O que a água me deu

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' "Eu bebia para afogar minha dor, mas a dor maldita me fez aprender a nadar."
Frida Kahlo (1907-1954)


A história de Frida

Esse trabalho propõe-se a analisar o quadro “O que a Água Me Deu”, pintado pela mexicana Frida Kahlo, no ano de 1938. Para facilitar a interpretação dessa sua pintura, contextualizarei a vida e a obra de Kahlo, uma das artistas mais interessantes do século XX.

Frida nasceu em 1907, na cidade do México. Após seu nascimento, sua mãe logo engravidou novamente, sendo Kahlo amamentada por uma ama de leite – o que marcou o início de um vínculo frágil e ambíguo entre ela e a figura materna. No entanto, Frida possuía uma grande identificação com seu pai, fotógrafo de retratos de rostos, sendo com ele que aprendera a retocar fotografias, o que a inspirou muito enquanto artista.

Com seis anos de idade, Frida adquiriu poliomelite, doença que lhe conferiu uma lesão no seu pé direito, e lhe foi atribuída a alcunha Frida Perna de Pau. Posteriormente, aos 18 anos de idade, sofreu um acidente urbano no qual o bonde em que se encontrava colidiu com um trem, fazendo com que ela fosse perpassada pelo pára-choque de um dos veículos. Assim, seu corpo encontrou-se totalmente perfurado e fragmentado, e Frida teve de realizar diversas cirurgias para sobreviver e para reconstruir-se. Durante a sua recuperação, um espelho foi posto por sua mãe em cima da cama em que Frida passava seus dias, fator que, somado a dor sentida, motivou-a a começar a pintar. A arte de Frida foi proveniente, então, de um sofrimento intenso, de um sentimento de desamparo que transbordava de seu corpo dilacerado, da sua imagem solitária mirada pelo espelho.

O Autorretrato enquanto Espelho

A pintora tornou-se muito conhecida por ter pintado a si mesma, ou seja, por ter desenvolvido inúmeros autorretratos bem coloridos, de diversos ângulos seus, justificando essa sua tendência ao afirmar que ela era o assunto que conhecia melhor e que seu melhor trabalho devia ser, portanto, retratar a si mesma. A partir da elaboração de autorretratos, o pintor assume as duas posições, ele é o modelo e o artista, o sujeito e o autor, a criatura e o criador. O retrato, então, resulta de um retrato de um outro, que é o próprio pintor olhado pela sua mãe. O pintor do autorretrato pode ser comparado à mãe como primeiro espelho, pois ele olhará para si mesmo através do autorretrato. “Ou ainda, seu olhar sobre o olhar da mãe o ohando” (Korff-Sausse, 2003, p. 379). Entretanto, o que ocorre quando este olhar não olha, ou olha pouco, como ocorrido com Frida Kahlo e sua mãe? “O que faz esta criança não olhada ou mal olhada? Ou ela se recolhe, deprime-se, inibe-se, desliza eventualmente em direção à psicose. Ou se põe a desenvolver uma grande atividade.” (Korff-Sausse, 2003, p.380). Esta foi a via que Frida seguiu, desenvolvendo sua arte como forma de construir um olhar que antes lhe fora negado, visto que os outros passarão a olhar para seu autorretrato a partir do qual ela se mostra, ela se dá a ver. Sabe-se, a partir de Lacan, que a imagem no espelho porta “uma dupla polaridade: a imagem que dá forma e reúne, fundadora da identidade, fonte de alegria. Mas existe também a imagem que fixa e desfigura, imagem alienante, redutora, ladra de identidade” (Korff-Sausse, 2003, p.387). Assim, diante do espelho, muitos possuem a experiência de um colapso de sua identidade: há a sensação de exploção dos limites corporais, de fragmentação.


Análise da obra "O que a água me deu"

Focando-me na pintura, pude observar que há uma busca de Frida em retratar as fantasias que permearam sua vida. O quadro representa uma alucinação durante o banho, em que as imagens de morte, dor e sexualidade flutuam na água. Há a imagem de seu pai ao lado da de sua mãe - esta situada atrás de extensas folhas, como que encobrindo em parte sua presença.

Há também um vulcão em ebulição, que poderia condensar elementos de uma sexualidade pulsante com registros de muita violência - o que estaria prestes a explodir. Isso alude à citação do surrealista André Breton: “A arte de Frida é um laço de fita em torno de uma bomba”. A obra também apresenta uma mulher nua de aspecto pálido, aparentemente enforcada e suspensa por fios, parecendo evocar a angústia de morte, que consiste num aspecto central na trajetória da artista. Além da doença contraída na infância e do acidente ocorrido, deparou-se com a fragilidade da vida ao tentar o suicídio com martelos e facas, visto ter um casamento turbulento e ser incapaz de ter filhos. Há ainda uma caravela na água, talvez remetendo à fuga, à necessidade de abandonar aquela condição de desamparo e de dor.

Porém, a meu ver, o elemento que mais chama a atenção é a imagem dos pés de Frida, que ficam espelhados a partir da água. Logo, como muitas das obras de Kahlo, essa também pode ser compreendida como um autorretrato, uma vez que as suas próprias pernas são pintadas a partir da perspectiva do indivíduo que se banha, exibindo seu pé machucado (alusão à Frida perna de pau). O golpe narcísico está aqui duplicado, sendo a água semelhante a um espelho, capaz de trazer à tona a imagem da própria Frida.

Relação com o conto "O Homem de Areia"

Ao ver esse quadro, a primeira relação que estabeleci foi com o conto estudado em aula “O Homem de Areia”, de E.T.A. Hoffmann, visto que ambos trazem elementos do fantástico, da alucinação, estando associados ao texto de Freud, “O Estranho”(1919). “O conto tem uma estrutura fragmentada, como se fossem pequenas histórias coladas umas às outras, ou como aquelas experiências surrealistas em que várias pessoas se juntam para produzir um desenho, cada qual ao seu estilo” (Tavares, 2007, p.339). A pintura de Frida também parece reunir “colagens”, ilustrando a sua vida de modo confuso, como se o Inconsciente estivesse ganhando espaço nessa representação. Além disso, o conto de Hoffmann possui uma forte ligação com o aspecto do olhar, com o fundamento narcísico, como é evidenciado no trecho que diz “comparava os olhos de Clara ao rio de Ruysdael, no qual se refletem o puro azul-celeste de um céu límpido (...) O que é um lago se não um espelho!” (p.248, Hoffmann). Portanto, os olhos de Clara tinham a mesma função refletora que a água na banheira de Kahlo, ambas funcionando como um espelho: quem olha nos olhos de Clara vê, com nitidez, com clareza, a si mesmo, ou vê Clara? Quem contempla a obra de Kahlo está mirando o quê, senão sua própria existência?

Outro trecho do conto que pode estabelecer conexão com a pintura de Kahlo é o que diz “nada é mais estranho e maluco que a vida em si; e que o poeta só consegue captá-la na forma de um reflexo obscuro em um espelho mal polido” (p.247, Hoffmann). Assim, Frida Kahlo, a nossa “poeta da pintura”, apesar de não compreender-se como surrealista ao afirmar que pintava apenas a sua realidade, capta-a com as distorções de sua fantasia, já que toda representação comporta a capacidade de delirar, de alucinar, segundo a percepção subjetiva de quem a produz.


A pintura alucinante de Kahlo

De acordo com Dalgalarrondo (2008), “define-se alucinação como a vivência de percepção de um objeto, sem que este objeto esteja presente, sem o estímulo sensorial respectivo (...). A clínica registra indivíduos que percebem perfeitamente uma voz ou uma imagem, com todas as características de uma percepção normal, corriqueira, sem a presença real do objeto” (Dalgalarrondo, 2008, p.84). Logo, pode-se inferir que a obra de Frida retrata uma espécie de alucinação visual, em que visões nítidas podem ser experimentadas sem a presença de estímulos visuais. Ao analisarmos o quadro, podemos inferir que o único elemento aparentemente concreto e real são as pernas e os pés de Frida durante o banho, e que os demais são desenvolvidos por sua imaginação, como registros que se aproximariam a uma experiência alucinatória. Na psicopatologia, há muitos pacientes esquizofrênicos ou com transtornos psicóticos que experimentam alucinações visuais, as quais podem ser complexas ao incluírem “figuras, imagens de pessoas (vivas ou mortas), de partes do corpo (órgãos genitais, caveiras, olhos assustadores, cabeças disformes, etc), de entidades (o demônio, uma santa, um fantasma), de objetos, etc.” (Dalgalarrondo, 2008, p.85).

As alucinações podem ser explicadas de acordo com as teorias psicodinâmicas e afetivas, a partir das quais as necessidades afetivas, os desejos e, principalmente, os conflitos inconscientes estariam na base das alucinações. Dessa forma, o indivíduo projetaria no mundo externo seus temores, seus desejos e seus recalques. As alucinações fariam parte de um processo de defesa baseado na projeção, um mecanismo primitivo de defesa do ego. “Representaria, de fato, um grande movimento inconsciente que o aparelho psíquico empreende no sentido de expulsar de seu interior conteúdos conflituosos insuportáveis, material recalcado impossível de ser aceito pelo eu consciente” (Dalgalarrondo, 2008, p.87). Assim, as alucinações seriam um produto parecido com o sonho, com o onírico, que pode ser associado com o quadro de Frida Kahlo – embora essa pintora afirme que nunca tenha pintado um sonho; o que ela retratou fora uma espécie de momento alucinado, que não anula toda a realidade que ele pode comportar.


Síntese

Para finalizar, podemos compreender que, através de sua arte, Frida tornou o sofrimento mais suportável e passou a retratar “sua própria história clínica”, como escreve Rafael Bayot (apud. Outeiral, 1998). Assim, colocar dentro de uma tela, delimitada por uma moldura, as experiências, inclusive as traumáticas, permeadas de elementos da fantasia, tem um “efeito curativo e reparador” (Outeiral, 1998). Dessa forma, a partir de Kahlo, entendemos que o sofrimento pode ganhar uma feição criativa. “Diferente de Narciso, que toma por um corpo o que não é senão uma sombra, o pintor dá corpo à sombra, colocando em obra todos os processos da simbolização...” (Korff-Sausse, 2003, p., 389).





Referências Bibliográficas

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.


HOFFMANN, E.T.A, O Homem de Areia. In: TAVARES, B. Freud e O Estranho: Contos Fantásticos do Inconsciente. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.


KORFF-SAUSSE, S. A Face do Mundo: o autorretrato e o olhar da mãe. Publicado originalmente em Revue Française de Psychanalyse, v.67, n.2, 2003. In: Psicanálise. Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre. Vol.13: n.2, 2011.


OUTEIRAL, J. Frida Kahlo. Um estudo sobre a questão do trauma. In: Outeiral, J. Meros Ensaios. Rio de Janeiro. Revinter. 1998


PHAIDON. O Livro da Arte. São Paulo. Publifolha. 1ª edição, 2010 Site utilizado: http://www.antroposmoderno.com/textos/FridaKahlo.shtml