A ironia de se ser humano em Ninguém Falou que Seria Fácil

 

Somos seres seculares. Nascemos e somos inseridos no mundo por nossos pais, viramos pais e inserimos outras pessoas no mundo. São relações mescladas de poder, ternura e aprendizado. Há espaços vazios e lacunas que não conseguimos preencher, até tentamos com chupetas falhas que estragam não só nossos dentes, mas eles estão sempre lá. Ninguém falou que seria fácil é a lacuna que fica no lugar de nossos pais ausentes, de nossas mães que trabalham demais, de nossas famílias tradicionais e portanto disfuncionais. Num jogo de borramento entre o real e a ficção, nos percebemos rindo do quão patéticos – e por vezes cruéis – somos. O anti-ilusionismo nos afasta da tão desejada catarse e nos coloca de frente para o que nos negamos a ver: 5,5 milhões de crianças sem o nome do pai no registro e um provável dobro de mães solteiras, Pedro tem razão em citar os três pilares da família tradicional brasileira: a mãe, a filha e “tem um terceiro, qual é o nome mesmo? Ele até aparece às vezes…”. Tudo com muito humor, é lógico.

 

Foto: Qex Bittencourt

 

 

As constantes trocas de personagem entre os sete atores, as cuequinhas coloridas e o palco quase livre de cenário ajudam na criação de uma metalinguagem que é parte de toda a peça. É um jogo que não se esconde do espectador e que nos cativa com sua ironia, da qual somos não só espectadores, mas cúmplices. É como assistir um filme cheio de easter eggs das nossas vidas, do momento em que sofremos pra largar a chupeta até o fatídico dia em que descobrimos que há uma organização mundial que faz de tudo pra nos ferrar. Entre Pedros, Anas, Marinas, Patricks, Tiagos, trigêmeos, Thainis, Ricardos, mais Anas, Silvanas, Isadoras, Brunas e Gabrielas, quase nos perdemos no furacão de recortes e colagens, atores e personagens ao mesmo tempo em que pousamos num território estranhamente familiar. Afinal, o que nos é mais familiar do que falar de nós mesmos?

A iluminação do espetáculo se integra com as cenas e se torna necessária, carregando o clima das cenas e jogando com os atores como a oitava presença no palco, trazendo quebras quando necessário e se abstendo quando não é, sua simplicidade (nada simplista, muito pelo contrário) faz sua presença imensa.

 

 

Foto: Qex Bittencourt

 

Na encenação, encontramos também discussões que estão para além do texto dramático de Felipe Rocha: no final da peça, ao ir ao banheiro da sala Qorpo Santo, ouço a conversa entre duas mulheres, “eu nunca tinha visto duas mulheres se beijarem”, diz uma delas com tom de estranhamento, logo sendo complementada pela outra que diz “hoje em dia é normal”. O contínuo questionamento sobre as questões trazidas pela peça mesmo depois de seu fim é uma mostra de que precisamos falar sobre nós, sobre nossas famílias e sobre quem somos diante do mundo, sobre nossos preconceitos e destinos pré-concebidos, o que não impõe uma seriedade absoluta. Ninguém falou que seria fácil, muito menos que não podemos rir disso.

 

 

Foto: Qex Bittencourt