Identidade e Sexualidade na Esquizofrenia

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Alexandra Sterian (2001) descreve o caso de uma paciente diagnosticada como esquizofrênica (esquizofrenia do tipo paranóide, segundo o DSM-IV). Embora ela fosse heterossexual e houvesse tido vários namorados, em dado momento de sua análise declarou estar se apaixonando pela sua chefe. Ela escreve em seu diário: “Seria o ideal, não? Sexo com alguém que lhe diz o que fazer no trabalho que é seu ganha pão (...) Não quer mais um pau para servi-la, quer ter um nela” (atenção para o tratamento em terceira pessoa, sempre presente em seu diário). Após uma de suas crises, também passou a vestir-se como homem por algum tempo.

Podemos encontrar semelhanças com o sujeito psicótico (também heterossexual) apresentado no artigo de Rocha e Fernandes (2004), cuja questão central girava em torno do que é ser homem ou ser mulher. Ele chegava a levar ao seu analista listas que ele preenchia com detalhes ínfimos das diferenças entre os sexos. Seu tratamento não foi linear: ele sempre o interrompia, e retornava em ocasiões de passagens simbólicas fundamentais, sobre as quais também fazia listas - o que é casar-se, o que é ser pai, dirigir uma empresa...

Com isso, pretendo chamar atenção para o fato de que não há confusão quanto à identidade sexual - nesses dois casos, o que se manifesta é a dificuldade de identificação e a falta de unidade do ego (característica da esquizofrenia). Segundo Richa (2006), “na psicose, a carência simbólica, decorrente da foraclusão do Nome-do-Pai como condição estrutural, determina uma falha na realização da identificação essencial ao posicionamento sexual por inviabilizar o advento da metáfora paterna e de sua resultante: a significação fálica. Em conseqüência, sem esse ponto de identificação, de apaziguamento imaginário, o psicótico é um sujeito solto, errante, sem referência ao seu sexo, à deriva no que se refere à partilha dos sexos. Este estado de desamparo em relação a uma possível identificação ao tipo ideal do sexo só se torna aparente após o desencadeamento, ou seja, a partir do surto psicótico”.

Considerando essa errância do sujeito na partilha dos sexos, tomamos a sexualidade como um dos aspectos da identidade do sujeito. O surgimento de um ego integrado ocorreria na passagem do auto-erotismo infantil ao amor objetal, através do mecanismo de identificação, no que Freud chamou de fase narcísica. “No narcisismo, é o ego, como imagem unificada do corpo, que é objeto da libido narcísica, e o auto-erotismo define-se, por oposição, como a fase anárquica que precede essa convergência das pulsões parciais para um objeto comum”. Ou seja, “a pulsão parcial, ligada ao funcionamento de um órgão ou à excitação de uma zona erógena, encontra a sua satisfação logo ali, isto é, sem recorrer a um objeto exterior, sem referência a uma imagem do corpo unificada” (Laplanche, 1985). Na esquizofrenia, segundo Freud, a regressão estende-se não simplesmente ao narcisismo, mas a um completo abandono do amor objetal e um retorno ao auto-erotismo infantil.

O conceito de identificação trata de um processo pelo qual o sujeito se constitui e se transforma, assimilando ou se apropriando (em momentos chave de sua evolução) dos aspectos, atributos ou traços dos seres humanos que o cercam. Lacan criou uma metáfora para descrever a formação da identidade primária, da fragmentação do corpo à unidade: o estádio do espelho. É a operação psíquica pela qual o ser humano, entre os 6 e 18 meses de vida, se constitui numa identificação com seu semelhante. A operação do imaginário sobre o real, e do simbólico sobre o imaginário, resulta na formação da imagem do eu a partir da imagem do outro. A dinâmica do estádio do espelho, embora fundamental no desenvolvimento da criança, não é suficiente, pois constrói um eu alienado (a forma especular situa a instância do eu numa linha de ficção). O ser humano nasce prematuro, e precisa da função materna para colocá-lo no mundo da linguagem. Essa inserção se dá pela transformação do eu especular em eu social, através da fala da mãe para o bebê.

A primeira identificação seria possível, então, graças à imagem do bebê idealizada por seus pais, a qual propicia ao filho a visualização antecipada de um corpo unificado. Ele passa a ter a ilusão de ser aquilo que os pais gostariam que ele fosse: uma pessoa “inteira” com todas as qualidades e virtudes que eles lhe atribuem (fruto da revivescência de seu próprio narcisismo). A criança passa a ter um ego, forma eu ideal – um ideal de onipotência forjado a partir do modelo do narcisismo infantil. O bebê é o seu próprio ideal.

Esse ego idealizado será, porém, “sacudido” em seu narcisismo e em sua onipotência pelas proibições e frustrações (castração) com as quais irá se deparar. O Nome-do-Pai é o agente da castração que inviabiliza o ideal de plenitude do estágio do espelho ao barrar o gozo da mãe, deslocando a criança do lugar de objeto de seu desejo, condição necessária para a entrada do sujeito na ordem simbólica. Instaura-se a falta e, assim, o ideal é projetado para o futuro. É essa renúncia à onipotência infantil e ao delírio de grandeza que possibilita o surgimento de um outro ideal: o ideal do eu. O ideal do eu herda, portanto, o narcisismo perdido na infância e a marca da castração, tornando-se o protótipo do superego. O eu passa a se comparar e aspirar ao ideal do eu, cuja reivindicação ele se esforça por satisfazer. Poderíamos falar, aqui, de auto-observação, consciência moral, censura, recalque...

Os delírios de ser notado e vigiado, que constituem sintomas marcantes nas doenças paranóides, aparecem claramente no relato de Sterian. A paciente tem alterações perceptivas (“todo mundo fica olhando pra mim na rua”) e interpretações delirantes (“o porteiro do prédio não me cumprimenta mais porque sabe que eu fui internada”). Não se permitia dizer o valor de seu salário às colegas porque pensava ganhar mais do que elas e queria disfarçar, chegando a pegar ônibus para o trabalho para não acharem que ela estava ganhando muito, sendo que possuía um carro popular. Suas alucinações, após um período em que teve relações sexuais com um taxista e com um colega da clínica psiquiátrica onde fora internada dois meses antes, consistiam principalmente em vozes chamando-na de “puta, vadia, sem vergonha...” e dizendo que seu namorado estava saindo com outra. Outros sintomas da esquizofrenia são o pensamento repetido (eco do pensamento) e os gestos comentados, que são enunciados por uma voz (comentário de atos). Um dia, por exemplo, a paciente chegou ao consultório com as calças molhadas e justificou: “não vou ao banheiro antes de sair de casa porque os vizinhos ficam dizendo que eu urino demais”. Frases como “Sua vaca!” surgiam na sua mente enquanto conversava com colegas. Ela ficava com medo de que as pessoas perto dela pudessem ouvir essas palavras, então sua reação era ficar em silêncio, observando seus interlocutores para saber o que eles tinham escutado.

Esses delírios e alucinações mostram a crença de ser permanentemente observada e julgada. Esse poder de censura é normalmente atribuído ao superego, que compara o ego atual com o ideal do eu. Se a paciente, sofrendo de esquizofrenia paranóide, não se percebe como um ego unificado, ela tem a ilusão de que a preocupação, a culpa, as críticas são enunciadas por uma voz alheia, e não do eu. É justamente a essa fragmentação do eu que Freud se refere ao falar em retorno ao auto-erotismo infantil, caracterizado pela parcialidade das pulsões. Por exemplo, toda vez que ia jogar o lixo, no prédio onde morava, ela ouvia alguém dizendo: “sua frustrada”. Não havia ninguém, mas ela tinha certeza de que quem falava era a vizinha, por trás da porta do apartamento ao lado do seu. Quando saiu da crise, descobriu que aquele apartamento estava desocupado há meses, desde antes de ela ouvir essa voz.


Marina da Costa Franco


Referências:

STERIAN, Alexandra. Esquizofrenia (Coleção Clínica Psicanalítica). São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

ROCHA, Eduardo C. & FERNANDES, Francisco L. Um psicótico ajuizado: incidências da psicanálise no tratamento psiquiátrico da psicose. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, ano VII, n. 1, 40-62. Março/2004.

RICHA, Cláudia Mara Oliveira. O psicótico – sujeito à deriva na partilha dos sexos: do desencadeamento à possibilidade de estabilização. Asephallus, revista eletrônica do núcleo Sephora. Ano 1, n° 2, maio a outubro de 2006. Em 9/7/2008 em http://www.nucleosephora.com/asephallus/numero_02/sumario.htm

ROUDINESCO, Elisabeth & PLON, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.

LAPLANCHE, Jean & PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 8. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1985.