Mars Gradivus

Revista do Laboratório de Psicanálise e Aprendizagem

     

          Instituto de Psicologia        UFRGS

   

      Ano 1      Número 1        2002

 

 

A Pesquisa Psicanalítica como ciência independente1

 

           Por Isac Nikos Iribarry2

 

Foi dito que o objetivo de explicitar o fato psíquico como fundamento de um modelo explicativo da Pesquisa Psicanalítica estava atrelado à necessidade de conceber a Psicanálise como uma ciência equivalente da noção de ciência com que a contemporaneidade justifica a produção do conhecimento3. A primeira dificuldade que daí se depreende é que não há uma noção de ciência na contemporaneidade. Há diversas noções. Cada uma reivindicando para si o melhor programa. Outro problema de que não se escapa é que mesmo um fato chamado físico nunca deixa de ser psíquico. O fato físico, aquele que se observa no mundo, na natureza, é sempre objeto de uma certeza sensível. E esta certeza sensível é sempre correlata de uma experiência psíquica. Foi dito ainda que é preciso recusar o ataque da filosofia e da ciência à Psicanálise. É preciso combater o enunciado “isso que vocês fazem não é ciência”, o qual nasce na boca de alguns filósofos e cientistas que se dirigem à Psicanálise. Por isso, foi dito também que é preciso justificar a Pesquisa Psicanalítica como uma ciência da observação e que os fatos psíquicos descritos por ela através de modelos explicativos formais são a prova e a demonstração de que há nela um contexto empírico de observação.  Ademais, foi lembrado com as palavras do próprio Freud que a especulação não é tema da Pesquisa Psicanalítica e que esta, como tributária da cosmovisão da ciência, não visa outra empresa senão a da observação.

Meu objetivo neste ensaio é o de questionar as idéias acima e realizar a proposição de uma concepção reformulada de ciência para a Psicanálise, noção tributária de sua origem metapsicológica na produção do conhecimento. Origem esta que conhecemos, em especial, no Laboratório de Psicanálise e Aprendizagem da UFRGS, como Pesquisa Psicanalítica. É importante ressaltar que a este ensaio não estão abertas digressões ou progressões orais. É claro que o momento fecundo do ágon, isto é, da disputa através do diálogo deve encontrar tempo e espaço, mas sua validade só será legítima quando se transformar em texto escrito. Assim sendo, comecemos reagindo à acusação feita à Psicanálise por alguns filósofos e cientistas.

Isso que nós fazemos certamente não é ciência. Mas é preciso que isso se esclareça: não é ciência tal como se concebe ciência hoje. É preciso realizar a proposição de uma nova concepção de ciência para a Psicanálise. Melhor: a Psicanálise é uma outra ciência. Diferente, portanto, de qualquer uma das noções que integram o conjunto de programas metodológicos das ciências exatas e das ciências humanas. Dicotomia que recusaremos daqui para frente, pois as ciências exatas são praticadas pelo homem, não deixando, portanto, de ser ciências humanas também. Talvez o resgate de uma divisão entre ciências da natureza e ciências do espírito seja mais adequado ao nosso ensaio, especialmente na acepção trazida por Droysen4.

Assim sendo, vamos esboçar a proposição de um projeto de ciência para a Psicanálise. Lembrando, no entanto, que há um projeto de ciência para a Psicanálise em Freud e outro em Lacan, e que um é diferente do outro. Talvez a originalidade de nossa proposição, diferente, por sua vez, daquilo que pretendia Freud e Lacan, esteja no fato de chamar a atenção para a miopia de alguns cientistas atuais, que não reconhecem a Psicanálise e as ciências humanas como epistemologicamente diferenciadas das ciências naturais. Fato que gera a insubordinação da Psicanálise ao esquema de uma “ciência normal” (Kuhn, 1980) e a curiosa subordinação das ciências do espírito aos esclerosados esquemas empiristas e racionalistas das ciências naturais,  mesmo com todo o barulho do Historicismo alemão, que inaugura uma nova maneira de reflexão para as chamadas ciências do espírito5. Acrescentaremos ainda que nosso ensaio trata de uma proposição preliminar, a qual, por assim dizer, está em seus primeiros passos, ainda desprovida, portanto, de profundidade e afirmação. Todavia, é sabido que aprender a caminhar envolve ter de suportar o desequilíbrio.

Freud quis socorrer-se com as concepções de ciência vigentes de sua época. E ao recusar a Methodenstreit (querela dos métodos), fez uma opção clara pela epistemologia das Naturwissenschaften (ciências naturais). Trieb und Triebschicksale (Pulsões e Destinos das Pulsões) é o trabalho em que Freud (1915) salienta sua adesão ao rigor aristotélico com que a Física, especialmente, proclama uma atividade científica. É dele a famosa passagem:

 

“Ouvimos com freqüência a afirmação de que as ciências devem ser estruturadas em conceitos básicos claros e bem definidos. De fato, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições. O verdadeiro início da atividade científica consiste antes na descrição dos fenômenos, passando então a seu agrupamento, sua classificação e sua correlação. Mesmo na fase de descrição não é possível evitar que se apliquem certas idéias provenientes daqui e dali, mas por certo não apenas das novas observações. Tais idéias – que depois se tornarão os conceitos básicos da ciência – são ainda mais indispensáveis à medida que o material se torna mais elaborado. Devem, de início, possuir necessariamente certo grau de indefinição; não pode haver dúvida quanto a qualquer delimitação nítida de seu conteúdo. Enquanto permanecem nessa condição, chegamos a uma compreensão acerca de seu significado por meio de repetidas referências ao material de observação do qual parecem ter provindo, mas ao qual, de fato, foram impostas. Assim, rigorosamente falando, elas são da natureza das convenções – embora tudo dependa de não serem arbitrariamente escolhidas mas determinadas por terem relações significativas com o material empírico, relações que parecemos sentir antes de podermos reconhecê-las e determiná-las claramente. Só depois de uma investigação mais completa do campo da observação, somos capazes de formular seus conceitos científicos básicos com exatidão progressivamente maior, modificando-os de forma a se tornarem úteis e coerentes numa vasta área. Então, na realidade, talvez tenha chegado o momento de confiná-los em definições. O avanço do conhecimento, contudo, não tolera qualquer rigidez, inclusive em se tratando de definições. A física proporciona excelente ilustração da forma pela qual mesmo ‘conceitos básicos’, que tenham sido estabelecidos sob a forma de definições, estão sendo constantemente alterados em seu conteúdo” (p. 137)

 

O enunciado apresentado acima não é uma constante em Freud. Ele cumpre mais a função de uma variável que não altera todo o sistema psicanalítico. Ele prova, com o que veremos a seguir, que Freud oscilava entre uma espécie de atenuação dos impactos de sua descoberta para ganhar o reconhecimento científico e a honesta admissão de que sua jovem ciência precisava de uma outra cosmovisão. Ainda que seja reivindicada, de modo permanente e estratégico ao longo de sua obra, a cosmovisão (Weltanschaaung) da ciência de sua época. Lacan é quem procura solucionar esse problema. Com a introdução do inconsciente estruturado como linguagem, a tese do significante puro e os matemas, como veremos mais tarde.

Garcia-Roza (1985) chama a atenção para o fato de que no fragmento citado acima se pode observar o caráter mitológico da teoria das pulsões.

 

“Apesar de uma teoria científica emergir a partir de uma série de fatos empíricos (no caso de Freud, de suas observações clínicas), ela implica um conjunto de conceitos que não são retirados dessas observações, mas que lhe são impostos a partir de um lugar teórico. Estes não são, pois, noções descritivas, mas construtos teóricos que não designam realidades observáveis ou mesmo existentes. São puras construções teóricas ou, se preferirmos, ficções teóricas que permitem e produzem uma inteligibilidade distinta daquela fornecida pela descrição do real segundo um tipo de articulação que não pode ser retirado desse próprio real enquanto ‘dado’. São, portanto, autênticas ficções científicas. Esse é o caso da pulsão (Trieb) em Freud: ela nunca se dá por si mesma (nem a nível consciente, nem a nível inconsciente), ela só é conhecida pelos seus representantes: a idéia (Vorstellung) e o afeto (Affekt). Além do mais, ela é meio física e meio psíquica. Daí seu caráter ‘mitológico’” (p. 115).

 

Freud (1915), apesar da tentativa de esclarecimento quanto à aproximação da Psicanálise da ciência de seu tempo, tomando a física como paradigma ordenador, não está livre de contradições e paradoxos tanto no texto sobre os destinos das pulsões quanto em outros trabalhos. Apesar de enfatizar a observação e a descrição, seguidas do agrupamento, da classificação e da correlação, é preciso entender que a empiria que Freud pretendia observar e descrever não era a mesma empiria da ciência de seu tempo. O fenômeno que Freud procurava observar não suportava as clássicas noções de observação e descrição. Por isso, tímida e discretamente, Freud (1915) apela às idéias que são impostas ao material observado, às idéias chamadas, por Garcia-Roza (1985), de ficções teóricas. Estas idéias impostas ao material observado, as ficções teóricas, são implicações subjetivas daquele que procura conhecer determinado fenômeno. A construção do conhecimento psicanalítico, chamado de Metapsicologia, não se faz sem a participação ativa do sujeito conhecedor. Como já foi visto em outro de meus trabalhos, o ato de conhecer o objeto envolve uma determinada capacidade do sujeito de criar o objeto conhecido:

 

“Mas o que é conhecimento afinal? Conhecer significa produzir ou criar o objeto. Esta tese permite que se reconheça no próprio objeto a manifestação ou a atividade do sujeito. Quando o pesquisador psicanalítico conhece seu objeto, após descobri-lo como um resto, ele se movimenta da ficção à alteridade e sua atividade é criadora. Nesta criação, o objeto produzido traz consigo a manifestação do sujeito que conhece. Freud sabe (re)conhecer o inconsciente na arte e quando inventa a psicanálise, ainda na correspondência com Fliess, está envolvido subjetivamente, inclusive:‘Desde que comecei a estudar o inconsciente, tornei-me muito interessante para mim mesmo. É uma pena que se fique de boca fechada sobre as coisas mais íntimas’ (Freud a Fliess, em 3 de dezembro de 1897)” (Iribarry, 2002, p. 6).

 

Portanto, se queremos dar à Psicanálise, enquanto Pesquisa Psicanalítica, o estatuto de ciência independente é preciso não ceder à tentação de introduzi-la no projeto de uma ciência natural, como Freud desejava, e menos ainda atender à reivindicação de situá-la no âmbito das ciências do espírito enquanto ciências do homem. Japiassu (1998) salienta que se entendemos a Psicanálise como uma ciência do homem, a estamos reduzindo a uma psicologia ou a uma teoria do indivíduo, o que significa dizer um conjunto de técnicas que situam o homem no interior de uma coletividade normativa, de modo a integrá-lo quando se mostrar desviante, excluí-lo quando revelar alguma “anormalidade” e selecioná-lo quando se mostrar apto. Segundo Japiassu (1998), é Lacan quem irá dar à Psicanálise o estatuto de uma teoria do sujeito. Lacan não admite uma ciência do homem porque o homem da ciência não existe, o que existe é somente o seu sujeito. O sujeito, para Lacan, é aquele que fala, do lugar da enunciação, não possuindo, portanto, uma essência. De acordo com Japiassu (1998), o sujeito “deve ser concebido como objeto de uma divisão que o constitui, entre o inconsciente que o determina antes de todo o discurso e as produções conscientes, das quais faz parte a idéia de homem” (p. 59). Sendo assim, Japiassu (1998) conclui que a única ciência possível é a do sujeito ocupado com a produção da linguagem.

Japiassu (1998) dirá ainda que uma comunicabilidade do saber do sujeito sobre o sujeito irá depender de uma lógica que possa pensá-lo separado da causa de seu discurso. É a lógica que implica a Psicanálise, que Japiassu (1998) qualifica de ciência das miragens do sujeito e ciência do inconsciente, a qual inclui os efeitos e as causas. Por isso, o autor recorre a Foucault e sua demarcação da Psicanálise como uma contraciência: a Psicanálise não pode situar-se entre as ciências humanas a não ser para criticá-las. Assim, Japiassu (1998) estabelece que:

“Neste sentido, [a Psicanálise] se distancia bastante da psicologia convencional, dessa psicologia que Canguilhem define como ‘uma teoria geral da conduta’ submetida à ideologia dominante, pois toma por objeto o homem, indivíduo no seio de uma coletividade regulada. É por isso que Lacan fala ainda, não somente da psicologia, mas da psicanálise americana, de um verdadeiro ‘apelo à servidão’: a psicanálise americana e seus métodos ditos não-diretivos de psicoterapia reduziram a contribuição freudiana a uma técnica de integração ou de pseudocrítica sociais, amputando a Psicanálise de sua dimensão científica” (p. 59).

 

É preciso lembrar ainda que o conflito de Freud com a ciência de sua época se dá em relação à fraca aceitação da Traumdeutung e à rejeição de seus contemporâneos ao método terapêutico da Psicanálise. Especialmente porque a chamada função sexual nunca havia sido objeto do interesse científico. Em Das Interesse an der Psychoanalyse, Freud (1913) apresenta a Psicanálise como um procedimento médico que visa a cura de certas formas de doenças nervosas (as neuroses) através de uma técnica psicológica. Além disso, Freud menciona a oposição e a rejeição de psiquiatras e neurologistas diante dos postulados e descobertas do novo método terapêutico. Em seguida, Freud dirá: “neste artigo deixarei de lado o interesse médico da psicanálise e ilustrarei com uma série de exemplos o que acabei de afirmar sobre a jovem ciência” (p. 169). Mais adiante, Freud reconhece que sua teoria sobre o sonho não se harmoniza com a ciência de sua época: “Trata-se da interpretação de sonhos, que causou o primeiro conflito da psicanálise com a ciência oficial, que passou a ser o seu destino” (p. 172). Na seção dedicada ao interesse biológico da Psicanálise, Freud faz a ressalva que nos mostra que o sexual é recusado pela ciência:

 

“A psicanálise fez justiça à função sexual no homem fazendo um exame pormenorizado de sua importância na vida prática e mental – importância que foi enfatizada por tantos escritores criativos e por alguns filósofos, mas nunca fora reconhecida pela ciência” (p. 182).

 

Mesmo assim e paradoxalmente, Freud oscila entre sua devoção pela epistemologia das ciências naturais, tão evidente nos anos de sua juventude, e sua necessidade de apresentar o programa de uma Psicanálise como ciência distinta das demais. Há, no entanto, um problema fundamental que parece orientar Freud em suas investigações. Como situar o problema da existência do inconsciente? O inconsciente não existe como um gato ou como o sol, lembra-nos Juranville (1986). O inconsciente não pode ser objeto de uma certeza sensível. Não pode ser induzido também, como os planetas que produzem efeitos nas órbitas de outros. O inconsciente é diferente da eletricidade, que é uma determinação objetiva e não afeta o conhecedor em sua subjetividade. O problema da existência do inconsciente fica ainda mais interessante quando pensamos no fato de o inconsciente se encontrar numa relação de distanciamento do fenômeno da consciência. Tal distanciamento está marcado na subjetividade: é o recalque. Assim, a subjetividade é a consciência daquele que deseja conhecer. Isso torna difícil entender como o inconsciente poderia ser uma evidência.

Assim, o inconsciente pode ser tomado com a hipótese do inconsciente. Sabemos que há dois métodos para se trabalhar com uma hipótese. O primeiro é o da verificação experimental que permite a previsão do que acontecerá numa determinada situação. É uma justificação a posteriori. O segundo método é o da dedução lógica a partir de uma verdade evidente. É uma confirmação a priori. Freud escolheu o primeiro método. E convenceu apenas os que já estavam convencidos. Não é assim hoje com a Psicanálise? Restaria, portanto, o caminho da dedução. Mas estabelecer uma adequação entre o logos e o ser é um projeto que se realiza como discurso de adequação entre verdade e ser, isto é, uma correspondência que, como nos lembra D’Agord (2002), está em contradição com a tese de Freud. O inconsciente, para Freud, é algo que irrompe. A verdade a que Freud se dirige em sua Metapsicologia é da ordem da aletheia. É preciso lembrar Heidegger (1954/2000):

 

“Sabemos demais e acreditamos com demasiada rapidez no que sabemos. Talvez por isso nos seja tão difícil adquirir familiaridade com uma questão nascida de uma verdadeira experiência. Para que isso aconteça, é preciso poder espantar-se diante do simples e assumir esse espanto como morada. O simples, certamente, nos é dado pelo fato de pronunciarmos e reproduzirmos, de maneira simplista, o significado literal de aletheia como ‘des-encobrimento’. Des-encobrimento é o traço fundamental daquilo que já apareceu e que deixou para trás o encobrimento. Esse é o sentido do alfa que compõe a palavra grega aletheia e que somente recebeu a designação de alfa privativo na gramática elaborada pelo pensamento grego tardio. A relação com lethe, encobrimento e o próprio encobrimento não perdem de forma alguma o peso pelo fato de se experienciar diretamente o encoberto como o que apareceu, como o que entrou em vigência, como vigente” (p. 229).

 

É preciso, portanto, rever o conceito de inconsciente e discutir quais são as vias de sua eventual demonstração. Então convém lembrar o seguinte. O inconsciente é uma ultrapassagem radical do ‘mundo’ como correlato necessário da consciência. É no contexto do mundo que a previsão e a antecipação são possíveis. Assim, a prova experimental é contraditória ao conceito de inconsciente. A dedução lógica, por sua vez, está também descartada, pois a linguagem quando concebida de signos que exprimem significações coloca esses signos e suas significações em uma intrínseca ligação com o mundo. E como dissemos, o inconsciente ultrapassa o mundo da experiência vivencial.

Foi Lacan quem trouxe uma alternativa. Ora, o signo não pode ser exclusivamente algo a que a linguagem está atrelada. Saussurre dá a pista e Lacan introduz seu ‘corte’ epistemológico na teoria saussurriana, determinando um outro plano, o do significante puro. Assim, a demonstração do inconsciente é realizada por Lacan em um nível lógico do significante puro. Mas Freud também fez sua demonstração. O inconsciente é, para Freud, o psíquico. Mas o inconsciente é constituído de representações. O termo Vorstellung, lembra Safouan (citado por Juranville, 1986), é de importância decisiva na obra de Freud:

 

“Esse termo (Vorstellung – representação) desempenhou na filosofia alemã um papel considerável, que lhe conferiu ressonâncias a que Freud não poderia permanecer alheio, por ter assistido ao curso ministrado exatamente por aquele a quem Vorstellung iria dever parte de sua sorte, a saber, Franz Brentano... Brentano buscava uma propriedade que distinguisse os fenômenos psíquicos dos fenômenos fisiológicos e a havia encontrado naquilo que os escolásticos chamavam de inexistentia: o que não quer dizer ‘inexistência’, mas sim ‘existentia em’, existência do objeto no espírito ou tal como ele se apresenta ao espírito, tal como este último o conhece e de fato o experimenta” (p. 23).

 

A representação é um ato ligado ao sujeito e que produz nele um diverso sensível, o qual se estabelece como sentido. A representação caracteriza o psíquico porque há um sentido. Freud faz com que a ciência de sua época se sinta ultrajada porque dirá que mesmo os fenômenos dados como insignificantes (lapsos, sonhos e chistes) possuem um sentido. O inconsciente de Freud não é um outro psiquismo análogo ao psiquismo da consciência. O inconsciente é um outro modo de funcionamento do psiquismo. Se pensar é estabelecer equivalências, então resta saber que tipos de equivalências se estabelecem entre o inconsciente e seus correlatos sistêmicos: pré-consciente e consciente. O modo desses tipos de equivalência leva Freud a concluir que se tratam de processos primários e processos secundários de pensamento.

Há, não se pode esquecer, um certo racionalismo na posição de Freud. No artigo metapsicológico ‘O Inconsciente’, Freud (1915) escreve:

 

“Acreditamos agora saber de uma vez por todas em que uma representação consciente se distingue de uma representação inconsciente . (...) A representação consciente compreende a representação de uma coisa e mais a representação de palavra a ela pertinente; a representação inconsciente é apenas uma representação de coisa” (p. 230).

 

Para Freud (1915), ainda, é somente no contexto estabelecido do tratamento que se pode observar os efeitos do inconscientizado. Esta observação é possível graças ao fenômeno da transferência. Essa é a hipótese experimental de Freud (1915). Em seu artigo ‘O Inconsciente’, Freud (1915) escreve ainda:

“se ficar demonstrado, além disso, que podemos fundamentar na hipótese do inconsciente uma prática coroada de êxito, pela qual influenciemos, de conformidade com um dado objetivo, o curso dos processos conscientes, teremos conseguido, com esse sucesso, uma prova incontestável daquilo cuja hipótese formulamos” (p. 192).

 

 É a relação de transferência que serve de experimento para verificação da hipótese do inconsciente. O próprio Lacan irá dizer que a transferência é a atualização da realidade do inconsciente. Mas por que não é possível uma fundamentação de fato psíquico como modelo explicativo da Pesquisa Psicanalítica? Pela simples razão de que a Pesquisa Psicanalítica se ocupa de um conhecimento especulativo sobre o inconsciente. Mas é preciso que se dê ao termo especulativo um sentido preciso. Especulação, como a entendemos, não é meramente a realização de suposições. Não nos referimos à especulação como Freud se referia. Freud considerava a especulação um procedimento inferior à observação. E não considerava o caráter especulativo da própria observação. Ademais, é paradoxal a posição de Freud com sua “feiticeira”, nome que ele dava à sua Metapsicologia. Fantasiar e ficcionar, como ele mesmo admite em sua correspondência com Fliess, são procedimentos fundamentais para a Pesquisa Psicanalítica. Com o tempo, a partir da década de vinte, Freud irá fazer uma adesão mais radical ao discurso científico de sua época. Estabeleçamos, então, sentidos precisos para o que vem a ser observação e especulação, para em seguida situar tais conceitos em nossa proposição da Psicanálise e sua Pesquisa Psicanalítica como ciência independente.

Diz-se que a observação é o primeiro passo do método científico. A ciência começa com a observação. Observar é verificar ou constatar um fato, podendo ser esta verificação espontânea ou ocasional, metódica ou planejada. As duas perspectivas nos permitem separar a observação em duas acepções: a observação natural e a observação experimental. Na primeira, não há planejamento de suas condições, na segunda, há uma aferição de variáveis. Pode-se, nesse caso, agir sobre a variável independente e estudar o comportamento da variável dependente. Há ainda uma outra divisão possível. Sendo natural ou experimental, a observação pode ser dividida em sistema observante e sistema observado. Segundo Abagnanno (1998), a validade desta divisão foi posta à prova (e reconfirmada) pela física quântica, a propósito das relações de indeterminação, ou seja, da ação que o sistema observante exerce sobre o sistema observado. Para Bohr e Heinsenberg (citados por Abagnanno, 1998) não há limite rígido entre os dois sistemas. Por isso descrições diferentes são possíveis para um mesmo fenômeno, pois a mudança desse limite modifica a estruturação dos dois sistemas. Para Abagnanno (1998), pode-se evitar calcular a ação perturbadora do sistema observante incluindo-o no cálculo. Mas como mesmo assim resta a indeterminação a respeito da observação do sistema observante, seria preciso incluir no sistema observado nossos olhos também. Assim, para Heinsenberg (citado por Abagnanno, 1998):

 

“só se poderia tratar quantitativamente a cadeia de causas e efeitos quando se considerasse o universo inteiro como parte do sistema observado, mas então a física desapareceria, ficando apenas um esquema matemático. A subdivisão do mundo em sistema observante e sistema observado impede assim a nítida formulação da lei causal” (p. 726).

 

O próprio Heinsenberg irá observar que o sistema observante não é necessariamente o observador humano, podendo ser uma chapa fotográfica ou outro aparelho qualquer. Assim, a distinção entre sistema observante e sistema observado não corresponde necessariamente à distinção tradicional da filosofia entre sujeito e objeto. Eis aí outro problema. Quando se consideram sujeito e objeto (ou ainda um sujeito observado por outro sujeito), novamente o limite de demarcação entre os dois sistemas não admite uma rigidez e exige, portanto, um reconhecimento da mobilidade de sua demarcação.

A Pesquisa Psicanalítica é a própria ilustração da mobilidade do limite que separa os dois sistemas. A Pesquisa Psicanalítica envolve, dialeticamente, o sujeito observador e o objeto observado ou, ainda, o sujeito observado. A interferência subjetiva do sistema observador não é recusada pela Pesquisa Psicanalítica. Nos trabalhos de Freud, podemos observar o quanto sua implicação subjetiva foi decisiva para a edificação da metapsicologia. Ademais, a observação na Pesquisa Psicanalítica é sempre natural, não controlada. Quando o analisante realiza a pesquisa de sua vida, reclinado ao divã, ele procura seguir a regra da livre associação, evitando selecionar o material a ser enunciado, sendo convidado, portanto, a deixar seu pensamento seguir um curso natural. Quando o pesquisador psicanalítico adota um problema de pesquisa (melhor seria dizer que o problema é que adota o pesquisador psicanalítico) ele planeja suas vias de acesso às formações do inconsciente que envolvem seu objeto numa observação sem controle, que prioriza o caráter natural  da manifestação que sinaliza uma formação do inconsciente. Não é possível uma observação controlada de sonhos e sintomas, pois estes não são artificializáveis. São produções in natura que determinado sujeito (psíquico) vivencia e, só depois de tê-lo vivenciado, é que pode transformar a vivência em relato. E estas observações são sempre subjetivas. Aliás, mesmo na ciência chamada normal, a observação do que se chama realidade objetiva é sempre subjetiva. Mas na Pesquisa Psicanalítica, a observação nunca atinge o objeto em si, a coisa-em-si, como diria Kant, ficando portanto cativa do domínio da ficção. E uma ficção é, portanto, uma especulação que produz sentidos novos para o material psíquico observado. O psíquico de Freud é o não pensado. Depois Lacan fará justiça a essa orientação, formulando que lá onde penso, não sou e lá onde sou, não penso. Todavia, são notáveis e notórias a permanência e a recorrência de uma cosmovisão científica da época de Freud nos tempos atuais. Por isso não cabe o projeto de responder aos cientistas e filósofos com uma Psicanálise adepta de sua cosmovisão.

Sobre o termo especulação podemos realizar duas aproximações importantes. Segundo Abagnanno (1998), a especulação pode assumir dois significados: 1) contemplação ou conhecimento desinteressado, o qual se contrapõe à ação; 2) conhecimento ultra-empírico ou sem base na experiência, o qual se contrapõe à experiência ou ao conhecimento natural. O primeiro significado está ligado à tradição aristotélica retomada na Escolástica e não irá nos interessar aqui. O segundo significado está atrelado ao pensamento de Kant e Hegel. Para Kant, na Crítica da Razão Pura, o conhecimento teórico será especulativo quando se referir a um objeto ou ao conceito de um objeto que não se pode atingir com nenhuma experiência. A especulação, para Kant, se opõe ao conhecimento natural, que está referido a objetos ou predicados que só podem ser encontrados em uma experiência possível. Hegel chamou de especulativo o terceiro momento da dialética, o da síntese, onde está a unidade das determinações na sua oposição. Para Hegel a filosofia não trata dos pensamentos como meras abstrações, mas antes como pensamentos que são realidades. Para Hegel, o adjetivo especulativo indica o ponto de vista que considera a realidade como racionalidade. Enquanto Kant designa como especulativo aquilo que está além da experiência possível e, portanto, além do conhecimento efetivo, Hegel chama de especulativo o conhecimento efetivo como tal, o qual está além da experiência. Abagnanno (1998) conclui, assim, que:

 

“Entende-se por especulação um conhecimento que não encontra fundamento ou justificação na experiência ou na observação; por um lado, esse é um motivo para declarar ilusório ou quimérico tal conhecimento, por outro (cada vez menos), motivo para julgá-lo superior” (p. 354).

 

Freud ora recusa a especulação como procedimento, ora admite que sem ela não se pode avançar. Eis o paradoxo de Freud. Devoto das ciências naturais de seu tempo, mas ao mesmo tempo inclinado às invenções especulativas. Aprofundemos, portanto, o sentido dado ao termo especulação. O sentido que damos à especulação está próximo do uso terminológico apresentado por Hegel. E é Gadamer (2000) que nos lembra do modo como Hegel concebia o termo especulativo:

“Especulativo significa, aqui, a relação do espelho. Espelhar-se é uma permuta contínua. Algo se reflete em outra coisa, o castelo no lago, por exemplo, e isso quer dizer que o lago devolve a imagem do castelo. A imagem refletida está unida essencialmente ao próprio aspecto visível, através da mediação que é o observador. Não tem um ser para si, é como uma ‘aparição’ que não é ela mesma e que, todavia, permite que apareça espelhado o próprio aspecto visível. É como uma duplicação que, no entanto, não é mais que a existência de um só. O verdadeiro mistério do espelho é justamente o caráter inatingível da imagem, o caráter etéreo da pura reprodução” (p. 675).

 

Assim, Freud procura descobrir por trás dos fenômenos observados (sonho, chistes, atos falhos, etc) algo que vá além da experiência cotidiana e também científica de sua época. Mas é preciso ressaltar que seu envolvimento com tais fenômenos não eram dados como os de um cientista de seu tempo. A postura de Freud sempre envolveu um caráter especulativo que lhe punha diante do fenômeno de modo que não procurasse apenas o fenômeno ‘em si mesmo’ mas o que nele havia como possibilidade de relação ‘para ele’, Freud. Freud se espelhava nos fenômenos observados e a especulação resultante daí era o combustível de sua ‘metapsicologia’:

“O especulativo é o contrário do dogmatismo da experiência cotidiana. É especulativo quem não se entrega direta e imediatamente à solidez dos fenômenos ou à determinação fixa do que se opina, mas que sabe refletir – hegelianamente falando, que reconhece o ‘em si’ como uma ‘para mim’. E uma idéia é especulativa, quando a relação que nela é enunciada não se deixa pensar como atribuição inequívoca de uma determinação a um sujeito, de uma propriedade à coisa dada, mas que tem de ser pensada como uma relação especular, na qual o próprio espelhar não é nada mais do que a pura aparência do refletido, tal como o um é o um do outro e o outro é o outro do um” (p. 675)

 

Por isso, Freud, mesmo sem se dar conta, não estava utilizando em sua pesquisa o dispositivo da observação como desejava: ou seja, vinculado à metodologia estabelecida pelas ciências naturais de seu tempo. É freqüente a concessão à ‘feiticeira’ metapsicologia que nada mais é senão uma mitologia, mas uma mitologia muito particular, uma mitologia do próprio pesquisador. E toda observação mitológica depende de um certo grau de especulação.

A observação na Pesquisa Psicanalítica é sempre uma especulação. E esta especulação remete à racionalidade metapsicológica. A racionalidade metapsicológica é uma racionalidade particular (Assoun, 1983). Esta racionalidade singular se denomina Phantasieren, da qual a passagem mais significativa se encontra no trabalho Análise Finita e Infinita, onde Freud (1937) evoca “a feiticeira metapsicologia”. Para Freud (1937) quando surge um bloqueio no processo de investigação analítica, nos lembra Assoun (1983), precisamos apelar à feiticeira, como o Fausto de Goethe. Freud (1937) escreve: “Devemos nos dizer: a feiticeira deve, pois, intervir, isto é, a feiticeira metapsicologia” (p. 257). É desse trabalho ainda a famosa passagem:

“Sem uma especulação e uma teorização – quase disse fantasmatização (Phantasieren) – metapsicológicas, não progredimos um passo. Infelizmente, os ensinamentos da feitiçaria não são nem claros nem tampouco detalhados” (Freud, 1937, ibid.).

 

Para Assoun (1983), a especulação metapsicológica coincide com o que Freud (1937) chama de atividade fantasmática. Nesta última definição da metapsicologia, encontramos, portanto, um nexo entre a racionalidade e o imaginário (nota sobre o ensaio). Entretanto, Assoun (1983) salienta com propriedade que o trabalho freudiano de racionalidade não pode ser reduzido a um banal racionalismo aplicado; sua episteme não pode se justificar através de um estatuto de um fantasma como outro qualquer: “entendamos: exprimindo o trabalho habitual por assim dizer, do inconsciente” (Assoun, 1983, p. 103). O trabalho de produção de um conceito metapsicológico, descrito por Freud em Pulsões e Destinos das Pulsões está referido ao esquema geral do trabalho do inconsciente, isto é, um conjunto de operações, conforme Assoun (1983), que culminam num efeito de “deformação” do conceito a ser trabalhado. O trabalho teórico é alimentado, portanto, por uma lógica do inconsciente homóloga, da qual encontramos a raiz comum no Phantasieren.

Assoun (1983) ressalta que Freud teria se precavido contra o perigo de um racionalismo autonomizando a ratio e contra o irracionalismo ele dissipa a teoria em ficção fantasmática, com a atividade teórica sendo modalidade original de Phantasieren. Há que se compreender, no entanto, uma certa ambigüidade nessa atividade. Assoun (1983) a chama de ambigüidade fecunda. Remetamo-nos à pena de Assoun (1983) para elucidar essa ambigüidade:

“Que este seja um problema estrutural da racionalidade freudiana, é o que prova o extraordinário eco, nas duas extremidades da obra freudiana, de tais formulações. Vimos que, no texto de 1937, o Phantasieren está ligado ao Speculieren e ao Theoresieren. Ora, no texto capital no qual comunica Fliess seu itinerário para verdade analítica, Freud introduzia, para designar esse trabalho, este mesmo termo Phantasieren. Em 1895, evocando seu zelo apaixonado a serviço de seu novo ‘tirano’, a psicologia, ao qual se diz ‘submetido de corpo e alma’, e para o qual está em busca de uma concepção geral satisfatória para as perturbações neuropsíquicas, exclama: ‘Durante estas últimas semanas, foi a esse trabalho que consagrei cada um de meus minutos livres. Todas as noites, entre 23 e 2 horas, não fiz outra coisa senão imaginar (Phantasieren), transpor (Ubersetzen), adivinhar (Erraten) – para só me interromper quando esbarrava em algo absurdo ou me sentia exausto’” (p. 104).

 

Assim, o termo Phantasieren justifica nossa defesa da Pesquisa Psicanalítica como ciência independente em que a observação está sempre subordinada à especulação. Mas é importante compreender, com Assoun (1983), que o termo Phantasieren é sempre evocado por Freud numa espécie de trilogia. Enquanto em 1937, o termo alude a uma ordem propriamente intelectual, remetendo ao especulativo e ao teorético, no texto de 1895 há uma alusão ao caráter errático do trabalho a ser realizado:

 

“Fantasmar significa, aqui, ‘transpor’, ou seja, encontrar analogias com registros diferentes e, mesmo, ‘adivinhar’, o que nos leva aos confins da racionalidade e da forma ‘científica’ do saber” (Assoun, 1983, p. 105).

 

A “feiticeira” de 1937 denota um aspecto oracular e intuitivo, fundando a metapsicologia sob a égide de um investimento apaixonado. Freud consulta o oráculo para obter informações que ainda não são claras nem precisas, lembra Assoun (1983), e a tarefa científica para Freud é marcada por um percurso que vai até o limite do esgotamento. É a interrupção da exposição dos fatos que motiva o recurso metapsicológico. Assim, Assoun (1983) evoca o final da seção VI de Além do Princípio do Prazer, onde Freud (1920) escreve o seguinte:

“(...) entregar-se a uma marcha de idéias, segui-la tão longe quanto ela conduz, por simples curiosidade científica (...). Em todo caso, não é possível levar mais adiante essa idéia sem combinar, conjuntamente, por várias vezes, aquilo que pertence aos fatos e aquilo que depende da pura especulação. É sabido que, quanto mais procedemos assim na construção de uma teoria, menos o resultado final é confiável, sem que seja determinado seu grau de incerteza. Podemos ter a chance de acertar, mas também de nos enganar ignominiosamente... é raro que sejamos imparciais quando se trata das coisas últimas, dos grandes problemas da ciência e da vida. Creio que cada um de nós se encontra, nessa matéria, sob o império das predileções íntimas, profundamente ancoradas em nós e para as quais trabalha, sem que saibamos, toda a nossa especulação” (p. 81).

 

Não se trata, no entanto, de tomar a especulação como um faculdade intuitiva. Não há nada de uma intuição mística na especulação de Freud. O que Freud reivindica com sua especulação é um direito à invenção especulativa, que o autoriza a prosseguir sem saber para onde vai o pensamento “em matérias nas quais somos condenados a errar ou a ‘acertar’, como no enigma da Esfinge!” (Assoun, 1983, p. 106). No Mal-Estar na Civilização, Freud (1930), ao falar da pulsão de morte, diz que ao apresentar suas concepções, sua única intenção era observar até onde elas o conduziriam, mas com o tempo as próprias concepções adquiriram um domínio sobre ele. Assoun (1983) diz se tratar do momento em que a especulação se enche de objetividade “a ponto de impor-se sem, no entanto, anular sua marca subjetiva de origem” (p. 107).

O projeto de ciência para a Psicanálise e sua Pesquisa Psicanalítica necessita dessa demarcação sobre o sentido do termo especulação. Mas a que projeto de ciência desejamos nos remeter aqui? Ora, toda observação é uma especulação. Até mesmo os físicos e químicos, que nos legaram o método científico em suas acepções gerais, reconhecem que a empiria será sempre o produto de uma observação que depende daquele que observa. O ângulo de quem observa determina a visão do fenômeno e a objetividade pretendida pelas ciências que se intitulam exatas nada mais é que um simulacro da subjetividade essencial daquele que observa. O conhecimento é, portanto, o resultado de uma observação que contém elementos subjetivos; não existe observação pura e livre do subjetivismo do observador. Não havendo uma objetividade possível – e Lacan nos diz que o Real é impossível – não se abandona nunca o âmbito da especulação. Não se atinge de imediato e diretamente o fenômeno. Menos ainda poderia se atingir o inconsciente. É ele que nos afeta, somos atingidos por suas manifestações. É a dimensão do significante, que representa um sujeito para outro significante, que é dada pela linguagem que serve como justificativa de uma empiria tão desejada pelos que querem dar à Psicanálise uma vocação positivista. Todavia, não se pode esquecer que a noção de significante na Psicanálise, desde Lacan, assume uma certa ultrapassagem do conceito de mundo enquanto experiência vivencial.

A Pesquisa Psicanalítica toma como arquimodelo o da situação psicanalítica de tratamento. Na SPT, o analisante reclina-se ao divã e produz linguageria. Sua livre-associação produz enunciados a que o analista escande e pontua, como uma espécie de diretor da pesquisa que o analisante realiza sobre sua vida. É o momento de fundação do pesquisador psicanalítico. Mas, como sabemos, toda experiência de análise deixa restos inanalisáveis. Tais restos podem impulsionar o analisante à refundação de sua pesquisa na situação psicanalítica de pesquisa. Na SPP, a Metapsicologia é o mote fundamental com que o pesquisador irá dar conta de seu problema de pesquisa. E Metapsicologia é um processo especulativo, o qual se orienta pela produção de fantasias, ficções, as quais devem ser submetidas à crítica impiedosa da alteridade.

A Pesquisa Psicanalítica se refere a uma outra empiria, não a do fato psíquico, mas a da transferência. No caso da SPT, a transferência deve ser liquidada, no caso da SPP, ela deve ser instrumentalizada. Na SPT é a fala, através da linguageria, que vai servir como fundamento da experiência de pesquisa do analisante. O material empírico da clínica é a fala. Na SPP é o texto que irá servir de fundamento e registro da pesquisa psicanalítica propriamente dita. O material empírico da pesquisa é o texto. As únicas evidências empíricas de que dispomos na Pesquisa Psicanalítica são, portanto, estas duas: a fala e o texto. Mas, como tais, não são essas duas evidências empíricas justamente produtos da especulação, agora elevados à condição de discurso? Nesse sentido, a Pesquisa Psicanalítica não pode se servir nem das ciências naturais nem das ciências do espírito. A Pesquisa Psicanalítica é uma ciência independente. Deve refletir sobre um método particular, que decorre de um ato de conhecer em que o saber está separado da verdade e para o qual o objeto estará sempre em falta. Proponho, no entanto, uma diké, isto é, uma justa proporção entre as partes – o equilíbrio. O homem está separado do inconsciente. Não há experiência do inconsciente propriamente dito. Quando dele se observam os efeitos já se está no campo da consciência, isto é, no mundo dos significados, dos signos. Tampouco se atinge o significante puro. Ele permanece como uma referência. Todavia, nisso que se pode observar uma experiência, o relato do sonho, o sintoma, o ato falho, é possível situar um fato psíquico. Mas um fato psíquico da consciência. E o que interessa à Pesquisa Psicanalítica é o campo do inconsciente, ainda que seu acesso seja somente possível pelos efeitos de fatos observados na consciência.

Sobre o inconsciente, a Pesquisa Psicanalítica, em Freud e Lacan e também hoje, em nosso Laboratório, tem um conhecimento especulativo. É verdade que há um conhecimento empírico sobre os fatos psíquicos da consciência, os quais atualizam o inconsciente. Todavia, ainda cabe o recurso kantiano para justificar o que há de especulativo no conhecimento sobre o inconsciente:

 

“Eine theoritische Erkenntniss ist speculativ, wenn sie auf einen Gegenstand oder solche Begriffe von einen Gengenstande geht, zu welchem man in keiner Erfahrung gelangen kann” (Um conhecimento teorético é especulativo quando visa a um objeto ou a um conceito relativos a um objeto que não se pode atingir através de nenhuma experiência) (Kant citado por Abagnanno, 1998, p. 353).

 

Não se atinge o inconsciente propriamente, se atinge suas manifestações, as quais são efeitos de sua ação. São as formações do inconsciente. Tanto o psicanalista quanto o pesquisador psicanalítico são formações do inconsciente. Podemos justificar, portanto, a Psicanálise e sua Pesquisa Psicanalítica como ciência independente dos esquemas convencionais da ciência normal, retomando o belíssimo e elucidativo parágrafo de Japiassu (1998):

“Enquanto ciência do subjetivo, e não do homem em geral; ciência da libertação, e não da integração social; ciência da palavra reencontrada, e não adaptada e modelada pelas estruturas; ciência do protesto e da transgressão, e não da adaptação e da acomodação do homem a seu meio; ciência do inconsciente, e não da racionalidade técnica e tecnocrática, ciência da criatividade, e não das mentalidades etiquetadas, planificadas e estereotipadas; ciência da desalienação, e não um conjunto de receitas e de práticas que alienam o homem e o impedem de falar autenticamente nas estruturas, a Psicanálise fundada por Freud, elaborada num contexto de marginalidade e de não-reconhecimento, corre o risco de ingressar numa era da ‘menopausa’ (ausência de desejo) ou de ser ‘metabolizada’ pela administração implantada. Corre o risco de perder seu sentido original. Em nossos dias, Lacan e seus discípulos tentam resgatar a inspiração freudiana pervertida pela psicanálise americana e por certos métodos psicoterápicos, reduzindo a contribuição de Freud a uma técnica de reintegração ou de pseudocrítica sociais. Portanto, na medida em que a Psicanálise se dá por tarefa fundamental permitir ao sujeito saber quem ele é, rejeitando as respostas alienantes já dadas pela mentalidade social, corre sempre o risco de não ser aceita por uma grande parte da sociedade e de encontrar seu verdadeiro estatuto numa certa marginalidade” (p. 114).

 

Em se tratando de Pesquisa Psicanalítica, como vimos, a observação será sempre tributária de uma invenção especulativa. A descrição atingida, portanto, é uma descrição da mesma natureza do fenômeno observado: psíquica. O fenômeno psíquico, a formação do inconsciente atualizada pela transferência, por exemplo, será entendida e descrita pelo psiquismo do sujeito que a observa.

No debate entre a Ciência e a Psicanálise não vejo razão para dicotomia. Está clara em Freud a opção por uma ciência da natureza como paradigma de sua invenção. A física é a escolha freudiana e a metapsicologia é algo que reproduz, como ciência psicanalítica, algo de humano, demasiadamente humano. Acrescentaria à Freud a idéia da Psicanálise como uma ciência da natureza humana. Por isso a inevitável ética de uma experiência que nasce como ficção e necessita de alteridade para se sustentar ou mesmo para admitir seu fracasso. Em um ou outro desfecho é algo de nossa humanidade essencial que está em jogo. O horror da ciência à psicanálise reside nisso: vivo uma experiência – na vida, na clínica, seja onde for – e dela construo uma ficção, resultado de uma transformação radical de mim mesmo, visto que fui protagonista de uma Erlebnis única e intransferível. Quando comunico minha experiência, agora na forma de ficção, à alteridade e recebo dela a ressonância, estou transformando radicalmente o sentido (vetorial) de minha experiência. Ou seja: a experiência transforma a própria experiência. Quando amo o outro e espero dele a recíproca realizo uma experiência que poderei tornar palavra, realização discursiva, e este outro, me amando ou não, produz uma ressonância que legitima uma ficção construída a partir do sentido que esta experiência revela. Quando a torno palavra, na ordem do dizer, a ficção é plena: mas eis que uma alteridade faz dela também palavra e alerta para minha inevitável recaída no discurso do Outro. Não há outra maneira de aceder o simbólico senão através da re-caída inevitável no imaginário.

É o tempo, como inevitável e impreterível realização discursiva, o que funda minha história. Somente posso localizar minha condição dentro de uma história que re-conheço como “minha” ao aceitar meu exílio eterno no tempo chamado presente. Qualquer fato que antecede ou sucede este tempo presente será fruto de uma realização discursiva. Digo ao meu aluno que estive em Atenas no verão passado e que o encanto das praias do Mar Egeu compuseram em meu espírito uma sensação de paz e serenidade. Realizo, através da palavra, uma evocação temporal do que já-foi, que antecede o tempo de meu diálogo. Descrevo um “estado de espírito” que retorna em minha fala através de uma imagem do passado: o Mar Egeu e suas praias. Todavia sou incapaz de transcender o “outrora” e o mergulho inevitável na experiência de devir, que rompe a digressão da posse que tenho da palavra no diálogo com meu aluno, antecipa a falsa ilusão de que o futuro chegou. Estou novamente exilado em um tempo presente e o que já-foi  “minha fala” é agora imagem do passado. O aluno me pergunta se re-tornarei à Grécia e meu pensamento projeta a imagem da viagem de meu próximo verão – mero projeto, também exilado no presente – e lhe respondo que irei à Paris.

Assim, quando re-conheço minha história na fala daqueles que me antecedem – pais, país, cultura, mundo – é sempre de um outro que as imagens re-tornam: com elas irei compor minha história, a qual me é sempre contada por um outro. De posse dela, projeto o futuro e, por ele ser ilusão em minha realização discursiva, re-caio – estou “jogado” como diria Heidegger – em meu eterno exílio no presente. Stein, ainda nos anos sessenta, quando introduzia o pensamento de Heidegger, dizia-nos que “estar jogado” no mundo é facticidade; idealizar um projeto de vida é existência e a decaída no tempo presente, já sempre impreterível, é articulação. São estas as três dimensões fenomenológicas (facticidade, existência e articulação) que fazem paralelo com as três dimensões metapsicológicas de Lacan: real, imaginário e simbólico. É no enlace destes seis nós que a Psicanálise institui-se como Ciência, não do previsível e controlável, mas do imprevisível e incontrolável, o humano propriamente nomeado, dito e não-dito. Observar a demonstração que proponho é tarefa para um olhar sensível e dirigido pela escuta do psicopatológico como realização discursiva.

O psicanalista opera com a metapsicologia e o ato analítico, do qual somente se pode observar os efeitos, rompe, no código da língua, uma cristalização imposta pelo significado, essa espécie de colagem que nos faz sujeitos de certezas e dúvidas. Mas é no interior de uma experiência legitimamente fenomenológica que se dá o corte promovido pelo sentido – estrangeiro e familiar – de uma palavra que vem de fora, ou mesmo do Outro, dependendo do lugar em que a transferência joga o analisante, que se dá o re-dimensionalização de um lugar abalado, agora, pelo sentido novo que o vetor da palavra do analista introduz na direção de uma cura. Aí se enlaçam os três registros (real, imaginário e simbólico) cujo mote perpétuo introduz sempre e repetidamente a dimensão do significante. Podemos, assim, dizer que a experiência de tratamento psicanalítico é o encontro de uma realidade abstinente, promovida pela ética do analista de não perturbação do dizer do analisante, com a realidade fenomenológica deste último, ser-no-mundo jogado na existência e no projeto de uma articulação que o aprisiona na linguagem, esta casa em que moramos todos nós, mas que está repartida em domicílios onde nossa humanidade desliza como embarcação cuja atividade pesqueira se nutre de um oceano de letras.

Por que a Psicanálise como uma ciência independente? Porque a Psicanálise inaugura um novo modo de pesquisar. A Pesquisa Psicanalítica se coloca como ciência independente porque estabelece a diferença entre dois conhecimentos. Há um conhecimento da narrativa DO objeto (o modo como ele nos afeta a sensibilidade e que produz entendimento) e um conhecimento da narrativa SOBRE o objeto (o modo como o OUTRO nos afeta com as narrativas que sua sensibilidade e entendimento lhe permitem situar).

É preciso lembrar, no entanto, de uma perspectiva que denuncia o ângulo de uma certa inutilidade em nossas preocupações. E é Gödel (citado por Dor, 1985) que, em 1931, parece ter estabelecido uma certa desilusão com os esforços de se criar sistemas formais capazes de exprimir uma experiência. Nesse sentido, ele parece concordar comigo, pois da vivência não se retém nada, a não ser a possibilidade de transformá-la em narrativa. Uma pessoa é o que ela fez e o que ela sofreu. Mas Gödel nos lembra em seu teorema que qualquer sistema formal capaz de exprimir adequadamente a aritmética contém pelo menos uma fórmula que é insolúvel. Uma fórmula que, ela mesma ou sua negação, jamais poderá ser demonstrada no sistema considerado. Seguindo o corolário: um tal sistema se é consistente jamais poderá fazer a demonstração de sua consistência. Não encontraríamos, assim, um correlato para o teorema de Gödel naquilo que se chama de resto na Pesquisa Psicanalítica? Sempre restará um resto inanalisável. Lembremos da figura lúdica do jogo conhecido como ‘resta um’. E saibamos, pela própria experiência, que para fazê-lo restar, esse um, não é bem assim.

 

Referências

 

Abagnanno, N. (1998). Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes.

 

Assoun, P. L. (1983). Introdução à Epistemologia Freudiana. Rio de Janeiro: Imago.

 

D’Agord, M. (2002). O inconsciente na sala de aula. Ágora, v. V, jan/jul (155-174).

 

Dor, J. (1985). A a-cientificidade da Psicanálise (Tomo I). Porto Alegre: Artes Médicas

 

Freud, S. (1913d). O Interesse Científico da Psicanálise. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Rio De Janeiro: Imago.

 

Freud, S. (1915a). Pulsões e Destinos das Pulsões. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Rio De Janeiro: Imago.

 

Freud, S. (1915c). O Inconsciente. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Rio De Janeiro: Imago.

 

Freud, S. (1920a). Além do Princípio do Prazer. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Rio De Janeiro: Imago.

 

Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Rio De Janeiro: Imago.

 

Freud, S. (1937). Análise Terminável e Interminável. Edição Standart das Obras Psicológicas Completas. Rio De Janeiro: Imago.

 

Gadamer, H. G. (2000). Verdade e Método. Petrópolis: Vozes.

 

Garcia-roza, L. A. (1985). Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Imago.

 

Heidegger, M. (1954/2000). Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes.

 

Iribarry, I. N. (2002). A experiência estética como advertência aos limites da experiência científica. Inédito.

 

Japiassu, H. (1998). Psicanálise: ciência ou contraciência? Rio de Janeiro: Imago.

 

Juranville, A. (1986). Lacan e a Filosofia. Rio de Janeiro: Zahar.

 

Ricoeur, P. (1998). Tempo e Narrativa (Tomos I, II e III). Campinas: Papirus.

 



1 Ensaio que é parte de um conjunto intitulado ‘Ensaios sobre a Epistemologia da Pesquisa Psicanalítica’, os quais estão sendo desenvolvidos para elucidação dos antecedentes históricos da Pesquisa Psicanalítica de Freud e de suas ambíguas inclinações às ciências naturais, além de tomar a Pesquisa Psicanalítica de Lacan como objeto de estudo e, finalmente, apresentar a Pesquisa Psicanalítica tal como o autor, seu diretor de pesquisa e colegas a realizam heroicamente no contexto da universidade latino-americana.

2 Psicanalista, escritor e pesquisador do Laboratório de Psicanálise e Aprendizagem da UFRGS.

3 No I Simpósio Interuniversitário do Laboratório de Psicanálise e Aprendizagem da UFRGS, em julho de 2002, Ernildo Stein, J. L. Caon e J. M. Flores expuseram suas apreciações acerca do livro Um olhar a mais, ver e ser visto em Psicanálise, de Antonio Quinet. A exposição de J. M. Flores introduziu uma discussão acerca do fato psíquico como modelo explicativo e formal da Psicanálise. Sua intervenção procurou pela demonstração do estatuto científico da Psicanálise tendo por base o que se chamou de caráter empírico do fato psíquico. Flores defendeu a idéia de que ‘fazer Psicanálise é também fazer ciência’ e justificou sua posição através de uma adesão ao realismo científico, do qual disse a Psicanálise participar.

4 Segundo Gadamer (2000), a expressão ‘ciências do espírito’ (Geisteswissenschaften) se popularizou com a tradução dada por Schiel (1863) àquilo que John Stuart Mill chamou de ‘moral sciences’. Um problema nascido aí, o qual vai despertar as reflexões de Dilthey e Droysen, é que Mill não reconhece uma lógica própria às ciências chamadas do espírito, mas quer demonstrar que é o método indutivo, da ciência natural experimental, que deve valer exclusivamente no âmbito das ciências do espírito. Dilthey será um defensor das ciências do espírito mas, como Helmholtz, recebe a notável influência das proposições de Mill. Mas ainda que Dilthey mantenha firme a herança de Mill, Gadamer (2000) nos lembra que sua adesão à Mill possuía reservas. ‘Só da Alemanha pode vir o verdadeiro procedimento empírico no lugar do empirismo preconceituoso e dogmático. Mill é dogmático por  lhe faltar formação histórica’ (Dilthey citado por Gadamer, 2000, p. 43). Por outro lado, é Droysen, historiador do helenismo, quem vai estabelecer a premissa de que as ciências do espírito necessitam de métodos próprios e não derivados das ciências naturais.

5 Droysen (citado por Ricoeur, 1998) denuncia a falta de atenção dos cientistas de sua época para a importância de se compreender o homem como sujeito histórico. Até Droysen, a economia, as ciências jurídicas e sociais, e, inclusive a história, segundo Ricoeur (1998), jamais tiveram a preocupação de desvincular o homem, em suas pesquisas, de certo naturalismo exacerbado, o qual amputava a dimensão histórica das realizações humanas.