O teatro político e nutritivo de Como Cozinhar um Lobo

 

 

Um convite. Um jantar. Seis mulheres nos ensinam a cozinhar, em fogo médio e com cebolas, um lobo selvagem em tempos de escassez. A potência de um palco apenas com mulheres, ainda que não seja o tema principal, está presente em cada ato como um fator essencial para a leitura dos signos criados no universo do espetáculo. São mulheres fazendo arte em tempos de escassez, assim como as que cogitavam cozinhar lobos.

Ato I. Itália. O estereótipo de máfia se instala. Brasil. Fazemos uso dele. Cinco homens reúnem-se e fazem planos para o futuro da nação envolvendo o agronegócio, malas de dinheiro e essas tantas coisas que extrapolam os limites da ficção e se tornam verossímeis. Não entendemos a língua falada pelos personagens a não ser pelas legendas, assim como não entendemos a linguagem daqueles que decidem nosso futuro enquanto nação, é um jogo de poder real transformado em ficção.

Ato II. Um bunker. Seis guerrilheiras escondem-se após a tentativa de assassinato do presidente. Sem contato com o mundo externo, precisam sobreviver durante tempo indeterminado. A hierarquia se torna um problema, as burocracias e jogos de poder são os mesmos aos quais nós, enquanto esquerda, fazemos duras críticas.

Ato III. A sala de jantar de uma família de classe média. A comemoração de um aniversário e a descoberta de uma gravidez gera conflito entre as mulheres de uma família, nos levando a pensar no lugar de mulher e de mãe e no que se espera de um corpo feminino e objetificado. Penso em qual seria o lugar dessas seis mulheres, que tomaram o palco e a cozinha como meio de luta.

 

 

Arte de divulgação do espetáculo: Uli Girardello.

 

O cheiro da sopa que vem sendo preparada desde o primeiro ato acompanha a construção de um quarto universo onde trocamos com as atrizes que nos guiam como cúmplices. A abordagem com a qual temas tão emergentes foram tratados propõe uma forma de teatro político que convida o espectador a ser interlocutor das próprias ideias, a sopa é oferecida e não imposta. 

Anne Bogart fala sobre pôr fogo em estereótipos, sobre usar o clichê como mote para algo que vá além, e foi isso o que fizeram: a ressignificação da ideia de que o lugar de mulher é na cozinha e de que, se entramos em cena para falar de política, precisamos falar sobre o feminino me pareceu essencial durante o espetáculo. Aqui a cozinha é lugar de revolução. 

Talvez esse seja um dos elementos essenciais quando entramos em cena: entender que nosso corpo, nossa presença, já é um discurso, falemos diretamente de política ou não. Estar no palco de uma universidade pública fazendo arte também já é um discurso e uma tentativa de sobreviver em tempos caóticos, é como uma metalinguagem que perpassa o texto, a encenação e também a produção do espetáculo.

Confesso, essa foi uma das críticas mais difíceis que já tive de escrever. Passei semanas encarando uma tela em branco e tentando encontrar alguma linha que me guiasse até este último parágrafo através de cenas tão distintas em estética e assunto. Na encenação, o que as une é a cozinha, a sopa e as mulheres que se fazem presentes e agora penso que talvez seja sobre isso, sobre encontrar em coisas simples como o partilhar de um alimento ou de um espetáculo aquilo novas possibilidades, ainda que não entendamos detalhe por detalhe, para sobreviver.

Vamos jantar?

 

 

Foto: Ariel Fagundes.

 

 

 

Ficha Técnica:

Direção e dramaturgia: Naomi Luana.

Elenco: Ana Girardello, Carla Cassapo, Flávia Reckziegel, Louise Pierosan, Rafaela Giacomelli, Rita Spier.

Cenografia: Giana Flores.

Figurino: Rita Spier.

Iluminação: Eduardo Schmidt.

Trilha sonora e áudios: Ana Girardello.

Operação de som: André Varela.

Legendas e arte gráfica: Martino Piccinini.

Produção: Giana Flores e Naomi Luana.