O caçador de hoje é o mamute de amanhã

 
 

Foto: Juniê Conceição.

 

Recordo-me com entusiasmo da primeira vez em que li o texto Os Mamutes do dramaturgo carioca Jô Bilac. A narrativa que me pareceu aparentemente distópica em um primeiro momento (e digo aparentemente porque as referências me foram, desde a primeira frase, bastante familiares, se devidamente contextualizadas) e o argumento de caráter fantástico criam um universo onírico peculiar. A história, que se apresenta em diferentes camadas críticas ao longo da peça, é contada por Isadora Faca no Peito, uma menina de 9 anos, que, no entanto, é bastante ácida em relação ao que conta. Ela gosta de “meter o dedo na ferida e fazer sangrar”. Suas ideias são, muitas vezes, perversas em relação ao que é contado. No entanto, o que se percebe ao longo do texto, é que a realidade apresentada pela criança é, na verdade, quem carrega a insígnia de toda essa perversidade. Eis a questão que permeia essa teia dramatúrgica o tempo todo.

Ao narrar a história de Leon, “um jovem comum de uma cidade comum que precisa de um emprego comum”, Isadora transita por diferentes lugares, discursos e representações da realidade, sendo esse um meio de Jô Bilac criticar temas distintos em sua dramaturgia, tais como o consumismo desenfreado, a desigualdade social, a banalização da violência, a alienação e o poder da mídia em uma sociedade que tornou-se refém de seus próprios arquétipos e estereótipos. Para conquistar uma vaga na Mamute’s Food, rede multinacional de lanchonetes famosa por vender hambúrguer de carne humana – ou melhor, carne de mamute -, Leon vai ter que matar um mamute. Um mamute, nesse caso, nada mais é do que um ser humano sem valor na cadeia alimentar da sociedade contemporânea. Pessoas que não fazem falta, não tem voz, não possuem identidade ou importância (como as 123 pessoas mortas em um cinema que são transformadas em hambúrguer de mamute, citadas já no início da peça pela menina).

Flertes constantes com metáforas sociais e políticas aliadas ao inconsciente de uma menina de 9 anos que não vê, propriamente, a realidade pela ótica da percepção infantil, mas, antes, pela ótica de sua jornada junto com Leon ao longo de seu dia, fazem de Os Mamutes um texto rico nas mãos de qualquer encenador. E nas mãos de vários encenadores? Como dar vazão a esse feito sem cair em armadilhas comuns? Como dar unidade ao universo de Jô Bilac, quando muitas mãos definem a identidade do trabalho cênico? Eis o que acontece na montagem de Os Mamutes desenvolvida na disciplina de Dramaturgia do Encenador, no segundo semestre de 2018, no Departamento de Arte Dramática da UFRGS. A peça, que fez temporada ao longo do mês de maio de 2019, na Sala Qorpo Santo, pelo projeto Teatro, Pesquisa e Extensão da mesma Universidade, se propõe esse desafio de encenar coletivamente.

A proposta da montagem surgiu da necessidade de cada um dos alunos/as encenadores/as dirigirem uma cena como exercício de direção para a disciplina supracitada. Sendo assim, o espetáculo nasceu no âmago de uma encenação coletiva, pautada por muitas vozes, ideias e mãos. Em muitos casos, o que se percebe em exercícios como esse, é um resultado onde há muitos caminhos e pouca unidade de pensamento nas escolhas de direção, tendo em vista que as referências são múltiplas e confusas, afinal, são múltiplos os/as diretores/as. No entanto, o que se percebe na montagem em questão, é justamente o contrário. Há um pensamento, uma unidade de ação dramática, de escolhas estéticas e referências diversas que contribuem positivamente para a encenação do texto de Jô Bilac. Se não há a originalidade própria de um pensamento de encenação ou metodologia advinda de um/uma diretor/a, há um trabalho em equipe que, em grande parte da peça, é bem executado.

Os alunos/as diretores/as alcançam êxito ao pensar previamente sobre aquilo que levarão para a cena, sendo que, mesmo que a direção do trabalho seja coletiva, há uma qualidade evidente nas marcas, na proposta cenográfica, na indumentária e, sobretudo, na iluminação como elemento narrativo, que contribui para a compreensão do que é narrado. A propósito, figurino, cenografia e iluminação encontram-se em perfeita sintonia na montagem dos alunos do Departamento de Arte Dramática. Há um pensamento estético criativo e eficaz. As costuras de cena poderiam ser melhor exploradas, contribuindo assim na dinamicidade do jogo entre o elenco. Todavia, isso não compromete o todo.

A opção de uma luz recortada e com focos definidos que especificam o que e de onde olhar, dá um tom midiático para as cenas, trazendo o caráter espetacular da dramaturgia de Jô Bilac. O cenário, um grande M criado com paletes, sugere o logo da própria rede de fast food, empresa que manipula as relações dos indivíduos na história. A trilha sonora, que mistura músicas clássicas com o pop contemporâneo de rápida assimilação por parte dos espectadores, ainda que não original, é boa e funcional. E, por fim, os figurinos de cores intensas e a maquiagem que lembra os primeiros trabalhos do diretor Zé Celso Martinez Corrêa, dão um tom altamente teatral para a montagem, legitimando um universo que é surreal, extraordinário e absurdo.

No que tange o elenco, mesmo sem uma proposta de atuação clara, o que influência na miscelânea de referências e personas, as atuações são, em sua maioria, vivas e em confluência com o universo onírico e espetacular criado pela encenação. Destaco a atuação de Marina Diesel Greve, que encontrou, de forma madura, segura e bastante própria, uma Isadora Faca no Peito que mistura a energia e a inocência da criança com a acidez e a desilusão do mundo adulto, próprias da personagem criança de Jô Bilac. Narrar em cena nunca é fácil, pois requer controle do público e do mundo interposto entre plateia e palco, o que, no caso de Os Mamutes, está intimamente interligado com as ações das personagens. Marina Diesel Greve encontra um lugar interessante nesse sentido, transitando pelo ato de narrar e refletir sobre o que acontece ao mesmo tempo em que cria uma textura ficcional intensa para a sua Isadora, nos cativando e nos convidando com convicção para adentrar a história que é apresentada no palco.

Como acontece em “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, uma das referências citadas pelo próprio autor nas várias rubricas presentes no texto, cada personagem, por mais maluco e absurdo que seja, vai ajudando Leon a se tornar mais adulto, mais consciente de suas decisões, ainda que elas sejam cruéis e nem sempre estejam de acordo com o pensamento inicial da personagem. E, apesar do mundo caótico apresentado ser uma invenção da menina Isadora (o que nem sempre fica claro para o espectador), a montagem em questão traz para a cena diversas referências de pessoas reais no contexto social e político brasileiro, colocando nós, pessoas que assistem ao espetáculo, em uma situação de vulnerabilidade acerca de um universo absurdo que, por estar tão próximo, talvez não seja tão ficcional quanto pensamos.

Cabe ressaltar, ainda, que Os Mamutes dos/as alunos/as do Departamento de Arte Dramática da UFRGS apresenta, de forma divertida e ácida, a descartabilidade dos indivíduos em uma sociedade de aparências. O riso está aliado à reflexão das discussões propostas pelo coletivo de encenadores/as, e as personagens, muitas vezes, podem ser qualquer um de nós, que estamos sentados confortavelmente na plateia. Alternando entre o caçador e o mamute, entre o real e a aparência, entre o empregador e o empregado, estamos todos interligados nessa grande rede imaginária e discursiva que é a sociedade capitalista contemporânea. E, se por algum motivo, nos identificamos e/ou condenamos as personagens da peça, é porque sabemos que, no fundo, estamos absolvendo ou condenando a nós mesmos.

 

Foto: Juniê Conceição.