A Histeria antes de Charcot e de Freud

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Introdução

Com o passar dos séculos ocorrem inúmeras mudanças significativas na ciência, na política e na religião, alterações que interferem no contexto social e nas formas de subjetivação do sujeito, assim como nos sintomas produzidos por esses sujeitos e nos significados atribuídos à doença e à saúde. A histeria se faz presente na cultura humana desde antes dos relatos de Hipócrates (IV a. C.) e, portanto, acompanhou as modificações que ocorreram na sociedade desde então. Devido a isso, os sintomas histéricos já tiveram diferentes interpretações, de acordo com a época e com os valores vigentes, assim como foram tratados de maneiras diversas e tiveram significados variados ao longo da história. Portanto, pensar as mudanças pelas quais o diagnóstico e o tratamento, da histeria passaram permite pensar sobre os valores a cerca da doença em diferentes momentos históricos e, ainda, devido ao caráter feminino atribuído a histeria, permite refletir sobre o papel das mulheres nessas sociedades. É evidente que o diagnóstico da histeria não é o único que acompanha a humanidade há tanto tempo, porém, seu potencial em contar através da sua história, a história da visão de sujeito e de mulher em diferentes épocas não está em ser único ou no longo período em que se manifesta, mas está em sua capacidade de mobilizar diferentes poderes, estados e disciplinas. Como afirma Trillat (1991): “o padre, o filósofo e o médico [...] sentiram-se concernidos num momento ou noutro, uns e outros e todos juntos” (Trillat, 1991, pag. 13). Além disso, ao lhe ser atribuída a característica de transtorno mental, a histeria carrega consigo de forma ainda mais evidente os significados das relações humanas, a visão de sujeito da sociedade e da medicina. Os estudos de Charcot acerca da histeria são um marco em sua história, principalmente no que concerne a sua desmistificação e a tomada da medicina em relação a essa questão. Pode-se pensar que os estudos de Charcot e de Freud são os responsáveis por promover uma separação entre a psicopatologia e a moral. Isto é, o início da possibilidade de as mulheres deixarem de ter seus sintomas julgados e condenados pelos valores morais da época, e também de a doença perder o caráter de doença feminina, de algo produzido apenas por mulheres, que é um pensamento relacionado à forma como a sociedade se organizava, ao lugar moral da mulher no meio social e mesmo familiar. Dessa forma, faz-se interessante a análise de momentos marcantes da história da histeria antes de Charcot e de Freud, isto é, compreender através do que conhecemos hoje, através da teoria freudiana, as manifestações histéricas de mulheres que viveram antes deles. Assim, esse trabalho se propõe a entender o que havia por de trás do diagnóstico da histeria antes desses autores, de que forma os valores sociais intervinham no diagnóstico, no tratamento e também na produção da histeria.

A história da histeria

A histeria tem em sua origem greco-latina um caráter exclusivamente feminino sendo caracterizada mais tarde por Hipócrates como uma das “doenças das mulheres”. É interessante observar que além de a histeria ser uma doença manifesta apenas em mulheres, eram também elas – as parteiras – as responsáveis pelo tratamento e pelo diagnóstico, afastadas dos homens. A causa da histeria era atribuída ao útero, que teria o poder de se movimentar dentro da mulher, por ser um ser vivo autônomo, podendo ocorrer então a sufocação da matriz, do útero – origem da palavra histeria (Ávila & Terra, 2010; Leite, 2012). Os escritos de Hipócrates sobre a histeria mantiveram a crença da Antiguidade de que o útero teria a capacidade de se deslocar e causar a sufocação. Ele acrescentou ainda a ideia de que as mulheres que não faziam sexo tornavam-se mais suscetíveis à sufocação, pois seu útero ficaria mais leve e, portanto, teria mais facilidade para se movimentar. Platão, nessa mesma época, traz a ideia de que o útero teria o desejo de conceber crianças e que, portanto, os úteros de mulheres estéreis ficariam irritados, agitando-se e causando a obstrução das passagens de ar e doenças de todas as espécies. (Ávila & Terra, 2010; Leite, 2012). Essa concepção de histeria permaneceu durante mais de 600 anos, sofrendo mudanças apenas na época romana, em que houve movimentos de libertação das mulheres e dos escravos, o que possibilitou mudanças no tratamento para a histeria nessa época, que era marcado pela brutalidade – como não deixou de ser durante muitos séculos. Entre as técnicas utilizadas estavam a extirpação do útero, as internações forçadas e a camisa de força (Leite, 2012). Já nessa primeira “fase” da histeria na história da humanidade é possível refletir sobre o papel da mulher na mesma. As responsabilidades da mulher estavam estritamente ligadas à reprodução e ao cuidado dos filhos, fazendo com que uma mulher sem filhos não cumprisse suas tarefas sociais, ficando à margem da sociedade, morando com os pais, ajudando-os e cuidando da casa. Pode-se pensar, portanto, que os sintomas atribuídos a sufocação da matriz estivessem relacionados a esse estilo de vida que as mulheres eram obrigadas a ter. Em “Estudos sobre a histeria” (1895/1995), Freud coloca o cuidado e a atenção com outras pessoas, como uma submissão à demanda do Outro, como algo comum na vida dos pacientes antes dos sintomas histéricos. Essa forma de viver das mulheres da época justificaria a supressão das suas emoções para cumprir com seus deveres morais na sociedade e que estão dirigidos a outras pessoas. Segundo Freud, os sintomas histéricos significam a moção afetiva suprimida que é projetada para fora do corpo, através dos ataques histéricos, atribuídos na Antiguidade à sufocação da matriz. Assim, a sociedade e seus valores morais sobre a mulher podem ser pensados como causadores dos sintomas histéricos, o que tornaria mais claro o motivo da ocorrência maior em mulheres, uma vez que se sabe que o útero não se move de forma autônoma. Além disso, a própria relação que fazem Hipócrates e Platão dos sintomas com a ausência de sexo e/ou de filhos revela a visão que se tem da mulher, pois torna evidente a ideia de que uma mulher que não cumpre com os seus deveres pode sofrer dos mais variados tipos de doenças e, ainda, que o corpo feminino que não reproduz, que não cumpre sua função fundamental pode adoecer. Ou seja, não cumprir os seus deveres morais como mulher é perigoso. O caráter de desconhecido da histeria contribuiu para que ela fosse estudada em diversos campos, como já foi colocado aqui, gerando, inclusive, certa luta religião x ciência, sobrenatural x natural. Na Idade Média, o papel da mulher não havia sofrido grandes alterações em sua essência e o caráter extremamente religioso da época contribuiu para que mulheres histéricas fossem consideradas bruxas, devido a manifestação de seus sintomas. Fica bastante evidente, portanto, a violência com que eram recebidos esses sintomas, considerados como algo do mau (Ávila & Terra, 2010; Leite, 2012) Nesse momento da história da histeria é possível mais uma vez pensar sobre a mulher na sociedade. Pode-se manter o mesmo raciocínio anterior em relação à supressão das emoções próprias em favor de deveres morais, visto que a figura feminina segue tendo as mesmas funções na sociedade, porém, a concepção que a Idade Média dá a histeria permite pensar na dificuldade que a própria sociedade tem para absorver o discurso histérico. Essa ideia, já trazida por Lacan (1969-1970/1992), é a de que há uma intolerância dos discursos instituídos em relação à posição e ao discurso histérico, o que fica bastante evidente nesse momento, quando os sintomas histéricos são interpretados como bruxaria e exterminados na fogueira.

As contribuições de Charcot e de Freud

Charcot possibilitou avanços no tratamento da histeria, contribuindo para a humanização dos mesmos e também para a desmistificação de seus sintomas, para que a histeria se tornasse objeto da ciência médica. Além disso, sua contribuição para o nascimento da psicanálise é inegável, desde a criação de uma nova forma de clínica, atendendo os pacientes em seu consultório e não mais em seus leitos, até a profunda admiração que Freud nutria por ele e que fez com que enveredasse pelo estudo da histeria. Outro ponto interessante, principalmente para esse trabalho, é que Charcot apresentou a ideia de homens histéricos, isto é, de que a histeria não é uma doença exclusivamente feminina, contribuindo para a dissolução do preconceito que colava a histeria à figura feminina. Porém, acredito que a maior contribuição de Charcot para a humanidade tenha sido a de fazer com que a histeria conquistasse o interesse científico, tornando-a autêntica e contribuindo para que a histeria perdesse o caráter de uma doença exclusivamente feminina, o que possibilitou tratamentos mais coerentes, a escuta das pacientes e uma maior qualidade de vida. Freud então, a partir de Charcot, dedicou-se ao estudo da histeria, contribuindo para que a mesma permanecesse como algo de interesse científico e criou uma teoria a fim de explicar e de entender a produção dos sintomas histéricos. Assim, tornou-se possível promover um tratamento humanizado e baseado em uma teoria que buscou levar em conta as experiências vividas por essas mulheres além de seus sintomas, que buscou entender de que forma se davam as crises histéricas, o que as motivava e o que poderia ser feito para que não acontecessem mais. É evidente a diferença no tratamento e a evolução ocorrida a partir dos estudos de Charcot e de Freud em relação ao significado da histeria.

Considerações finais

Por fim, é importante acrescentar que ainda há muitos questionamentos acerca da histeria e de um diagnóstico diferencial, a fim de não classificar todo sintoma desconhecido e inteligível como histérico. Freud não resolveu todas as problemáticas desse campo e, ao que me parece, ainda há muitos estudos a serem feitos a fim de esclarecê-las, visto que os manuais de diagnóstico DSM-IV-TR e CID-10 pouco contribuem nesse sentido, visto que retirar a palavra “histeria” do vocabulário médico não faz com que as questões produzidas por ela desapareçam.

Helena Riter

Referências

Ávila, L. A. & Terra, J. R. (2010). Histeria e somatização: o que mudou? Jornal Brasileiro de Psiquiatria; 59(4), 333-340.

Freud S, Breuer J. Estudos sobre a histeria (1895). In: Salomão J (trad.). Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago; 1995.

Lacan, J. (1969-1970/1992). O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

Leite, S. (2012). Histeria de conversão: algumas questões sobre o corpo na psicanálise. Tempo psicanalítico, 44, 83-102.

Trillat, E. (1991). História da histeria. São Paulo: Escuta.