MESMO NAS CINZAS, EU DANÇO

 

Foto: Carlota Araújo.

 

Lembro-me que, há alguns anos atrás, quando comecei a estudar História do Brasil na faculdade, me intrigava o fato de um espaço colonizado e forjado com tamanha violência ser, curiosamente, um lugar no mundo onde tanto se festeja. Um passado de escravidão, tortura, inquisições, privação de direitos humanos básicos e autoritarismo político latente em todas as esferas da vida, não parecia combinar muito com samba, futebol e carnaval como sua mais aparente base identitária. O que me escapava naquele momento, no entanto, é algo que, algum tempo depois, me saltou aos olhos: onde há repressão de qualquer natureza, também existe pulsão, contracorrente narrativa e resistência. E, quando falo em resistência, me refiro às formas mais plurais dessa palavra na historicidade do brasileiro que segue caminhando no meio da escuridão política e social que insiste em nos circundar. Afinal, resistir, bem sabemos, nunca nos foi luxo ou reflexão intelectual, apenas, mas sim necessidade diária. Imperativo de sobrevivência. Ação inevitável. Nas fissuras de uma cultura patriarcal, homofóbica e autoritária, todavia, sempre floresceram meios de burlar o que não nos foi possível escolher. Festejar, nesse sentido, não é ignorar as mazelas que nos acompanham desde os primórdios da colonização quinhentista. Mas mostrar que existe uma potência muito maior no pertencimento daquilo que escolhemos viver e nos orgulhar.

Cinza Tropical, espetáculo resultante do estágio de Montagem de Louise Pierosan e do estágio de Atuação de Bruna Ávila, Ricardo Meine e Sandro Aliprandini no Departamento de Arte Dramática da UFRGS, nos convida a resistir, festejar, dançar e beber em tempos de crise. Mas engana-se quem compreende esse convite pelo viés de uma possível alienação artística. Festejar em tempos sombrios, aqui, não significa se alienar ou esquecer. Pelo contrário: enquanto observamos um desfile teatral potente passar diante de nossos olhos, somos convidados a refletir politicamente sobre diversas questões políticas e sociais, ao mesmo tempo em que a cerimônia teatral se desvela e se desenvolve. Assim, gênero, sexualidade, militarismo, golpe político, cultura popular brasileira, historiografia das margens, entre outros assuntos são abordados em uma dramaturgia fragmentada que tenta fazer da palavra manifesta no corpo uma arma contra toda autoridade. Embora o texto escrito não seja tão potente a ponto de chegar ao lugar onde as temáticas postuladas na cena merecem estar, a explosão sonora e a grandiosidade da encenação nos coloca em contato direto com as virtudes e as mazelas do país em que vivemos, através de diferentes ângulos propostos pela arquitetura cênica. Existe a festa, mas também existe o diálogo e a intersecção de ideias que surgem e se retroalimentam em um grande banquete tupiniquim.

A direção e as escolhas estéticas de Louise Pierosan são bastante inteligentes e conseguem complementar as ausências do texto escrito, abrindo caminhos imagéticos e oferecendo um ritual cênico que desenrola situações diversas que, embora não se conectem diretamente (a estrutura fabular não é importante aqui), estão sempre questionando a atualidade do Brasil e os fatos presentes em nossa História. Nessa direção, a potência das imagens que compõem o todo em relação com o discurso político da peça é algo que salta aos olhos. E isso é, sem dúvida, um grande ganho do trabalho. As costuras entre uma cena e outra são bem solucionadas e se resolvem dentro do próprio dispositivo cênico proposto pela encenação, nos prendendo a cada nova situação criada.

Desse modo, a partir de uma encenação ritualística e carnavalizada, o elenco torna-se um grande quebra-cabeça da direção no sentido do que se quer falar. E isso desemboca em um trabalho vivo e potente, uma vez que em Cinza Tropical há muito para ser dito. A vivacidade dos corpos na cena se entrelaça com as imagens compostas no espaço e com a proposta dionisíaca da peça. Não há, dessa forma, protagonistas, personagens específicas (embora se brinque com “tipos” sociais personificados no elenco) ou uma voz única, mas um grande sambódromo de ideias, cores, sonoridades e identidades diversas compondo o quadro geral, o que acaba se tornando algo muito bonito de se ver, uma vez que a força do indivíduo se sustenta nas ações daquilo que é coletivo. Não há, nesse sentido, um ator ou uma atriz que estruture seu trabalho sozinho ou sozinha, mas, antes, um grande coro que fornece subsídios para a ação alheia, mesmo quando existem monólogos ou ações aparentemente deslocadas do todo. Acerca dessa questão, ainda que todos possuam sua própria força em cena, destaco a potência da atuação de Sandro Aliprandini nessa cadência coletiva, nos oferecendo uma energia viva e contagiante com o seu trabalho ao longo do espetáculo, sobretudo pelas nuances que consegue extrair de onde não há muitos caminhos textuais diferenciados para que isso aconteça.

Outro ponto importante de se ressaltar é a trilha sonora executada ao vivo como um elemento fundamental para o andamento e a significação do texto, especialmente porque se trata de uma dramaturgia que é mais potente no corpo do que na palavra. Penso que o espetáculo certamente não funcionaria de forma tão viva e potente sem a presença dos músicos em cena. É a música, em confluência com a corporeidade do elenco, que traz força e estabelece as sutilezas políticas e poéticas do espetáculo. A iluminação, que ora esconde, ora revela a festa e as cinzas do que não encontra-se no festejo, também é utilizada de maneira bastante interessante, principalmente se pensarmos em um espaço onde todos estão presentes o tempo inteiro. Aliás, o espaço da encenação é um achado e tanto, porque a proposta de sorrir, refletir e carnavalizar fica maior e mais viva nele. Como mencionado na própria peça por um dos atores, o espaço da encenação surgiu da impossibilidade de se realizar o trabalho em lugares que deveriam estar culturalmente ativos na cidade de Porto Alegre. Mas, infelizmente, não estão.

Das cinzas dessa impossibilidade, no entanto, surge algo visceral que transforma a dificuldade em ganho, já que o Museu Hipólito José da Costa me pareceu ser, desde o início, o lugar ideal para receber o espetáculo. Diante desse acontecimento, Cinza Tropical nos mostra que o artista, assim como o brasileiro que resiste e cria mecanismos de escape e defesa em sua labuta diária, precisa se reinventar e persistir diante das adversidades. E é exatamente isso que o espetáculo realiza na prática, no próprio ato do fazer teatral. Porque, no fim das contas, uma cultura forjada com violência e opressão, só respira nas brechas abertas pela reflexão de sua realidade, sendo a arte um espaço privilegiado para tal. E, aqui, a peça nos diz que, se há cinzas nesses tristes trópicos, também existe sempre a chegada de novos ventos que as joguem para bem longe. E, enquanto esses ventos não chegam, nós seguimos e continuamos, festejando cada uma de nossas conquistas.

Cinza Tropical não é apenas um trabalho bonito e bem executado. Ele também é necessário.

 

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FICHA TÉCNICA
Direção: Louise Pierosan
Dramaturgia: Naomi Luana e Louise Pierosan
Direção Musical: Martin Weiler
Atuação: Bruna Avila, Eriam Schoenardie, Flávia Reckziegel, Miguel Ribeiro, Ricardo Meine, Rita Spier, Sandro Aliprandini, Suzane Cardoso e Thais Diedrich
Trilha Sonora: JP Siliprandi, Martin Weiler, Mica Filter e Thayãn Martins
Iluminação: Bruna Casali
Figurinos: Thais Diedrich
Hair Stylist: Laura Picolli
Produção: Sandro Aliprandini
Fotos: Carlota Araújo
Teaser: Maurício Casiraghi
Arte gráfica: André Varela
Contribuição artística: Carla Cassapo, e Laura das Águas
Orientação: Gisela Habeyche e Patrícia Fagundes