O Pescador de Ilusões

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O filme

Essa produção trata de uma das psicoses mais famosas que existe: a esquizofrenia. Como ela foi retratada recentemente em uma novela de uma emissora local sinto como sendo um bom momento para discorrer sobre o assunto e trazer esse filme, “O Pescador de Ilusões”, para que se possa visualizar algumas etapas desse transtorno.

O filme trata de um locutor de rádio, Jack Lucas, que, sem intenção, incita um de seus ouvintes, Edwin Malnick, que por sua vez mata sete pessoas e logo após se suicida. Três anos após essa tragédia, Jack deixou seu emprego como locutor e está morando em um apartamento em cima de uma locadora, e se relacionando com Anne, dona da locadora. Jack sente-se muito culpado pelo que aconteceu. Diz estar “amaldiçoado”. Em uma noite que sai para beber, decide acabar com a própria vida, mas é impedido por vândalos que tentam ateá-lo fogo. Neste momento Parry (outro personagem importante que será abordado abusivamente neste texto) aparece e resgata Jack, espantando os vândalos. Parry é um morador de rua. Será nele o enfoque de esquizofrenia que é a base desse texto. Após ter salvado Jack, Parry leva-o, desmaiado, para sua “casa”. Quando acorda Jack e Parry conversam e Parry demonstra acreditar ser um cavaleiro medieval e diz ter sido procurado por “pequeninos que flutuam” (alucinação) que o incumbiram da “missão” de recuperar o Santo Graal. Ele se denomina o Zelado de Deus (delírio). Parry diz que Jack é o escolhido para ajuda-lo a recuperar o Graal e diz não poder ir sozinho, quando questionado por Jack, pois “ele está lá fora” (referindo-se ao Cavaleiro Vermelho – alucinação). Em seguida, Jack descobre, por meio do zelador do prédio em que Parry mora (na sala da caldeira), que Parry, na verdade, chama-se Henry Sagan e que era professor de história medieval (possível relação com seu delírio de cavaleiro) em uma faculdade antes da tragédia que ele, Jack, havia “começado”. Parry perdeu sua esposa nessa noite. Repleto de culpa Jack decide ajudar Parry numa tentativa de livrar-se do peso ou como ele mesmo diz: “pagar a multa e ir embora”. Ele tenta dar dinheiro, mas Parry repassa-o para outra pessoa, o que deixa Jack insatisfeito quanto à culpa. Vendo que Jack mostra-se irritado com a sua atitude, Parry diz que, se o ex-locutor quer ajuda-lo, seria de uma única maneira: ajudando-o a recuperar o Santo Graal que estaria na casa de um “ricaço” – segundo os pequeninos que flutuam. Parry leva Jack até essa casa e tenta contar seu “plano” para ele, mas não é reforçado, pelo contrário, é confrontado por Jack. Em uma tentativa de “trazê-lo de volta à realidade” Jack conta fatos do passado de Parry. Sua profissão, sua antiga vida. Quando forçado a encarar essas lembranças traumáticas, Parry tem sua primeira crise (primeira crise retratada no filme). Ele começa a se retorcer no chão, visivelmente em sofrimento, pela presença do “Cavaleiro Vermelho” (figura que representa os temores de Parry em relação ao passado que ele, agora, ignora). Esse Cavaleiro aparece em todos os momentos em quem Parry está em uma situação que tenha qualquer relação com sua vida anterior. Logo em seguida ele “percebe” que esse Cavaleiro se distancia e ele interpreta isso como medo por parte do Cavaleiro e sai correndo atrás do “inimigo”. Jack tenta acompanha-lo, mas é deixado para trás. De repente, ele para, senta e começa a admirar a paisagem.

Jack, então, descobre que Parry está apaixonado por uma moça, Lydia (trabalha em uma editora de livros), e que ele a “persegue” todos os dias. Uma cena Parry mostra que, ao vê-la, a realidade se mostra mais “feliz”. Isso é explicitado com as pessoas, no meio do terminal, dançando música clássica (o que é uma ilusão pois existe o estímulo real - pessoas andando - porém um pouco distorcido) e quando ele a perde de vista, de repente, essa alegria representada pela dança simplesmente desaparece e ele “volta à realidade”. No Central Park, à noite, Jack tenta confrontar Parry outra vez, notando um momento de “sanidade” e até de recordação de sua antiga vida, do seu antigo “eu”. Mais uma vez, quando isso acontece, o Cavaleiro Vermelho reaparece. Percebendo o rumo que a sua investida está tomando, Jack muda de assunto e traz Lydia ao assunto. Isso tira o foco do passado e faz Parry não ver mais o Cavaleiro que tanto teme. Jack decide, agora, ajuda-lo a conquista-la, como tentativa de melhor sua própria vida. Jack proporciona o encontro entre os dois, por meio de uma “promoção da locadora” (promoção essa que foi criada com o propósito de fazê-la ir até a locadora, onde Parry estaria presente). Por iniciativa de Jack, ele, Parry, Anne (dona da locadora) e Lydia saem para jantar. Aos poucos, durante a noite, Parry e Lydia se aproximam. Parry leva-a para casa e, em frente ao prédio, eles têm um momento de muita aproximação. Depois que ela entra e o deixa na rua, sozinho, Parry começa a ter reações provocadas por esse novo laço criado. Começa sua última crise do filme e a mais forte. Ele começa a ter “flashes” da tragédia e em seguida vê o Cavaleiro Vermelho. Ele pede para o Cavaleiro para que o deixe “ter isso, apenas isso”. Pedido esse que, aparentemente não é atendido e ele sai correndo em pânico, aos berros e com movimentos desengonçados. Parry chega até o local onde salvou Jack no início do filme. Lá é encurralado pelos mesmos vândalos que ele havia espantado antes, porém dessa vez, eles teria a “ajuda” do Cavaleiro Vermelho. Parry é espancado e fica em estado catatônico no hospital. Segundo o médico, aconteceu o mesmo na época em que a tragédia do bar aconteceu. Jack, que depois de ajudar Parry com Lydia voltou ao seu antigo emprego e seu antigo “eu”, fica sabendo da situação dele e vai ao seu encontro. Lá ele tem um pequeno delírio de que, buscando o Graal, Parry recobraria a consciência. E foi o que aconteceu. Acredito que o delírio de Parry tinha colocado nessa posição catatônica e acreditando no “poder” do Graal, ele volta à realidade. Parry ao sair do estado catatônico, fala de um sonho para Jack. Ele era casado e Jack estava lá. Ele sentia falta dela, e pergunta: “Posso sentir falta dela agora?” No filme não diz como Parry termina, mas faz entender que ele permanece , pelo menos por um tempo, assintomático, porém continua sendo Parry.


Fábula do Pescado de Ilusões: delírio de Parry e vida de Jack

Parry e Jack vão ao “Central Park”, à noite. Parry começa a despir-se e aconselha Jack a fazer o mesmo. Embora Jack não o faça, ele permanece ao lado de Parry, deitado no chão. Nesse momento, Parry, sentindo que Jack está infeliz, conta uma história (fábula essa que dá nome ao filme). Sinto a necessidade de transcrever aqui a história que Parry, em um momento assintomático, conta à Jack: “A história começa com o rei quando menino. Tem de passar a noite na floresta pra provar sua coragem e ser rei. Enquanto está só ele tem uma visão sagrada. Do fogo surge o santo graal, símbolo de graça divina. Uma voz diz que guarde o graal a fim de curar o coração do homem. Porém o menino só pensava numa vida cheia de poder, glória e beleza. E ,em estado de surpresa total, sentiu-se, não como menino, mas invencível, como Deus. Aproximou-se do fogo para pegar o Graal e o Graal sumiu. Ele ficou com as mãos no fogo, queimando-se gravemente. Enquanto ele crescia a ferida se aprofundava. Até que um dia a vida perdeu o sentido para ele. Não tinha fé em ninguém nem em si mesmo. Não podia amar nem sentir-se amado. Ficou transtornado com a experiência. Começou a morrer. Um dia um tolo entrou no castelo e viu o rei sozinho. Sendo tolo, era ingênuo e não viu um rei. Mas um homem solitário, sofrendo. Perguntou-lhe por que sofria, e o rei respondeu: ”tenho sede, preciso de agua pra molhar a garganta”. então o tolo pegou um copo ao lado da cama, encheu-o de agua e deu ao rei. Ao beber o rei percebeu que sua ferida havia sarado. Olhou para as mãos e viu o graal que tanto buscara. Virou-se para o tolo e perguntou : como achou algo que meus homens não conseguiram?”. O tolo respondeu: “eu não sei só sabia que você tinha sede”. Dou a esse conto um espaço de grande importância nesse contexto. Ele, na minha concepção, está inserido nos laços criados entre Parry e Jack. Motivo pelo qual essa história nomeia essa obra. O delírio de Parry está profundamente relacionado com esse conto. Ele estava feliz com sua vida. Seu trabalho, seu casamento. Sentia-se completo. A perda da sua mulher daquela forma trágica e inesperada causou danos muito profundos. Ela seria o seu Graal que desapareceu e, assim, “queimando suas mãos”. Com o passar do tempo esse sentimento de perda não diminuía, “aprofundando a ferida”. Sua vida perde o sentido sem aquela figura ao seu lado. Henry Sagan começou a morrer e em seu lugar nasce Parry. A importância do Graal no delírio de Parry seria proveniente dessa fábula também. Seu poder de “sarar suas feridas”. Para Jack o foco é menos psicológico e mais literal. Com seu programa de rádio fazendo sucesso ele se sentia um Deus. Sentia que podia fazer o que quisesse e que se daria bem em qualquer coisa. Como exemplo, um seriado de televisão para o qual ele foi convidado a participar. Ele não tinha dúvida de que seria escolhido para o papel. Porém, ele não contava que um ouvinte, movido por suas palavras (“Eles dever ser detidos logo! É nós ou eles!”) iria entrar em um bar e abrir fogo na direção dos presentes. Jack não consegue lidar com essa situação, mas diferente de Parry, ele não entra em um surto psicótico. Ele se afasta de seu emprego e passa a beber inveteradamente. Ao conhecer Parry, vê nele o seu Graal. Sua chance de curar suas feridas. Ajudando Parry, ajudaria a si mesmo. No início, não consegue, pois não pensa em altruísmo, mas sim em egoísmo, querendo apenas livrar-se do peso da culpa. Só quando ele para de pensar em si mesmo e deseja sinceramente ajudar seu amigo que ele encontra seu Graal e tem suas feridas curadas.


A Esquizofrenia

Esse filme é um filme muito rico em se tratando de transtornos psicóticos. Não apenas Parry, mas outros personagens que não foram citados nesse trabalho. Para melhor ilustrar esse transtorno faço uso do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais IV(Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-IV). É possível ilustrar os sintomas descritos no DSM-IV por meio do filme escolhido. Parry, que na verdade chama-se Henry Sagan, pode ser diagnosticado, superficialmente, pois seria necessário mais dados específicos, como esquizofrênico. A Esquizofrenia tem critérios obrigatórios como qualquer outro diagnóstico. É necessária a presença de, pelo menos, dois dos sintomas abaixo:

“A. Sintomas Característicos: Pelo menos dois dos seguintes, cada um presente por um espaço significativo de tempo durante um período de um mês (ou menos, caso tratado com êxito):

(1) delírios;

(2) alucinações;

(3) fala desorganizada (ex., descarrilhamento freqüente ou incoerência);

(4) comportamento totalmente desorganizado ou catatônico;

(5) sintomas negativos, ou seja, embotamento afetivo, alogia ou avolição;

apenas um sintoma A é necessário se os delírios são bizarros ou as alucinações consistem de uma voz mantendo um comentário sobre o comportamento ou pensamentos da pessoa ou duas ou mais vozes conversando entre si.”(DSM-IV) Neste tópico, observando Parry, podemos ver a presença de delírios – acreditar ser um cavaleiro medieval que deve recuperar o Santo Graal. Temos também alucinações – os pequeninos que flutuam e o Cavaleiro Vermelho.

“B. Disfunção Ocupacional/Social: Durante um espaço significativo de tempo, desde o início do distúrbio, uma ou mais áreas principais de funcionamento como trabalho, relações interpessoais ou auto-cuidado encontram-se significativamente abaixo do nível atingido antes do início (ou quando o início ocorre na infância ou na adolescência, fracasso em atingir o nível esperado de desempenho interpessoal, acadêmico ou ocupacional).” (DSM-IV)

Aqui, podemos citar o fato de Parry deixar seu emprego de professor em uma faculdade. Outro indicador é ter se tornado um morador de rua, sem nenhuma higiene pessoal.

“C. Duração: Sinais contínuos do distúrbio persistem no mínimo durante seis meses. Este período de seis meses deve incluir pelo menos um mês com os sintomas que satisfazem o critério A (ou seja, sintomas da fase ativa) e podem incluir períodos prodrômicos e/ou residuais quando o critério A não é plenamente satisfeito. Durante esses períodos, os sinais do distúrbio podem ser manifestados por sintomas negativos ou por dois ou mais sintomas listados no critério A presentes em uma forma atenuada (ex., a duração total dos períodos ativo e residual).” (DSM-IV) Ele passa mais de um ano dentro de seu delírio de “zelador divino”, o que satisfaz o critério duração. “E. Exclusão de Substância/Condição clínica geral: O distúrbio não é devido a efeitos fisiológicos diretos de uma substância (ex., uma droga de abuso, uma medicação) ou uma condição clínica geral.” (DSM-IV)

Não é feita, em momento algum, qualquer menção à uso de drogas por parte do personagem, na minha opinião, principal.

Existem tipos de esquizofrenia e acredito que, neste caso trata-se de um tipo paranoide cujos sintomas estão explicitados abaixo:


Opções de filme

Existem muitos filmes que ilustram variados transtornos psicóticos. Alguns exemplos são :


- Psicose de Hitchcock;

- Clube da Luta;

- Cisne Negro;


Referências

American Psychiatric Association (2003). DSM-IV-TR: Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artes Médicas.

Rodrigo de Vargas Araújo