Mars Gradivus

Revista do Laboratório de Psicanálise e Aprendizagem

     

           Instituto de Psicologia        UFRGS

   

       Ano 1      Número 1        2002

 

 

Rede de sentido-significação e rede de causalidade

                                                                                   

Jorge Flores

 

 

Numa floresta tropical, homens caminham a olhar para o topo das árvores, seus olhos e ouvidos atentos buscam por imagens ou ruídos que denunciem a presença dos macacos que tencionam capturar para comer. Em um dado momento, um deles retira de sua bolsa uma espécie de apito e sopra, o som que sai do apito lembra o grito produzido por um pássaro... os macacos, até então invisíveis — em bandos e em franca agitação —, descem dos galhos mais altos para os mais baixos. O alvoroço leva a crer que algo do som os assustou, mas ao contrário do esperado, descem para o mesmo lado de onde o som partiu. Nesse momento, são alvejados por dardos envenenados, arremessados, através de uma espécie de sarabatana, pelos homens que espreitavam desde o solo e que já contavam com seus movimentos. Diuturnamente, depois de capturar um número suficiente de presas, guardam seu material e saem satisfeitos... A estratégia de caça foi eficaz, como tem sido ao longo dos séculos[1][1].

 

Um nativo, quando interrogado, explica que o apito “é o grito da águia e que o macaco desce dos galhos mais altos para se proteger”. O observador, depois de várias incursões de caça [junto aos nativos] à floresta, descobre que os macacos, ao avistarem o homem, fogem para os galhos mais altos — como fazem [em geral] quando avistam felinos etc. — ficando invisíveis.  O observador, não satisfeito, passa a observar a águia e sua relação com os macacos e descobre o seguinte: os macacos daquela região, sempre que vêem uma águia fogem, mas não só quando vêem, basta que escutem seu grito. Nesses momentos, descem para os galhos mais baixos das árvores, apresentando um comportamento semelhante ao demonstrado quando ouvem o apito. Tomando e soprando o apito, comprova, também, que o som do apito e o som produzido pela águia [no vôo] são de uma semelhança assombrosa.

 

Não se sabe ao certo se os macacos ao ouvirem o som do apito pensam de fato que se trata de uma águia a sobrevoar seu habitat e da qual é melhor fugir[2][2]. Não se sabe sequer se eles pensam ou não, mas mesmo que pensem, seus pensamentos não seriam comparáveis aos dos homens, os macacos não possuem uma organização simbólica. Dessa série de eventos observáveis somente se pode depreender uma certa relação entre o apito e a descida dos animais. Uma relação causal parece existir claramente, e que pode ser descrita do seguinte modo: o soar do “apito”, a descida apressada dos animais, que a seguir são presas fáceis. Estas cenas se repetem todas as vezes que os homens saem para caçar e procedem da forma descrita.

 

Frente a isso, poder-se-ia, ainda, perguntar o motivo pelo qual os macacos ainda não aprenderam que é melhor esperar para ver se se trata mesmo de uma águia [ou não], ou mais ainda, por que não param para contabilizar as perdas dos indivíduos, pois que uma águia captura apenas um macaco de cada vez, enquanto que os homens pegam vários macacos de uma só vez — parece mesmo que esta aprendizagem complexa não está acessível ao macaco — mas não é esse o problema que interessa. O importante é que os homens não só sabem que os macacos fogem para o topo das árvores quando os avistam, mas, também, que eles fogem para os galhos mais baixos na presença visual ou auditiva de uma águia. Os homens, com a observação e com a reflexão sob a rede de causalidade, discriminaram estes fatos e conseguiram, com um instrumento simples — certamente a partir de várias tentativas e erros, durante muitas gerações —, reproduzir os sons aquilinos, trazendo os macacos ao alcance de suas sarabatanas — outro instrumento simples, resultante da impossibilidade de o homem alcançar macacos no alto de uma árvore e da intenção de alcançá-los. Os caçadores desta região passam [há séculos] esta informação uns aos outros, de dois modos, um através de descrições de como se fazem os instrumentos e a caça e, da demonstração, ou seja, fazendo os instrumentos e caçando na presença daqueles que devem aprender. Já os macacos seguem presas fáceis dessa “rede” exterior e suas gerações seguem cegas e surdas a esta série de eventos.

 

De uma parte, este é apenas um fragmento menor da história do conhecimento produzido pela espécie humana no planeta terra, mas por mais rudimentar e simples que pareça, essa é uma descrição da tecnologia disponível em uma determinada comunidade e dadas as contingências e necessidades locais, é um instrumento tão poderoso quanto à tecnologia computacional e não menos sagaz que as construções mais abstratas. Representa, de todo modo, um eficiente domínio da rede de causalidade e o modo como o homem está inserido nessa rede de causalidade, ativamente. De outra, serve como ponto [arbitrário] de partida para se interrogar a possibilidade real de haver um mundo exterior independente do sujeito e, de investigar, qual o tipo de relação que se pode ter com este mundo, em termos de conhecimento e verdade, sem cair numa posição dogmática[3][3] acerca da existência de um mundo exterior ou em uma posição cética que subordina o mundo ao modo humano de existir.

 

Este pequeno fragmento de uma pesquisa antropológica, portanto, parece decisivo na medida em que apresenta três[4][4] faces de uma mesma moeda. A primeira, se os homens não existissem ou se eles não andassem mais pelas florestas, as águias seguiriam se alimentando de macacos, pelo menos daqueles macacos que não tivessem sido rápidos o suficiente em descer para os galhos mais baixos [os velhos ou os demasiado jovens], mas esta seria uma “cena muda” para os homens — no universo, neste instante, muitas coisas estão ocorrendo e determinando uma série de eventos que não serão jamais conhecíveis, portanto, no que nos diz respeito aos homens, eles não estão acontecendo, a não ser que uma de suas conseqüências invada a vida humana. Embora seja uma cena muda para os homens, ela está ocorrendo para macacos e águias há, talvez, milhões de anos como uma cena fixada em um filme e, portanto, vertiginosamente repetida na natureza e, isso, pode ser denominado como sendo a rede de causalidade ou mundo.

 

A segunda face começa a se delinear pela existência do homem como um organismo biológico que precisa, para continuar como organismo biológico, estar em constante troca energética com o meio. O homem como a águia e como o macaco precisa ter acesso a fontes de energia que mantenham seu organismo em funcionamento. Portanto, como os demais seres, está inserido na rede de causalidade do mundo. Ou seja, inicialmente, como os macacos ou águias, leões e elefantes, foi mantido por seu comportamento exploratório. Nesse caso seu encontro com tais fontes de energia foi, também, aleatório e acidental, comportando um grande risco para a sua sobrevivência, como indivíduo e como espécie. De fato, nesse nível operante da “natureza”, os seres, dos unicelulares aos pluricelulares, têm se ajustado à disponibilidade de alimentos: maiores populações, quando há fartura e menores populações, quando há escassez[5][5].  Uma outra característica de animais complexos é possuírem sistemas nervosos complexos que lhes permite uma interação com maior grau de independência em relação aos estímulos do ambiente onde devem existir. Nesse sentido, a discriminação de estímulos e a memória são fatores decisivos, para a sobrevivência. O homem está inserido no mundo, na rede de causalidade, como animal complexo e com um sistema nervoso central mais complexo do que todos os outros animais, portanto, está dotado de capacidade de lidar com elementos da rede de causalidade com relativa autonomia, mas não está fora da rede de causalidade. Tem de nascer e morrer; comer e se reproduzir; preservar-se [fisicamente] dos perigos à sua integridade que estão presentes na rede de causalidade etc.

 

A terceira face é a compreensão do homem: seu aprendizado da relação que há entre sua fome, a fome da águia e a fome e a vulnerabilidade do macaco. Esta é a borda da moeda...o homem busca ativamente porque aprende. Acha-se mais facilmente aquilo que se busca, portanto, quando há fome o objeto da saciação é o mais indicado a ser buscado. Enquanto a águia e o macaco se movimentam em suas “regiões” de alimentação e aí topam com seu alimento; o homem, diferente do macaco e da águia, busca porque dominou os elementos componentes da sua cadeia alimentar, depois conseguiu expandi-los e controlá-los. Aprendeu como os outros “concorrentes” se alimentam e passou a se nutrir a partir das mesmas fontes, competindo pelo mesmo alimento. Compreendeu a força de uns e outros e suas vulnerabilidades. Mas não só isso, entendeu, também, os “hábitos” de certos animais e os ciclos de certos vegetais e empreendeu a domesticação de animais e a agricultura — jogar uma parte que se desprende de uma árvore ao chão, cobri-la com terra e fornecer-lhe água com regularidade e esperar ela germinar, resulta de um domínio assombroso da causalidade do mundo. O homem discriminou entre um galho podre ou quebrado pelo vento e um fruto como elementos de reprodução vegetal, depois discriminou entre semente e polpa, nenhum outro ser no reino animal escolhe que espécie de plantas e de frutos estarão presentes em sua “região” de alimentação, seguem simplesmente os ciclos da natureza, ou vigiam — sempre que podem — de perto os movimentos daquilo que lhes fornece energia. O homem conseguiu organizar como memória e como cultura sua relação com a rede de causalidade, as relações entre os participantes da cultura e, como nenhum outro ser na natureza, construiu uma relação consigo mesmo em uma rede de sentido-significação; mas esta rede propriamente humana não anula a rede de causalidade, a organiza, a dociliza, a torna legível para todo ser humano inserido na cultura. Antes disso o aprendizado era feito e refeito milhares de vezes, pois se perdia com a morte do indivíduo, como acontece com a águia e com o macaco. A importância de se contar uma história, um mito, uma epopéia não se deveu somente a elementos de entretenimento, psicológicos[6][6], literários ou morais que pudessem neles conter, mas principalmente pela propriedade de reter o acontecimento no nível do conhecimento e pela eficácia da transmissão desse conhecimento como uma história organizada e fácil de memorizar. As histórias de caça, de aventuras, de eventos sociais etc, são antes relatos de problemas e de soluções de problemas, de dificuldades, de esforços na busca de soluções, de fracassos e de advertências.

 

É corriqueiro negligenciar a complexidade dos elementos acima discutidos. Diferenciar um tipo de estímulo visual numa multiplicidade de estímulos não é uma operação simples e nem exclusivamente humano. A águia e o macaco podem ser tomados como exemplos vigorosos, nesse sentido. Imagine-se que uma águia, que precisa se alimentar de macacos, não seja capaz de diferenciar um macaco de um outro animal qualquer ou de uma árvore ou de folhas de um galho... Ela passaria a maior parte do tempo gastando energia em um processo interminável de tentativa e erro... quantas águias não se envenenariam com alimentos nocivos? Quantas não seriam comidas por leões quando os atacavam [tentativa e erro]? Algo [nas águias] permite-lhes diferenciar macacos de árvores, de leões, enfim de tantos outros estímulos, que no contexto imediato da alimentação, são desinteressantes ou mesmo evitáveis. Imagine-se um macaco descendo [ou subindo] da árvore ao menor ruído, ao balanço de qualquer folha; imagine-se seu medo interminável e sem tréguas... O fato é que macacos não se enganam quanto a águias serem perigosas, nem águias atacam tronco de árvores por macacos... Na natureza, pode-se afirmar, há modos de funcionamento fixos, que até se pode supor temporais, locais ou históricos... por exemplo, há um limite entre o que é uma fonte de energia útil e o que não é energia útil, para um organismo biológico, isso limita o buscável.

 

Nesse sentido, um organismo biológico deve ser dotado de um mínimo de poder de discriminação para continuar vivendo, senão perece. O macaco “sabe” o que lhe é alimento, assim como a águia “sabe”... em que pese esse saber não possuir mais do que algumas semelhanças primárias[7][7] com o Saber humano, ele serve para compreender a função fundamental desse último e sua relação com o mundo real. Todo “saber” — nesse nível — é antes de tudo um comportamento, ele viabiliza o organismo, possibilita que este organismo opere na rede de causalidade em que está inserido desde sempre. Portanto, esse “saber”, antes de tudo, garante um real [independente] com sua presença, pois que representa um esforço do organismo em se ajustar a esse real inexorável e implacável. Não faria o menor sentido perguntar se o que “sabe” uma águia ou um macaco é resultante do mundo ou de um possível campo conceitual prévio, um a priori,  que é condicionante de seu acesso ao mundo. O a priori é sua inserção no mundo como organismo que precisa manter uma relação mínima, mas precisa, com esse “real independente de nós” para continuar como organismo vivo. Assim como a águia e o macaco, o homem não tem como estar fora do mundo nem mesmo no nível do conhecimento, porque a complexidade de seu conhecimento não representa e nem pode representar uma saída do mundo, ao contrário, ela é uma maneira de melhor apreender essa rede de causalidade que é o mundo. Portanto, como os animais o homem está no mundo, mas ele é o único que pode saber como funciona certos setores, certos fragmentos desse mundo onde está inserido, exatamente porque a rede de sentido-significação, com que opera o homem, fixa e ao mesmo tempo distancia esse mundo, tornando-o objetivado. É, pois, essa rede de sentido-significação o elemento fundamental para que o homem possa compreender como o real [onde está inserido desde o nascimento] funciona, podendo se ajustar aos elementos inexoráveis desse real ou promover um ajuste do real as suas necessidades e prazeres, esse esforço denominou-se cultura.  Nesse sentido, o conhecimento exige um “real independente de nós” como referente e, ao mesmo tempo, o real [onde os homens são] é precondição de todo o conhecimento. Mas isso pode ser demonstrado de outro modo e sem qualquer apelo dogmático.

 


II

O real não é passível de dúvida

 

Antes mesmo de homem e águia e macaco surgirem no universo, plantas germinavam — umas com sementes, outras por esporos, com ou sem troca de gametas etc. —; animais se alimentavam e o homem, quando apareceu, passou a fazer parte desse mundo, sem possibilidades de modificar suas regras, embora, pudesse conhecer e manipular tais regras, algumas a seu favor. Não há regras fixas? Elas só existem segundo princípios do conhecimento humano ou como desígnios de Deus? Não. Nenhum organismo subsiste sem se alimentar, os modos são diferentes, as estratégias e os recursos de cada um são diferentes, mas todos dependem de uma constante troca com o meio. Sequer podem saltar de níveis do ecossistema. Algo ou alguém que apareça como bactéria desaparecerá como tal, portanto, aquele que surge como homem desaparecerá como homem. Uma águia não pode ter a mesma dieta de um macaco ou de um cupim e sobreviver. O macaco pode se nutrir de uma árvore, mas não tem como se nutrir a partir dos nutrientes de que se nutre a árvore, precisa esperar que a árvore se nutra, para depois se nutrir dela. Se as árvores desaparecerem desaparecerão os macacos e toda uma série de outros animais. Além dessas, há outras regularidades verificáveis.

 

Portanto, antes de qualquer coisa, há redes de causalidades verificáveis[8][8] no mundo, que não dependem de interpretações humanas, mas das quais a sobrevivência do homem depende incondicionalmente, ainda que se possa [de modo cético] afirmar que o homem não tem acesso a elas, pois sonha... pois a linguagem... pois é um cérebro numa cuba... De fato, tais redes de causalidades aparecem como regularidades e por isso são apreensíveis. O olho não vê os objetos[9][9], mas oferece uma porta ao cérebro que, assim, apreende os objetos, porque o cérebro discrimina e adapta as regularidades através dos estímulos diferentes que chegam aos olhos. O que chega ao olho são apenas uma multiplicidade de ondas eletromagnéticas refletidas pelos objetos. Se não houvesse ondas eletromagnéticas não se enxergaria e não se teria uma organização visual do mundo. Contudo, mas muitos animais não dependem do sentido da visão para possuírem um mínimo de organização do mundo onde podem existir; de fato todos [com ou sem olhos] estão presos à mesma rede de causalidade em que os homens estão. Imagine-se que um cego, surdo-mudo, inaugurasse com sua presença um outro mundo... Ele não enxerga e não participa da linguagem, portanto, para ele não há a mesma rede de causalidade que há para os que enxergam, por exemplo: há uma medicina [e doenças específicas] para os portadores de olhos e ouvidos saudáveis [e que estão inseridos na linguagem] e há outra para os que não estão inseridos na linguagem; nada mais estapafúrdio.

 

Os cegos e surdo-mudos, vivem no mesmo mundo que os que enxergam e falam, estão expostos às mesmas regularidades e vicissitudes, independentemente de dominarem uma linguagem ou não. Crianças que nasceram sem o cérebro ou com ele extremamente lesionado padecem do mesmo mundo, logo não é plausível defender o mundo como efeito ou ilusão da consciência. Nem mesmo as regularidades, nem a taxonomia são invenções humanas, mas ênfases objetivas, e o conceito um passo adiante da complexidade perceptual discriminativa, porque representa não só discriminar, mas, também, a apresentação do universo vivido a um igual. Nesse sentido, a discriminação não é somente um processo histórico, mas um processo comparativo entre estímulos e, depois, entre vivencias e experiências, via linguagem e cultura. Para o cérebro o estímulo primeiro só ganha sentido no segundo, que depois formará com um terceiro; onde primeiro, segundo e terceiro se inteligibilizam reciprocamente. Normalmente se pensa o movimento histórico para frente, do início para o fim. O conhecimento, como experiência vivencial, se dá em sentido oposto. O último é que possibilita a discriminação do primeiro, de modo que, é sempre na repetição do estímulo que se dá a discriminação e a conservação diferenciadora. Portanto, sem processos de memória não há possibilidade de conhecimento e nem acesso ao mundo, mas a memória não é meramente uma acumulação passiva e linear de estímulos ou eventos. Não obstante isso, uma memória que não tenha como referencia o mundo real impossibilita um organismo de mover-se no mundo da causalidade, condena-o a morte[10][10]. Mas isso não é facilmente explicitável.

 

Aristóteles não compreendia os alimentos como se compreende hoje, ou seja, o como e o porquê em Aristóteles eram diferentes. Ele não sabia da existência de uma célula e de suas necessidades de nutrientes, não sabia nada sobre metabolismo celular, nem sobre liberação de energia biológica. Hoje, sabe-se como se dá o ciclo de alimentação e reprodução celular, mas todos, Aristóteles — assim como os homens atuais e enquanto seres vivos— estava preso à cadeia alimentar e por isso precisava dos alimentos; precisava evitar doenças e, aprender a causalidade que previamente existia no mundo. Neste sentido, só se existe porque o mundo[11][11] existe [e existiu] previamente e “independente de nós”, mas só se pode saber disso porque se é o testemunho dessa existência. Não importa que o homem esteja limitado a conhecer apenas um fragmento desse mundo, se ele é capaz de conhecer algumas das relações de causalidade, ou seja, o modo como funcionam algumas coisas no mundo, seu conhecimento é um conhecimento do real.

 

Então, se se pode afirmar[12][12], com a fenomenologia, que “o mundo natural não tem sentido, e por isso também não tem significado”, e que: “atribuímos-lhes essas propriedades, porque ao falar do mundo natural já estamos mergulhados em certos determinismos histórico-culturais de caráter não explicitados”, é porque se é capaz de objetivar e reconhecer que a linguagem com que se apresenta o mundo, para si mesmo e para os outros, é, fundamentalmente, um processo diferente do mundo. Dizer que o mundo tem sentido e significado é um antropomorfismo não aceitável, pois que o mundo funciona sem simbolizações e sem intenções, mas com regularidades. Dizer que regularidades são processos intencionais de uma natureza ou de uma mente infinita é atribuir ao mundo propriedades humanas que ele não possui. Outra coisa é negar que a rede de causalidade, que se apresenta como regularidade ao homem,  é real. Ora, é exatamente porque o homem pôde discriminar que sentido e significação são modos humanos de organizar o que se apresenta como regularidade do mundo [e com isso fazer história, ou seja, transmissão de conhecimento] é que ele pôde perceber que sempre esteve em um mundo “independente de nós”. 

 

O mundo mesmo não mudou, nem suas redes de causalidade: os dinossauros estiveram sob as mesmas regularidades que os macacos, águias e homens. Também, não é aceitável defender que exista um mundo para os macacos, um para as águias e outro para os homens; ter-se-ia que inventar algo mais complexo e estapafúrdio para justificar o encontro entre esses seres multimundos. Quer dizer, mais do que um “núcleo duro de racionalidade humana cognitiva comum a todas as culturas de todos os tempos e lugares, imposto pelas necessidades de sobrevivência[13][13], há sim um núcleo duro imposto pela rede de causalidade do mundo em que todos os animais e todas as culturas estão inseridas. Se um homem acende o fogo com um fósforo; com um arco de corda e capim seco; pelo atrito de pedras, cujas faíscam inflamam uma substância, essas diferenças dependem somente da época e da cultura na qual estará inserido esse homem. Mas o fogo obedecerá as mesmas regras em qualquer tempo e em qualquer cultura, não há um fogo particular para cada homem ou para cada cultura ou para cada tempo. Logo, o conhecimento e a linguagem [como sentido-significação] não podem ser testemunhas da inacessibilidade do mundo, não podem representar uma moeda cética que levaria o pensamento a relativização do conhecimento e do mundo. Se se pode falar desse modo, com o artifício necessário da suspeição sobre o conhecimento estabelecido sobre o si mesmo do homem e sobre o caráter definitivo do conhecimento não é porque o acesso ao mundo sempre já está contaminado [irremediavelmente contaminado] pela condição humana; mas, ao contrário, só é possível falar e agir desse modo porque a rede de sentido-significação, com a qual o homem se move inteligibilizando [objetivando] a rede de causalidade, permite-lhe objetivar o seu próprio movimento na rede de sentido-significação.

 

O mundo e a rede de causalidade são prévios ao homem, mas o sentido e o significado são peculiaridades humanas, que dependem da existência de um “real independente de nós”. Nesse sentido, é importante afirmar que o mundo não tem sentido nem significação porque o sentido e o significado são propriedades de proposições humanas e não propriedades do mundo. Do contrário, estar-se-ia assumindo uma posição teológica de concepção do mundo. O mundo possui redes de causalidades[14][14] nada mais. Portanto, as redes de sentido-significação são construções humanas que não fazem parte do mundo enquanto rede de causalidade, que não podem mudar as redes de causalidades nem as justificar, muito menos, como por muito tempo pretendeu o pensamento teológico, colocar os homens fora delas. Nesse sentido, se não se pode duvidar da realidade e independência do mundo, resta interrogar em que medida as redes de sentido-significação conseguem explicitar e apresentar as redes de causalidade do mundo a outros membros da comunidade presente e futura, de modo que estes a partir das redes de significação possam operar na rede de causalidade do mundo e tirar vantagens disso. Enfim, suspeitar do conhecimento é, em última instância, interrogar e precisar o ponto onde ele começa a fracassar como modo de explicitação das redes de causalidade do mundo, ou seja, interrogar onde termina a verdade e onde começa a imaginação e o consenso, o acordo[15][15]. Reflita-se  sobre os macacos, as águias e aos nativos na floresta...

 

Já ambientado a floresta, o observador — após ouvir detalhadas explicações sobre em que árvores ficavam os macacos, que tipo de frutos buscavam etc. — sai guiando o grupo, pela primeira vez, para uma caçada. Em um determinado momento puxa o apito e sopra... os macacos [aos atropelos] começam a descer e são capturados. A linguagem funcionou. Seria demasiado demorado reconstruir como o observador aprendera a produzir o veneno, as setas e as sarabatanas — as inúmeras vezes em que teve de observar e escutar e reproduzir em voz própria e baixa o que lhe ensinavam, até que isso não fosse mais necessário[16][16] —, o que importa é que no dia da caçada obteve sucesso. A linguagem funcionou, pois se daquele momento em diante o observador quisesse morar na floresta, não só ele, mas seus descendentes poderiam caçar e sobreviver como fizeram por séculos os nativos daquele lugar. Portanto, todos os homens estão desde sempre submetidos à causalidade do mundo e, por isso, podem em certa medida apreender a causalidade do mundo — o homem como a águia não ataca qualquer objeto, mas seleciona objetos e situações — e comunicá-la como significado e como sentido do mundo, porque o homem não pode comunicar de outro modo.

 

À medida que isso é um poder a mais, que o homem tem em relação a outros animais, representa, também, a possibilidade de que as significações e os sentidos se desprendam de seus contextos de origem e ganhem existência própria, principalmente quando não se referem ao mundo e a rede de causalidade do mundo. Mas isso é radicalmente diferente de se supor uma dependência do mundo em relação a conceitos e, mais importante, não se pode confundir rede de significação e rede de causalidade[17][17]. Neste sentido podemos investigar algumas possibilidades:

 

Em larga medida, esse tipo de sistema (c) nos levaria a um ponto muito próximo à posição do sistema (b), que é cética, mas se diferenciaria desta na medida em que o ceticismo estaria confinado à suspeita, como método. Saber-se-ia que a rede de sentido-significação quando é comportamento ou descrição está sob o controle da rede de causalidade do mundo e, portanto, em certa medida possibilita a eficácia do comportamento e, também, é um modo de apresentação da rede de causalidade a outros entes que partilhem da rede de sentido-significação. Neste sentido a rede de sentido-significação é uma rede partilhada e por isso temporal e cultural. Basta que se atente para a multiplicidade de idiomas e culturas que existem no mundo em um mesmo momento. Mas a rede de causalidade do mundo a que estão submetidos os chineses e aborígines é a mesma a que está submetido o cidadão de uma metrópole ou um homem que esteja em seu quarto na Pensilvânia. Considere-se, também, que os homens [em geral] possuem órgãos dos sentidos com uma tal semelhança de função e potencialidade que, guardadas as exceções ou patologias, tais órgãos lhes garantem uma comunidade de percepção[18][18]. Tal comunidade também não está sujeita as mazelas do tempo. Um homem da pré-história percebia com seus órgãos do sentido o mesmo mundo que se percebe em meio a metrópole. Assim foi na idade antiga e na idade média, basta que se atente para esculturas e pinturas, notar-se-á que sob estilos históricos reside uma comunidade de percepção, retratada numa comunidade de problemas que os homens tentaram enfrentar desde o início, ou seja, a rede de causalidade a qual estavam submetidos. Portanto, embora, esteja-se sempre submetidos à história da rede de sentido-significação, há uma comunidade de percepção e uma rede de causalidade que são, respectivamente, unificadores e controladores das redes de sentido-significação. Deste modo, mesmo nascendo em uma cultura e sob uma comunidade de linguagem particular, os homens são capazes de apreender e operar com instrumentos gerados em uma outra rede de sentido-significação. Se fosse possível encontrar uma tribo que tivesse vivido [isoladamente] por todos estes milênios, ainda assim os homens da cultura tecnológica seriam capazes de entender e partilhar [com estes] os medos, sofrimentos e prazeres. Assim, não é possível conceber como se o homem estivesse à deriva [absoluta e irremediavelmente] em sua história.

 

Também, não seria seguro pensar que não se pode, “mesmo que quiséssemos trabalhar na explicitação dessas formações históricas”, que “nossas explicitações também estariam determinadas por um contexto histórico” inapelável. De fato, é possível separar os elementos históricos dos não históricos quando se trata de conhecer a rede de causalidade do mundo. Há níveis onde a verificabilidade ou a eficácia podem assegurar que não se trata de elementos históricos, como no caso dos nativos caçadores de macacos — poder-se-ia ir mais longe e afirmar que ferver um pouco d’água não pode ser pensado como sendo um evento que esteja, apenas, no registro do histórico, embora tal conhecimento esteja em um contexto de comunicação e vivência histórica. Ferver água depende de que se domine alguns elementos da rede de causalidade que funciona no mundo onde se vive. De nenhum modo depende do compartilhamento da mesma história. Mesmo considerando que há povos que não conheçam o fogo e que, portanto, não fervam água. Se se tem “que pensar o que representam os instrumentos conceituais desenvolvidos sobre pressupostos” históricos, não é por que procedam de uma fonte incontornável e incontrolável — quando se trata da rede de causalidade do mundo —, mas sim porque esses possuem limites descritivos que obrigam a abandonar a disposição para viver no registro da rede sentido-significação. Portanto, não é pela impossibilidade de o homem se libertar da história ou por que sua percepção da rede de causalidade possa estar submetida a elementos históricos, mas sim, porque, em larga medida, é possível e exigível que ele se libere da história e veja a rede de causalidade funcionando no sem sentido e sem significação do mundo, através de suas redes de sentido-significação.