Neva e o fazer artístico diante do caos

 

 

Neva é um espetáculo sobre nós que buscamos na arte novas formas de ter voz. É sobre o constante questionamento que nos atravessa enquanto artistas sobre a efetividade da arte que fazemos diante de um mundo que tende ao retrocesso político e social. Seja diante de uma revolução russa, de um sistema totalitário chileno ou de um governo opressor e parcial no Brasil, qual o papel do teatro e quais são os lugares que ele não alcança?

Quando pensamos, de maneira rasa, em um teatro político, costumamos pensar em um teatro panfletário e mastigado: nós queremos dizer isso e acreditamos que isso pode melhorar nossa sociedade. Por outro lado, nos damos conta de que o teatro nunca deixa de ser político, mesmo quando abre mão de temas que seriam caros à nossa sociedade. A política, nesse sentido, é feita da nossa relação com o outro e com o mundo e calar-se também se torna um ato político.

Mas Neva não se cala. Durante os sessenta minutos de espetáculo, os atores constroem uma crítica ao próprio espetáculo e a si mesmos, que estão em um palco e não nas ruas de São Petersburgo, na faixa de gaza ou na Maré. É uma provocação à nossa arrogância: o mundo está acabando lá fora, pessoas morrem nas margens do rio Neva e insistimos em achar que nossa arte é a única maneira de mudar o mundo, que nossas paixões são de alguma forma mais importantes. É sobre precisarmos nos repensar diariamente e questionar a arte que fazemos e, principalmente, para quem fazemos.

 

Foto: Diego Quadros

 
 

Me pego então pensando em Olga, em seu amor por Chekhov e sua dor, em Aleko e sua incapacidade de amar alguém além de si mesmo e em Masha, com a dor em saber de sua impotência diante do mundo. Suas dores não são menores ou menos importantes do que acontece lá fora, ou são? Como encontrar o meio entre o que precisamos dizer por nós e o que precisamos dizer pelo mundo? E o que de nós faz parte do mundo e o que do mundo faz parte de nós? Neva não nos dá respostas, e também não cabe a mim dá-las, são essas certezas inconstantes que fazem com que nossa arte esteja em constante metamorfose e sempre em busca de uma estética, um discurso, uma dramaturgia que tenha significado.

As atuações não foram realistas, e também foram. A metalinguagem que permeava o espetáculo permitia um passeio por diferentes escolhas de atuação em cada momento e nos apresentava diferentes realidades: a dos atores que víamos à nossa frente, a dos atores que estes interpretavam e a dos personagens da história de chekov. Acompanhando as diferentes propostas, a luz do espetáculo se transformava numa jogadora sempre presente, mas que por vezes passava despercebida ao olhar desavisado do espectador. O cenário simples e com poucos elementos reforça a ideia da metalinguagem e deixa nítido: estamos em um teatro, isso é um espetáculo e estamos falando sobre nós, sobre vocês que estão aqui conosco e não há ficção na hipocrisia do que fazemos e dizemos.

 

 

Foto: Diego Quadros