacidade clamorosa manifestada especialmente quando pretendem articular temas específicos da pesquisa psicanalítica mal-usando o método da pesquisa psicológica.

 

Atualmente, psicanalistas ligados a programas de pesquisa universitária consolidada ou para-universitária séria afirmam e buscam cada vez mais os temas e os assuntos metapsicológicos ou metapsicopatológicos da pesquisa psicanalítica, bem como a viabilidade, o valor, a validade e a profissionalização da pesquisa psicanalítica “tout court”.

 

O presente estudo reflete o fruto e ao mesmo tempo a atividade continuada de pesquisadores psicanalíticos que, nas universidades e centros para-universitários de pesquisas, incluindo algumas raras instituições psicanalíticas, não se curvam nem à teimosia ou obscurantismo dos psicanalistas pré-freudianos contemporâneos nem a certo espírito exclusivista encontrado entre alguns pesquisadores psicológicos universitários, pouco abertos à perspectiva de que o estudo científico da alma humana pode ir muito além dos limites dos temas e assuntos da psicologia e dos procedimentos do método da pesquisa psicológica comportamental ou fenomenal. Mesmo assim, não se pode não constatar que a teimosia e o obscurantismo grassam, com diferentes florescimentos, tanto no meio dos psicanalistas, quanto no meio dos psicólogos.

 

A pesquisa psicológica comportamental ou fenomenal e a pesquisa psicanalítica diferem tanto pelo objeto de pesquisa, quanto pelos métodos empregados e também pela ética que orienta os pesquisadores, bem como pela construção e redação dos casos estudados e textos destinados à circulação do conhecimento alcançado. Outras diferenças podem ser apresentadas. Todavia, o estudo atual atém-se preponderantemente na comparação entre pesquisa psicológica comportamental e fenomenal e pesquisa psicanalítica, a partir: a) dos métodos empregados; b) dos objetos da pesquisa; c) da ética e da dianoética comuns e específicas dos pesquisadores; d) da construção e redação do observado (caso) e da construção e redação da pesquisa mesma.

 

Como dissemos a pesquisa implica observação e explicação. A observação é uma das formas de acolher os dados imediatos da sensopercepção, da vivência ou das formações do inconsciente. A observação não é somente hetero-observação é também auto-observação. Além disso, além do olhar podem também ser obtida compreensão, como na pesquisa fenomenológica, e também as formações do inconsciente identificas pela escuta psicanalítica.

 

Observação, seja hetero-observação, ou auto-observação, é observação de fatos, ou observação empírica. A expressão evidência empírica, ou evidência dos fatos, implica certeza e conhecimentos imediatos,  isto é, a evidência é uma das formas primeiras de explicar o que se observou. Uma primeira noção de evidência aparece nessa definição do “Vocabulário” de Lalande: A palavra evidência “estende-se a toda a certeza imediata ou não (por exemplo à certeza histórica), e até ao testemunho”. Mais: “Uma proposição é evidente se todos os homens que têm a sua significação presente no espírito, e que se põem a questão de saber se ela é verdadeira ou falsa, não podem de maneira nenhuma duvidar da sua verdade.” (p. 354b).

 

A evidência é uma das formas primeiras de explicar o que se observou. Uma primeira noção de evidência aparece nessa definição do “Vocabulário” de Lalande: A palavra evidência  “estende-se a toda a certeza imediata ou não (por exemplo à certeza histórica), e até ao testemunho”. Mais: “Uma proposição é evidente se todos os homens que têm a sua significação presente no espírito, e que se põem a questão de saber se ela é verdadeira ou falsa, não podem de maneira nenhuma duvidar da sua verdade.” (p. 354b).

 

A evidência lógica é a que é, desde o início, direta ou imediatamente evidente por si, como “o todo é maior do que sua parte”; ou que se torna evidente de forma  indireta ou medianamente, como a certeza de que existe pelo menos um pato branco e um pato preto quando lemos o enunciado seguinte: “no tanque da praça há cisnes brancos e pretos”.

 

No Lalande, lê-se que Sexto Empírico refere que, nos séculos II e III, havia duas escolas de médicos sábios, a dos empíricos [empeirikói] e a dos lógicos [lógikói]. Daí teriam surgido os termos e as primeiras noções de empírico e lógico.

 

Com Kant, os alemães empregam dois termos “Empiriker” (antes da ciência, fora da ciência) e “Empirist” (dentro da ciência). O primeiro corresponde aos nossos “pré-científico; “extracientífico”; “pára-científico”. O segundo corresponde ao que entendemos por “evidência empírica”.

 

O termo empírico é também sinônimo de indutivo; assim, seu antônimo seria racional, isto é, dedutivo. O Aurélio apresenta o verbete “empírico”, como proveniente do grego “empeirikós” e latinizado como “empiricu”.  Então, “empírico” significa o conhecimento que provém, sob perspectivas diversas, da experiência imediata, sensível e palpável, isto é, provada pelos órgãos de nossos sentidos.

 

Erradamente, muitos psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, etc., consideram as vivências, os sentimentos, as emoções e as paixões da mente como se não fossem experiências imediatas, pois que, segundo eles, não são provadas, a não ser indiretamente, pelos órgãos dos sentidos. Entendo que homenageando esses psiquistas pela metade, nosso escritor Luís Fernando VERÍSSIMO escreveu O psicanalista de Bagé.

 

Por sua vez, “racional” significa o conhecimento que provém, também sob perspectivas diversas, de princípios logicamente evidentes quer direta ou indiretamente.

 

Chamo a atenção para uma acepção especial do termo “empírico” que o Aurélio apresenta duas vezes: “[Acepção] 2. Baseado apenas na experiência e, pois, sem caráter científico: "As calamidades ou os simples dissabores nas relações do coração provinham de que o amor era praticado de um modo empírico; faltava-lhe a base científica." (Machado de Assis, Histórias sem Data, p. 193).  [Cf., nesta acepção, racional (4).]” Por fim, o Aurélio informa que como substantivo, “empírico” na expressão “indivíduo empírico” é sinônimo de “charlatão”.

 

Um experimento psicológico é um ensaio controlado destinado a verificação de uma hipótese verificável na prática. (Indica-se a leitura de “Métodos das ciências do comportamento”, Parte I, do livro, O comportamento humano, Malpass, Hocutt, Martin e Givens. Editora Renes, Rio de Janeiro). O adjetivo derivado de experimento é, pois, “experimental”. E, “experimental” implica empírico. Todavia, como é que se pode controlar o experimento sem uma racionalidade ínsita que justifique as regras do controle?  Em ciência, é necessário operar simultaneamente com duas condições: com o empírico (entendido como observacional – hetero e auto-observacional -  ou experimental) e com o racional  (entendido como condição necessária embora não suficiente).

 

O Lalande apresenta o termo “empírico” em oposição a sistemático, racional e puro. Assim, em primeiro lugar, empírico, oposto a sistemático, vem a ser “o que é um resultado imediato da experiência e não se deduz de nenhuma outra lei ou propriedade conhecida. ‘Um procedimento empírico, uma medicação empírica.’ Diz-se igualmente das pessoas enquanto os seus conhecimentos e as suas regras de ação são empíricas no sentido que acaba de ser definido: ‘Um empírico.’ Este sentido parece mesmo ser o mais antigo.

 

E, em segundo lugar, empírico, oposto a racional, vem a ser “o que exige o concurso atual da experiência, como a física, em oposição ao que não o exige, como as matemáticas. Esta oposição aplica-se ao estado presente das ciências, à sua metodologia, não à sua natureza nem à sua origem.

 

E, em terceiro lugar, empírico, oposto a puro, no sentido sobretudo kantiano, vem a ser “o que na experiência total não vem das formas ou das leis do próprio espírito, mas lhe é imposto de fora: a intuição de um triângulo geométrico é sensível, mas pura; a de um cartão branco triangular é sensível e empírica.”

 

 

COMPARATISMO ENTRE PESQUISAS PSICOLÓGICA E PSICANALÍTICA

PERSPECIVADO DE FORMA MAIS SIMPLES,

MAIS CONTUDENTE E MAIS FECUNDA

 

        Os dados empíricos, imediaos à observação (comportamentalismo), imediatos à consciência (fenomenologia), imediatos à escuta psicanalítica (psicanálise) permitem ressituar aquilo que se viu, como muito embaralhado, nas participaçoes do SI ou SM. Uma primeira cosntatação é que todo comportamento, na pesquisa psicológica, é neurocomportamento. Presentemente, macrocomportamento e microcomportamento do SNC congregam o psicólogo comportamentalista, o psicólogo cognitivista e o neuropsicólogo. O fundamento da psique, para eles, é o biológico e o aparelho ordenador desse biológico é o aparelho neurológico. Assim, a pesquisa psicológica difere da pesquisa psicanalítica, para aqual o fundamento da psique é o inconsciente e o aparelho ordernador do inconsciente é o aparelho psíquico inventado por Freud. E é a partir desses fundamentos que os pesquisadores explicam ultimamente os dados imediatos observados. Todavia, os dados imediatos psicopatológicos identificados sob o nome que apresentamos, Psicopatologia Elementar,  não deixam a ninguém indiferente: o pesquisador psicológico (neurocomportamentalista, fenomenológico, psicossociológico, etno-antropológico, filosófico-culturalista, etc.) ou o pesquisador psicanalítico. Perante o dado psicopatológico identificado pela Psicopatologia Elementar, os pesquisadores se ordenam a partir da condiçâo de terem ou não terem uma teoria de causalidade psíquica e um aparelho psíquico específico, análogo ao aparelho ótico para o astrônomo.

 

        Aparentemente, o pesquisador psicológico que se apoia na causalidade neurobiológica para a explicação da psique pareceria ser o “pendant” do pesquisador psicanalítico que se apóia na causalidade psíquica para a explicação da psique. Assim, ficariam num terceiro campo aqueles que nem tem a causalidade biologica nem a causalidade psíquica para explicar a psique.

 

        Sem duvida, esta solução é mais uma concialiação do que uma identificação do fulcro do problema. Na verdade, ao tratar-se do psíquico e especialmente do psicopatológico, ou se tem uma teoria de cuasalidade psíquica e um instrumento psíquico, tipo aparelho psíquico, ou não se tem. Então, fica evidenciado que, nessa perspectiva, o pesquisador psicanalítico comparece nos estudos, pesquisas e tratamentos do campo psi de forma diferente dos outros pesqusiadores psicológicos. O não terem o fundamento e o aparelho do pesquisador psicanalítico, os pesquisadores psicológicos, diferenciados entre eles, por outras características, assemelham-se. Por isso, fica mais viável, válido, valioso e cosntrutivo, ressituar o LPA, perante somente dois campos de pesquisa: a pesquisa psicológica e a pesquisa psicanalítica. De fato, o que faz a diferença e imprime outra concepção ao campo psi, depois de Freud, é a teoria da causalidade psíquica e o instrumento de trabalho chamado aparelho psíquico.