Transtorno de Personalidade Paranóide

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Breve Histórico dos Transtornos de Personalidade:


Dalgalarrondo (2008), no capítulo em que versa sobre os Transtornos de Personalidade, nos diz: "O Transtorno de Personalidade foi, ao longo dos últimos dois séculos, nomeado de diversas formas: insanidade moral ('moral insanity', de Prichard), monomania moral, transtorno ou neurose de caráter, etc". Depois, nos diz que o psiquiatra alemão Kurt Schneider conseguiu definir de forma muito precisa o que são os transtornos de personalidade, dando certas características básicas: "[...] sofre e faz sofrer a sociedade", assim como "[...] não aprende com a experiência". A conclusão que se chega é de que os Transtornos de Personalidade causam, em suas palavras, "uma marcante desarmonia que se reflete tanto no plano intrapsíquico quanto no das relações interpessoais". Outro fator importante de ser mencionado é que estes transtornos, embora afetem todos os setores da vida do indivíduo, são difíceis de serem modificados pelas vivências do sujeito.


Introdução ao Transtorno de Personalidade Paranoide:


Segundo Holmes (1997), o Transtorno de Personalidade Paranoide pode ser classificado dentro dos Transtornos de Personalidade Marginais, que "sobrepõem-se um pouco aos sintomas dos transtornos mais sérios de paranoia, esquizofrenia e os transtornos de humor". Ele ainda atenta ao fato de que é tentador pensar estes transtornos como sendo "estágios iniciais ou formas mais suaves dos transtornos mais sérios", porém o fato é que estes são considerados "transtornos distintos e separados". A conclusão é que não deveria-se imaginar que sujeitos com tais transtornos possam vir a desenvolver os transtornos mais sérios.

Holmes (1997) conceitua o Transtorno de Personalidade Paranoide da seguinte maneira: " A característica dominante do transtorno de personalidade paranoide é uma suspeição injustificada e desconfiança das pessoas, que persiste mesmo em face de fortes evidências de que não há justificativa para as preocupações. Uma vez que tais indivíduos percebem ameaças como vindas de todos ao seu redor, eles tendem a ser ansiosos, distantes, mau-humorados e argumentativos e frequentemente 'transformam montinhos em montanhas' ao lidar com problemas. Sua falta de confiança nos outros e seus comportamentos 'protetores' solapam seus relacionamentos interpessoais e podem interferir em seu desempenho no trabalho. No entanto, estes indivíduos amiúde trabalham muito arduamente (eles pensam que devem 'manter-se a frente' dos outros), e se encontram-se em uma situação na qual podem trabalhar de forma independente, eles podem se desempenhar muito bem". A respeito do diagnóstico Holmes (1997) nos diz: "Este transtorno é diagnosticado mais comumente em homens e até o momento não está claro o que o causa". É muito importante diferenciar o Transtorno de Personalidade Paranoide do Transtorno Delirante (anteriormente denominado Paranoide), pois neste último os indivíduos apresentam formação clara de delírios, "enquanto aqueles com Transtorno de Personalidade Paranoide têm apenas insuspeições vagas e desconfiança".


Transtorno de Personalidade Paranoide segundo o DSM-IV:


Segundo o DSM-IV, a característica essencial do Transtorno da Personalidade Paranoide é um padrão invasivo de desconfiança e suspeita quanto aos outros, de modo que seus motivos são interpretados como malévolos. Este padrão tem início no começo da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos. Geralmente se manifesta no início da idade adulta e para ser diagnosticado, segundo o DSM-IV, precisa de no mínimo quatro dos seguintes critérios:

Os indivíduos com o transtorno supõem que as outras pessoas os exploram, prejudicam ou enganam, ainda que não exista qualquer evidência apoiando esta idéia (Critério A1). Eles suspeitam, com base em poucas ou nenhuma evidência, que os outros estão conspirando contra eles e que poderão atacá-los subitamente, a qualquer momento e sem qualquer razão.

Estes indivíduos costumam acreditar que foram profunda e irreversivelmente prejudicados por outra(s) pessoa(s), mesmo que para tal não existam evidências objetivas. Eles preocupam-se com dúvidas infundadas quanto à lealdade e confiabilidade de seus amigos ou colegas, cujas ações são minuciosamente examinadas em busca de evidências de intenções hostis (Critério A2).

Qualquer desvio percebido na confiabilidade ou lealdade serve para apoiar suas suposições básicas. Eles sentem-se tão perplexos quando um amigo ou colega lhes demonstra lealdade que não conseguem confiar ou acreditar. Quando enfrentam dificuldades, esperam ser atacados ou ignorados por amigos e colegas.

Os indivíduos com este transtorno relutam em ter confiança ou intimidade com outras pessoas, pelo medo de que as informações que compartilham sejam usadas contra eles (Critério A3). Eles podem recusar-se a responder a perguntas pessoais, afirmando que as informações "não são da conta de ninguém".

Eles lêem significados ocultos, humilhantes e ameaçadores em comentários ou observações benignas (Critério A4). Por exemplo, um indivíduo com este transtorno pode interpretar um engano genuíno cometido por um balconista como uma tentativa deliberada de enganá-lo no troco, ou pode interpretar uma observação bem-humorada e casual feita por um colega de trabalho como um sério ataque a seu caráter.

Elogios frequentemente são mal interpretados (por ex., um cumprimento por uma nova aquisição é interpretado como uma crítica a seu egoísmo; um elogio por uma conquista é interpretado como uma tentativa de forçá-lo a um desempenho maior e melhor). Eles podem interpretar uma oferta de auxílio como uma crítica por não estarem fazendo o suficiente por conta própria.

Os indivíduos com este transtorno guardam rancores persistentes e relutam em perdoar os insultos, ofensas ou deslizes dos quais pensam ter sido vítimas (Critério A5).

Pequenos deslizes causam grande hostilidade, e os sentimentos hostis persistem por muito tempo. Uma vez que estão constantemente vigilantes quanto às intenções nocivas dos outros, eles acham, muito frequentemente, que seu caráter ou reputação foram atacados ou que de alguma forma foram menosprezados.

Seu contra-ataque é rápido e reagem com raiva aos insultos percebidos (Critério A6). Os indivíduos com este transtorno podem ser patologicamente ciumentos, frequentemente suspeitando da fidelidade de seu cônjuge ou parceiro sexual, sem qualquer justificativa adequada (Critério A7).

Eles podem coletar "evidências" triviais e circunstanciais para apoiarem suas crenças ciumentas. Desejam manter um completo controle de relacionamentos íntimos para evitar traições, podendo constantemente questionar o paradeiro, as ações, intenções e fidelidade do cônjuge ou parceiro.

O Transtorno da Personalidade Paranoide não deve ser diagnosticado se o padrão de comportamento ocorre exclusivamente durante o curso de Esquizofrenia, Transtorno do Humor Com Aspectos Psicóticos, ou outro Transtorno Psicótico, ou se é decorrente de efeitos fisiológicos diretos de uma condição neurológica (por ex., epilepsia do lobo temporal) ou de outra condição médica geral (Critério B).

É importante ressaltar que não ocorre exclusivamente durante o curso da Esquizofrenia, de um Transtorno do Humor com características psicóticas ou outro Transtorno Psicótico, nem é decorrente dos efeitos fisiológicos diretos de uma condição médica geral ou drogas ilegais. Se esses critérios são identificados desde antes do início da Esquizofrenia, também é chamado de ¨Pré-Mórbido¨. O Transtorno de Personalidade Paranóide ocorre em 0,5 - 2,5% da população geral, sendo mais comum em indivíduos do sexo masculino e estudos em famílias revelaram estreita relação com Esquizofrenia e Transtornos Delirantes. Particularmente em resposta ao estresse, os indivíduos com este transtorno podem vivenciar episódios psicóticos muito breves (durando de minutos a horas). Em alguns casos, o Transtorno da Personalidade Paranóide pode aparecer como antecedente pré-mórbido do Transtorno Delirante ou da Esquizofrenia. Os indivíduos com este transtorno podem desenvolver um Transtorno Depressivo Maior e estar em risco aumentado para Agorafobia e Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Frequentemente ocorrem Abuso ou Dependência de álcool ou de outra substância.


Diagnóstico Diferencial:

O Transtorno da Personalidade Paranóide pode ser diferenciado de Transtorno Delirante Tipo Persecutório, Esquizofrenia Tipo Paranóide e Transtorno do Humor com aspectos Psicóticos porque esses transtornos são caracterizados por um período de sintomas psicóticos persistentes (por ex., delírios e alucinações). Para que haja um diagnóstico adicional de Transtorno da Personalidade Paranóide, o Transtorno da Personalidade deve ter estado presente antes do início dos sintomas psicóticos e persistir quando os sintomas psicóticos estiverem em remissão.


Transtorno de Personalidade Paranoide segundo o CID-10:

F60.0 Personalidade paranoica:

Transtorno da personalidade caracterizado por uma sensibilidade excessiva face às contrariedades, recusa de perdoar os insultos, caráter desconfiado, tendência a distorcer os fatos interpretando as ações imparciais ou amigáveis dos outros como hostis ou de desprezo; suspeitas recidivantes, injustificadas, a respeito da fidelidade sexual do esposo ou do parceiro sexual; e um sentimento combativo e obstinado de seus próprios direitos. Pode existir uma superavaliação de sua auto-importância, havendo freqüentemente auto-referência excessiva.

Personalidade (transtorno da): • expansiva paranóide • fanática • paranóide • querelante • sensitiva paranóide


Pessoas de díficil convivência:

Os indivíduos com Transtorno da Personalidade Paranóide são, em geral, pessoas de difícil convivência, e com frequência enfrentam problemas com relacionamentos íntimos. As suas desconfianças e excessiva hostilidade podem ser expressas em discussões agressivas, queixas recorrentes ou afastamento silencioso e visivelmente hostil. Como são hipervigilantes para possíveis ameaças, eles podem comportar-se de maneira reservada, velada ou desviante e parecer “frios” e sem sentimentos de ternura. Embora possam parecer objetivas, racionais e não-emocionais, estas pessoas exibem, mais frequentemente, uma indiferença afectiva, com predomínio de expressões hostis, obstinadas e sarcásticas. A sua natureza combativa e desconfiada pode provocar uma resposta hostil dos outros, o que, então, serve para confirmar as suas expectativas originais. Uma vez que os indivíduos com Transtorno da Personalidade Paranóide não confiam nos outros, têm uma necessidade excessiva de auto-suficiência e um forte sentido de autonomia. Precisam também de ter um alto grau de controlo sobre as pessoas à sua volta. Estes indivíduos frequentemente são rígidos, críticos em relação aos outros e incapazes de colaborar, embora tenham grande dificuldade de aceitar críticas a eles mesmos. Podem culpar os outros pelas suas dificuldades. Os indivíduos com este transtorno tentam confirmar as suas noções negativas pré-concebidas envolvendo pessoas ou situações que encontram, atribuindo motivações malévolas aos outros, quando, na verdade, não passam de projecções dos seus próprios temores. Eles podem apresentar fantasias grandiosas e irrealistas fracamente encobertas, em geral estão atentos a temas de poder e hierarquia e tendem a desenvolver estereótipos negativos dos outros, particularmente de grupos populacionais distintos. Atraídos por formulações simplistas do mundo, frequentemente evitam situações ambíguas. Estes indivíduos podem ser conhecidos como “fanáticos” e formar “cultos” ou grupos estreitamente fechados com outros que compartilham o seu sistema de crenças paranóides.



Referências:

[1]

[2]

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 2 ed., Porto Alegre: Artmed, 2008

HOLMES, D.S. Psicologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997


Guillermo Falavigna C. Paiva