Masoquismo, a Perversão Feminina

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Masoquismo, a Perversão Feminina

Estudos demonstram que dentre as parafilias (correspondentes diagnósticos da perversão) a que é mais comumente diagnosticada entre as mulheres é o Masoquismo Sexual (DSM-IV-TR, 2003); isso pode ser explicado pela condição se sujeição em que o sexo feminino ainda está colocado nos discursos contemporâneos. Atualmente ainda vemos que apesar de avanços nas formas de atuação da mulher na sociedade, há certa permanência de comportamentos atrelados à sexualidade feminina ligados à passividade, ao exibicionismo, além de muitas vezes à violência e a formas masoquistas. Freud (1923) mesmo coloca que o desenvolvimento sexual se completa na puberdade, com a separação entre ‘feminino’ e ‘masculino’, sendo que “A masculinidade combina [os fatores de] sujeito, atividade e posse do pênis; a feminilidade encampa [os de] objeto e passividade”.

Para Freud (1919) haveria nos casos de perversão uma fixação nas fantasias de espancamento presentes no fim da infância, que podem ser divididas em três fases. A primeira fase dessas fantasias de espancamento se daria bem prematuramente, sendo que essa ainda não é uma fantasia masoquista, já que a identidade da criança espancada é diferente da que fantasia, e também não é sádica, pois quem espanca não é quem fantasia; na fase seguinte, a criança espancada é substituída na fantasia pela própria pessoa que fantasia, que é então ‘espancada pelo próprio pai’ - esta fantasia é também acompanhada de um alto grau de prazer, de caráter então masoquista. Segundo Sant'Atina, em seu texto “O masoquismo na perversão”, seria nessa fase que o masoquista, diferentemente do neurótico, faz a inscrição do gozo em seu corpo, através do espancamento pelo pai; a terceira fase ‘bate-se numa criança’, que é impessoal para o neurótico, falharia na estruturação do perverso - segundo a autora - havendo então para este uma fixação na segunda fase da fantasia. Freud (1919) ainda afirma que a perversão na infância pode ser interrompida e a pessoa pode ter um desenvolvimento sexual normal, sendo a perversão infantil constitutiva; mas pode ser também que esta se torne a base para a construção de uma perversão que persiste por toda a vida, estruturalmente.

Lacan vai além da teorização de Freud acerca da perversão como a negação da falta no Outro, ao abordar a posição em que o sujeito se coloca na relação com o outro, em relação ao gozo e ao desejo, e mostrou que o perverso se coloca no lugar de objeto, se oferecendo como instrumento de gozo do Outro e transferindo para ele sua angústia de castração.O masoquista se colocaria, então, tanto como objeto que se tornou instrumento quanto sujeito do saber sobre o bom uso desse instrumento, fazendo do objeto um falo imaginário, ao se apropriar do saber para ter o domínio do gozo do Outro - esse saber não pode ter falhas, para o perverso. A atuação do masoquista se colocaria, então, muito mais como um tipo de busca no lugar de relação com o Outro do que com a função da dor. Esse lugar procurado, onde o masoquista obtém seu gozo, é o de objeto rechaçado, ao se oferecer ao Outro como resto; o masoquista perverso não tem dúvidas sobre essa vontade de gozar da qual o neurótico tanto se protege. É preciso diferenciar, então, a experiência erótica masoquista, do masoquismo perverso. Segundo Fortes (2007), a experiência erótica não significa uma busca desenfreada por prazer, sendo bem diferente do masoquismo perverso, já que este possui, como característica perversa essencial, o uso do outro como instrumento, como objeto. Na experiência masoquista (diferente então, da erótica) o gozo é calculado, e as posições dos sujeitos são dadas previamente, sem espaço para a experimentação, de forma a garantir a fixidez e a imobilidade da relação; sendo assim, mobilidade pulsional e indeterminação não fazem parte do perverso enredo masoquista.


Referências:


American Psychiatric Association (2003). DSM-IV-TR: Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas.

FREUD (1919). ‘Uma criança é espancada’ - uma contribuição ao estudo das perversões sexuais. In:____. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas ompletas de Sigmund Freud. Vol XVII. Rio de Janeiro: Imago; 1976. pp. 221-53.

FREUD (1923). A organização genital infantil (uma interpolação na teoria da sexualidade). In:____. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol XIX. Rio de Janeiro: Imago; 1976. pp. 175-84.

Fortes, Isabel. Erotismo versus masoquismo na teoria freudiana. Psicol. clin., Dez 2007, vol.19, no.2, p.35-44

Sant'Atina, M. A. M. O Masoquismo na Perversão, p. 177-181. In Pulsão e Gozo - Revista da Letra Freudiana. Escola, Psicanálise e Transmissão. Ano XI, n. 10/11/12.


Nome: Jaqueline Giordani