A neurose obsessiva

Construção Hipertextual dos Alunos da Disciplina de Psicopatologia I - UFRGS 2007/02

O início de uma Teoria

O ano é 1894. Em seu texto “As neuropsicoses de defesa”, Freud, ainda visivelmente em débito com Charcot e Breuer, já revela aquilo que constituirá o eixo de seus postulados: a teoria da defesa, o importante papel da sexualidade na etiologia das neuroses e um destaque já considerável para os processos inconscientes. A neurose obsessiva, entendida como uma “escolha” em que também figuram a histeria e as obsessões como possibilidades, aparece como uma “histeria de defesa” ou “histeria adquirida” e está relacionada a uma disposição patológica constitutiva.

Tais “escolhas” caracterizam-se como recursos neuróticos e têm, até determinado estágio, uma base comum: são todas decorres da impossibilidade de o eu resolver-se, por via do pensamento, com o conflito que lhe apresenta um afeto conflitivo, o que ocasiona, então, a busca por um desinvestimento da representação por meio do isolamento do afeto, dada a impossibilidade de o ele (o eu) livrar-se sumariamente do afeto e idéia com os quais preferiria não se ter deparado. O destino dessa excitação que se desliga é o que caracteriza cada uma das saídas neuróticas.

Criticando a teoria que tratava a histeria como uma “divisão da consciência” e atribuindo-lhe a peculiaridade da transposição dessa excitação para a “inervação somática”, Freud sugere que uma “inaptidão” à conversão traz como conseqüência a permanência do afeto na esfera psíquica, o qual está livre para ligar-se a idéias que não sejam incompatíveis ao eu. O caráter obsessivo de tais idéias decorreria exatamente da falsa conexão que se estabelece entre afeto deslocado e nova representação.

Embora fosse sofrer algumas modificações em relação às suas ligações causais, a vida sexual já é apontada como aquilo que provoca “as mais variadas ocasiões para a emergência de idéias incompatíveis” (Freud, 1894). As relações entre a origem do sintoma e a forma como ele se apresenta, em função da ligação do afeto intolerável e não diminuído a uma representação possível ao eu, só podem ser explicadas por processos que operam fora da consciência.

Em seu artigo “Hereditariedade e etiologia das neuroses”, de 1896, Freud está interessado em pensar numa possível relação etiológica entre uma causa particular e um efeito neurótico também particular. É neste momento que considera, por meio de suas observações, a vida sexual como causa imediata da aparição dos sintomas neuróticos. Elevadas ao nível das causas específicas, isto é, “indispensáveis na etiologia da perturbação de que são específicas” (Freud 1896), as influências sexuais dizem respeito tanto aos fatos da sexualidade pregressa como da atual. É traçado, ainda, um paralelo entre a natureza dessa influência sexual e a espécie de neurose; em outras palavras, Freud estabelece neste ponto de sua teoria a relação entre o tipo da experiência sexual vivida e sua conseqüente repercussão na escolha da patologia: a diferença entre histeria e neurose obsessiva - considerando-se que ambas têm em comum um evento sexual precoce – é que na primeira o evento é vivido de forma passiva, com “indiferença, aborrecimento ou terror”, ao passo que na segunda pode-se apontar algum prazer como marca do evento.

As idéias obsessivas, distorcidas por um trabalho do inconsciente, nada mais seriam do que auto-acusações que se antecipam ao gozo sexual decorrente dessas experiências.

O início de uma mudança

Ratificando aquilo que está acima, a saber, que o aspecto comum às “neuropsicoses de defesa” (histeria, obsessões e certas “confusões alucinatórias”) é a emergência de um conteúdo incompatível ao ego que fora reprimido, Freud considera-se, aqui, suficientemente fortalecido por suas observações dos últimos dois anos para afirmar que a questão da defesa é o ponto nuclear das neuroses.

Estamos no ano de 1896 e sem, contudo, poder ainda afirmar peremptoriamente qual seria a etiologia da neurose obsessiva - pois era possível encontrar substratos de sintomas histéricos nos pacientes que sofriam de obsessões - Freud situa o retorno do trauma vivido na tenra infância em diferentes períodos do desenvolvimento da libido como determinante para escolha de uma ou outra neurose.

Em última instância, é o reviver do evento traumático, sempre a sedução de uma criança, antes da puberdade, por um adulto ou por outra criança maior, o fator desencadeante dos sintomas neuróticos. Numa carta a Fliess, de 1897, Freud começa a colocar em suspenso a idéia de que a escolha da neurose estivesse relacionada à ocasião de sua gênese. Ele anuncia: “a decisão ainda oscila entre a ocasião da gênese e a época da repressão” (Freud, 1913); está mais inclinado, agora, para a segunda hipótese.

Já é possível observar neste texto, destaque-se, as primitivas alusões à idéia de que os sintomas derivam de conciliações entre as forças da repressão e os conteúdos que devem ser reprimidos, tendo-se como noção maior a visão de os sintomas decorrerem de uma falha da defesa, bem como a concepção das acusações como auto-acusações, no caso da neurose obsessiva.

Uma nova descoberta

Em 1905, Freud escreve um artigo em que expõe, novamente, seus pontos de vista sobre as relações entre etiologia das neuroses e sexualidade infantil. Reformulando seu ponto de vista, sugere “corrigir” algumas “insuficiências, deslocamentos e equívocos em que laborava a teoria” (Freud, 1905). Devido à escassez do material de que dispunha, pôde cair no equívoco de superestimar a freqüência com que julgava que uma criança era seduzida por um adulto ou por outra criança maior. Da mesma forma, considerou-se incapaz de distinguir as falsificações fabricadas em relação à memória infantil, no caso dos histéricos. A sedução passa a ser tratada, agora, como uma fantasia própria à tentativa de afastar as lembranças da atividade sexual infantil do paciente.

Feito este adendo, o elemento causador de trauma nas experiências da infância perde a sua importância, restando a compreensão de que a atividade sexual infantil é determinante para que o sujeito possa situar-se sexualmente na maturidade. É neste momento que Freud considera os sintomas histéricos como derivados diretos da fantasia, e não mais como decorrentes de lembranças reprimidas de eventos da infância.

Freud já havia, em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, também de 1905, admitido certo “exagero” em relação à freqüência dos casos de sedução infantil, mas é em “Meus pontos de vista sobre o papel desempenhado pela sexualidade no desenvolvimento das neuroses” que ele desenvolve com maiores detalhes suas mudanças de ponto de vista em relação à importância das experiências traumáticas e fantasias inconscientes na infância.

Em “História do movimento Psicanalítico”, de 1914, Freud situa a hipótese da sexualidade infantil como um produto extraído de inúmeras observações, assim como a repressão, por exemplo, corresponde a uma inferência teórica elaborada a partir dos mesmos métodos. Nesse texto, o autor relata a descoberta de seu erro, dadas as sólidas pistas que impeliam a investigação das origens da histeria à sexualidade da mais tenra infância. É de maneira bastante vívida que Freud relata a sensação de não estar mais em “terra firme”, de estar “desnorteado” diante da improbabilidade e contradição do que poderia ser definitivamente verificável em relação à teoria da sedução, uma vez que o processo de análise conduziria a traumas que não eram verdadeiros por um caminho que era, sim, correto.

Em 1924, ao escrever “Um estudo autobiográfico”, o autor confessa: “minha confiança em minha técnica e nos seus resultados sofreu rude golpe; não se podia discutir que eu havia chegado a essas cenas por um método que eu considerava correto”. Supor que as cenas de sedução nada mais eram do que fantasias inventadas ou sugeridas deixaram-no perplexo e só não desistiu porque, refeito, considerou que a não confirmação das próprias hipóteses não justifica a desistência.

A importante conseqüência desse desapontamento foi que Freud tornou-se atento ao papel desempenhado pela fantasia nos eventos mentais, abrindo as portas para a descoberta da sexualidade infantil e do Complexo de Édipo. “Se os pacientes histéricos remontam seus sintomas a traumas que são fictícios, então o fato novo que surge é precisamente que eles criam tais cenas na fantasia, e essa realidade psíquica precisa ser levada em conta ao lado da realidade prática. Essa reflexão foi logo seguida pela descoberta de que essas fantasias destinavam-se a encobrir a atividade auto-erótica dos primeiros anos de infância, “embelezá-las e elevá-las a um plano mais alto”. E agora, por trás de toda sorte de fantasias, a vida sexual da criança vinha à luz (Freud, 1914).

O que permaneceu

Abandonada a teoria da sedução, que tinha como proposta pensar a atividade ou passividade na experiência sexual como a origem da escolha da neurose e a teoria que atribuía o fator decisivo a considerações cronológicas - a forma assumida por uma neurose dependeria do período da vida em que a experiência traumática ocorrera, ou, noutra versão, dos períodos da vida em que se empreendeu ação defensiva contra o revivescimento da experiência traumática – Freud aproxima-se daquilo que deixara em aberto em seus “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, de 1905. Propõe que o complicado processo de desenvolvimento sexual sugeriria uma nova versão da teoria cronológica: a noção de uma sucessão de possíveis “pontos de fixação”, nos quais esse processo estaria sujeito a ser detido e “aos quais uma regressão se pode realizar, se são encontradas dificuldades na vida posterior” (Freud, 1913, p.393). Já em1899 ele prenunciara o que só seria revelado mais de uma década depois: “ Há não muito tempo, tive o que pode ter sido um primeiro vislumbre de algo novo. Tenho diante de mim o problema da escolha da neurose. Abandonei a idéia de que isso dependia da idade em que os traumas sexuais ocorreram e comecei a perceber um vínculo com a teoria da sexualidade”.

O entendimento das fases de organização da libido possibilitava, neste contexto, situar a histeria e a neurose obsessiva como variantes de algo em comum: ambas relacionam-se a um estágio posterior ao mais baixo estrato sexual, o auto-erotismo. A função sexual, bem como as funções do ego, têm de passar por um conturbado período de desenvolvimento antes que se chegue àquilo que caracterizaria um adulto normal. Ocorre que isso nem sempre é alcançado por via de um percurso regular e progressivo: pode acontecer de o indivíduo regredir a um estágio anterior, e isso caracteriza o foi denominado de “ponto de fixação”. A disposição a uma ou outra neurose consistiria, então, em “inibições de desenvolvimento” (Freud, 1913).

O período do desenvolvimento a que as formas obsessivas poderiam ser atreladas corresponde ao segundo período da infância, posterior ao referenciado como o que daria origem à histeria. Trata-se de um momento intermediário entre o auto-erotismo e a primazia do investimento das zonas genitais num objeto externo ao eu. Nele, os componentes instintuais já se reuniram na escolha de um objeto extrínseco, sem que se tenha, ainda, a primazia das zonas genitais.

Em “Inibição, sintoma e angústia” pode-se encontrar, embora possa haver ocorrência em alguma outra parte da obra a que não tive acesso, algo bastante determinado: histeria e neurose obsessiva têm uma matriz comum, a saber, a defesa necessária contra as exigências libidinais do Complexo de Édipo. O que diferencia ulteriormente as duas neuroses é da ordem de um fator constitucional: ocorre, na segunda, uma regressão da organização genital à vida sexual do estágio anterior, o sádico-anal, em conseqüência de um primeiro êxito defensivo do eu.

Freud salienta que a fase fálica já foi alcançada quando irrompem os sintomas obsessivos. Parece haver, com relação a isso, uma desvalorização total ou parcial da vida genital, fator importante na regressão a uma fase anterior do desenvolvimento.

Metapsicologicamente, a regressão significa um primeiro êxito que o eu obtém na luta contra a exigência da libido, sustentada majoritariamente pelas aspirações do Complexo de Édipo. Na latência, seguindo-se ao declínio do Complexo de Édipo, tem-se o rebaixamento regressivo da libido; o supereu torna-se especialmente severo, subjugando o eu. Freud sugere, como possibilidade, que à regressão da libido estaria ligado o caráter de severidade do supereu, marcas da neurose obsessiva.

Freud postula que, com o advento da latência, a luta contra a tentação da masturbação (um investimento na zona genital) consiste no empreendimento principal do supereu. Sem que seja possível explicar toda a sorte de cerimoniais que disso decorrem, afirma que a sublimação de componentes erótico-anais tem um papel decisivo.

A latência é, também, o período em que, sob a bandeira da ética, trava-se a luta contra a sexualidade. Parece haver, aqui, um movimento, sob a influência da regressão da libido, que converge para o “esmagamento” do eu: o que precisa ser coibido apresenta-se de forma mais potente e o aparato armado para a repressão está ainda mais rigoroso.

É importante observar que, no que concerne à representação desagradável, algo parece contrariar os pressupostos psicanalíticos, pois ela bem pode tornar-se de todo consciente após algum trabalho com seu substituto deformado. O mesmo não ocorre, todavia, com o afeto que a acompanha. Essa é a razão pela qual, na neurose obsessiva, o eu percebe o sintoma como um “conteúdo de pensamento” (Freud, 1926 [1925]), p.31). O afeto, deslocado de sua representação, vem à luz em outro lugar: a vivência não é esquecida, mas suas relações associativas são reprimidas ou interrompidas de modo que ela permanece isolada. O efeito deste isolamento pode ser compreendido como o mesmo do recalcamento com amnésia, característica dos mecanismos histéricos.

Sem me deter na forma como se manifestam os sintomas obsessivos, considero importante ressaltar que o eu é o “cenário” principal da formação do sintoma nessa neurose. O intenso conflito entre o isso e o supereu pode incapacitar o eu de qualquer mediação, tornando-o extremamente limitado.

Por Luis Adriano Salles Pereira

Bibliografia
Freud, S. (1894). As neuropsicoses de defesa. In Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmud Freud. (Jayme Salomão, trad.). Volume X. Imago, Rio de Janeiro.
Freud, S. (1896). Hereditariedade e etiologia das neuroses. In Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmud Freud. (Jayme Salomão, trad.). Volume III. Imago, Rio de Janeiro.
Freud, S. (1896). Novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmud Freud. (Jayme Salomão, trad.). Volume III. Imago, Rio de Janeiro.
Freud, S. (1906 [1905]). Meus pontos de vista sobre o papel desempenhado pela sexualidade infantil na etiologia das neuroses. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmud Freud. (Jayme Salomão, trad.). Volume VII. Imago, Rio de Janeiro.
Freud, S. (1914). A história do movimento psicanalítico. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmud Freud. (Jayme Salomão, trad.). Volume XIV. Imago, Rio de Janeiro.
Freud, S. (1925 [1924]). Um estudo autobiográfico.. Edição Standard brasileira das obras completas de Sigmud Freud. (Jayme Salomão, trad.). Volume XX. Imago, Rio de Janeiro.
Freud, S. (1926[1925]). Inibição, Sintoma e Angústia. (M. A. Götze, trad.). Edição não commercial da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Porto Alegre, RS.