Psicose de Hitchcock

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O que se propõe no presente trabalho é fazer uma leitura do personagem que dá nome ao titulo do filme Psicose (Psycho), dirigido por Alfred Hitchcock em 1960: Norman Bates, a partir dos conhecimentos atuais sobre o transtorno homônimo, se apoiando das abordagens da psicanálise e do DSM-IV. Não se apresenta a proposta de ser original, mas tão pouco este trabalho tem a intenção de se fixar em idéias já calcadas em torno do filme.

Psicose – o filme:

Psicose começa com a secretária Marion dando um desfalque de 40 mil dólares na imobiliária onde trabalha. É uma tarde quente de sexta-feira e ela pede licença ao patrão para sair mais cedo, e leva consigo o pacote contendo o dinheiro, certa de que seu crime só seria percebido após o final de semana. Com pouco mais de dois dias para fugir, Marion sai dirigindo sem destino pelas estradas. Cansada, vai parar no Motel Bates, um lugar decadente, que quase fechou suas portas após o desvio da auto-estrada. Lá, é recepcionada por um simpático, mas estranho e tímido rapaz, Norman Bates, aparentemente totalmente dominado pela mãe. Após um bate-papo e um rápido sanduíche, acontece o inesperado: Marion é brutalmente esfaqueada enquanto toma banho, numa das cenas mais famosas de toda a história do cinema. Preocupados com Marion e o dinheiro, seu patrão conversa com sua irmã Lila. Esta vai atrás de Marion, contanto, por fim com a ajuda de um detetive particular. O desenrolar da história, então, leva os personagens até o Motel Bate, onde se revela os segredos da trama: a mãe de Norman havia morrido dez anos atrás. O rapaz sofria, assim, de problemas psicológicos, tinha sua mente cindida entre ser Norman Bates e sua própria mãe, que era, nesse mundo distorcido em sua mente, quem cometera os assassinos.

Entre a fantasia cinematográfica e a realidade:

“They're probably watching me. Well, let them. Let them see what kind of person I am. I'm not even going to swat that fly. I hope they are watching. They'll see. They'll see, and they'll know, and they'll say... 'Why, she wouldn't even harm a fly!'”- voz da mãe de Norman Bates

A partir do DSM-IV, pode-se estabelecer que um indivíduo com um quadro psicótico, avalia incorretamente a acuidade das suas percepções e pensamentos, realizando inferências incorretas acerca da realidade externa, ainda que em face de evidências contrárias. Dentro desse mesmo sistema de diagnóstico, apresenta-se a esquizofrenia como uma ramificação dentro da psicose, podendo ser dividido em cinco subgrupos dependendo do quadro clínico do paciente. São eles: paranóide, desorganizado, catatônico, indiferenciado, residual.

Além disso, na descrição das páginas do DSM-IV, o "psicótico" pode significar também um comprometimento grave do funcionamento social e pessoal, caracterizado por retraimento social e incapacidade para desempenhar as tarefas e papéis habituais. Se tomarmos Norman Bates, percebemos que ele morava num local afastado, a Motel Bates, e podemos imaginar que essa questão possa pode ter agravado a sua psicose. Sozinho naquele lugar, o personagem teve mais liberdade para elaborar suas fantasias e ninguém se encontrava por perto para confrontá-lo com a “realidade” dos demais. Aqueles que se aproximavam, e, portanto, ameaçavam sua fantasia, eram prontamente atacados pela metade da personalidade de Norman Bates que correspondia a sua mãe.

Entretanto, exatamente por se tratar de uma obra fictícia, e pela crença deste que vos escreve de que diagnosticar seria limitar, parto para a psicanálise, então, para tentar me aproximar do personagem e poder entender as circunstâncias que transtornaram sua mente. Por se tratar de uma obra fictícia, valho-me das metáforas e simbologias usadas no filme para dialogar com a realidade do quadro psicótico. Segundo Hegenberg (2001), as pessoas psicóticas são centradas nelas mesmas e estabelecem uma relação bem delicada com o ambiente já que esse ambiente pode ser o fator de sua desorganização pessoal. Essa afirmação corrobora com o DSM-IV quanto os fatores do local onde Bates viveu até o presente momento. Mais do que isso, ele nasceu e cresceu onde mora até então, podendo pior sua situação psicótica se deparando, a todo o momento, com os “fantasmas” do seu passado.

Ainda conforme Hegenberg (2001), o mundo interno das pessoas que sofrem de psicose é muito rico já que é calcada apenas no id. Segundo Zimmerman (1999), psicoses “implicam um processo deteriorativo das funções do ego, a tal ponto que haja, em graus variáveis, algum serio prejuízo do contato com a realidade”. Para o autor, o princípio do prazer se sobrepõe ao princípio da realidade. Pode-se partir dessa idéia fundante para continuar a estabelecer um perfil do transtorno do personagem de Norman Bates. Seu aparelho psíquico, de certa forma, foi sendo levado pelos acontecimentos que formaram sua personalidade, desde a sua infância.

Se tomarmos a teoria lacaniana como ponto de partida, observamos que o recalque originário é estruturante. É a simbolização primordial da lei, efetuada através da substituição do significante fálico pelo significante Nome-do-Pai. A criança substitui a posição de ser o único objeto do desejo da mãe, o falo, à dialética do ser, para a dimensão do ter. Nesse contexto, podemos encontrar já um fator para os problemas psicológicos de Norman Bates. A questão da introjeção da lei primordial por Norman é simbolizado quando o próprio personagem diz que seu pai morreu no dialogo com Marion. Sendo assim, podemos encontrar um traço que pode ter levado o personagem a psicose: problemas quanto à introjeção do Nome-do-pai. O desejo pela mãe, de Norman, então se tornaria forte demais, e ele não suporta, assassinando tanto o companheiro dela quanto sua própria mãe, completando um ciclo que o levaria a psicose grave. Ainda nesse contexto, se nos voltarmos para o Estádio do espelho, Lacan entende o espelho como uma metáfora do vinculo entre mãe e filho, a qual permite a ilusão de uma completude onipotente até o da dimensão simbólica. De uma forma superficial (afinal o filme não nos permite conhecer o passado de Norman Bates além do superficial), pode-se dizer que nesse processo fundamental, também ocorreram problemas para Norman.

Nessa situação, Norman já se encontraria num desespero de amor incestuoso por sua mãe, e sem seu pai, falecido, para lhe introjetar a lei. Não obstante esses problemas na constituição de sua psique, aparece na vida de Norman e sua mãe uma terceira pessoa: um novo companheiro para sua mãe.

“...His mother was a clinging, demanding woman, and for years the two of them lived as if there was no one else in the world. Then she met a man--and it seemed to Norman that she threw him over for this man. Now that pushed him over the line and he killed them both.” -DR. RICHMOND

Norman não pode suportar a intromissão de um terceiro no relacionamento entre ele e sua mãe, afinal sua lei primordial havia sido afetada. Nesse contexto, sem a atenção de sua amada mãe, o personagem enlouquece e assassina sua progenitora e seu padrasto.

A partir daí, Norman não pode lidar com sua culpa e remorso, enlouquecendo por fim. Desenterrando o corpo de sua mãe do cemitério, começou a cuidar do cadáver o melhor que podia tentando reparar seu erro.

“Matricide is probably the most unbearable crime of all--most unbearable to the son who commits it. So he had to erase the crime, at least in his own mind. He stole her corpse. A weighted coffin was buried. He hid the body in the fruit cellar. Even treated it to keep it as well as it would keep. And that still wasn't enough. She was there, but she was a corpse.” - DR. RICHMOND

Tudo isso ainda não era o suficiente para Norman, e ele começou a falar e pensar pela mãe. Sua mente estava cingida, ele possuía agora duas personalidades: era ele mesmo e era a sua mãe. Com o tempo a personalidade dominadora se tornou a da mãe, o que fez, em um sentido deturpado, com que ele cometesse os assassinatos, pois sua personalidade mãe tinha ciúmes doentio das mulheres por quem sua personalidade Norman se interessasse sexualmente.

“So he began to think and speak for her--give her half his life, so to speak. At times, he could be both personalities, carry on conversations. At other times, the mother half took over completely. Now he was never all Norman, but he was often only Mother.”- DR. RICHMOND

Retornamos então ao Nome-do-pai e ao narcisismo mal estruturados na vida do rapaz para tentarmos uma explicação psicanalítica:

“And because he was so pathologically jealous of her, he assumed that she was as jealous of him. Therefore, if he felt a strong attraction to any other woman, the mother side of him would go wild. When he met your sister (Marion), he was touched by her, aroused by her. He wanted her. That set off the jealous mother, and Mother killed the girl"- DR. RICHMOND

Exatamente por ter esse ciúme doentio de sua mãe, ao ter o Estádio do espelho mal concretizado na formação do seu sujeito psíquico, o personagem não era capaz de separar-se do grande Outro, o que veio a tona mais fortemente nessa altura de sua psicose. Assim transformava o ciúme que sentia por sua mãe ao tempo em que era viva em um ciúme desta por ele sempre que se interessava por alguma mulher.

Finalmente, me valendo das palavras do personagem Dr. Richmond, “He tried to be his mother! And, uh--now, he is”. Concluindo, são profundos os fatores que levaram a psicose de Norman Bates. Muito mais profundos que eu poderia tentar almejar conquistar nesse pouco pretenso trabalho. No entanto, acredito ter abordado questões importantes, que podem estar na base do entendimento da psique desse personagem que marcou a historia do cinema mundial. Apenas incitei fatos e idéias nesse trabalho, não pretendendo escrever nada mais do que isso, como tentei deixar claro no inicio desse escrito. Assim, como esse filme clássico que jamais vai morrer, acredito que uma possível discussão sobre o personagem jamais teria uma conclusão definitiva, ou uma resposta final. São esses fatores que o tornam o clássico que é e que sempre será.

Referências:

ZIMMERMAN, D. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clinica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999.

MERG, M.M. G. “Do Mito ao Narcisismo de Hoje”. Psicoterapia Psicanalítica, Porto Alegre: IEPP, n.11, nov. 2009.

Esquizofrenia: uma abordagem a partir do DSM-IV-TR e da psicanálise [1]

Síndrome Psicótica [2]

Luiz Henrique Graff